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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Neonazistas acusados de explosão em Parada Gay são condenados por formar quadrilha

JULIANNA GRANJEIA


A Justiça condenou na última sexta-feira (17) dois dos sete indiciados pela explosão de uma bomba caseira lançada no centro de São Paulo durante a Parada Gay, realizada em junho do ano passado. Rodrigo Alcântara de Leonardo, 24, conhecido como Tumba, e Guilherme Witiuk Ferreira de Carvalho, 20, o Chuck, foram condenados a dois anos de prisão em regime fechado por associação criminosa. Eles são integrantes do grupo neonazista "Impacto Hooligan".

O explosivo foi jogado no meio da multidão na avenida Vieira de Carvalho (centro da capital) e feriu ao menos 22 pessoas no dia 14 de junho. Os acusados foram presos preventivamente em dezembro de 2009 e soltos, após revogação da prisão, em maio deste ano.

O juiz Luiz Raphael Nardy Lencioni Valdez, da 29ª Vara Criminal do Fórum da Barra Funda (zona oeste de SP), considerou que não há provas de que a explosão tenha sido causada por integrantes do "Impacto Hooligan" e nem se os outros cinco indiciados no processo são integrantes do grupo neonazista.

No entanto, para o juiz, ficou provado que o "Impacto Hooligan" é uma quadrilha criminosa, "estável e organizada" formada desde, pelo menos, o início de 2008. "O grupo não se limitava a exercer o direito constitucional de reunião e de expressão do pensamento, ainda que absurdo, preconceituoso, intolerante e desarrazoado, mas extrapolava para a execução de atos de violência contra os alvos escolhidos, preferencialmente grupos 'punks' rivais igualmente criminosos e indivíduos com orientação homossexual", afirmou Valdez em sua sentença.

O magistrado também diz que os membros do bando são jovens de classe média, que cursavam boas escolas e faculdades, e que seguiam orientação neonazista e xenófoba para disseminar o preconceito, o ódio, a intolerância e a violência. "São inúmeros os boletins de ocorrência acostados aos autos sobre crimes contra a integridade física, a vida e o patrimônio, em sua maioria envolvendo vítimas homossexuais, sempre com o envolvimento de membros da quadrilha desde a adolescência", escreveu o magistrado em outro trecho da sentença.

Durante a investigação, a polícia apreendeu na casa de Guilherme --líder do grupo-- e Rodrigo roupas, acessórios e obras com temáticas nazistas e anotações sobre os rituais de batismo, reuniões periódicas e códigos de comunicação e conduta do "Impacto Hooligan". "Vale ressaltar que Guilherme, como confirmado em audiência, ostenta o numeral 98 tatuado em seu corpo. (...) Os números se referem a localização da primeira letra das palavras no alfabeto. Especificamente, 88 refere-se a HH, que por sua vez indica a saudação nazista 'Heil Hitler', enquanto 98 se refere a IH, que tem o significado óbvio de Impacto Hooligan", afirmou Valdez.

O líder da quadrilha, além dos "inúmero boletins de ocorrência" como citado pelo juiz, já foi condenado em 2009 por injúria real, após ser preso em flagrante. De dentro da cadeia, Guilherme escreveu uma carta para Rodrigo que foi considerada mais uma prova da formação de quadrilha. "No segundo parágrafo, Guilherme escreve: 'O os rolês muleque? Ta fiel ao IMPACTO né? Porque aqui é 98 até a morte, não é porque eu fui preso que tudo ou eu irei parar ou largar a banca. Eu to montando a banca até aqui na cadeia, juro pra você, HAHAHA! [sic]'. No parágrafo seguinte, acrescenta 'seja leal a banca e ao nosso ideal 88'. Por fim, termina assinando: CHUCK 98, IMPACTO H88LIGAN e uma suástica nazista", diz a sentença.

Omagistrado também ressaltou que Guilherme e Thiago Batista Miranda, conhecido como Crânio, --um dos cinco absolvidos nesta decisão-- respondem juntos a processo criminal por homicídio doloso contra vítima homossexual. Valdez não especificou na sentença se a vítima seria o cozinheiro Marcelo Campos Barros, 35, morto após ser espacando durante a Parada Gay do ano passado.

A reportagem tentou entrar em contato com os advogados dos dois acusados, mas eles não foram localizados.

DANOS MORAIS

O consultor de negócios, Felipe Pereira de Freitas, 19, vítima da explosão que ocorreu na Parada Gay no ano passado, afirmou que ele e mais outras cinco pessoas que ficaram feridas irão entrar com um pedido de indenização por danos morais contra os sete indiciados.
"Nós não gostamos da sentença, a pena foi curta. É um grupo que está crescendo demais e por isso temos que tomar atitudes. Até sexta-feira vamos entrar com uma ação de danos morais no valor de R$ 700 mil", disse Freitas à Folha.

domingo, 12 de setembro de 2010

Preocupante!

Avança o neonazismo nos Estados Unidos

domingo, 12 de septiembre de 2010



A campanha desatada nos Estados Unidos contra o presidente Barack Obama está muito distante de ser apenas uma briga eleitoral.

A campanha é, na verdade, o reflexo do avanço do neonazismo, que sempre tem estado latente e que adquiriu no país do norte novos rumos a partir do ano 2000, quando George W. Bush chegou à Casa Branca.

A derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial e o desaparecimento físico de Hitler não significaram o desaparecimento do nazismo, mas sim implicaram na sua expansão através dos servidores públicos de diferentes níveis desse regime que encontraram acolhida em diversos países.

Figuras destacadas conseguiram passaportes com novas identidades, emitidos por respeitáveis instituições e governos. Assim, aqueles que haviam sido reconhecidos por suas investigações científicas ou seus avanços em matéria de armamentos encontraram refúgio nos países mais desenvolvidos do Ocidente e na União Soviética.

Outros, que eram perseguidos como criminosos de guerra, usaram como esconderijo países menos desenvolvidos, comprando sua proteção a um preço caríssimo.

A estes, então, somaram-se grupos que haviam chegado como colonos e que reproduziram seu modelo de organização nos lugares em que se instalaram.

Foram eficientes colaboradores das ditaduras na América Latina e contaram com o respaldo de figuras políticas nacionais e de grupos simpáticos ao nazismo.

Nos Estados Unidos o racismo surgiu junto com a colonização de seu território. Não só os nativos indígenas foram suas vítimas, também os negros, comprados ou sequestrados na África e levados na qualidade de escravos. O grupo mais representativo do que hoje equivaleria ao neonazismo é a Ku Klux Klan.


Obama e a supremacia branca
Transposos estes antecedentes à atualidade, encontramo-nos com um presidente como Barack Obama, que se encontra sitiado por uma oposição que assume as mesmas características do neonazismo.

Com Bush sentiam-se representados, combatiam ao muçulmanos, que haviam sido declarados os novos inimigos e que se somavam à lista de velhos inimigos: negros, latinos, judeus, socialistas e homossexuais.

O movimento neonazi do país do norte deriva do Partido Nazista criado nos anos vinte do século passado, que depois se misturou com a Free Society of Teutonia e formou o German-American Bund, que atingiu notoriedade nos anos 30 do século vinte quando Hitler e Mussolini estavam na cúspide do poder.

A derrota da Alemanha os descolocou e ester vieram a reaparecer em 1959 como Partido Nazista da América do Norte, dirigido por Lincoln Rockwell.

Na atualidade há vários grupos, o mais importante deles sendo o Aryan Nations, ao que o FBI considera uma ameaça terrorista e a Corporação Rand qualifica de "a primeira organização verdadeiramente terrorista". Mas foi a Aliança para a Supremacía Branca que declarou a guerra a Barack Obama desde que ganhou a nominação à presidência da república.

Neste período dois de seus membros foram detidos quando planejavam matar a 102 afroamericanos, dos quais 14 seriam decapitados.

No entanto, seu objetivo principal era matar Obama e, para fazê-lo, tinham planejado vestir-se de smoking branco e usar chapéus de copa.

Não se importavam morrer nesse empenho, mas foram detidos a tempo.

Sara Palin, Fox News e o Tea Party
A ofensiva atual contra o presidente estadounidense tem como figura principal a ex candidata republicana à vicepresidência da república, Sara Palin, e seu financiamento corre por conta da rede televisiva Fox News.
Esta empresa havia contratado Palin como "comentarista" política a um salário exorbitante.

Outro comentarista estrela desse canal televisivo é Glenn Beck, o mestre de cerimônias do recente meeting efetuado no mesmo lugar em que Martín Luther King pronunciara seu discurso "I have a dream" em defesa dos direitos civis dos negros.

Este ato, em que se acusou a Obama de socialista e de ser um "muçulmano que odeia os brancos", é considerado um ultraje à memora de Luther King e uma provocação.

Há outros grupos empresariais que contribuem com estas mobilizações e à criação de entidades que se opõem às políticas propostas por Obama e que têm conseguido convencer pelo menos 25 por cento dos estadunidenses de que seu presidente é muçulmano e não cristão. A Casa Branca teve inclusive de desmentir o fato.

Mas, a campanha segue, e em vardade trata-se de que a direita e a ultra direita estadounidenses consigam ganhar as próximas eleições parlamentares e atinjam a maioria na Câmara de Representantes, com a finalidade de impedir que se aprovem leis que afetem os interesses das grandes corporações.
Tudo isto vai gerando, ao mesmo tempo, mobilizações e leis estatais contra as minorias étnicas e os migrantes.

Paralelamente na rádio e na televisão há comentaristas que agridem tanto à população negra como aos latinoamericanos e agora aos muçulmanos nascidos nos Estados Unidos.

Este fustigamento aos muçulmanos tem originado episódios como o do médico que era objeto de discriminação e deboche, o que o levou a protagonizar um tiroteio na base militar onde prestava seus serviços.

