segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Alemanha paga indenização a vítimas de neonazistas


Alemanha paga indenização a vítimas de neonazistas

O governo alemão afirma ter começado a pagar indenização para vítimas de um grupo de extrema direita que teria sido responsável por dez assassinatos em um período de sete anos.
De acordo com o Ministério da Justiça da Alemanha, pagamentos de entre US$ 6,5 mil e US$ 13 mil já foram repassados a sobreviventes dos ataques do grupo.
O grupo terrorista se chamava Nationalsozialistischer Untergrund (Subterrâneo Nacional Socialista, em tradução livre) e atacava imigrantes e descendentes de imigrantes na Alemanha.
Suas atividades vieram a público em novembro do ano passado, quando a chanceler (premiê) Angela Merkel descreveu os assassinatos como uma vergonha para a Alemanha.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Noruega pede desculpas por envolvimento no Holocausto


A Noruega pediu desculpas pela primeira vez nesta sexta-feira pela cumplicidade do país na deportação e mortes de judeus durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. "Noruegueses executaram prisões; noruegueses dirigiram caminhões e aconteceu na Noruega", disse o primeiro-ministro, Jens Stoltenberg. "Hoje sinto que é apropriado expressar nossas desculpas mais profundas de que isso tenha ocorrido em solo norueguês."
"É o momento de admitirmos que policiais, funcionários públicos e outros noruegueses participaram na prisão e na deportação de judeus", afirmou ele em um discurso para marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
Vidkun Quisling, líder do país durante a ocupação cujo nome se tornou sinônimo de traidor, ordenou o registro de 2.100 judeus na Noruega em 1942. Mais de um terço foi deportado aos campos da morte, enquanto outros fugiram para a Suécia. "Lamento dizer que as ideias que conduziram ao Holocausto ainda estão muito vivas hoje, 70 anos depois", afirmou Stoltenberg. "Ao redor do mundo vemos que indivíduos e grupos estão disseminando a intolerância e o medo."
Em 1998, a Noruega reconheceu o papel do país no Holocausto e pagou cerca de 60 milhões de dólares a judeus noruegueses e a organizações judaicas em compensação pela propriedade apreendida. A indenização não chegou a ser um pedido de desculpas, mas estabeleceu as bases para o discurso desta sexta-feira, disse o historiador Bjarte Bruland. "Até então, os noruegueses consideravam apenas os alemães responsáveis", afirmou à Reuters Bruland, curador chefe do Museu Judaico de Oslo.
"A Noruega agiu de forma similar à França de Vichy, pois eles implementaram suas próprias leis antijudaicas, usaram força própria, confiscaram propriedade e discriminaram os judeus antes que os alemães o exigissem", afirmou Paul Levine, professor de História da Universidade Uppsala, na Suécia. "A Noruega não tinha de fazer o que fez." Levine disse que as desculpas da Noruega vieram "inapropriadamente" tarde. O então presidente francês Jacques Chirac pediu desculpas em 1995 pela cumplicidade de seu país com o Holocausto.

Alemanha lembra o Holocausto com discurso de sobrevivente
27 de janeiro de 2012  11h13  atualizado às 11h43

O crítico literário Marcel Reich-Ranicki, que sobreviveu ao Gueto de Varsóvia, discursa no Parlamento alemão, em Berlim. Foto: AFP
O crítico literário Marcel Reich-Ranicki, que sobreviveu ao Gueto de Varsóvia, discursa no Parlamento alemão, em Berlim
Foto: AFP

