segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Rastros de um crime


Na ilusão do anonimato, brasileiros usam a internet para propagar o ódio racial. 93,5% das denúncias são de perfis e comunidades criminosas no Orkut, revela organização
Hoje, dos 180 milhões de brasileiros, cerca de 30 milhões têm acesso à internet. Ambiente considerado por muitos como privado e anônimo, a rede tem sido usada para a prática da pornografia infantil, da pedofilia e a disseminação do ódio racial, de gênero e sexual. Um grupo de profissionais das áreas de Direito e Informática, de professores a desenvolvedores de software, cientistas da computação e pesquisadores, se uniu e começou a discutir em 2004 uma possibilidade de detectar e combater esses crimes, o que ainda não era feito sistematicamente no país.
Em dezembro de 2005, nasceu a SaferNet Brasil, primeira organização não-governamental do Hemisfério Sul dedicada exclusivamente à defesa e à promoção dos Direitos Humanos na Sociedade da Informação. Antes dela não existia um canal de denúncia, apenas ações isoladas de algumas organizações que eventualmente recebiam denúncias e não sabiam para onde encaminhá-las.
“A criação da Safernet foi exatamente com esse objetivo de suprir esta lacuna,
oferecer um serviço de natureza e relevância pública para combater este tipo de
uso indevido, ilegal que se faz da internet”,
afirma Thiago Tavares Nunes de Oliveira, presidente e diretor de Projetos da SaferNet e um de seus fundadores.
Para isso, criaram um projeto de recebimento de denúncias anônimas de crimes e violações contra esses direitos. A equipe de seis pessoas rastreia as denúncias e redige as notícias-crime, que são encaminhadas às autoridades.

“Uma vez recebida, a denúncia é rastreada e a nossa equipe produz um relatório
na forma de uma notícia-crime, que traz o conjunto de informações coletadas na
rede e que vão servir como fonte de informação para que a Polícia Federal ou o
Ministério Público Federal (MPF) possam instaurar um procedimento de
investigação, um Inquérito Policial para investigar aquele crime, identificar os
autores, processá-los e puni-los na forma da lei. Já foram produzidas mais de
600 páginas de notícias-crime apenas neste ano”,
explica Thiago. A organização atua na base do voluntariado e é mantida pelos próprios fundadores. Das 188.553 denúncias recebidas entre 30/01/2006 e 10/10/2006, 30.221 foram de racismo e neonazismo (16,1%).
Para garantir o anonimato do denunciante e possibilitar que ele acompanhe também de forma anônima seu andamento a SaferNet criou um sistema de gerenciamento em que no momento em que o cidadão informa a URL (endereço do site ou página) que ele quer denunciar, o sistema gera automaticamente um número aleatório que identifica aquela denúncia. “
Com aquele número ele pode voltar ao nosso site sempre que quiser e verificar o
andamento da denúncia de forma completamente anônima. Basta que ele guarde o
número”,
explica. Além dos relatórios diários que produz e encaminha às autoridades, a SaferNet produz relatórios específicos. O primeiro foi sobre a pornografia infantil e a pedofilia no Orkut, entregue no dia 15 de agosto ao MPF de São Paulo e à Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. E agora está terminando o segundo, sobre crimes de ódio, que, explica Thiago, são racismo, neonazismo, intolerância, xenofobia, homofobia e apologia ou incitação a crimes contra a vida. Ele ressalta que todas as conclusões e considerações do relatório têm como base casos concretos, que foram denunciados para as autoridades e cujas provas foram colhidas e preservadas pela SaferNet Brasil.

“Nesta pesquisa selecionamos mais de trinta casos para estudo, de comunidades e
perfis que são criados, por isso ele [o relatório] não pode se tornar público.
Contém imagens, mostra como acontece”,
explica. A Vira teve acesso à integra do que foi produzido até o momento neste relatório, que deve estar pronto até o final de outubro. Thiago destaca que o objetivo do trabalho é mais do que mostrar números. É revelar a forma como esses crimes se processam, como os criminosos agem.
“É um estudo sobre o “modus operandi” (metodologia de ação) do crime, que
servirá de fonte de estudo para as autoridades responsáveis pela investigação
destes crimes de ódio na internet.”

Hoje a SaferNet é operada em parceria com o MPF em São Paulo e está em busca de financiadores. É a central nacional de denúncia de crimes cibernéticos. Thiago, que é professor de Direito da Informática e de Informática Jurídica da Universidade Católica do Salvador e desde 2000 tem participado dos principais congressos e fóruns internacionais sobre Propriedade Intelectual, Governança da Internet e Software Livre, conta que a Comissão Européia investe anualmente 8 milhões de euros para financiar as ações de combate aos crimes cibernéticos.
No Brasil, o que existe hoje é um Grupo de Trabalho incumbido da missão de elaborar o Plano Nacional de Enfrentamento à Pedofilia e Pornografia Infantil na Internet.
“Este plano está em fase de elaboração, uma vez aprovado, esperamos que as ações
que estão previstas no Plano sejam levadas a cabo e com isso tenhamos parceiros
que possam financiar essas ações.”