Mas dos alcances que está registrando a atitude contra muçulmanos de nacionalidade estadounidense, a única preocupação expressada por alguma entidade de governo é a manifestada pela Agência Central de Inteligência.

A CIA teme que os acusem de exportar terroristas, porque ante esta situação há muçulmanos norte-americanos que se somaram aos de outros lugares na contramão de seu país natal.


O correlato europeu
E não é só nos Estados Unidos onde cresce o racismo, que por sua vez engrossa as filas do neonazismo.

Também na Europa se estão fortalecendo os grupos desse signo, enquanto os governos aplicam políticas xenófobas que afetam às minorias étnicas e religiosas. França e Itália vão à vanguarda.

Tanto os governos francês como o italiano têm endurecido suas leis contra os ciganos. O mesmo fez Hitler, que eliminou a milhares.

Sobre isto, há um vazio na própria União Européia que "reconhece" os ciganos como cidadãos, mas não lhes outorga direito a circular por todo seu território, também não lhes dá direito ao trabalho.

Para não ser menos, os ingleses anunciam que temem atos terroristas dos muçulmanos e tudo sucede justo quando a imprensa estadounidense adverte que se teme uma nova recessão e há dez bancos que poderiam falir nos próximos meses.

Provocar o racismo para ocultar outros problemas faz crescer ao neonazismo.


(*) A autora é jornalista chilena radicada em México e colaboradora da Prensa Latina



FONTE: prensa Chilena http://www.prensa-latina.cu/index.php?option=com_content&task=view&id=219979&Itemid=1

sábado, 15 de maio de 2010

mais ainda!

Supunhetamos, leitor (a), que você é jornalista e recebe pelo Correio um dossiê com comprovantes indicando que o ex-governador Paulo Maluf (ou o prefeito de uma capital do norte do país) roubou US$ 50 milhões e depositou tudo num paraíso fiscal. Os documentos -você percebe logo- foram grosseiramente falsificados. O que você faz? Joga tudo no lixo ou, ignorando a fraude, publica seu conteúdo como se fosse informação correta?

Essa pergunta feita no primeiro dia de aula sempre gerava polêmica no Curso de Jornalismo entre alunos da disciplina Ética e Legislação na Mídia que ministrei durante anos seguidos na Universidade Federal do Amazonas e, depois, na UERJ.

De um lado, estudantes mais afoitos justificavam: “O dossiê é falso, mas nos faz chegar a uma conclusão verdadeira: a de que Maluf é ladrão. Portanto, devemos publicá-lo, porque assim estaremos escrevendo certo por linhas tortas. No frigir dos ovos, o uso dessa mentira acaba deixando o leitor com a informação certa”.

Embora igualmente antimalufistas, outros alunos mais escrupulosos discordavam. Diziam: “se existe desconfiança de que Maluf é um ladrão de casaca -e as evidências são muitas- o repórter deve procurar provas do delito. Esse é o trabalho do jornalismo investigativo, que deve apresentar fato por fato e não vender fato por lebre. Inventar ou aceitar provas forjadas mesmo contra o pior crápula não é jornalismo. Quem renuncia à apuração dos fatos, engana os leitores, é um profissional incompetente e imoral.”

Esse parece ser o caso dos jornalistas da revista Veja Leonardo Coutinho, Igor Paulin e Júlia de Medeiros, que na semana passada assinaram uma reportagem encomendada intitulada “A Farra da antropologia oportunista”. Com uma diferença: como o dossiê falso não lhes foi remetido pelo Correio, eles saíram à caça não dos fatos, mas da lebre. O que nos faz pensar que aí tem dente de coelho.

Eles juram -mas não querem ver suas respectivas mães mortinhas no inferno se estiverem mentindo- que durante um mês visitaram onze municípios em sete estados, percorreram mais de 3 mil quilômetros de carro e barco e entrevistaram 70 pessoas em busca de fatos. Encontraram lebres. Não viram nem conversaram, por exemplo, com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, mas registraram declarações que ele nunca deu e que são exatamente o contrário de tudo aquilo que escreveu.

Mentiram pra cacete. Nem sequer uma vírgula ou um ponto de exclamação da matéria são verdadeiros. É tudo lorota! Entrevistas inventadas, números manipulados, informações fantasiosas, dados falsos, provas forjadas, fabricação de fatos. Tudo isso a troco de quê? Só a questão da luta pela terra pode ajudar a explicar tamanha agressão aos fatos e tanta falta de pudor.

veja o restante no autor, http://altino.blogspot.com/

sexta-feira, 14 de maio de 2010

DO NPTO

Idéia genial do Celso, do NPTO, que apóio: nenhum acadêmico brasileiro, de nenhuma área, tem direito de dar entrevista para a Veja, ou colaborar com a revista de que forma seja, enquanto não houver um pedido de desculpas a Eduardo Viveiros de Castro.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Historiador Eric Hobsbawm aponta questões cruciais do século 21

Aos 92 anos, o historiador britânico Eric Hobsbawm continua um feroz crítico da prevalência do modelo político-econômico dos EUA. Para ele, o presidente americano Barack Obama, ao lidar com as consequências da crise econômica, desperdiçou a chance de construir maneiras mais eficazes de superá-la.
"Podemos desejar sucesso a Obama, mas acho que as perspectivas não são tremendamente encorajadoras", diz, na entrevista abaixo. "A tentativa dos EUA de exercer a hegemonia global vem fracassando de modo muito visível."
Hobsbawm discute ainda questões globais contemporâneas --como as tentativas de criar Estados supranacionais, a xenofobia e o crescimento econômico chinês-- à luz do que expressou em livros como "Era dos Extremos" e "Tempos Interessantes" (ambos publicados pela Cia. das Letras).

Pergunta - "Era dos Extremos" termina em 1991, com um panorama de avalanche global --o colapso das esperanças de avanços sociais globais da era de ouro [segundo Hobsbawm, 1949-73]. Quais são as mudanças mais importantes desde então na história mundial?

Eric Hobsbawm - Vejo quatro mudanças principais. Primeiro, o deslocamento do centro econômico do mundo do Atlântico Norte para o sul e o leste da Ásia. Isso já estava começando no Japão nas décadas de 1970 e 80, mas a ascensão da China desde os anos 1990 vem fazendo uma diferença real.
Em segundo lugar, é claro, a crise mundial do capitalismo, que vínhamos prevendo, mas que, mesmo assim, levou muito tempo para ocorrer. Em terceiro, a derrota retumbante da tentativa dos EUA de exercer a hegemonia global solo a partir de 2001 --e essa tentativa vem fracassando de modo muito visível.
Em quarto lugar, a emergência de um novo bloco de países em desenvolvimento, como entidade política --os Brics [Brasil, Rússia, Índia e China]--, não tinha acontecido quando escrevi "Era dos Extremos". E, em quinto lugar, a erosão e o enfraquecimento sistemático da autoridade dos Estados: dos Estados nacionais no interior de seus territórios e, em grandes regiões do mundo, de qualquer tipo de autoridade de Estado efetiva. Isso pode ter sido previsível, mas se acelerou em um grau que eu não teria previsto.
O que mais o surpreendeu desde então?
Hobsbawm - Nunca deixo de me espantar com a pura e simples insensatez do projeto neoconservador, que não apenas fez de conta que a América fosse o futuro, mas chegou a pensar que tivesse formulado uma estratégia e uma tática para alcançar esse objetivo. Pelo que consigo enxergar, eles não tinham uma estratégia coerente, em termos racionais.



Em segundo lugar --fato muito menor, mas significativo--, o ressurgimento da pirataria, algo que já tínhamos em grande medida esquecido; isso é novo. E a terceira coisa, que é ainda mais local: a derrocada do Partido Comunista da Índia (Marxista) em Bengala Ocidental [no leste da Índia], algo que eu realmente não teria previsto.
Prakash Karat, seu secretário-geral, disse-me recentemente que o partido se sentiu sitiado e assediado em Bengala Ocidental. E está prevendo sair-se muito mal diante deste novo Congresso nas eleições locais. Isso depois de governar por 30 anos como partido nacional, por assim dizer.

Pergunta - O sr. visualiza qualquer recomposição política do que foi no passado a classe trabalhadora?

Hobsbawm - Não em sua forma tradicional. Marx [1818-83] acertou, sem dúvida, quando previu a formação de grandes partidos de classe em determinado estágio da industrialização. Mas esses partidos, quando foram bem-sucedidos, não operaram puramente como partidos da classe trabalhadora: se queriam estender-se para além de uma classe estreita, o faziam como partidos do povo, estruturados em torno de uma organização inventada pela classe trabalhadora e voltada a alcançar os objetivos dela.
Mesmo assim, havia limites à consciência de classe. No Reino Unido, o Partido Trabalhista nunca conquistou mais de 50% dos votos. O mesmo se aplica à Itália, onde o Partido Comunista era muito mais um partido do povo. Na França, a esquerda era baseada sobre uma classe trabalhadora relativamente fraca, mas que conseguiu se reforçar como sucessora essencial da tradição revolucionária.

O declínio da classe operária manual na indústria parece, de fato, ter atingido seu estágio terminal. Ainda restam ou vão restar muitas pessoas fazendo trabalhos manuais, e a defesa das condições de trabalho delas continua a ser uma tarefa importante de todos os governos de esquerda. Mas essa defesa não pode mais ser o alicerce principal das esperanças dessas pessoas: elas não possuem mais potencial político, nem mesmo teoricamente, porque não possuem o potencial de organização da classe operária antiga.

Houve três outras mudanças negativas importantes. Uma delas, é claro, é a xenofobia --que, para a maior parte da classe trabalhadora é, nas palavras usadas certa vez por [August] Bebel, "o socialismo dos tolos": proteja meu emprego contra pessoas que estão competindo comigo.
Em segundo lugar, boa parte da mão de obra e do trabalho nos setores que a administração pública britânica qualificava no passado como "graus menores e manipulativos" não é permanente, mas temporária: são estudantes e migrantes trabalhando com catering [fornecimento de refeições para linhas aéreas, gastronomia hospitalar e cozinhas de navios], por exemplo. Assim, não é fácil enxergá-la como tendo potencial de ser organizada.