Com o discurso de um sobrevivente do Gueto de Varsóvia, o crítico literário Marcel Reich-Ranicki, a Alemanha lembrou nesta sexta-feira o Holocausto judeu no 67º aniversário da libertação do campo de extermínio nazista de Auschwitz, realizada em 27 de janeiro de 1945. Diante do Parlamento germânico, na presença do presidente da Alemanha, Christian Wulff e da chanceler Angela Merkel, Reich-Ranicki lembrou dos tempos em que esteve preso no gueto da capital polonesa e das deportações em massa aos campos de extermínio.
Aos 91 anos, o crítico literário necessitou da ajuda do próprio presidente alemão e do presidente do Tribunal Constitucional, Andreas Vosskuhle, para chegar e, posteriormente, deixar o púlpito da câmara baixa, chamada de Bundestag. De origem polonesa, o sobrevivente do gueto de Varsóvia explicou que o que os nazistas qualificaram como "mudança dos judeus, na realidade, foi uma deportação de Varsóvia com um só fim: a morte".
Reich-Ranicki relatou que, como tradutor na administração do gueto, soube dos planos para as deportações dos judeus com antecedência, além de que os empregados e seus familiares do conselho judeu seriam excluídos dessa medida. Segundo o crítico literário, nesse mesmo dia ele se casou com sua namorada Teófila, com quem foi casado por 69 anos.
O discurso de Reich-Ranicki impressionou todos os presentes na Bundestag, incluindo várias classes de estudantes alemães, franceses e poloneses. Na abertura da sessão, o presidente da Bundestag, Norbert Lammert, honrou expressamente a aqueles cidadãos da Alemanha que enfrentam a extrema-direita e o neonazismo. "São pessoas que dão exemplo e mostram coragem", disse Lammert, o qual revolou que recentes estudos mostraram que 20% da população alemã possuem convicções "antissemitas latentes" e que esse tipo de pensamento não é aceitável neste país.
Desde 1996, o Parlamento alemão dedica esta data para lembrar a libertação de Auschwitz e lembrar a memória das vítimas do genocídio cometido pelos nazistas, não só contra os judeus, mas contra outras minorias étnicas e sociais como os ciganos e os homossexuais. Outros atos em memória das vítimas do Holocausto também foram realizados nesta manhã diante dos memoriais erguidos em diferentes campos de concentração nazista no território germânico, como o de Sachsenhausen e o de Ravensbrück.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Alemanha vai criar base de dados de neonazis

Depois de vários homicídios relacionados com grupos de extrema-direita, alemães avançam com plano para registo nacional. A Alemanha vai criar uma base dados de neonazis existentes no país. Terá informações atualizadas e distribuirá as mesmas pelas autoridades policiais.

Segundo a BBC, as autoridades têm sido criticadas por não conseguirem identificar o grupo responsável por vários homicídios relacionados com a extrema-direita na Alemanha desde 2000.

O mesmo grupo é acusado de dois ataques com recurso a bombas. A proposta da criação de um banco de dados terá ainda que ser aprovada pelo parlamento alemão. Inspirado no modelo norte-americano (banco de dados de terroristas islâmicos), o objectivo é incluir os nomes dos extremistas que apoiam o neonazismo e a violência extrema.

A polícia estima que apenas em células existam dez mil neonazis  ativos (líderes) na Alemanha.
A notícia acaba aqui

Comento:
Pesquisadores sugerem mais de cem mil membros,  que participam em festas e vão aos rituais de iniciação das bandas e dos membros. Em momentos de tensão milhares de outros pegariam em armas. E numa recessão econômica, sabe-se lá o que pode vir como erupção. DEZ MIL LÍDERES.

No Brasil, a peste cresce em proporção exponencial. Eu termino meu Doutorado desanimada, angustiada, se esperança. Morrem gays na Paulista, a USP é invadida por nazistas. E eu alerto sobre isto desde 2002.



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Número de neonazistas violentos aumenta na Alemanha


O número de ultradireitistas dispostos à utilizar a violência aumentou na Alemanha, assim como o de neonazistas militantes de grupos radicais e autônomos nacionalistas, segundo dados antecipados pelo jornal alemão "Der Tagesspiegel".