O Procurador da República e coordenador do Grupo de Combate aos Crimes Cibernéticos do MPF, Sérgio Suiama, diz que o grupo nasceu em 2003 na Procuradoria da República em São Paulo.
“Temos cerca de 300 procedimentos em andamento e quase metade deles diz respeito a crimes de ódio, principalmente em comunidades do Orkut”,
conta. São crimes praticados por brasileiros em sites brasileiros ou em sites estrangeiros. Suiama indica a SaferNet como o melhor canal para denúncia de crimes de racismo na internet.
Atualmente a organização está discutindo com o Comitê Gestor da Internet uma forma de padronizar a geração de indicadores que possam ser considerados oficiais da internet brasileira na área de crimes cibernéticos contra os Direitos Humanos.
“Possivelmente em dezembro deste ano nós já teremos um sistema pronto com
capacidade de gerar esses indicadores em tempo real que será disponibilizado na
página do Comitê Gestor da Internet e também na página da SaferNet
Brasil. Por enquanto esses números são internos e são fornecidos mediante
solicitação de qualquer pessoa”,
conta Thiago. O sociólogo Marco Fonseca, 41 anos, pesquisa desde 1997 atos ilícitos na internet e já escreveu artigos e publicações acadêmicas sobre o assunto. Em 1998 foi premiado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) com o trabalho A Rede do mal: conexões entre o tráfico de Drogas e a Internet. Radicado nos EUA há cinco anos, desde 2001, pesquisa comportamento em comunidades nos EUA e na Europa. Em novembro de 2004, criou a comunidade “Web justice, QG da Diversidade”, bem antes de toda polêmica sobre crimes no Orkut. “Decidi criá-lo por entender que a internet será o principal veículo de comunicação de grupos radicais, extremistas, terroristas, supremacistas raciais e máfias”, conta. Seu objetivo é listar comunidades e perfis extremistas e ofensivos às minorias. É uma fonte para pesquisadores, jornalistas e autoridades. “Já mobilizamos internautas contra o comportamento desses grupos extremistas e também colocamos esse tema nas páginas dos jornais”, revela.
Marco ainda está mapeando dados do racismo, mas diz que estudos nos EUA apontam para mais de 6 milhões de páginas que fomentam ódio. O que chama sua atenção em relação ao racismo é o perfil do internauta. “Ele desenvolve uma análise simplista e cada vez mais recorre a teorias racistas do século passado”, explica. O sociólogo diz que seu interesse não é punir, mas entender. Para ele é a rede tem potencial para o ódio por garantir o anonimato e também porque alguns países permitem que conteúdos de ódio sejam alojados nos servidores. Marco indica a SaferNet como opção para denúncias e recomenda a ADL (www.adl.org), que, segundo ele, é uma das mais antigas organizações anti-ódio e anti-racismo. “A www.tolerance.org também é muito interessante porque combate o ódio nas escolas”.