A única parte facilmente organizável desse tipo de mão de obra é a que é empregada por autoridades públicas, e isso devido ao fato de essas autoridades serem politicamente vulneráveis.
A terceira e mais importante mudança é, a meu ver, a divisão crescente gerada por um novo critério de classe: a saber, a aprovação em exames de escolas e universidades como critério de acesso a empregos. Pode-se dizer que se trata de uma meritocracia, mas ela é medida, institucionalizada e mediada por sistemas de ensino.
O que isso fez foi desviar a consciência de classe da oposição aos patrões para a oposição a representantes de alguma elite: intelectuais, elites liberais, pessoas que se erguem como superiores a nós.
Podem existir meios novos? Não podem mais ser em termos de uma classe única, mas, na minha opinião, isso nunca foi possível. Existe uma política progressista de coalizões, mesmo coalizões relativamente permanentes como as que unem, digamos, a classe média instruída, leitora do "The Guardian", e os intelectuais --os altamente instruídos, que de modo geral tendem a posicionar-se muito mais à esquerda que outros-- e a massa dos pobres e ignorantes.
Os dois grupos são essenciais para um movimento como esse, mas hoje talvez seja mais difícil uni-los do que era antes. É possível, em certo sentido, os pobres se identificarem com os multimilionários, como acontece nos EUA, dizendo "eu só precisaria de sorte para virar popstar". Mas não é possível dizer "bastaria um pouco de sorte para eu virar ganhador do Prêmio Nobel". Isso cria um problema real quando se trata de coordenar as posições políticas de pessoas que, objetivamente falando, poderiam estar do mesmo lado.

Pergunta - Que comparações o sr. traçaria entre a crise atual e a Grande Depressão?
Hobsbawm -[A crise de] 1929 não começou com os bancos --eles só caíram dois anos mais tarde. O que aconteceu, na verdade, foi que a Bolsa de Valores [de Nova York] desencadeou uma queda na produção, com um índice muito mais alto de desemprego e um declínio real muito maior na produção do que havia ocorrido em qualquer momento até então.
A depressão atual levou mais tempo sendo preparada que a de 1929, que pegou quase todos de surpresa. Deveria ter sido claro desde cedo que o fundamentalismo neoliberal gerou uma instabilidade enorme nas operações do capitalismo. Até 2008, isso pareceu afetar apenas as áreas periféricas --a América Latina nos anos 1990 e no início da década de 2000, o Sudeste Asiático e a Rússia.
Parece-me que o verdadeiro indício de algo grave acontecendo deveria ter sido o colapso da Long-Term Capital Management [fundo de investimentos sediado nos EUA], em 1998, que provou como estava errado o modelo inteiro de crescimento. Mas o incidente não foi visto como tal. Paradoxalmente, a crise levou vários empresários e jornalistas a redescobrirem Karl Marx como alguém que tinha escrito algo interessante sobre uma economia globalizada moderna. Não teve absolutamente nada a ver com a antiga esquerda.
A economia mundial em 1929 era menos global do que é hoje. Isso exerceu algum efeito, é claro --por exemplo, teria sido muito mais fácil então para as pessoas que perderam seus empregos retornarem a suas cidadezinhas de origem.
A existência da União Soviética não exerceu efeito concreto sobre a Depressão, mas seu efeito ideológico foi enorme: significava que havia uma alternativa. Desde os anos 1990, temos assistido à ascensão da China e das economias emergentes, fato que vem realmente exercendo um efeito concreto sobre a depressão atual, na medida em que esses países vêm ajudando a manter a economia mundial muito mais equilibrada do que ela estaria sem eles.
Na verdade, mesmo na época em que o neoliberalismo estava supostamente em plena forma, o crescimento real estava ocorrendo em muito grande medida nessas economias em desenvolvimento recente --particularmente na China. Tenho certeza de que, não fosse pela China, a queda de 2008 teria sido muito mais séria.


Pergunta - E o que dizer das consequências políticas?
Hobsbawm - A Depressão de 1929 levou a um desvio avassalador para a direita, com a exceção notável da América do Norte, incluindo o México, e da Escandinávia. Na França, a Frente Popular teve apenas 0,5% mais votos em 1936 do que tinha em 1932, de modo que sua vitória assinalou uma mudança na composição das alianças políticas, e não alguma coisa mais profunda. Na Espanha, apesar da situação quase ou potencialmente revolucionária, o efeito imediato e, de fato, também o efeito de longo prazo foi um desvio para a direita.
Na maioria dos outros países, especialmente na Europa central e do leste, a política se desviou para a direita de modo muito acentuado.
O efeito da crise atual não é tão nítido. Podemos imaginar que grandes mudanças políticas devem ocorrer não apenas nos EUA ou no Ocidente, mas quase certamente na China. Mas podemos apenas especular sobre quais serão essas mudanças.

Pergunta - O sr. antevê que a China continue a resistir ao declínio?

Hobsbawm - Não há nenhuma razão em especial para prever que a China pare de crescer de uma hora para outra. A depressão causou um choque grave ao governo chinês, na medida em que paralisou muitas indústrias, temporariamente. Mas o país ainda se encontra nos estágios iniciais do desenvolvimento econômico, e há espaço enorme para expansão.
Não quero tecer especulações sobre o futuro, mas podemos imaginar que, dentro de 20 ou 30 anos, a importância relativa da China no palco mundial será maior do que é hoje --pelo menos econômica e politicamente, mas não necessariamente em termos militares. É claro que o país ainda enfrenta problemas enormes; sempre há pessoas que se perguntam se a China vai conseguir continuar unida. Mas acho que as razões reais e ideológicas para que as pessoas desejem que a China se mantenha unida continuam muito fortes.

Pergunta - Que avaliação o sr. faz da administração [do presidente dos EUA, Barack] Obama?

Hobsbawm - As pessoas ficaram tão satisfeitas com a eleição de um homem como ele, especialmente em um momento de crise, que pensaram que certamente seria um grande reformador, que faria o que Roosevelt [presidente dos EUA, 1933-45, responsável pelo New Deal, série de programas econômicos e sociais contra a Grande Depressão] fez.
Mas Obama não o fez. Ele começou mal. Se compararmos os primeiros cem dias de Roosevelt com os primeiros cem dias de Obama, o que salta à vista é a disposição de Roosevelt em aceitar assessores não oficiais, em experimentar algo novo, comparada à insistência de Obama em se conservar no centro. Acho que ele desperdiçou sua chance.
Podemos desejar sucesso a Obama, mas acho que as perspectivas não são tremendamente encorajadoras.

Pergunta - Voltando-nos ao teatro mais explosivo de conflito internacional no mundo no presente, o sr. pensa que a solução de dois Estados, conforme visualizada no momento, é uma perspectiva digna de crédito para a Palestina?

Hobsbawm - Pessoalmente, duvido que ela exista neste momento. Seja qual for a solução possível, nada vai acontecer enquanto os americanos não decidirem mudar totalmente de posição e aplicar pressão sobre Israel.

Pergunta - Existem lugares do mundo nos quais o sr. acha que projetos positivos e progressistas ainda estejam vivos ou tenham chances de ser reativados?

Hobsbawm - Na América Latina, com certeza, a política e o discurso público geral ainda são conduzidos nos velhos termos do iluminismo --liberais, socialistas, comunistas. Esses são os lugares onde se encontram militaristas que falam como socialistas --que são socialistas. Encontram-se fenômenos como [o presidente] Lula, baseado em um movimento da classe trabalhadora, e [o presidente boliviano Evo] Morales.

Para onde isso vai levar é outra questão, mas a velha linguagem ainda pode ser falada, e os velhos modos políticos ainda estão disponíveis. Não estou inteiramente certo quanto à América Central, embora existam indícios de um ligeiro "revival" da tradição da revolução no próprio México --não que isso vá muito longe, na medida em que o México já foi virtualmente integrado à economia americana.

Acho que a América Latina se beneficiou da ausência de nacionalismo étnico-linguístico e de divisões religiosas, e isso fez com que fosse muito mais fácil conservar o discurso antigo. Sempre chamou minha atenção o fato de que, até muito recentemente, não se viam sinais de política étnica. Esta apareceu entre movimentos indígenas no México e no Peru, mas não em escala remotamente comparável ao que se viu na Europa, na Ásia ou na África.

É possível que projetos progressistas possam renascer na Índia, devido à força institucional da tradição secular de Nehru [que se tornou premiê da Índia após a independência do país, em 1947]. Mas isso não parece penetrar muito entre as massas, com a exceção de algumas regiões em que os comunistas têm tido ou tiveram apoio de massa, como em Bengala e Kerala, e possivelmente alguns grupos como os naxalitas ou os maoístas no Nepal.

Além disso, o legado dos velhos movimentos trabalhistas, socialistas e comunistas na Europa continua bastante forte. Os partidos fundados sob [a influência de Friedrich] Engels ainda são, em quase toda parte na Europa, potenciais partidos governistas ou os principais partidos de oposição. Desconfio que em algum momento a herança do comunismo, por exemplo nos Bálcãs ou até mesmo em parte da Rússia, possa se manifestar de maneiras que não podemos prever.

O que vai acontecer na China eu não sei. Mas não há dúvida de que eles estão pensando em termos diferentes, não em termos maoístas ou marxistas modificados.

Pergunta - O sr. sempre foi crítico do nacionalismo como força política, avisando à esquerda que não deve pintá-lo de vermelho. Mas também se manifestou de modo contundente contra violações de soberania nacional cometidas em nome de intervenções humanitárias. Após a falência dos tipos de internacionalismo nascidos do movimento trabalhista, que tipos são desejáveis hoje?