O número de radicais de direita violentos se situou neste ano em 9,8 mil - cerca de 300 a mais do que em 2010 -, informa o jornal em sua edição desta quinta-feira.

Esta estatística reúne tanto os militantes do ultradireitista Partido Nacional Democrático (NPD), que se destacam por seu potencial violento, como os neonazistas não vinculados a nenhuma outra organização do tipo e membros das denominadas "camaradagens" e de pequenos grupos locais.

Em todos estes ambientes foi observada uma crescente tendência à "politização e ao ativismo político" rumo ao que essa publicação qualifica como "neonacional-socialismo", frente ao que até agora era considerado mero neonazismo superficial e sem raiz ideológica.
Apenas com relação aos chamados autônomos nacionalistas, estima-se que haja cerca de 6 mil indivíduos identificáveis como tal após vários anos de crescimento constante, de 4,8 mil de 2008 até os 5,6 mil de 2010.
Estas estatísticas revelam, por um lado, uma progressiva redução do número de militantes por parte das principais legendas da extrema-direita, o NPD e a União do Povo Alemão (DVU) - com 6 mil e 3 mil militantes, respectivamente, segundo números de 2010.

Os dois partidos, agora em processo de fusão para tentar somar forças, teriam perdido em menos de cinco anos um terço de seus membros, enquanto as camaradagens e grupos locais de neonazistas estariam em auge.

Estima-se que em toda Alemanha haja aproximadamente 200 destes grupos, o que, somado à diversificação das forças policiais, serviços secretos e de observação do Ministério do Interior dificulta a luta contra a extrema-direita, segundo os especialistas.
As informações do "Der Tagesspiegel" coincidem com as informações divulgadas nas últimas semanas sobre uma célula de neonazistas que ao longo de dez anos matou nove imigrantes e uma policial.

A trama foi revelada em meados de novembro, depois que apareceram em uma caminhonete em Eisenach (leste da Alemanha) os corpos de dois membros dessa célula, Uwe Mundlos e Uwe Böhnhardt, de 38 e 34 anos, que aparentemente se suicidaram após assaltarem um banco e serem cercados pela polícia.
Pouco depois, Beate Zschäpe, de 36 anos, a terceira integrante do grupo ultradireitista, se entregou após atear fogo à casa que havia compartilhado com os outros dois membros, supostamente para destruir provas.



Nos dias seguintes foram efetuadas outras três detenções relacionadas ao grupo e, pelo menos em um dos casos, também com o NPD.

A questão reabriu a possibilidade de iniciar um novo processo de proibição do NPD - como pediu a própria chanceler Angela Merkel -, após o fracasso da solicitação apresentada em 2000 pelo governo e o Parlamento diante do Tribunal Constitucional.
O TC rejeitou o pedido em 2003, devido às dúvidas geradas sobre a credibilidade dos depoimentos de policiais infiltrados, principal argumento da solicitação.



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

As lutas de cada tempo, os tempos de cada luta.



Adriana Dias

Afirma a maravilhosa antropóloga Suely Kofes que “não narrar alguém ou algo é um mecanismo eficaz de instituí-los, metaforicamente, como ‘mortos’”[1]. Eu sempre amei profundamente a força das narrativas, sua força política, sua força de luta, sua força em manter viva a história da luta, as pessoas da luta, ainda que mortas na luta. Deixar de narrar um luta é deixar a luta morrer.

Durante a ditadura militar uma grande luta aconteceu neste país. Uma luta que eu não presenciei como adulta, mas que eu conheci pela narrativa de outras gerações, e uma luta que eu sempre tive o respeito de preservar. Era um tempo difícil, e lidar com o regime de exceção parecia aos que lutavam imperioso. Muitos deram sua vida pela liberdade, pela democracia. O tempo desta luta era duro, era um tempo ocre, com cheiro de granada, eu imagino, com cheiro de repressão, de imprensa censurada, de prisões a domicílio, de lares desfeitos, de pessoas desaparecidas. Um tempo de dor e de luto.