Fora da Lei
A Justiça brasileira tem enfrentado problemas para chegar à identificação de alguns criminosos. O maior deles acontece com a Google Brasil, que se recusa a cumprir as leis brasileiras. Filial da estadunidense Google Inc., proprietária do site de relacionamentos Orkut, a empresa declarou que os casos envolvendo racismo e crime de ódio no Orkut vão seguir a lei americana e não a brasileira. Ainda que estes crimes estejam sendo praticados no Brasil por brasileiros e contra brasileiros.
No Orkut, as informações estão publicamente disponíveis para um universo de usuários que passa de 27 milhões, sendo 70% deles declaradamente brasileiros. “A investigação, a pesquisa e a identificação destas páginas, comunidades e perfis do Orkut não é difícil. A dificuldade é identificar a autoria, porque só quem tem esta informação é a Google e a Google Brasil”, explica Thiago Tavares. Segundo o presidente da SaferNet, eles alegam que estão no Brasil apenas para ganhar dinheiro.
Mas a resposta tem sido dura. O MPF ingressou com uma ação civil pública, com um pedido de uma indenização de mais de 130 milhões de reais pelos danos causados à sociedade brasileira com o pedido também de que a Justiça determine o imediato cumprimento das decisões judiciais não cumpridas pela Google Brasil, que obrigam a empresa a fornecer as informações destes pedófilos, racistas e neonazistas no Orkut. O Ministério Público pediu à Justiça que fixasse uma multa de 50 mil reais por dia para cada decisão não cumprida pela empresa. “É uma forma de pressioná-los pelo bolso. Acontece que a Google Brasil tem recorrido da decisão. É uma empresa brasileira, que está, portanto, obrigada a cumprir a legislação do país e se recusa. Temos uma queda de braço que está sendo travada pelo Ministério Público no judiciário, na justiça federal.”
Para Sérgio Suiama, o grande problema é em relação à Google e a alguns países, que têm tratamento diferenciado para o racismo. “A defesa da Google é que, pelo fato dos sites estarem hospedados nos Estados Unidos, é a lei americana que se aplica em relação a isso e a lei americana é totalmente complacente com esses crimes. Se aceitarmos essa tese, os crimes de ódio praticados por brasileiros no Orkut vão ficar impunes”, explica o Procurador da República.
Em outros sites brasileiros não existem problemas para obter as informações necessárias à identificação de usuários. Empresas como Uol, Terra, Ig e Click 21 assinaram um Termo de Cooperação com o MPF em São Paulo e se comprometeram a fornecer dados necessários às investigações de crimes. Se a página estiver no exterior, explica Thiago, “a gente encaminha ao canal de denúncia do país que está hospedando a página. Ele notifica o provedor e também a autoridade policial competente do país e a página também sai do ar”.
Caso Afropress
Desde o ano passado, a Agência Afroétnica de Notícias (Afropress), ¬única agência com foco na temática racial e étnica no país, vem sendo alvo de ataques de racistas e neonazistas que usam a internet para a pregação do ódio racial e da intolerância, que ameaçam inclusive a integridade física e pessoal do editor, o jornalista Dojival Vieira, e sua esposa, por meio de e-mails e mensagens no Orkut. De lá para cá já perderam a conta das vezes foram atacados e saíram do ar. “Recebemos ameaças pesadas. Minha mulher tem uma filha de 23 anos, e eles falaram: que parte do corpo da sua filha você quer receber em casa?”, conta Dojival, que têm informado regularmente o MPF, a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos (SEDH), a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e a Delegacia de Crimes Raciais.
Os ataques começaram quando a agência revelou o nome do primeiro acusado da prática de crime de racismo na rede:¬ o estudante Marcelo Valle Silveira Mello, do curso de Letras da Universidade de Brasília (UnB? ), que foi denunciado pelo Ministério Público do Distrito Federal com base na Lei 7.7716/89 e responde a Processo que tramita na 6ª Vara Criminal de Brasília, decisão inédita na Justiça brasileira, que pela primeira vez leva um acusado de racismo ao banco dos réus. “Os meios de comunicação em geral ainda tem a prática de omitir os nomes de acusados de crime de racismo, revelando apenas as iniciais. Nós demos o nome completo dele”, explica Dojival. A resposta veio em seguida. O jovem encaminhou um e-mail sob o codinome DROK3Z? – o justiceiro, fazendo ameaças e dizendo que eles iriam falir a Afropress. “A ameaça foi cumprida. Ficamos fora do ar durante quase uma semana. Achamos que transferindo para um provedor de uma grande empresa seria uma garantia de segurança. Foi um engano, continuamos a ser atacados. Isso para uma agência de notícias é fatal”, conta.
Marcelo pode pegar de 2 a 5 anos de cadeia por cada delito: racismo, apologia do ódio racial, uso da internet. No interrogatório em que foi ouvido, no mês passado, o jovem disse que a agência vem sendo atacada por seus amigos “para agradá-lo”. Sem hesitar, a ONG “ABC Sem Racismo, que detém os direitos sobre o Projeto Afropress, solicitou no interrogatório do jovem que fosse admitida como Assistente de Acusação do Ministério Público no caso. E foi aceita, apesar das tentativas contrárias dos advogado do estudante. Segundo Dojival é também a primeira vez no Brasil que uma entidade de combate ao racismo funciona como assistente de acusação do Ministério Público num processo contra um racista. “Nossa expectativa é que o Poder Judiciário adote uma posição exemplar nesse Processo, porque a condenação desse sujeito vai inibir os criminosos que se escondem na internet, e mais, vai demonstrar que as leis brasileiras estão sendo cumpridas para quem comete crime de racismo”, diz o jornalista.
Para o editor, os constantes ataques racistas contra o veículo configuram a violação de pelo menos três Direitos Fundamentais: o Direito à Liberdade de Expressão, o Direito à Comunicação e o Direito ao Trabalho. “A alternativa da resistência não é só a mais correta, mas a única. Se recuarmos ou desistirmos esses grupos nazi-racistas vão se declarar vitoriosos. E quais serão os próximos direitos que eles atacarão? A gente tem buscado chamar a atenção que o problema do racismo não é um problema só nosso, só dos negros, é um problema da sociedade brasileira.”
Desde janeiro deste ano, a Afropress está hospedada no provedor da Rede de Informações do Terceiro Setor (Rede Rits), que tem tido uma postura de aperfeiçoamento técnico, dificultando os ataques, e solidária. A Afropress, fundada em maio de 2004, atua sem qualquer apoio público ou privado, com o trabalho voluntário dos jornalistas que a mantém e de colaboradores esporádicos. A agência tem recebido dezenas de e-mail de solidariedade de seus leitores no Brasil e no mundo. “As pessoas começam a tomar consciência de que os ataques atingem direitos fundamentais de qualquer sociedade democrática. Acreditamos que a internet não é um veículo qualquer. É uma mídia que reúne formadores de opinião por excelência e tem a capacidade de reprodução e de influenciar outras mídias. É isso que nós temos demonstrado com esse caso.”
Caso UERJ
Cenário de crimes cibernéticos, a UERJ é exemplo de que o racismo pode se infiltrar em qualquer meio. Luis Felipe Quaresma Corbett, 29 anos, cursa Ciências Sociais na universidade e desde 2004, quando a comunidade no Orkut da UERJ foi tomada por perfis racistas, ele e um grupo de alunos iniciaram um movimento de repúdio ao racismo e à homofobia. “Tentávamos debater e derrubar os argumentos, mas era muito difícil, pois o moderador da comunidade na época apagava todos as nossas mensagens, num claro apoio aos racistas e homofóbicos”, conta. Segundo o jovem, isso só teve fim quando a moderação da comunidade passou para as mãos do ex-aluno Marco Fonseca, sociólogo criador da comunidade “WebJustice, QG da Diversidade”. Felipe cita o aluno Eduardo Chueri como um dos grandes estimuladores do racismo na universidade. “Ele participa de diversas comunidades anti-cotas, mas seu enfoque é sempre na difamação e na diminuição dos alunos cotistas, tanto do ponto de vista intelectual quanto moral”, justifica. Ele conta que algumas comunidades racistas se disfarçam de anti-cotas, como a “Contra Cotas”, a “Entrei Sem Cotas na Faculdade” e a “Cotas para Analfabetos”. Felipe acha que é difícil deter esse tipo de crime. “As pessoas confundem defender liberdade de expressão com a manutenção de coisas ofensivas à dignidade humana.”
O pernambucano Frederico Pereira de Oliveira também integrou o grupo de renovação das comunidades da UERJ, onde estuda História. “Não gosto da palavra racismo para se referir ao tipo de preconceito relacionado à cor da pele... A diferença genética entre os grupamentos humanos é mínima, insuficiente para caracterizar uma divisão em raças. Isso é um fato”, opina. O que o mobilizou foram as insistentes demonstrações de intolerância contra as políticas de cotas. Ele ressalta que por mais difundido que o acesso à internet esteja, ainda é algo acessível somente a uma parcela pequena da sociedade. “Uma parcela, portanto, ‘supostamente’ mais esclarecida e com um poder aquisitivo bem acima da faixa de pobreza. Logo os que mais tem acesso à informação é que se comportam de maneira mais intolerante em relação a abertura de novos acessos àqueles cuja cor da pele difere da sua. Isso é absurdo!”
Fred, como é conhecido, conta que a comunidade “MODER@DORES-UERJ” surgiu da iniciativa do moderador Rodrigo Marinho de fundar uma nova comunidade UERJ como alternativa à que existia. Com o êxito do projeto inicial, eles acharam certo ampliar a discussão e convidaram todos os moderadores da universidade a participarem. “O me chama mais a atenção em relação ao racismo na internet é a demagogia e a covardia. O negro é um ótimo amigo, mas não serve para casar com a nossa filha! A maneira como ainda é defendida a mentira de que o brasileiro não é preconceituoso. A idéia de miscigenação não condiz com a realidade”, desabafa.
Aos críticos, que nos primeiros meses de existências das novas comunidades contestaram o direito da existência do novo grupo, tiveram como resposta a aprovação das centenas de membros que em pouco tempo elogiaram a rotina e o cuidado na administração das novas comunidades.
Rodrigo Marinho, 20 anos, que desencadeou todo o processo, ingressará na UERJ no ano que vem pelo sistema de cotas. Foi alvo direto dos agressores. “Pensava que aquilo não aconteceria de forma alguma comigo, mas, estava enganado, então encontrei pessoas que compartilhavam com o mesmo desejo de trabalhar essa iniciativa contra o racismo na internet e o resultado foi bastante satisfatório em relação aos resultados concretos”, justifica. Rodrigo atua de maneira a dar enfoque a uma ideologia que sustente a melhoria da qualidade de vida das populações marginalizadas por falta de políticas governamentais.
“Pensava que num ambiente universitário, em nenhum momento tais reações e comportamentos ocorreriam. Foi algo que me deixou bastante surpreso”, revela. Mesmo assim ele diz que procura evitar que esses ataques afetem seu dia-a-dia, não fica se queixando o tempo inteiro com amigos e parentes. Para ele o que mais chama mais a atenção em relação ao racismo na internet é a covardia do ato, uma vez que os agressores optam por esconder suas identidades. “O que identifica as comunidades racistas da UERJ são os perfis falsos e a questão dos debates inflamados contendo um forte teor de segregação em relação ao sistema de cotas, como se o aluno Afro-Brasileiro fosse o responsável e o culpado por esse sistema existir. O argumento mais usado é de que o negro, ao optar pelo sistema, está dando um atestado de que não é capaz de entrar na universidade por mérito próprio”, conta.
A frase divulgada na comunidade “MODER@DORES-UERJ” reflete o pensamento de todos estes estudantes: “Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza, temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.” (Boaventura de Souza Santos – sociólogo português).