Hobsbawm - Em primeiro lugar, o humanitarismo, o imperialismo dos direitos humanos, não tem muito a ver com internacionalismo. É indicativo ou de um imperialismo renascido, que encontra nele uma desculpa adequada para cometer violações de soberania de Estados --podem ser desculpas absolutamente sinceras--, ou então, o que é mais perigoso, é uma reafirmação da crença na superioridade permanente da região que dominou o planeta do século 16 até o final do século 20.

Afinal, os valores que o Ocidente procura impor são valores especificamente regionais, não necessariamente universais. Se fossem valores universais, teriam que ser reformulados em termos diferentes. Não creio que estejamos lidando aqui com algo que seja nacional ou internacional em si.

Mas o nacionalismo exerce um papel nisso, sim, porque a ordem nacional baseada em Estados-nações --o sistema westfaliano-- tem sido no passado, para o bem ou para o mal, uma das melhores proteções contra a chegada de elementos externos a países. Não há dúvidas de que, uma vez que ela é abolida, o caminho fica aberto para guerras agressivas e expansionistas --de fato, é por essa razão que os EUA têm criticado a ordem westfaliana.

O internacionalismo, que é a alternativa ao nacionalismo, é uma coisa espinhosa. Ou é um slogan politicamente vazio, como foi, concretamente falando, no movimento trabalhista internacional --não queria dizer nada específico--, ou é uma maneira de assegurar uniformidade para organizações centralizadas e poderosas como a Igreja Católica ou a Internacional Comunista.

O internacionalismo significava que, como católico, você acreditava nos mesmos dogmas e participava das mesmas práticas, não importa quem você fosse ou onde vivesse. O mesmo acontecia, teoricamente, com os partidos comunistas. Em que medida isso realmente aconteceu, e em que estágio deixou de acontecer --mesmo dentro da Igreja Católica--, é outra questão. Não é realmente isso o que queríamos dizer com "internacionalismo".

O Estado-nação foi e continua a ser o quadro em que são tomadas todas as decisões políticas, domésticas e externas. Até muito recentemente, as atividades dos partidos trabalhistas --na verdade, todas as atividades políticas-- eram conduzidas quase inteiramente dentro do contexto de um Estado.

Mesmo dentro da UE [União Europeia], a política ainda é articulada em termos nacionais. Em outras palavras, não existe um poder de ação supranacional --apenas Estados separados formando uma coalizão.

É possível que o islã missionário e fundamentalista constitua uma exceção a essa regra, abarcando Estados, mas isso ainda não foi demonstrado concretamente. As tentativas anteriores de criação de Superestados pan-árabes, como a tentativa entre Egito e Síria, fracassaram precisamente devido à persistência das fronteiras existentes --antes coloniais-- dos Estados.

Pergunta - Então o sr. vê obstáculos inerentes a quaisquer tentativas de extrapolar as fronteiras do Estado-nação?

Hobsbawm - Economicamente e na maioria dos outros aspectos --inclusive culturalmente, até certo ponto--, a revolução das comunicações criou um mundo genuinamente internacional, no qual há poderes de decisão que se transnacionalizam, atividades que são transnacionais e, é claro, movimentos de ideias, comunicações e pessoas que são mais facilmente transnacionais do que jamais antes.

Mesmo as culturas linguísticas hoje são suplementadas por expressões idiomáticas das comunicações internacionais. Na política, contudo, não se vê nenhum sinal de que isso esteja acontecendo, e é essa a contradição básica no momento.

Uma das razões pelas quais não vem acontecendo é que, no século 20, a política foi democratizada em grau muito grande --a massa da população comum se envolveu nela. Para essa massa, o Estado é essencial para suas operações cotidianas normais e para suas possibilidades de vida.

Tentativas de fragmentar o Estado internamente, pela descentralização, foram empreendidas, em sua maioria nos últimos 30 ou 40 anos, e algumas delas não deixaram de ter algum sucesso --na Alemanha, com certeza, a descentralização vem tendo alguma medida de sucesso, e na Itália a regionalização vem sendo benéfica.

Mas as tentativas de criar Estados supranacionais não têm funcionado. A UE é o exemplo mais óbvio disso. Ela foi prejudicada, até certo ponto, pelo fato de seus fundadores terem pensado precisamente em termos de um Superestado análogo a um Estado nacional, apenas maior --sendo que essa não era uma possibilidade, creio, e hoje com certeza não é. A UE é uma reação específica no interior da Europa.

Em um ou outro momento se viram sinais de um Estado supranacional no Oriente Médio e em outros lugares, mas a UE é o único que parece ter ido adiante. Não acredito, por exemplo, que exista muita chance de uma federação maior surgir na América do Sul. Pessoalmente, eu apostaria contra essa possibilidade.

Logo, o problema ainda não resolvido continua a ser a seguinte contradição: por um lado, há entidades e práticas transnacionais que estão em processo de esvaziar o Estado, talvez ao ponto de levá-lo ao colapso. Mas, se isso acontecer --coisa que não é uma perspectiva imediata, não em Estados desenvolvidos--, quem se encarregará da função redistributiva e de outras funções até agora empreendidas unicamente pelo Estado?

No momento, temos uma espécie de simbiose e conflito. Esse é um dos problemas básicos de qualquer tipo de política popular hoje.

Pergunta - O nacionalismo claramente foi uma das grandes forças motrizes da política no século 19 e boa parte do século 20. O que o sr. diz da situação atual?

Hobsbawm - Não há dúvida alguma de que o nacionalismo foi, em grande medida, parte do processo de formação dos Estados modernos, que exigiu uma forma de legitimação diferente da do Estado tradicional teocrático ou dinástico. A ideia original do nacionalismo era a criação de Estados maiores, e me parece que essa função unificadora e de expansão foi muito importante.

Um exemplo típico foi o da Revolução Francesa, na qual, em 1790, pessoas apareceram dizendo: "Não somos mais delfineses ou sulistas --somos todos franceses".

Em uma etapa posterior, dos anos 1870 em diante, vemos movimentos de grupos no interior desses Estados impulsionando a criação de seus Estados independentes. Isso, é claro, gerou o momento wilsoniano de autodeterminação --se bem que, felizmente, em 1918-19, ele ainda fosse corrigido, até certo ponto, por algo que desde então desapareceu por completo, a saber, a proteção das minorias.

Era reconhecido, mesmo que não pelos próprios nacionalistas, que nenhum desses novos Estados-nações era, de fato, étnica ou linguisticamente homogêneo. Mas, depois da Segunda Guerra [1939-45], os pontos fracos das situações existentes foram enfrentados, não apenas pelos vermelhos, mas por todos, pela criação proposital e forçada da homogeneidade étnica. Isso provocou uma quantidade enorme de sofrimento e crueldade, e, no longo prazo, também não funcionou.

Apesar disso, até aquele período, o tipo separatista de nacionalismo operou razoavelmente bem. Ele foi reforçado após a Segunda Guerra Mundial pela descolonização, que, por sua própria natureza, havia criado mais Estados; e foi fortalecido ainda mais, no final do século, pela queda do império soviético [em 1991], que também criou novos Miniestados separados, incluindo muitos que, assim como aconteceu com as colônias, não tinham desejado de fato separar-se, mas aos quais a independência foi imposta pela força da história.

Não posso deixar de pensar que a função dos Estados separatistas pequenos, que se multiplicaram tremendamente desde 1945, mudou. Para começo de conversa, eles são reconhecidos como existentes. Antes da Segunda Guerra, os Miniestados --como Andorra, Luxemburgo e todos os outros-- nem sequer eram vistos como parte do sistema internacional, exceto pelos colecionadores de selos.

A ideia de que tudo, até a Cidade do Vaticano, hoje é um Estado, potencialmente membro das Nações Unidas, é nova. Está muito claro, também, que, em termos de poder, esses Estados não são capazes de exercer o papel de Estados tradicionais --não possuem a capacidade de travar guerra contra outros Estados.

Tornaram-se, na melhor das hipóteses, paraísos fiscais ou bases subalternas úteis para as instâncias decisórias transnacionais. A Islândia é um bom exemplo disso, e a Escócia não fica muito atrás.

A função histórica de criar uma nação como Estado-nação deixou de ser a base do nacionalismo. Pode-se dizer que não é mais um slogan muito convincente. Pode ter sido eficaz, no passado, como meio de criar comunidades e organizá-las contra outras unidades políticas ou econômicas.

Hoje, porém, o fator xenofóbico do nacionalismo é cada vez mais importante. Quanto mais a política foi democratizada, maior foi o potencial para isso. As causas da xenofobia são muito maiores do que eram no passado. Trata-se de algo muito mais cultural que político --basta pensar na ascensão do nacionalismo inglês ou escocês nos últimos anos--, mas nem por isso menos perigoso.

Pergunta - O fascismo não incluía essas formas de xenofobia?

Hobsbawm - O fascismo ainda foi, até certo ponto, parte da investida para criar nações maiores. Não há dúvida de que o fascismo italiano foi um grande passo à frente na conversão de calabreses e úmbrios em italianos; e mesmo na Alemanha, foi apenas em 1934 que os alemães puderam ser definidos como alemães, e não alemães pelo fato de serem suábios, francos ou saxões.

É verdade que os fascismos alemão e europeu central e oriental foram acirradamente contrários a outsiders --judeus, em grande medida, mas não apenas eles. E, é claro, o fascismo forneceu uma garantia menor contra os instintos xenofóbicos.

Uma das vantagens enormes dos movimentos trabalhistas antigos era que eles forneciam essa garantia. Isso ficou muito claro na África do Sul: não fosse pelo compromisso das organizações de esquerda tradicionais com a igualdade e a não discriminação, teria sido muito mais difícil resistir à tentação de cometer atos de vingança contra os africânderes.