Hoje, dizem, vivemos outros tempos. Hoje, digo, vivemos outras lutas. A imprensa não é censurada, é cínica. O regime não é de exceção é de exclusão. As pessoas não são presas, são caluniadas.

A vocês que lutaram a luta do seu tempo, peço: nos ajudem com a luta do nosso: nossos direitos civis, de  milhares de pessoas com deficiência, doenças raras, LGBTTs, indígenas, quilombolas, idosos,   populações ribeirinhas e camponesas, entre outras dezenas de minorias, são constantemente violentados.

Esse é o nosso tempo, essa é a nossa luta.


[1]  Cf. KOFES, Suely. Uma trajetória, em narrativas. Campinas: Mercado de Letras, 2001, p. 12.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011


“Há um sonho pleno de horror que não deixa de me visitar (…) É um sonho dentro de um sonho. Varia nos detalhes mas não na substância. Posso estar sentado à volta de uma mesa com a minha família ou com amigos, ou no trabalho, ou num campo verde. Em suma, num ambiente pacífico e descontraído, sem qualquer tensão ou aflição aparente; e, no entanto, sinto uma profunda e subtil angústia, a sensação definitiva de uma ameaça pendente. E, de facto, à medida que o sonho continua, devagar ou brutalmente, de cada vez de uma forma diferente, tudo se desintegra à minha volta, o cenário, as paredes, as pessoas, enquanto a angústia se torna cada vez mais intensa e mais definida. Agora, tudo se transforma em caos. Estou sozinho no centro de um nada cinzento e perturbador e agora sei o que significam as coisas e também sei que sempre o soube.
Estou no Lager (termo alemão usado para falar dos campos) e nada é verdadeiro fora do Lager. Tudo o  esto era uma breve pausa, uma ilusão dos sentidos, um sonho (…) Este sonho dentro do sonho terminou e o outro sonho continua, gélido. Uma voz bem conhecida pronuncia uma única palavra, que não é imperiosa, apenas breve. É a voz de comando do amanhecer de Auschwitz, uma palavra estrangeira, temida, esperada: Wstawách! – Levanta-te.”
 Levi P (2005): Trilogia de Auchwitz. El Aleph. 2005. Barcelona, p.470


Leia ainda http://www.saude-mental.net/pdf/vol8_rev6_leituras1.pdf

domingo, 31 de julho de 2011

L'ETRANGER (1942)


Albert Camus

J'ai résumé L'Etranger, il y a très longtemps, par une phrase dont je reconnais qu'elle est très paradoxale: “dans notre société, tout homme qui ne pleure pas à l'enterrement de sa mère risque d'être condamné à mort”. Je voulais dire seulement que le héros du livre est condamné parce qu'il ne joue pas le jeu. En ce sens, il est étranger à la société où il vit, il erre, en marge, dans les faubourgs de la vie privée, solitaire, sensuelle. Et c'est pourquoi des lecteurs ont été tentés de le considérer comme une épave. On aura cependant une idée plus exacte du personnage, plus conforme en tout cas aux intentions de son auteur, si l'on se demande en quoi Meursault ne joue pas le jeu. La réponse est simple, il refuse de mentir. Mentir, ce n'est pas seulement dire ce qui n'est pas. C'est aussi, c'est surtout dire plus que ce qui est et, en ce qui concerne le coeur humain, dire plus qu'on ne sent. C'est ce que nous faisons tous, tous les jours, pour simplifier la vie. Meursault, contrairement aux apparences, ne veut pas simplifier la vie. Il dit ce qu'il est, il refuse de masquer ses sentiments et aussitôt la société se sent menacée. On lui demande par exemple de dire qu'il regrette son crime, selon la formule consacrée. Il répond qu'il éprouve à cet égard plus d'ennui que de regret véritable. Et cette nuance le condamne.
Meursault pour moi n'est donc pas une épave, mais un homme pauvre et nu, amoureux du soleil qui ne laisse pas d'ombre. Loin d'être privé de toute sensibilité, une passion profonde, parce que tenace, l'anime, la passion de l'absolu et de la vérité. Il s'agit d'une vérité encore négative, la vérité d'être et de sentir, mais sans laquelle nulle conquête sur soi ne sera jamais possible.
On ne se tromperait donc pas beaucoup en lisant dans L'Etrangerl'histoire d'un homme qui, sans aucune attitude héroïque, accepte de mourir pour la vérité.