Fique atento aos sinais!
Há quatro anos, a antropóloga paulistana Adriana Dias, 35 anos, pesquisa crimes de ódio na internet. Como resultado produziu como trabalho de conclusão do bacharelado o texto Links de Ódio: o Racismo, o revisionismo e o neonazismo na Internet, em 2005. Ela continua a pesquisa no Mestrado em Antropologia Social na Universidade de Campinas (Unicamp),agora analisando também as formas de anti-racismo na internet. (Agora é Doutorado!!!!)

Sua sensibilização para o tema veio com seu primeiro contato com o revisionismo, corrente de pensamento que prega a revisão histórica de temas ligados à formação da identidade racial, negando principalmente a realidade histórica do holocausto. Catalogando sites racistas com foco no negro e no judeu, construiu um banco de dados, com mais de 8 mil sites no mundo de perfil racista, mais de 500 deles brasileiros. Do total, Adriana etnografou* – como costuma definir – 54, sob o foco de quatro questões fundamentais: o combate à miscigenação, a orientação para divulgação de material, a negação da realidade histórica do holocausto e a pregação da superioridade da raça branca.

A pesquisadora concluiu que a maior parte deles combate o casamento interracial e a adoção de crianças negras, definindo as práticas como uma ameaça de “genocídio” à raça branca. Grande parte dá orientações para disseminação ideológica. “Alguns têm campanhas explícitas, outros simplesmente ensinam estratégias como distribuir panfletos discretos e discretamente, inserindo-os em livros esparsos em diferentes prateleiras de bibliotecas, sempre em página certa, para que um leitor desatento se depare com a mensagem ao ler o livro”, conta. Além disso, disse que foi possível detectar a imagem que os grupos fazem sobre os negros e os judeus, promovendo o que chamam de “animalização” das pessoas com esse perfil.

“Para eles, os negros são animais e deveriam ser escravos do branco. Condenam a heroização do negro no esporte pela ‘maldita mídia judaica’, que é construída só para atrair a atenção das mulheres”, aponta. Já os judeus, que também seriam animais, deveriam ser eliminados, porque representarem uma ameaça à raça branca, à medida que criam uma conspiração mundial contra os brancos. “Os sites não são anônimos, a maioria até se identifica, mas isso não quer dizer que seja uma identificação exata, a ponto até de se poder responsabilizar o autor. A maioria se diz descendente de brancos e proletários”, ressalta. Como exemplos, ela cita Wiliam Persie e David Lane, proletários estadunidenses que inclusive cumprem pena por crime de ódio.

Adriana também aponta características que de identificação de grupos racistas na internet. “O número 88 é bastante recorrente, porque é uma alusão a ‘HH’, sendo o H a oitava letra do alfabeto e ‘HH’ as iniciais de ‘Hi Hitler’.” Ela diz ainda que em chats e comunidades, usuários utilizam o “14-88” como cumprimento ou senha de identificação para atestar se o outro usuário é mesmo neonazista. “Porque, afinal, há os anti-nazistas infiltrados em comunidades para denunciar depois.”

Quanto a formas de controle, Adriana declara que todos os resultados de sua pesquisa foram enviados ao MPF. O promotor Sérgio Suiama distribuiu cópia do seu artigo para sua equipe de investigação.
* estudo descritivo das características antropológicas, sociais, culturais de um determinado povo

domingo, 19 de agosto de 2007

mais virtual, ainda!


sábado, 18 de agosto de 2007

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

mais deleuze

atinge-se um circuito interior que reúne tão-somente o objeto atual e sua imagem virtual: uma partícula atual tem seu duplo virtual, que dela se afasta muito pouco; a percepção atual tem sua própria lembrança como uma espécie de duplo imediato, consecutivo ou mesmo simultâneo. (...) [Há] oscilação, perpétua troca entre o objeto atual e sua imagem virtual: a imagem virtual não pára de tornar-se atual, como num espelho que se apossa do personagem, tragando-o e deixando-lhe, por sua vez apenas uma virtualidade. (Deleuze, 1996:53-54)

realizar-se é sempre um ato de um todo que não se torna inteiramente real ao mesmo tempo, no mesmo lugar, nem na mesma coisa, de modo que ele produz espécies [imagens, sentidos, significados] que diferem por natureza, sendo ele próprio essa diferença de natureza entre as espécies que produz”. (Deleuze, 1999:134)

sexta-feira, 20 de julho de 2007

uma imagem

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Os Índios na História do Brasil - site!

Eu amo etnologia. Leio tudo que posso. Um dos grandes mestres na área é um professor maravilhoso: John M. Monteiro, fui aluna dele em algumas matérias, mas uma em especial: Antropologia do Brasil. O site deste professor, Os Índios na História do Brasil, possui informações, estudos e imagens a respeito do tema. Imperdível.