Pergunta - O sr. destacou as dinâmicas separatistas e xenofóbicas do nacionalismo. O sr. vê isso como algo que hoje atua nas margens da política mundial, e não no teatro principal dos acontecimentos?

Hobsbawm - Sim, acho que isso é provavelmente certo --embora existam regiões em que o nacionalismo causou danos enormes, como no sudeste da Europa. Ainda é verdade, é evidente, que o nacionalismo --ou o patriotismo, ou a identificação com um povo específico, que não precisa necessariamente ser definido por critérios étnicos-- seja um enorme fator de legitimação dos governos.

Isso é claramente o caso na China. Um dos problemas da Índia, hoje, é que não existe nada exatamente assim por lá. Os EUA, obviamente, não podem ser definidos por uma unidade étnica, mas certamente têm sentimentos nacionalistas fortes.

Pergunta - Como o sr. prevê a dinâmica social da imigração contemporânea hoje, num momento em que tantos migrantes chegam anualmente à UE e aos EUA? O sr. prevê a emergência gradual de outro caldeirão cultural na Europa, não dessemelhante ao americano?

Hobsbawm - Mas o caldeirão cultural nos EUA deixou de sê-lo desde os anos 1960. Ademais, no final do século 20, a migração já era algo realmente muito diferente das migrações de períodos anteriores, em grande medida porque, ao emigrar, as pessoas já não rompem os vínculos com o passado no mesmo grau em que o faziam antes.

É possível continuar vivendo em dois, possivelmente até três, mundos ao mesmo tempo, e a identificar-se com dois ou três lugares distintos. É possível continuar a ser guatemalteco mesmo vivendo nos EUA. Também há situações como as da UE, nas quais, concretamente, a imigração não gera a possibilidade de assimilação. Um polonês que vem para o Reino Unido não é visto como nada além de um polonês que vem trabalhar no país.

Isso é claramente novo e muito diferente da experiência de pessoas da minha geração, por exemplo --a geração dos emigrados políticos, não que eu tenha sido um--, na qual nossa família era britânica, mas culturalmente nunca deixávamos de ser austríacos ou alemães; mas, apesar disso, acreditávamos realmente que deveríamos ser ingleses.

Mesmo quando um desses emigrados retornasse a seu próprio país, mais tarde, não era exatamente a mesma coisa --o centro de gravidade tinha se deslocado. Sempre há exceções: o poeta Erich Fried [1921-88], que viveu em Willesden (zona noroeste de Londres) por 50 anos, continuou, de fato, a viver na Alemanha.

Acredito realmente que é essencial conservar as regras básicas da assimilação --que os cidadãos de um país particular devem comportar-se de determinada maneira e gozar de determinados direitos, e que esses comportamentos e direitos devem defini-los, e que isso não deve ser enfraquecido por argumentos multiculturais.

A França havia, apesar de tudo, integrado mais ou menos tantos de seus imigrantes estrangeiros quanto os EUA, relativamente falando, e, mesmo assim, o relacionamento entre os locais e os ex-imigrantes é quase certamente melhor lá. Isso acontece porque os valores da República Francesa continuam a ser essencialmente igualitários e não fazem nenhuma concessão pública real.

Seja o que for que você faça no âmbito pessoal --era também esse o caso nos EUA no século 19--, publicamente esse é um país que fala francês. A dificuldade real não será tanto com os imigrantes quanto com os locais. É em lugares como Itália e Escandinávia, que não tinham tradições xenofóbicas prévias, que a nova imigração vem criando problemas sérios.

Pergunta - Hoje é amplamente disseminada a ideia de que a religião tenha retornado como força imensamente poderosa em um continente após o outro. O sr. vê isso como um fenômeno fundamental ou como fenômeno mais passageiro?

Hobsbawm - Está claro que a religião --entendida como a ritualização da vida, a crença em espíritos ou entidades não materiais que influenciariam a vida e, o que não é menos importante, como um elo comum entre comunidades-- está tão amplamente presente ao longo da história que seria um equívoco enxergá-la como fenômeno superficial ou que esteja destinado a desaparecer, pelo menos entre os pobres e fracos, que provavelmente sentem mais necessidade de seu consolo e também de suas potenciais explicações do porquê de as coisas serem como são.

Existem sistemas de governo, como o chinês, que não possuem concretamente qualquer coisa que corresponda ao que nós consideraríamos ser religião. Eles demonstram que isso é possível, mas acho que um dos erros do movimento socialista e comunista tradicional foi optar pela extirpação violenta da religião em épocas em que poderia ter sido melhor não fazê-lo. Uma das grandes transformações interessantes advindas após a queda de Mussolini na Itália foi quando [Palmiro] Togliatti [secretário-geral do Partido Comunista Italiano] deixou de discriminar os católicos praticantes --e com razão.

De outro modo, ele não teria conseguido que 14% das donas de casa votassem nos comunistas na década de 1940. Isso mudou o caráter do Partido Comunista Italiano, que passou de partido leninista de vanguarda a partido classista de massas ou partido do povo.

Por outro lado, é verdade que a religião deixou de ser a linguagem universal do discurso público; e, nessa medida, a secularização vem sendo um fenômeno global, embora apenas em algumas partes do mundo ela tenha enfraquecido gravemente a religião organizada.

Para as pessoas que continuam a ser religiosas, o fato de hoje existirem duas linguagens do discurso religioso gera uma espécie de esquizofrenia, algo que pode ser visto com bastante frequência entre, por exemplo, os judeus fundamentalistas na Cisjordânia --eles acreditam em algo que é evidentemente tolice, mas trabalham como especialistas nisso.

O movimento islâmico atual é composto, em grande medida, por jovens tecnólogos e técnicos desse tipo. Com certeza, as práticas religiosas vão mudar muito substancialmente. Se isso vai realmente produzir uma secularização maior não está claro. Por exemplo, não sei até que ponto a grande mudança na religião católica no Ocidente --ou seja, a recusa das mulheres em pautar-se pelas normas sexuais-- realmente levou as mulheres católicas a serem menos crentes.

O declínio das ideologias do iluminismo deixou um espaço político muito maior para a política religiosa e as versões religiosas de nacionalismo. Mas não creio que todas as religiões tenham vivido uma ascensão grande. Muitas delas estão claramente em declínio.

O catolicismo está lutando arduamente, mesmo na América Latina, contra a ascensão de seitas evangélicas protestantes, e tenho certeza de que está se mantendo na África apenas graças a concessões aos hábitos e costumes sociais que eu duvido que tivessem sido feitas no século 19.

As seitas evangélicas protestantes estão em ascensão, mas não está claro até que ponto são mais que uma minoria pequena entre os setores sociais com mobilidade ascendente, como era o caso antigamente com os não conformistas na Inglaterra. Tampouco está claro que o fundamentalismo judaico, que causa tanto mal em Israel, seja um fenômeno de massas.

A única exceção é o islã, que vem continuando a se expandir sem nenhuma atividade missionária efetiva nos últimos dois séculos. Dentro do islã, não está claro se tendências como o movimento militante atual pela restauração do califado representam mais que uma minoria ativista. Contudo, me parece que o islã possui grandes trunfos que favorecem sua expansão contínua --em grande medida, porque confere às pessoas pobres o sentimento de que valem tanto quanto todas as outras e que todos os muçulmanos são iguais.

Pergunta - Não se poderia dizer o mesmo do cristianismo?

Hobsbawm - Mas um cristão não crê que vale tanto quanto qualquer outro cristão. Duvido que os cristãos negros acreditem que valham tanto quanto os colonizadores cristãos, enquanto alguns muçulmanos negros acreditam nisso, sim. A estrutura do islã é mais igualitária, e o elemento militante é mais forte no islã.

Recordo-me de ter lido que os mercadores de escravos no Brasil deixaram de importar escravos muçulmanos porque eles insistiam em rebelar-se sempre. Onde estamos, esse apelo encerra perigos consideráveis --em certa medida, o islã deixa os pobres menos receptivos a outros apelos por igualdade.

Os progressistas no mundo muçulmano sabiam desde o início que não haveria maneira de afastar as massas do islã; mesmo na Turquia, tiveram que encontrar alguma forma de convivência --aliás, esse foi provavelmente o único lugar onde isso foi feito com êxito.

Pergunta - A ciência foi uma parte central da cultura da esquerda antes da Segunda Guerra, mas, ao longo das duas gerações seguintes, virtualmente desapareceu como elemento central do pensamento marxista ou socialista. O sr. acha que o destaque crescente das questões ambientais deverá reaproximar a ciência da política radical?

Hobsbawm - Tenho certeza de que os movimentos radicais vão se interessar pela ciência. O ambiente e outras preocupações geram razões fundamentadas para combater a fuga da ciência e da abordagem racional aos problemas, fuga que se tornou bastante ampla a partir dos anos 1970 e 80. Mas, com relação aos próprios cientistas, não creio que isso vá acontecer.

Diferentemente dos cientistas sociais, não há nada que leve os cientistas naturais a se aproximarem da política. Historicamente falando, eles, na maioria dos casos, têm sido apolíticos ou seguiram a política padrão de sua classe.

Existem exceções --entre os jovem na França do início do século 19, digamos, e, muito notavelmente, nas décadas de 1930 e 1940. Mas esses são casos especiais, que se devem ao reconhecimento por parte dos próprios cientistas de que seu trabalho estava se tornando cada vez mais essencial para a sociedade, mas que a sociedade não se dava conta disso.

O trabalho crucial sobre isso é "The Social Function of Science" [A Função Social da Ciência, MIT Press], de [J.D.] Bernal, que exerceu efeito enorme sobre outros cientistas. É claro que o ataque deliberado de Hitler contra tudo o que a ciência representava ajudou.

No século 20, as ciências físicas estiveram no centro do desenvolvimento, enquanto no século 21 está claro que são as ciências biológicas que estão. Pelo fato de estarem mais próximas da vida humana, pode haver um elemento de politização maior. Mas há um fato contrário, com certeza: cada vez mais, os cientistas têm sido integrados ao sistema do capitalismo, tanto como indivíduos quanto no interior de organizações científicas.