O ESTRANGEIRO (1942)
Albert Camus

(no prefácio à edição americana do livro, em 1955)


Resumi O Estrangeiro, já faz bastante tempo, com uma frase que reconheço ser bastante paradoxal: “em nossa sociedade, todo homem que não chora no enterro de sua mãe corre o risco de ser condenado à morte”. Pretendo dizer apenas que o herói do livro é condenado porque ele não joga o jogo. Nesse sentido, ele é estrangeiro à sociedade onde vive; ele erra, à margem, nos subúrbios da vida privada, solitária, sensual. E por isso os leitores são tentados a considerá-lo como um arruinado. Ter-se-á contudo uma idéia mais exata do personagem, em todo caso mais conforme às intenções de seu autor, caso se pergunte de que modo Meursault não joga o jogo. A resposta é simples: ele recusa mentir. Mentir não é somente dizer o que não é. É também, sobretudo, dizer mais do que é; e, no que concerne ao coração humano, dizer mais do que se sente. É o que fazemos todos, todos os dias, para simplificar a vida. Meursault, contrariamente às aparências, não quer mais simplificar a vida. Ele diz o que é, recusa mascarar seus sentimentos e imediatamente a sociedade se sente ameaçada. Pedem por exemplo para ele dizer que se arrepende de seu crime, segundo a fórmula consagrada. Ele responde experimentar a esse respeito mais enfado do que arrependimento verdadeiro. E esse tom o condena.
 Meursault, para mim, não é portanto um arruinado, mas um homem pobre e nu, amante do sol que não deixa sombra. Longe de ser privado de toda sensibilidade, uma paixão profunda, porque tenaz, o anima, a paixão do absoluto e da verdade. Trata-se de uma verdade ainda negativa, a verdade de ser e de sentir, mas sem a qual nenhuma conquista sobre si jamais será possível.
Não seria errôneo, portanto, ler em O Estrangeiro a história de um homem que, sem nenhuma atitude heroica, aceita morrer pela verdade.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Lendo Mikhail Bakhtin...

A relação do autor com o herói, tal como se inscreve em sua arquitetônica estável e em
sua dinâmica viva, deve ser compreendida tanto sob o ângulo do princípio básico a que
obedece, quanto sob o ângulo das particularidades individuais que ela reveste neste ou
naquele autor, nesta ou naquela obra. Propomo-nos, em primeiro lugar, definir esse
princípio básico, em segundo, extrair dele os processos e os tipos de individuação e, para
terminar, verificar nossas posições mediante uma análise da relação do autor com o herói
nas obras de Dostoievski, Puchkin e outros.
Já enfatizamos o bastante que todos os componentes de uma obra nos são dados através
da reação que eles suscitam no autor, a qual engloba tanto o próprio objeto quanto a reação
do herói ao objeto (uma reação a uma reação); é nesse sentido que um autor modifica todas
as particularidades de um herói, seus traços característicos, os episódios de sua vida, seus
atos, pensamentos, sentimentos, do mesmo modo que, na vida, reagimos com um juízo de
valor a todas as manifestações daqueles que nos rodeiam: na vida, todavia, nossas reações
são díspares, são reações a manifestações isoladas e não ao todo do homem, e mesmo
quando o determinamos enquanto todo, definindo-o como bom, mau, egoísta, etc.,
expressamos unicamente a posição que adotamos a respeito dele na prática cotidiana, e esse
juízo o determina menos do que traduz o que esperamos dele; ou então se tratará apenas de
uma impressão aleatória produzida por esse todo ou, enfim, de uma má generalização
empírica. Na vida, o que nos interessa não é o todo do homem, mas os atos isolados com os quais nos confrontamos e que, de uma maneira ou de outra, nos dizem respeito. Mikhail Bakhtin