Esta página é um projeto de John M. Monteiro, professor livre-docente do Departamento de Antropologia da Unicamp, vinculado ao Projeto de Produtividade em Pesquisa do CNPq "A Voz e a Vez dos Índios" e ao Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena da UNICAMP

Vilém Flusser, uma citação

A ambivalência do símbolo, seu significado ao mesmo tempo "concreto" e "transcendente" (de tal modo que os dois conceitos se confundem) é decididamente uma mensagem da poesia de Dora. Ela faz lembrar singularmente o pensamento medieval, a Kabbala, a alquimia, Raimundus Lullus, apontando assim para a poesia concreta. No centro de sua poesia há uma série denominada "Tapeçarias", que evoca realmente tapeçarias medievais (como as que podemos ver em Beaune ou Angers). Com sua estrutura logicamente perfeita, com os seus símbolos paradoxalmente secretos e transparentes, com a aparente ingenuidade e efetiva perfeição técnica, sobretudo com a respiração de sua beleza sutil, ela é uma introdução ao universo de Dora. Poetar significa para ela tecer símbolos salvíficos que nos ancoram novamente na verdadeira realidade. Por isso, poetar significa para ela o mesmo que orar ou rezar, e é talvez por isso que não é capaz de dar o passo para trás da poesia: esse passo a faria entrar no totalmente Outro, no significado do mundo. Ter vivenciado com ela este movimento para além do símbolo foi uma experiência insubstituível, difícil de avaliar.


Um perfil de Dora Ferreira da Silva In: Bodenlos: eine philosophische AutobiographieDusseldorf/Bensheim: Bollmann, 1992.Uma primeira versão da tradução feita por Dora Ferreira da Silva
Acabei de ler o livro O Mundo Codificado de Vilém Flusser, e estou encantada. O livro é leve, quase um bate-papo, mas coloca questões muito importantes acerca da sociedade em rede, a denominada "informacional". Uma delas, jogada no meio do caminho é a que se refere a custos:



Por que o hardware está cada vez mais caro e o software cada vez mais barato?


E, em outra parte ele discute porque a suástica continua forte como símbolo. Embora não diga que ele falou tudo, posso até afirmar que tudo o que ele falou faz sentido.

Para quem quiser conferir, o livro acaba de ser editado pela Cosacnaify. Aqui há material farto a respeito de sua obra. Nesta URL há também muito material. Entre os textos, gostei muito deste.

Bem, se quiser saber a respeito da biografia do filósofo, procure aqui, acesse ainda este site.

um novo link...


Um novo link, aqui.

domingo, 8 de julho de 2007

Premio Comunidades Transnacionales

El Festival Internacional de Artes Electrónicas y Video Transitio_mxFundación Cultural México-Estados Unidos de América y Fundación BBVA Bancomerabren la convocatoria para el Premio Comunidades Transnacionales
El Premio Comunidades Transnacionales está dedicado a proyectos artísticos, culturales y sociales que utilicen de modo creativo las herramientas tecnológicas y conceptuales disponibles en red para ampliar los canales de comunicación e interacción comunitarias, dando lugar a espacios en línea en donde se comparten prácticas e historias. El objetivo de este premio es promover el acceso a los bienes culturales y a las tecnologías involucradas en su producción y distribución, animar la diversidad de expresiones y reconocer la participación ciudadana de las comunidades transnacionales que vinculan a México y los Estados Unidos de modo cotidiano y permanente
La convocatoria está abierta a individuos, grupos, asociaciones, organizaciones e instituciones de México y los Estados Unidos que desarrollen proyectos para los cuales el Internet es condición tanto suficiente como necesaria para ver, expresar y participar.
Se aceptarán propuestas que trabajen con video (video comunitario, documental, videoarte, videoclip, videocorreos, telenovelas, etc.), net.art, periodismo ciudadano, comunidades digitales, foros online, weblogs, social networks, videojuegos en red, proyectos del colaboración artística en línea, literatura electrónica, narrativa digital, radio comunitaria en línea, pod casts, entre otros.
Durante el Festival, el ganador recibirá un premio de $3,500 dólares americanos Para mayor información acerca de la convocatoria, por favor visite la página www.transitiomx.net/concurso
O contacte directamente a:
Mariana Delgado
Coordinadora de Comunicación y Asuntos Públicos
Fundación Cultural México-Estados Unidos, A.C.
Tel. (52 55) 55 35 67 35
E-mail mariana@contactocultural.org

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Tomismo, fontes

Web Argentina de la Sociedad Filosófica "Sedes Sapientiae",
dedicada a Santo Tomás de Aquino y al Tomismo

Entrevista com o professor Iulo Brandão

Artur Araujo
Publicada no dia 13 de abril de 1997 no jornal Diário do Povo
(Campinas / São Paulo / Brasil)

Diário - Professor, por que até hoje o Brasil não produziu até hoje um grande filósofo?
Iulo Brandão - O Brasil dispõe, desde o início do século, de gente de valor nesta área. Para se tornar entretanto um filósofo de alto nível, é preciso que o País tenha certas condições culturais que permitam o seu surgimento, condições estas que a Europa teve.

Diário - Que condições seriam estas?
Iulo - Uma produção cultural de qualidade sólida, consagrada e difundida junto à população. Agora, no Brasil, em 1934, criou-se, na USP, a primeira faculdade de filosofia na rua Maria Antônia, lá em São Paulo. Ela desenvolveu-se sob a égide dos grandes pensadores franceses, que vieram ao Brasil para dar um certo impulso à universidade. E valeu a pena, pois eles fortaleceram o pensamento filosófico no Brasil. Seus alunos disseminaram as idéias filosóficas no Brasil. Isso não quer dizer que eles eram imitadores. Foram homens que refletiram a partir da temática trazida por esses professores. Mas essa reflexão ia até um certo ponto. Não deu margem para que surgisse um homem da categoria de Kant, por exemplo. Mas gerou gente muito boa.

Diário - O senhor poderia citar algum nome de filósofo formado por esses professores que se destacou?
Iulo - Laerte Ramos de Carvalho, que se dedicou à filosofia da Educação, e Cruz Costa, que se tornou um porta-voz do positivismo.

Diário - Há um projeto, que já está há algum tempo em discussão junto a parlamentares, a filósofos da educação e pedagogos, de se reimplantar a filosofia mas escolas de segundo grau. O que o senhor acha desta iniciativa?
Iulo - Em princípio, é louvável a idéia. Resta entretanto saber se vamos colocar professores realmente competentes para lecionar. O risco que vejo nesta iniciativa bem-intencionada é que os professores, em vez de ensinar, façam proselitismo, ou seja, a defesa de um ou outro ponto de vista pura e simplesmente. Precisaríamos de gente muito boa para fazer isso. E a filosofia é um objeto sério de estudo. Outro risco são aqueles professores de fazem do ensino a simples exibição de erudição vazia, sem levar o estudante a uma tomada de consciência da temática filosófica, que é mais importante. Se nós tivermos gente qualificada, é a melhor coisa que nós podemos fazer, como havia no passado, no antigo curso clássico...