Quarenta anos atrás, teria sido impensável alguém falar em patentear um gene. Hoje, patenteia-se um gene na esperança de virar milionário, e esse fato afastou um grupo bastante grande de cientistas da política da esquerda. A única coisa que ainda poderá politizá-los é a luta contra governos ditatoriais ou autoritários que interferem em seu trabalho.

Um dos fenômenos mais interessantes na União Soviética foi que os cientistas lá foram forçados a se politizar, porque receberam o privilégio de um certo grau de direitos e liberdades --de tal maneira que pessoas que, de outro modo, não teriam passado de leais fabricantes de bombas de hidrogênio se tornaram líderes dissidentes.

Não é impossível que isso venha a ocorrer em outros países, embora não existam muitos no momento. É claro que o ambiente é uma questão que pode manter muitos cientistas mobilizados. Se houver um desenvolvimento maciço de campanhas em torno das mudanças climáticas, então é evidente que os especialistas se verão engajados, em grande medida combatendo os reacionários e os que nada sabem. Logo, nem tudo está perdido.

Pergunta - O que o atraiu originalmente para o tema das formas arcaicas de movimento social, em "Rebeldes Primitivos", e até que ponto o sr. planejou isso de antemão?

Hobsbawm - Isso surgiu a partir de duas coisas. Quando percorri a Itália na década de 1950, eu não parava de topar com fenômenos aberrantes --representações partidárias no sul do país elegendo testemunhas de Jeová como secretários, e assim por diante; pessoas que refletiam sobre problemas modernos, mas não nos termos aos quais estávamos acostumados.

Em segundo lugar, especialmente após 1956, isso expressava uma insatisfação geral com a versão simplificada que tínhamos do desenvolvimento de movimentos populares da classe trabalhadora.

Em "Rebeldes Primitivos", eu estava muito longe de ser crítico da leitura padrão-- pelo contrário, eu observava que esses outros movimentos não chegariam a nenhum lugar a não ser que, mais cedo ou mais tarde, adotassem o vocabulário e as instituições modernas.

A despeito disso, ficou claro para mim que não bastava simplesmente ignorar esses outros fenômenos, dizer que sabíamos como todas essas coisas operam. Eu produzi uma série de ilustrações desse tipo, estudos de caso, e disse: "Estes não se encaixam".

Isso me levou a pensar que, antes mesmo da invenção do vocabulário, dos métodos e das instituições políticas modernas, existiam maneiras como as pessoas praticavam política que englobavam ideias básicas sobre as relações sociais --entre elas, em grau não menor, as relações entre poderosos e fracos, governantes e governados-- que possuíam uma certa lógica e se encaixavam.

Mas eu realmente não tive oportunidade de levar esse estudo adiante.

Pergunta - Em "Tempos Interessantes" [publicado em 2002], o sr. expressou reservas consideráveis em relação ao que eram na época modismos históricos recentes. O sr. acha que o cenário historiográfico continua relativamente inalterado?

Hobsbawm - Estou cada vez mais impressionado com a escala do desvio intelectual verificado na história e nas ciências sociais desde os anos 1970. Minha geração de historiadores, que de modo geral transformou o ensino da história, além de muitas outras coisas, procurou essencialmente estabelecer um vínculo permanente, uma fertilização mútua, entre a história e as ciências sociais; era um esforço que datava dos anos 1890.

A disciplina econômica seguiu uma trajetória diferente. Dávamos como certo que estávamos falando de algo real: de realidades objetivas, embora, desde Marx e a sociologia do conhecimento, soubéssemos que as pessoas não registram a verdade simplesmente como ela é.

Mas o que era realmente interessante eram as transformações sociais. A Grande Depressão foi instrumental nesse aspecto, porque reapresentou o papel exercido por grandes crises nas transformações históricas --a crise do século 14, a transição ao capitalismo. Não foram, na realidade, os marxistas que introduziram isso --foi Wilhelm Abel, na Alemanha, o primeiro a fazer a releitura dos fatos da Idade Média à luz da Grande Depressão dos anos 1930. Éramos um grupo que procurava resolver problemas, que se preocupava com as grandes questões. Havia outras coisas cuja importância diminuíamos: éramos tão contrários à história tradicionalista, à história dos governantes e figuras importantes, ou mesmo à história das ideias, que rejeitávamos isso tudo.

Em algum momento da década de 1970, ocorreu uma mudança acentuada. Em 1979-80 a [revista de história] "Past & Present" publicou uma troca de ideias entre Lawrence Stone e mim sobre o "revival da narrativa" --"o que está acontecendo com as grandes perguntas 'por quê'?". De lá para cá, as grandes perguntas transformativas vêm sendo esquecidas pelos historiadores, de maneira geral.

Ao mesmo tempo, ocorreu uma expansão enorme do âmbito da história --passou a ser possível escrever sobre qualquer coisa que se quisesse: objetos, sentimentos, práticas. Parte disso era interessante, mas também se viu um aumento enorme do que se poderia chamar de história de fanzine, na qual grupos escrevem com o objetivo de se sentirem mais positivos a seu próprio respeito.

O exemplo clássico disso é o dos indígenas americanos que se recusaram a acreditar que seus ancestrais tivessem migrado da Ásia, afirmando "sempre estivemos aqui".

Boa parte desse desvio foi político, em algum sentido. Os historiadores oriundos de 1968 não se interessavam mais pelas grandes perguntas --pensavam que todas já tinham sido respondidas. Estavam muito mais interessados nos aspectos voluntários ou pessoais. O [periódico] "History Workshop" foi um desenvolvimento tardio desse tipo.

Não acho que os novos tipos de história tenham produzido quaisquer mudanças dramáticas. Na França, por exemplo, a história pós-Braudel não se compara à que foi feita pela geração dos anos 1950 e 1960. Pode haver trabalhos ocasionais muito bons, mas não é a mesma coisa. E estou inclinado a pensar que o mesmo pode ser dito do Reino Unido. Houve um elemento de antirracionalismo e de relativismo nessa reação dos anos 1970, que, ao todo, constatei ser hostil à história.

Por outro lado, houve alguns avanços positivos. O mais positivo destes foi a história cultural, que todos nós, inegavelmente, tínhamos deixado de lado. Não prestamos atenção suficiente à história do modo como ela de fato se apresenta a seus atores.

O livro "A Europa e os Povos Sem História" [Edusp], de Eric Wolf, é um exemplo de uma mudança positiva nesse respeito.

Também ocorreu uma ascensão enorme da história global. Entre não historiadores tem havido muito interesse pela história geral --ou seja, em como a raça humana começou. Graças a pesquisas de DNA, hoje sabemos muita coisa sobre a expansão de humanos através do planeta. Em outras palavras, dispomos de uma base genuína para uma história mundial.

Outro avanço positivo, em grande medida por parte dos americanos e em parte, também, dos historiadores pós-coloniais, tem sido a reabertura da questão da especificidade da civilização europeia ou atlântica e da ascensão do capitalismo -- "The Great Divergence" [Princeton University Press], de [Kenneth] Pomeranz, e assim por diante. Isso me parece muito positivo, embora seja inegável que o capitalismo moderno surgiu em partes da Europa, e não na Índia ou China.

Pergunta - Se o sr. tivesse que escolher tópicos ou campos ainda inexplorados e que representam desafios importantes para historiadores futuros, quais seriam?

Hobsbawm - O grande problema é um problema muito geral. Segundo padrões paleontológicos, a espécie humana transformou sua existência com velocidade espantosa, mas o ritmo das transformações tem variado tremendamente. Isso claramente indica um controle crescente sobre a natureza, mas não devemos imaginar que sabemos para onde isso nos está conduzindo.

Os marxistas focaram, com razão, as transformações no modo de produção e em suas relações sociais como sendo geradoras de transformações históricas.

Contudo, se pensarmos em termos de como "os homens fazem sua própria história", a grande questão é a seguinte: historicamente, comunidades e sistemas sociais buscaram a estabilização e a reprodução, criando mecanismos para prevenir-se contra saltos perturbadores no desconhecido. A resistência à imposição de transformações de fora para dentro ainda é um fator preponderante na política mundial, hoje. Como, então, humanos e sociedades estruturados para resistir a transformações dinâmicas se adaptam a um modo de produção cuja essência é o desenvolvimento dinâmico interminável e imprevisível?

Os historiadores marxistas poderiam beneficiar-se da pesquisa das operações dessa contradição fundamental entre os mecanismos que promovem transformações e aqueles que são voltados a opor resistência a elas.

Esta entrevista foi publicada originalmente na edição de janeiro/fevereiro da revista britânica "New Left Review".
Tradução de Clara Allain.

domingo, 7 de março de 2010

Cotas raciais: DEM corresponsabiliza negros pela escravidão


04 de março de 2010 07h23 atualizado às 07h24



Durante a discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o sistema de cotas raciais nas universidades, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) afirmou que negros também eram responsáveis pelo tráfico de escravos. "Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (...) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da pauta econômica africana", disse o senador. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

De acordo com a reportagem, Demóstenes ainda defendeu que a miscigenação no Brasil se deu de forma consensual, o que também iria contra as cotas: "nós temos uma história tão bonita de miscigenação. (Fala-se que) as negras foram estupradas (...) Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual". Ainda segundo o jornal, o DEM considera as cotas inconstitucionais, pois iriam contra o princípio da igualdade dos candidatos no vestibular.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Agência Judaica vê 2009 como o ano mais antissemita desde a 2ª guerra

O relatório da Agência Judaica indica que 2009 foi o ano em que mais foram registrados ataques antissemitas desde a Segunda Guerra Mundial, e metade dos países da Europa Ocidental pensam que os judeus "praticam extorsões".No documento, elaborado pela Universidade de Bielefeld na Alemanha a pedido da Agência Judaica e do Ministério de Assuntos da Diáspora, 42% dos entrevistados consideram que "os judeus exploram (as perseguições) do passado para extorquir dinheiro".