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Geórgia bane símbolos do comunismo e do nazismo em meio a ambiente tenso no país


Geórgia bane símbolos do comunismo e do nazismo em meio a ambiente tenso no país

1/6/2011 14:22,  Por Redação, com agências internacionais - de Tbilisi
Geórgia
Manifestante na Geórgia é preso durante revolta popular abafada pelas forças de segurança
O parlamento daGeórgia baniu o uso de símbolos nazistas e comunistas no país e aprovou, nesta quarta-feira, um pacote de restrições legais para as pessoas ligadas à ex-União Soviética, tanto às agências do serviços secretos quanto às organizações do Partido Comunista da antiga URSS. As alterações fazem parte da Carta da Liberdade, votada no Parlamento após três rodadas de votações, em meio a um ambiente de tensão no país.
Autor do documento, o deputado e chefe da facção Geórgia Forte, Giya Tortladze, comemorou:
– O público tem esperado a adoção desta lei há duas décadas, e eu estou orgulhoso de aprovação do documento. O objetivo da Carta é tomar medidas preventivas para combater a ideologia comunista ou nazista, invasões sobre os princípios da segurança do país, contra o terrorismo e os crimes contra o Estado. Ele tem de contribuir para o funcionamento eficaz das normas legais para garantir a segurança nacional e ao desenvolvimento democrático do país.
Confusão nas ruas
A Geórgia vive um momento de efervecência política, em meio a uma série de manifestações contra o presidente georgiano Mikheil Saakashvili. Os manifestantes foram dispersados, na semana passada, após uma sangrenta batalha campal que resultou em dois mortos e, no mínimo, 37 feridos. As duas vítimas fatais, segundo o diário espanhol El Mundo, são um policial e um ex-oficial do exército. Eles teriam sido atropelados por ativistas, que fugiram após o incidente. As autoridades usaram balas de borracha, gás lacrimogéneo e canhões de água para dispersar os manifestantes.
Os cerca de 5 mil manifestantes estavam reunidos há cinco dias na capital, Tbilissi, em frente ao parlamento, para pedir a demissão de Saakshvili, que acusam de ter sido reeleito através de fraude eleitoral e de ter responsabilidades na derrota georgiana na guerra pela soberania na Ossétia do Sul, que durou cinco dias, em 2008, e resultou na ocupação russa dos territórios caucasianos da Ossétia do Sul e da Abecásia.
O líder georgiano disse na véspera, que se tratou de “uma tentativa de realizar protestos de acordo com um cenário escrito fora da Geórgia, para contrariar e sabotar as celebrações do Dia da Independência e perturbar a ordem pública no país”. Saakshvili acrescentou:
– Este dia foi escolhido a dedo pelos nossos ocupantes (…) estaremos vigilantes e vamos responder adequadamente a qualquer provocação pelo nosso inimigo e ocupante.
São claras as alusões à Rússia, que continua a manter contingentes militares destacados nas regiões do Cáucaso. Moscou ainda não se pronunciou sobre as acusações.
Saakashvili tinha também culpado a Rússia pelos protestos de Novembro de 2007 em Tbilissi, que duraram também cinco dias e foram igualmente reprimidos violentamente pelas autoridades. Em pouco menos de uma semana, é a segunda vez que a Geórgia aponta armas diplomáticas ao Kremlin: no dia 20 deste mês o parlamento georgiano aprovou por unanimidade o reconhecimento do genocídio dos circassianos, levado a cabo pela Rússia dos czares em 1864. A Geórgia tornou assim a reconhecer o massacre, na véspera no Dia da Memória Circassiano e sublinhou o afastamento da Rússia por parte dos países do Cáucaso.
Bruxelas condena
A repressão aos oposicionistas desagradou à Comissão Europeia, que classificou a ação policial de “lamentável”. A porta-voz da Comissão Europeia, Natasha Butler, disse à agência francesa de notícias AFP:
– Entendemos a necessidade de manter a lei e a ordem, mas já tínhamos dito ao governo georgiano que consideramos que isso terá de ser feito de forma racional. A liberdade de reunião é um direito democrático e a Geórgia deverá assegurar esse direito.
O embaixador norte-americano na Geórgia, John Bass, foi mais brando na reação e mostrou-se de acordo com a posição de Saakashvili em relação aos protestos:
– Preocupam-me as indicações da existência de elementos dentro destes grupos de opositores que parecem estar mais interessados em forçar confrontos violentos que em protestar pacificamente – disse Bass, logo após os incidentes.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