Diário - ...Que equivalia ao curso de segundo grau...
Iulo - Na época havia dois tipos de curso, o científico, que tinha um ano de filosofia, e o clássico, com dois anos de filosofia. Eu fiz o curso clássico ainda em São Carlos onde nasci, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Tive aulas com José Geraldo Pereira Lima, da USP, que era um grande professor. O clima que reinava na época era de grande efervescência cultural filosófica em São Carlos...

Diário - A que o senhor atribui o fim do curso de filosofia nas escolas de segundo grau?
Iulo - Com a invasão da tecnologia e das ciências exatas, a filosofia sofreu um pequeno abalo. Isso fez com que o curso clássico terminasse sendo extinto, substituído pelo curso científico.

Diário - Professor, o escritor peruano Vargas LLosa escreveu recentemente que cada vez mais é difícil encontrar jovens que se dedicam à área de ciências humanas com um bom nível cultural, com uma visão de mundo rica e criativa, o senhor concorda com isso?
Iulo - Ele tem razão, sem dúvida. As ciências humanas sofreram um certo recuo por parte do interesse do jovem. O que passou a se propagar e difundir foram as ciências exatas, que invadiram o mundo. O nível caiu, igualmente, por causa das poucas perspectivas do campo de trabalho para as áreas humanas e sociais. As ciências exatas oferecem um grande campo de trabalho na área tecnológica.

Diário - O mercado então ajudou a excluir a filosofia?
Iulo - Sim, ou pelo menos marginalizou. Um estudante de filosofia, se tiver de buscar um mercado de trabalho para sua atividade vai ter dificuldades imensas.

Diário - Quais as perspectivas profissionais de uma pessoa formada em filosofia?
Iulo - Não há outras opções. Trata-se de uma atividade especulativa. Ele pode derivar sua formação para a psicologia e outras áreas afins. Por outro lado, as universidades estão com um grande número de alunos de filosofia. A USP mesmo tem muitos. Esses alunos ou têm boas condições financeiras, e não precisam procurar mercado de trabalho ou então, no plano da docência, eles terminam assimilados pela própria universidade.

Diário - Professor, há um dito italiano que define a filosofia como "a ciência que, sem a qual ou com a qual, o mundo vive tal e qual", ou seja, ela é uma disciplina dispensável. O senhor concorda com a definição?
Iulo - É um dito superficial. O autor devia pensar que a filosofia deveria mudar o mundo somente pelo fato de existir. Mas, na verdade a filosofia mudou o mundo. Veja por exemplo Descartes...

Diário - Ele mudou as ciências exatas...
Iulo - Ele mudou a concepção do mundo, introduzindo o racionalismo, gerando modificações profundas.

Diário - Foi ele que introduziu a matemática como idioma das ciências exatas...Iulo - Há também Hegel, que fez a apologia do abstrato como verdade, abrindo caminho para ideologias totalitárias...

Diário - ... Principalmente ao idolatrar o processo histórico e o Estado, colocando-o acima dos indivíduos, influenciando Karl Marx ... Como o senhor vê uma iniciativa pedagógica de filosofia como o livro "O mundo de Sofia", de Jostein Gaader?
Iulo - O sucesso foi muito grande porque ele envolveu o pensamento filosófico em uma linguagem mais literária. Podemos citar outro livro recentemente publicado, “Convite à filosofia”, de Marilena Chaui, que não teve a mesma saída. Isto porque ela utiliza nesta obra uma terminologia mais técnica, sem envolver em conotações literária. É importante entretanto destacar que quem acabar de ler esse o livro não sai dele como dono da disciplina. É uma espécie de prefácio à Filosofia.

Diário - E o senhor acha positivo o lançamento deste tipo de obra?
Iulo - Como estímulo, sim. Mas corre o risco de banalizar uma temática que exige outra linguagem. É perigoso. Se um aluno tiver um bom professor de filosofia, o livro ajudará a introduzir a disciplina. Só que não pode falar no estímulo.

Diário - Professor, o senhor é um filósofo neotomista. Como um filósofo do século 13 pode ainda ter algo a dizer em filosofia às vésperas do século 21?
Iulo - É uma coisa meio difícil de responder, porque precisamos ter um certo cuidado com a definição dos termos. Em primeiro lugar, é preciso compreender que, no plano da história da filosofia, podem haver momentos em que determinados sistemas, como doutrina, sofram um abalo no plano histórico. As condições da Idade Média não as temos mais. Mesmo na Renascença, as condições não eram idênticas, mesmo nas condições mais humanistas. Ou seja, em função do ponto de vista histórico, há de fato rupturas. Há entretanto outro plano, que é o plano temático. O fato de ter havido uma ruptura histórica não implica que a temática tomista tenha se perdido. A temática é mais complexa. Ela vai além da história, porque ela não é às vezes esgotada, exaurida, na época em que foi criada.

Diário - De que maneira a temática tomista é atual?
Iulo - Ela tem a ver na medida em que ela faz uma crítica à temática do racionalismo, que vem de Descartes até hoje.

Diário - De que forma?
Iulo - O tomismo põe em xeque uma série de questões, que se problematizaram ao longo dos séculos. Então o tomismo coloca certos problemas, por exemplo, a unidade entre essência e existência, a unidade entre o uno e o múltiplo. Esta temáticas se enfraqueceu com o racionalismo, que permaneceu mais no uno do que no múltiplo, transformando a filosofia em algo abstrato e formal, que acabou se impondo ao múltiplo, em vez de unificar o múltiplo ou desprezar o múltiplo, criando uma espécie de tiraria.

Diário - Ou seja, a razão muitas vezes pode se transformar em uma espécie de tirania quando, por exemplo, estabelece certos objetivos que não levam em conta o ser humano. É aquilo que o filósofo Husserl definia como o “racionalismo das pirâmides”, que cria um objetivo desumano, no caso, construir pirâmides, colocando a razão em função desta meta e empregando todos os meios para executar a missão de forma mais racional possível, nem que seja através da adoção da escravidão e da própria deterioração econômica, social e moral desta sociedade...