Esse percentual chega a 75% na Espanha e na Polônia. Nesses países, conforme o relatório, o preconceito contra os judeus é maior.

O presidente da Agência Judaica, Natan Sharansky, apresentou o documento neste domingo em entrevista coletiva na véspera do Dia Internacional da Luta contra o antissemitismo e o Dia da Lembrança do Holocausto na Europa em 27 de janeiro.

A pesquisa revela que em 2009 ocorreram mais atos antissemitas que em qualquer outro ano posterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), na qual os nazistas exterminaram 6 milhões de judeus.

Nos primeiros três meses de 2009 - os que seguiram à ofensiva israelense "Chumbo Fundido" em Gaza - ocorreram tantos incidentes antissemitas como os registrados em todo o ano 2008.
Neste domingo, os resultados do estudo foram analisados no Fórum da Luta contra o antissemitismo do Governo israelense, que acompanha os fenômenos antissemitas no mundo por meio de organismos como a Agência Judaica e em colaboração com instituições e fundações de todo o mundo.

O documento aponta que na primeira metade do ano passado 631 incidentes ocorreram na França, contra os 474 no mesmo período de 2008.

Pelo menos duas mortes foram relacionadas com atos de antissemitismo nos EUA em 2009, a de uma estudante universitária, em Connecticut, e outro de um guarda de segurança não judeu do Museu do Holocausto em Washington.

O aumento do antissemitismo procede tanto da direita quanto esquerda, conforme o levantamento da Agência Judaica.Na entrevista coletiva de divulgação do relatório os responsáveis advertiram sobre fenômenos como um vídeo que está circulando na internet nos últimos dias que acusa Israel de roubar órgãos em hospital de campanha montado por seu Exército no Haiti.

sábado, 7 de novembro de 2009

Entrevista para o jornal Folha de São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/folha/podcasts/ult10065u645294.shtml

http://media.folha.uol.com.br/cotidiano/2009/10/29/adriana_dias.mp3

Holocaust survivors at greater risk for cancer, study finds

Holocaust survivors at greater risk for cancer, study finds

By Madison Park, CNN

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Woman called 'the survivor'
STORY HIGHLIGHTS
  • Cancer rates higher for Jews who were possibly exposed to the Holocaust
  • Mental stress and caloric deprivation could contribute to later health problems
  • Five-year cancer survival rates were worse, study author reported

(CNN) -- The 12-year-old girl plucked cold, slimy potato peels out of the garbage containers in a village in eastern Poland. When those trash scraps became scarce, she ate clover.

Crumbs and decomposed food sickened Betty Potash Gold and her family members, causing diarrhea and bloody vomiting, as they hid from the Nazis.

Although Gold lived through extreme hunger, mental duress and near-death experiences during the Holocaust, she and other survivors face another peril decades after the war.

"Jewish survivors of World War II who were potentially exposed to the Holocaust were at a higher risk for cancer occurrence later on in life than those not exposed," concluded a study published in the November issue of the Journal of the National Cancer Institute.

Intense calorie deprivation, such as what Gold experienced, has long-term effects on survivors, said Dr. Micha Barchana, one of the study authors.

"We know that people who went through the Holocaust suffered severe calorie restriction," he said. "Calories they were taking in were 200 to 800 in this period."

Although studies with rhesus monkeys and mice suggest that limiting calories conferred cancer-protecting benefits, this study showed the opposite effect. People subjected to the intense caloric deprivation, especially at an early age, had greater likelihood of cancer.

Researchers at the University of Haifa in Israel compared the rates of more than 300,000 European Jews who immigrated before or during World War II as the control group and those who left after the war as the exposed group.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

x-Skinhead Leader Gets 3-1/2-Year Sentence for Racketeering


Posted in skinheads by Sonia Scherr on November 2, 2009

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The former leader of a violent racist skinhead group will serve nearly 3½ years in federal prison on a racketeering charge.

Jeremy Robinson, 37, was sentenced on Oct. 15 after pleading guilty to a felony charge of interstate transportation in aid of a racketeering enterprise, according to court documents. Though Robinson did not deal drugs, he tried to help his cousin distribute a large amount of marijuana. In court documents, Robinson acknowledged renting a car for another man to bring marijuana from Texas to Indiana. The man, a courier in the cousin’s large-scale drug business, picked up the load but failed to get far before he was pulled over by Texas police, who found 90 pounds of marijuana in the trunk. Robinson also let his cousin use his tattoo shop in Valparaiso, Ind., to receive shipments of marijuana from Texas.

Jeremy RobinsonRobinson was a founder of the now-defunct Outlaw Hammerskins, the group whose challenge in 1999 to the nationwide dominance of Hammerskin Nation signaled the beginning of the end of any unified skinhead movement. The Outlaw Hammerskins emerged after the Dallas-based leadership of Hammerskin Nation ordered an Indiana chapter of Northern Hammerskins to remove the “colors” (insignia) of a wayward member. Several Northern Indiana Hammerskins proceeded to beat the offender with a pool cue and threatened to burn off his Hammerskin tattoos with a blowtorch. The Dallas leaders ordered them to turn in their patches. A dozen or so of the Indiana crew left the Hammerskins to form their own renegade group, the Outlaw Hammerskins.

Under Robinson’s leadership, the group forged close ties with the Hells Angels Motorcycle Club, even designing its structure, rules and patches to closely resemble the Hells Angels. Robinson also gave the moniker “Brown Eric” to Eric “The Butcher” Fairburnafter pronouncing Fairburn “too brown” to be an Outlaw. (Fairburn was allowed to hang out with the Outlaw Hammerskins, however, and in 2003 he co-founded the Indiana-based Hoosier State Skinheads along with several former members of the Outlaw
Hammerskins.) Infighting caused the Outlaw Hammerskins’ demise in 2002, but not before the group had left its mark on skinhead culture by defying the once-unquestionable authority of Hammerskin Nation.

In court documents, Robinson said he joined a skinhead group in 1992 because he was upset about his parents’ divorce. The group “became his replacement family for a period of time,” according to a sentencing memo. Between 2000 and 2002, Robinson received two misdemeanor convictions for battery and one for driving while intoxicated. Tired of always being angry, he renounced skinhead life around the time the Outlaws disbanded seven years ago, the memo said. “Mr. Robinson notes that he has evolved from an angry, heavy drinking skinhead who routinely appeared in criminal court to a responsible father and businessman,” a judge wrote in another memo. The judge sentenced Robinson to 41 months in prison, 10 months less than federal guidelines recommended. As part of the plea agreement, three other drug charges were dismissed.

SPLC Senior Intelligence Analyst Laurie Wood contributed to this report.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Jornal de Harvard publica anúncio negando o Holocausto; propaganda gera polêmica

RIO - A Universidade de Harvard, uma das mais prestigiadas instituições acadêmicas do mundo, recebeu fortes críticas por permitir a publicação de um anúncio que questionava o Holocausto. Segundo a CNN, a polêmica propaganda saiu no jornal "The Harvard Crimson" e colocava em dúvida o extermínio do antigo campo Birkenau, também conhecido como Auschwitz II, onde milhares de pessoas foram executadas.

Os responsáveis pelo jornal em Harvard reconheceram o erro e pediram desculpas. Em resposta à comoção criada em torno da publicação do anúncio, o presidente da "Crimson", Maxwell L. Child, emitiu um comunicado justificando o erro pelo período de férias, já que não houve revisão editorial entre a inclusão do anúncio e sua publicação no papel.

"Trabalharemos muito para evitar lapsos como esses no futuro, e esperamos que nossos leitores aceitem que o erro é um fracasso logístico." O jornal foi recentemente nomeada como o melhor jornal de notícias e reportagens de todas as universidades americanas.

O anúncio, pago por Bradley R. Smith e sua comissão de debate aberto sobre o Holocausto, lança perguntas sobre o papel do general Eisenhower durante a Segunda Guerra Mundial e sobre a existência de câmaras de gás dos nazistas. Smith garantiu que não houve qualquer impedimento por parte do jornal no momento da publicação. Ele afirmou não se surpreender com a polêmica porque o extermínio de judeus é "um tabu desde o começo".

domingo, 17 de maio de 2009

O triunfo do carisma

Matéria da Folha. Imperdível. Postada pelo marido fantástico.

UM DOS PRINCIPAIS HISTORIADORES DO NAZISMO, O INGLÊS IAN KERSHAW MOSTRA COMO HITLER CHEGOU AO PODER E EXPLICA POR QUE O REGIME NÃO PROSPEROU EM OUTROS PAÍSES


O nazismo não nasceu do psiquismo ou de uma característica específica da
população alemã
MARTHA ZUBERMARTINE FOURKIEN

Apesar da fama que seus trabalhos sobre o nazismo lhe garantiu na comunidade internacional, Ian Kershaw continua apegado a sua Inglaterra natal.Ele concedeu a entrevista abaixo na Universidade de Sheffield, onde leciona história contemporânea. Kershaw fala de seus estudos sobre o nazismo com confiança tranquila, revelando conhecimento aprofundado de inúmeras publicações sobre o assunto.

Como esse homem sossegado se tornou um dos maiores especialistas no regime hitlerista? Um pouco por acaso, explica. Duas circunstâncias orientaram sua escolha.Por um lado, seu interesse nas questões políticas desse período e na história social; por outro, as aulas de alemão que cursou no Instituto Goethe de Manchester.Em 1972 e 1974, duas estadas na Baviera reforçaram seu interesse pela civilização alemã. Trabalhou no prestigioso Instituto de História do Tempo Presente, em Munique, dirigido pelo historiador alemão Martin Broszat.Dessa época nasceria o livro "Popular Opinion and Political Dissent in the Third Reich" [Opinião Popular e Dissenso Político no Terceiro Reich].