SaferNet: Bolsonaro agravou violência de ataques no Twitter

SaferNet: Bolsonaro agravou violência de ataques no Twitter

Ana Cláudia Barros

Evolução das denúncias de manifestações de ódio no Twitter em 2010(Fonte:SaferNet)
A máxima "a internet é um espelho fiel da sociedade" parece ainda mais cabível quando observadas as ondas de discriminação e ódio que têm emergido nos últimos meses no Twitter. Análise da evolução diária das denúncias no microblog, elaborada pela SaferNet e obtida com exclusividade por Terra Magazine, confirma o que já se suspeitava: eventos do "mundo real" impactam diretamente o ambiente virtual.
Nas cinco principais ondas de ataques e nas manifestações de menor proporção deflagradas no Twitter, no período que vai de novembro de 2010 a 16 maio deste ano, essa correlação fica evidente, conforme enfatiza o presidente da SaferNet Brasil - organização não-governamental que combate crimes contra direitos humanos na rede -, Thiago Tavares.
Ele chama a atenção para o "aumento significativo" da frequência e da violência dos ataques após a entrada em cena do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ).
- Com suas declarações polêmicas, o Bolsonaro acendeu o pavio e encorajou algumas ondas sucessivas de homofobia no Twitter e nas outras redes sociais no Brasil; Orkut principalmente - afirma, destacando a conexão entre realidade "online" e "offline".
- Se forem cruzados os dados da planilha com as notícias veiculadas na imprensa, é possível perceber ligação com fatos, como disputas no Congresso, violência a homossexuais na Avenida Paulista, chuvas no Nordeste, metrô em Higienópolis.
Sobre as ondas menores, acrescenta:
- Elas têm se apresentado constantes ao longo de 2011. Em sua maioria, foram detonadas pela polarização do debate em torno dos direitos dos homossexuais.
De acordo com Tavares, a incidência das manifestações de discriminação começou a se acirrar a partir do final do segundo semestre de 2010. Sobre os motivos deste crescimento, argumenta:
- Dois fatores são importantes e, em conjunto, ajudam a entender esses números. O Twitter se expandiu muito no Brasil do segundo semestre pra cá. Hoje, tem em torno de 15 milhões de usuários (no mundo, são cerca de 180 milhões). O aumento expressivo na base de usuários também influenciou no número de casos - diz, prosseguindo com a explicação:
- Outro fator importante foi a violência no debate eleitoral. Essa agressividade que permeou a campanha dos candidatos foi transposta para os eleitores. O clima de animosidade criou um ambiente propício para essas manifestações exacerbadas de ódio.