Iulo - Sim. O que acontece nos dias de hoje: uma série de pensadores retomaram a temática de São Tomás de Aquino. Do ponto de vista temático, ele tem muito a dizer.
Diário - O racionalismo gerou uma espécie de encruzilhada para a civilização.

Iulo - Correto. Criou-se um abismo entre o uno e o múltiplo, entre a essência e a existência. Ora, quando crio um abismo, crio problemas que não podem ter mais solução. Ora, deixar problemas em aberto traz problemas enormes.
Diário - De que forma exatamente o tomismo questiona o racionalismo?

Iulo - São Tomas de Aquino colocou um tema que o racionalismo tinha praticamente marginalizado em nome dos seus pressupostos. O racionalismo diz o seguinte: só é verdade aquilo que está incrustado nas idéias. A idéia que é verdade. Há entretanto ou outro mundo, que é o mundo da contingência, que é o mundo real, o mundo da existência, somos eu e o senhor, as árvores, as pedras etc. Essas coisas que se movem, corrompem-se, modificam-se... esse mundo "escorregadio" que vivemos. Pois bem, o tomismo então se questiona: como tomar o mundo da existência em face das idéias: eu separo ou incluo. Então vem a tese do neotomismo. Vamos tomar uma árvore. Por exemplo, no chamado idealismo é a idéia que fica, e aí vou manipulando. Para isso, eu tenho de matar a árvore e só ficar com a idéia. Como unir a idéia com a coisa concreta? O tomismo vem e reúne o objeto sensorial com a idéia de árvore. De que for-ma? Na medida em que reconheço que na idéia de árvore já está a forma. Ela tem algo de formal nela, aí então uno aquilo que havia sido separado pelo racionalismo e por aquelas linhas que põem ênfase nas idéias só e que desprezam o homem empírico.

Diário - Ou seja, o tomismo retoma o ser humano e o mundo real como prioridade, submetendo o mundo das idéias a um segundo plano.
Iulo - Exatamente. Para evitar esse abismo entre as idéias e o homem empírico, diz o neotomismo, temos que retomar as coisas tais como elas são dadas na percepção. Penso que o neotomismo também conseguiu retomar sua atualidade graças aos pensadores existencialistas, como Sartre.

Diário - Acho que houve também condições históricas, como o "racionalismo" da criação das bombas atômica e de hidrogênio, o "racionalismo" da indústria que trabalha com a ciência genética, que manipula seres vivos e está tentando patentear seres vivos, o “racionalismo” da Alemanha nazista, o “racionalismo” neoliberal, que faz do controle dos gastos públicos uma prioridade acima de qualquer ação fraterna e social. São formas enlouquecidas de razão, que transformaram idéias em princípios inquestionáveis. É uma razão tão centrada em sua própria lógica que esquece o ser humano.
Iulo - Esquece, e se o "resto", que está fora desta razão começar a insistir, ele o destrói. A meu ver, o neotomismo é extremamente fecundo. Agora, eu posso tomar o neotomismo como filosofia só, sem me ater à parte teológica só, que está relacionada a um plano mais religioso. O neotomismo para mim é mais um estado de espírito que permite ao homem dissolver essas aporias todas que vieram com o idealismo.

Diário - O senhor é católico?
Iulo - Sou, por convicção filosófica.

Diário - E quanto à temática teológica de São Tomas de Aquino?
Iulo - Aqueles que querem ir mais longe em relação ao pensamento deste filósofo, devem estudar teologia. Ele foi um teólogo profundo que se apropriou da filosofia aristotélica, que é uma filosofia mais fecunda, que é a filosofia do senso comum, para a teologia.

Diário - E por que o senhor não se dedica à teologia?
Iulo - Trata-se de um assunto extremamente complexo que exige uma postura não só filosófica...

Diário - O tomismo então é uma forma de humanismo?
Iulo - O tomismo retoma o humano, no sentido que o homem vive no mundo e tem suas necessidades psicológicas e até metafísicas. Mas ele não para aí. Senão seria uma espécie de humanismo ateu ou até mesmo racionalista.

Diário - Então o neotomismo no século 20 é uma crítica ao individualismo e ao racionalismo de nosso tempo?
Iulo - Na Idade Média, as questões social, econômica e política eram muito restritas. Da Renascença para cá elas tiveram um crescimento enorme, colocando o homem e o econômico no centro da história. A miséria se alastrou. As dificuldades e diferenças de classe surgiram. Esses problemas, que não existiam na época de São Tomas de Aquino passaram a existir agora, e o desafio é como conciliar a metafísica com o problema do mundo prático, sem abrir mão de sua dimensão metafísica. Os neotomistas se interessaram pelo indivíduo sem abrir mão da metafísica, pois sem a metafísica coloca o homem um pouco acima dele, até para ele não se limitar a si próprio, não se asfixiar, em busca de valores absolutos. Disso, o neotomismo não abre mão.

Diário - Então, o neotomismo coloca o homem em função de valores?
Iulo - O neotomismo, que é um estado de espírito, procura voltar para o prático, mas diz o homem não pode viver para o prático, que é de certa forma o Estado, que é a encarnação do absoluto. É preciso inverter o raciocínio. O Estado é que vive para o homem. O Estado, com seus dispositivos legais, deve viver para o homem. Isto significa que o homem vai além do Estado. E vai além do Estado em direção a que? A certos valores, que o neotomismo diria absolutos, como Deus e a moral fraterna.