Uma coisa levou a outra, e várias questões começaram a despertar a curiosidade do historiador: como explicar o "sucesso" do nazismo? A população alemã era impregnada de um antissemitismo mais profundo que o antijudaísmo tradicional dos países católicos? Por que, entre todas as economias industriais e capitalistas, a Alemanha foi a única a ter produzido uma ditadura fascista tão extrema?

PERGUNTA - Hitler elaborou uma teoria política ou aproveitou circunstâncias favoráveis para instalar sua ditadura? A quem, de fato, cabe a responsabilidade pelo nazismo?

IAN KERSHAW - Hitler foi alguém que tinha opiniões muito fortes e decididas sobre qualquer assunto. Radicalizava tudo e podia igualmente bem se enfurecer rapidamente ou entusiasmar-se de maneira desmedida.Em Viena, ele era solitário e pouco sociável. Na Primeira Guerra, foi considerado um soldado muito corajoso, mas um pouco excêntrico, que se mantinha à margem dos outros.Mas em 1919, em Munique, ele se deu conta de que podia ser ouvido. Ele diz em dois momentos do livro "Minha Luta": "Então tomei consciência de que eu podia falar". Essa visão muito maniqueísta das coisas se tornou um trunfo formidável quando ele começou a falar com as pessoas nas cervejarias de Munique.Foi essa visão de conjunto, taticamente muito flexível, que lhe permitiu, nos anos 1920 e 1930, adaptar-se aos interesses mais diversos -aqueles das diferentes facções nazistas e os da população alemã.Contudo seria restritivo demais dizer que a responsabilidade pelo nazismo recai sobre um único indivíduo. É verdade que Hitler tem mais responsabilidade que qualquer outra pessoa, mas, à medida que a crise da democracia alemã foi se desenvolvendo, ele foi atraindo mais e mais pessoas.Tampouco podemos dizer que o nazismo tenha nascido do psiquismo ou de uma característica específica da população alemã. Nas eleições de 1932 e 1933, 13 milhões de alemães votaram no partido nazista, número que não representava mais do que um terço dos eleitores. Quando as eleições eram livres, Hitler nunca recebeu mais de um terço dos votos, o que significa que dois terços dos alemães não votaram nos nazistas.O que se pode afirmar é que Hitler conseguiu articular certas tendências da cultura política alemã e atrair mais e mais pessoas. Portanto, a responsabilidade pelo regime nazista cabe, ao mesmo tempo, a Hitler, o homem, e a certos setores da sociedade -mas não à sociedade alemã em sua totalidade.


PERGUNTA - Então o sr. não aprova a tese do americano Daniel J. Goldhagen, que defende que o conjunto da população alemã, fundamentalmente antissemita, foi cúmplice do nazismo e do Holocausto?

KERSHAW - É evidente que havia um antissemitismo profundo na Alemanha muito antes da Primeira Guerra. Talvez mais do que na França, mas não mais que em toda a Europa oriental -na Polônia, Romênia, Hungria, Áustria, onde Hitler nasceu, e, sobretudo, Rússia. Nos anos 1920, porém, esse antissemitismo alemão era sobretudo passivo; o antissemitismo violento -e ativo- era obra de uma pequena minoria.É claro que essa minoria despertou entre 1929 e 1932, e os eleitores que votaram no Partido Nacional Socialista alemão (ou seja, os nazistas) sabiam que estavam votando num partido que odiava os judeus. Mas os estudos que foram feitos sobre o voto nazista nesse período mostram que o antissemitismo não foi a motivação principal desses eleitores.

PERGUNTA - Foi Hitler quem decretou a "solução final"?
KERSHAW - Considerar que Hitler tenha decretado a solução final equivaleria a dizer que essa ditadura funcionava segundo as leis ditadas por ele. Acontece que o que constatamos ao estudar o período dos anos 1930 é, antes, uma forma pragmática de governar.A radicalização do nazismo se deu por etapas até 1941-42, quando a Alemanha já estava em plena guerra contra a União Soviética, visando a erradicar o "bolchevismo judaico".Para os nazistas, judeus e bolcheviques eram a mesma coisa. Desde o primeiro dia da operação Barbarossa (a invasão da União Soviética pelas tropas alemãs), não houve nenhuma ordem explícita de Hitler.É preciso destacar o papel das SS como a organização mais poderosa e mais radical do Estado nazista. Foram elas que, nessa fase, colocaram em prática a divisa de Hitler sobre ser preciso livrar a Alemanha dos judeus.No verão de 1941, na União Soviética invadida pelas tropas alemãs, esse movimento se radicalizou. Os judeus começaram a ser fuzilados às dezenas de milhares. Em setembro, 33 mil judeus foram mortos em dois dias!O que seria feito, então, com os outros judeus da Europa? O extermínio já tinha começado na União Soviética; os chefes nazistas pressionavam Hitler para deportar os judeus austríacos e alemães para o leste, e Hitler deu sinal verde. Em seguida, o mesmo passou a ser feito com os judeus da Europa ocidental (incluindo a França).Os massacres foram o resultado de um processo que se desenrolou por etapas. Hitler tinha uma visão geral das coisas, mas deixava os outros agirem em seu lugar.Não pode haver dúvida quanto a sua responsabilidade nem quanto ao fato de ele ter sido um antissemita fanático. Mas foi o sistema nazista, com sua radicalização progressiva, que levaria ao genocídio dos judeus.

PERGUNTA - Em que Hitler, como o sr. diz em seus trabalhos, foi um líder carismático?
KERSHAW - É preciso entender a palavra "carismático" em seu sentido técnico, e não no sentido usual que assumiu hoje, quando falamos do carisma de um astro da música pop ou até mesmo de John F. Kennedy.Para o sociólogo Max Weber, o carisma significa que uma comunidade se investe em uma pessoa e atribui a ela certo número de qualidades heroicas. O que retiro de Weber é que o indivíduo não necessariamente possui essas qualidades que os outros enxergam nele.No caso de Hitler, por que esse homem que descrevemos como estando à margem da sociedade, ao mesmo tempo excêntrico e tão voluntarista, começa a ser ouvido por certas pessoas?Porque ele responde às aspirações delas.Na sociedade alemã dos anos 1920, as pessoas que nunca tinham ouvido falar em Hitler consideravam que o regime era corrompido pelos políticos, que a Alemanha estava afundando e que ela precisava de um grande líder como Bismarck ou Frederico, o Grande -alguém que pudesse salvar o país dessa terrível crise política e econômica e que permitisse um renascimento nacional.Foi assim que as pessoas começaram a acreditar em Hitler.Para um megalomaníaco como ele, que naquele momento já conquistara muita autoconfiança, o caminho estava traçado: o grande personagem que salvaria a Alemanha era ele.Ele ocupava o ápice de um sistema, tendo por missão alcançar certos objetivos.Mas, por trás disso, era submetido a pressões de diferentes facções -entre as quais é preciso destacar o papel poderoso do Exército, que até 1938 teve exatamente os mesmos objetivos de expansão militar que Hitler, embora a maioria dos oficiais não fosse nazista.Durante muito tempo, os objetivos dos nazistas mais ou menos coincidiram com os de grande número de nacionalistas alemães que faziam parte das elites tradicionais do país. Podemos afirmar que as Forças Armadas, os grandes empresários, os grandes proprietários de terras e os altos funcionários apoiaram Hitler durante muito tempo, até que foi tarde demais e se viram presos numa armadilha, dentro do culto a esse líder carismático.

PERGUNTA - Um modelo como esse poderia funcionar em outro país?
KERSHAW - É preciso levar em conta que uma das causas muito importantes para a ascensão do nazismo foi a crise profunda que atingiu a Alemanha nos anos 1930.A particularidade dessa crise é que ela foi multiforme: crise do sistema político e governamental, crise econômica, social e ideológica, tudo isso associado a um sentimento de humilhação nacional devido à derrota na Primeira Guerra.A Alemanha era um país em que a democracia tinha raízes frágeis, e o sistema político instalado após a guerra (a República de Weimar) nunca chegou a ser verdadeiramente aceito, nem por grande parte da população, nem pelas elites.Quando chegou a depressão mundial, em 1929, todo o sistema que passou a ser questionado, e não apenas certos setores. Na Grã-Bretanha, por exemplo, de 1929 a 1931, houve uma crise econômica e política, mas não uma crise de Estado. Com a exceção de uma pequena minoria muito radical, ninguém cogitava em questionar o rei ou o Parlamento. O sistema era suficientemente estável para fazer frente a uma crise.Na França, os governos da Terceira República (1870-1940) foram muito frágeis. Mas a França estava no campo dos vencedores (de 1914-18) e não passava por uma crise de amplitude igual à dos países em que o fascismo se instalou.Na Alemanha, a necessidade de uma regeneração nacional era uma mensagem muito forte da qual Hitler era o portador.Alguns imaginaram que ele não permaneceria no poder por muito tempo, mas, sob o Terceiro Reich, a economia começou a crescer novamente, o Exército foi reconstituído, a Alemanha recuperou territórios que havia perdido.Os ingleses e os franceses se mostraram muito fracos diante de Hitler, que foi se fortalecendo mais e mais. Diante disso, os alemães que hesitavam ou que não gostavam de Hitler se uniram à sua volta. E a dinâmica carismática funcionava cada vez melhor.Quando a guerra chegou, já era tarde para recuar -a ditadura já estava bem instalada por um processo progressivo de radicalização. O mito só desabou com a derrota, quando o sistema se audodestruiu depois de ter exterminado mais de 5 milhões de judeus.

A íntegra desta entrevista saiu na revista francesa "Sciences Humaines". Tradução de Clara Allain.Folha Online

Leia mais sobre o debate em torno do nazismo, que divide os historiadores em "intencionalistas" e "funcionalistas", emwww.folha.com.br/091331