Evolução das denúncias de manifestações de ódio no Twitter em 2011 (Fonte:SaferNet)
De janeiro a dezembro de 2010, 2.372 tweets(mensagens postadas no microblog) com teor discriminatório foram encaminhados à Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, criada pela SaferNet e operada em parceria com os ministérios públicos federal e estaduais e a Polícia Federal.
Ao todo, foram contabilizados 23.589 denunciantes. Só de janeiro a 16 de maio de 2011, 1.181 tweets com as mesmas características foram reportados à SaferNet, quase a metade do acumulado no ano passado inteiro. Até a mencionada data, 8.942 pessoas se dispuseram a delatar os casos de discriminação. Todas as denúncias são anônimas.
"Detonadores"
O presidente da SaferNet explica que as ondas de preconceito no Twitter Brasil são desencadeadas pelo que chama de "perfis detonadores", usuários que "assumem a dianteira e inauguram uma sequência de ódio, uma gritaria generalizada".
A primeira grande onda aconteceu entre 1º e 4 de novembro do ano passado, logo após o anúncio do resultado das eleições presidenciais. Conforme a SaferNet, o perfil da estudante de Direito Mayara Petruso, apontada na época como pivô da polêmica em razão do comentário de que queria afogar os nordestinos, foi, de fato, o estopim das manifestações de preconceito. Neste período de quatro dias, 4.002 pessoas acionaram a ONG para denunciar.
Tavares comenta que foi necessário um "tratamento de choque" para estancar o tumulto na rede.
- Preparamos um relatório com 1.037 contas do Twitter, mandamos a lista para o Ministério Público e comunicamos à imprensa. Foi imediato. Cessou rapidamente.
- Se você comparar essa onda com as demais, vai perceber que as outras ondas duram, no máximo, 48, 72 horas estourando. A onda contra os nordestinos após as eleições, por sua vez, iria perdurar por mais de uma semana. Ela já durava cinco dias. Era uma atividade enorme. As mensagens estavam cada vez mais agressivas. Isso nos surpreendeu. Era uma onda absolutamente sem controle. Por isso decidimos adotar uma ação enérgica.
O segundo "tsunami" virtual foi registrado entre 17 e 19 do mesmo mês, após o lançamento, às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra, da campanha no Twitter "#HomofobiaNão". Em contraposição ao movimento, grupos conservadores criaram o perfil e a hashtag "#HomofobiaSim", o que impulsionou uma sequência de manifestações de repúdio aos homossexuais. Ao todo, 8.574 denunciaram.
Já a terceira onda, observada entre 29 e 30 também de novembro, teve como mote o neonazismo. Os alvos? Negros e gays. Os dois perfis apontados como os responsáveis pela propagação do ódio (@anjooslava e @anjonazistaheil) já não estão mais ativos, mas os comentários racistas e homofóbicos podem ser vistos via buscador Topsy, que mostra quem foram os autores da divulgação de determinado tweet e exibe as mensagens mais repassadas pelos usuários.
Entre os recados deixados pelos perfis, ataques frontais como: "Eu odeio homossexuais, desejo que todos eles tenham uma morte sofrida e dolorosa, meu sonho é um dia ver a humanidade livre dessa raça!"; "Meu avô foi brutalmente assassinado por um negro. Como eu vou defender esses lixos?"; "Rejeite o lixo multicultural! Despreze a escória homossexual!!! Não irei me acovardar, e sim massacrar"; "Esse país é um lixo, eles querem te obrigar a amar negros, homossexuais. Se for pra viver nesse lixo a minha vida toda, prefiro a morte".
A quarta grande onda, ocorrida em 28 e 29 de dezembro, também foi alavancada pela aversão aos gays, lésbicas, transexuais e bissexuais. Segundo a SaferNet, os perfis detonadores foram @contraGays e @estuproSim, este último cancelado.
A série de ataques mais recente aconteceu em 12 deste mês, após a eliminação do Flamengo na Copa do Brasil pelo Ceará. Em um único dia, 5.150 internautas, indignados com o teor das mensagens de preconceito contra nordestinos, recorreram à SaferNet.