Fontes tomistas

Tomismo pode significar: (1) todo o pensamento sistemático ou não de São Tomás de Aquino, sua filosofia e sua teologia; (2) o pensamento que segue integral ou parcialmente os ensinamentos de São Tomás de Aquino, em filosofia e teologia e (3) o pensamento dos que expõe, defendem e disputam as teses da filosofia e teologia de São Tomás de Aquino. Estes são conhecidos como Tomistas, pessoas que compõem principalmente, mas não exclusivamente, a Ordem de São Domingos. Muitos Tomistas não foram dominicanos e sequer religiosos. Mas em sua maioria foram religiosos e especialmente dominicanos.Historicamente o nome Tomismo passaria a designar não só o sistema filosófico-teológico de São Tomás de Aquino mas, também, o pensamento de Tomás interpretado e defendido por seus seguidores, formando assim a denominada Escola Tomista. O texto acima é de uma fonte maravilhosa, aqui. INDEX THOMISTICUS. Nesta URL, Thomistica. O INSTITUTO UNIVERSITARIO VIRTUAL SANTO TOMÁS tem uma página maravilhosa, aqui. Outro site que vale apena, DOCTOR ANGELICUS, nesta URL.
The Aquinas Translation Project, tem grande material, veja aqui. Aspectos filosóficos? Veja o Thomistic Philosophy Page, nesta URL. Outro portal, muito completo. Síntesis Doctrinal, um site incrível. Scholasticism, nesta URL. St. Thomas Aquinas and Medieval Philosophy, aqui. Suma teológica em português.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Old Norse, fontes

Gramática, aqui. Old Norse Online. Na wiki. Textos em Old Norse. Dicionário English-Old Norse.
Old Norse Names. Old Norse language.
na figura ao lado, O Rök Runestone em Östergötland, Sweden. Considerado a fonte a mais antiga em Old Norse. É inscrito em ambos os lados.

domingo, 1 de julho de 2007

blogs...


sábado, 30 de junho de 2007

Fontes de pesquisa medieval

Um site acerca de Agostinho. Um site a respeito das Famílias nobres catalãs, medievais: the Montcadas. Um portal sobre a História de Portugal e Espanha. The Internet Modern History Sourcebook, grandes links. Um Portal de Historia Medieval. Internet Jewish History Sourcebook.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Um mapa!




Se o MySpace fosse um país, de que tamanho ele seria? Onde ficam as Ilhas IRC? Não sabe? Pois então vale a pena visitar o blog de charges diárias que tem o impronunciável nome de xkcd.com.


veja mais aqui.

A Estrutura da Internet deve ser neutra

O que deve e o que não deve constar na eleição de palavras, idéias e expressões que podem ser registrados como nomes de domínio? Uma expressão proibida em certa cultura pode não ter o mesmo significado em outra. E quem determina o que e o que não pode ser registrado como nome de domínio? Especialmente quando estamos falando de nomes de domínio internacionais, que não estão ligados à infra-estrutura tecnológica e cultural de um certo país, essa escolha pode ser de crucial importância. Para alertar a comunidade em geral sobre os riscos trazidos por decisões arbitrárias na escolha das palavras e expressões que não podem ser registrados como nomes de domínio, foi lançada a coalizão "Keep the Core Neutral".

A coalizão, iniciada pela organização norte-americana IP Justice, e apoiada pelo Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS), da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas/RJ, preparou uma petição sobre o assunto. A petição original, em inglês, pode ser lida, e posteriormente assinada, aqui. http://www.keep-the-core-neutral.org/petition/ Um tradução da petição para o português foi preparada pelo CTS. O inteiro teor da tradução você pode ler abaixo. Petição Global para os Membros da Diretoria da ICANN: “A Estrutura da Rede deve ser neutra”

Todos têm o direito de pesquisar, receber e transmitir informações e idéias sem interferência por qualquer meio, inclusive no ciberespaço. Com o surgimento dos novos domínios genéricos de primeiro nível e escolhas sobre como idéias podem ser expressas através dos mesmos são tomadas, nós requeremos à ICANN que mantenha a estrutura da rede neutra, livre das disputas não técnicas, e que sejam adotadas políticas que respeitem a liberdade de expressão e permitam a inovação no processo de criação de novos nomes de domínio. Encorajar a livre circulação da informação é um princípio basilar nas decisões de política pública relacionadas à informação e à tecnologia da comunicação. O direito à liberdade de expressão, fundamental numa Sociedade da Informação, estimula a participação democrática, amplia as possibilidades individuais e proporciona o desenvolvimento econômico.

O ciberespaço é um ambiente único e especial que concilia antigas divisões, no qual diversas comunidades interagem, e todas as visões são bem-vindas. Mas esse cenário apenas permanecerá se esses atributos forem levados em conta por quem determina as políticas públicas sobre a Governança da Internet e os incorpore nas políticas sobre como idéias podem ser expressas através de nomes de domínio. Nós requeremos que a ICANN atenha-se ao seu mandato técnico e se abstenha de embutir determinados padrões nacionais, regionais, morais ou religiosos nas regras globais sobre o uso de linguagens em nomes de domínio. Seria uma missão perigosa para a ICANN decidir entre políticas conflituosas e determinar padrões globais de expressão que são reforçadas através da sua atuação técnica. Por favor não deixem que a ICANN se torne uma ferramenta conveniente para a obtenção de um controle global por aqueles que almejam censurar expressões controversas ou não populares na Internet.

Requeremos que a ICANN resista a qualquer tentativa de restringir quais idéias podem ser expressas em qualquer nível de hierarquia da Internet. A estrutura técnica da Internet deve ser neutra e livre de quaisquer conflitos nacionais ou ideológicos, possibilitando que a liberdade e a inovação floresçam no ciberespaço. Assinado, Indíviduos ou grupos podem assinar no site da campanha. http://www.keep-the-core-neutral.org/petition

A petição foi publicada originalmente no Cultura livre.
http://www.culturalivre.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=175&Itemid=40/

Tradução realizada pelo Centro de Tecnologia e Sociedade Centro de Tecnologia e Sociedade - CTS - da Fundação Getúlio Vargas - Direito Rio.

recebi por e-mail da Rita Amaral

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Timeline Internet


quarta-feira, 27 de junho de 2007

Um presente! Revue L'Homme. Revue française d'anthropologie, n° 182


Racisme, antiracisme et sociétés
veja mais aqui
Wiktor Stoczkowski - Racisme, antiracisme et cosmologie lévi-straussienne. Un essai d'anthropologie réflexive.
Pierre Savy - Transmission, identité, corruption. Réflexions sur trois cas d'hypodescendance.
Emmanuel Parent - Derrière le voile. L'impossible résolution musicale des antagonismes raciaux aux Etats-Unis.
Patrick Williams - Les Alsaciens-Lorrains romanichels pendant la première guerre mondiale. Un cas d'école ? Varia
Guillaume Rozenberg - Le saint qui ne voulait pas mourir. Hommage à Robert Hertz.
Mathieu Hilgers - La dynamique de la croyance. Enjeux contemporains d'une ancienne cérémonie moaga.
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Eric Jolly - Rêveries exotiques sur le Dogon