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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Entre os arquivos e o futuro - O discurso negacionista e o antissemitismo contemporâneo.

Entre os arquivos e o futuro - O discurso negacionista e o antissemitismo contemporâneo.

Adriana Dias 
 Universidade Estadual de Campinas - Unicamp


  As imagens foram escolhidas por Rita Amaral. Obrigada, querida.
In memorian.
    Como Citar este Artigo



Introdução
O termo “revisionista” será tratado aqui entre aspas, pois este é o termo utilizado pelos sites analisados em sua autodescrição. Recordo que “revisionismo” e negacionismo não são sinônimos. O primeiro é a forma como se autointitulam os adeptos do discurso que defende a negação do Holocausto. Eles usam esse termo para defender uma pseudo-historiografianota 2 . Utilizamos o termo negacionista para descrever este projeto. Os sites analisados, portanto, são negacionistas e se descrevem como “revisionistas”. Em 2006, o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, advertiu quanto ao perigoso crescimento negacionista: “Recordar é um repúdio necessário daqueles que dizem que o Holocausto nunca aconteceu ou foi exagerado. A negação do Holocausto é obra de fanáticos; devemos repudiar as suas falsas declarações, sempre que, em qualquer lugar e por quem quer que seja, sejam proclamadas”.



Recentemente, o bispo ultraconservador Richard Williamson causou enorme polêmica ao questionar a existência do Holocausto em uma entrevista gravada em novembro de 2008, mas que foi ao ar em janeiro de 2009. Posteriormente, no dia 26 de fevereiro, o bispo se retratou pedindo perdão a "Deus e ao papa" por ter negado a magnitude do Holocausto, segundo a agência católica de notícias Zenit. Em 12 de fevereiro, o papa Bento XVI, havia realizado uma alusão indireta ao caso, asseverando que "está claro que toda negação ou amenização deste terrível crime (Holocausto) é intolerável e, ao mesmo tempo, inaceitável". 



O tema da negação do holocausto também se fez presente na mídia internacional, pelas diversas declarações do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Estas manifestações negacionistas  proliferam pela Internet, desenvolvendo o que Pierre Vidal-Naquet, denominou assassinato da memória. 



Em sua minuciosa apreciação do “revisionismo” Vidal-Naquet o diagnostica a partir da leitura de uma “anatomia de uma mentira” (VIDAL-NAQUET, 1988, p. 16), evidenciando a impossibilidade do diálogo com o movimento “revisionista”, porque neste último se ignora a “opacidade irredutível do real”, afastando-se de toda possibilidade de reconstituição da verdade histórica. Como afirmou o autor: “na verdade, não se refuta um sistema fechado, uma mentira total que não se situa na ordem do refutável, pois aí a conclusão precede as provas” ((VIDAL-NAQUET,, 1988, p. 122). O presente artigo pretende demonstrar como estas “conclusões revisionistas” são difundidas pela Internet, a partir de uma matriz dos sites etnografados.






Fotogradia [close do rosto] de Pierre Vidal-Naquet
 Pierre Vidal-Naquet






Apresentando os portais analisados

Entre os portais da Internet que se preocupam, principalmente, com a sustentação deste discurso, estão o “Libre Opinion”, o “NSDAP/AO”, o “NuevOrdem” e o AAARGH. Muitos sites brasileiros continham (antes de serem retirados do ar) farto material revisionista. Concentro-me nos sites citados, que disponibilizam material em várias línguas, inclusive a portuguesa, por conta da experiência etnográfica que serviu de base a meu Mestrado. Na etnografia realizada pude desenvolver uma observação detalhada destes sites, que permite discutir o movimento revisionista.



O primeiro site, o “Libre Opinion”, é um portal argentino. Portal é um termo muito popular na Internet, que designa um endereço eletrônico que pode abarcar muitos sites. No seu código fonte o “Libre Opinion” se descreve como “Portal de portales para un Mundo Libre”. Sua página inicial foi denominada, por seus arquitetos, de “¡Bienvenidos a Ciudad Libre Opinión!” e no texto utilizado para sua indexação no Google, o portal se apresenta: “Insurreccion, revolución, denuncia, buscador con todas las páginas antisistema de la Red. Nacionalismo”. Atualmente o portal possui seções de Registro, de Acesso restrito aos membros, uma comunidade virtual (a Comunidad Libre Opinion), um servidor para blogs (com 34 usuários no momento da escrita deste artigo), um setor de classificados, uma agência de notícias, um livro de visitas, uma lista de correio eletrônico, uma seção de jogos online, um diretório institucional, no qual se descreve um centro de ajuda aos internautas, um centro de banners para download, o setor de “Términos y Condiciones”, que expõe as regras do portal para seus usuários, uma divisão de Publicidade e uma apresentação das formas possíveis para contatar o portal. 



Há cerca de 20 sites com conteúdo “revisionista” alojados no portal; mas este número sofre constantes alterações. Sites são retirados do ar (muitos afirmam que por perseguições da mídia, na maior parte das vezes caracterizada como “sionista”), outros tantos entram. Nestes há, no momento em que escrevo, 126 URLs (cada uma com artigos que ultrapassam, na grande maioria das vezes, trinta páginas) que tratam exclusivamente do “revisionismo” do holocausto. O portal mantém e divulga, ainda, a enciclopédia virtual eletrônica revisionista, a Metapédia.



O portal “Nazi Lauck NSDAP/AO”, citado pela rede como “NSDAP/AO”, não possui descrição em seu código fonte , e sua página inicial apresenta como título “Nazi Lauck NSDAP-AO Flags Posters Books Movies Films German Military Marches Pictures Art Militaria”, uma verdadeira descrição de seu conteúdo. Ou seja, há artigos, bandeiras, banners, livros, filmes, material a respeito do estado nazista (arte, militaria, rituais), fotos diversas. No site é possível, ainda, comprar material para ativismo. O site disponibiliza o endereço de seis sites mirrors nos quais é possível encontrar material semelhante, em outras línguas. Neste portal há seis sites que discutem o “revisionismo”.



O portal “NuevOrdem”, cujas palavras de indexação no Google trazem os termos de interesse do site numa mistura de várias línguas (como espanhol, inglês, croata, português, russo, alemão e romeno, entre outras, que vão sendo trocadas, continuadamente), apresenta as seguintes seções: Manifesto, que é uma espécie de declaração fundadora do site, uma carta de regras denominada Nuestros Princípios, uma página de contatos, uma comunidade virtual, a Vox Populi, páginas que contêm material ativista para imprimir, conferências em mp3, uma página de editoriais, La Voz Disidente, um diretório de livros e artigos, diretórios de notícias (um específico acerca do mundo judaico e outro que versa a respeito de imigrantes), diretórios com artigos cujos títulos são: Raça, Doutrina, História, Revisionismo, Arte, Cultura, Natureza, Consumo Responsável, Deusas, Rainhas e Mães (páginas dedicadas a assuntos relativos às mulheres do movimento) e Política. Há, ainda, uma página dedicada a comemorar os dez anos do Portal, e sites dedicados à mitologia, à obra de Wagner, a manuais de ativismo, às diversas bandas de música nazi, além de servidores de Chat, classificados e fóruns. O site oferece um índice com as atualizações mais recentes e outro com links para outros sites neonazistas e revisionistas. São ao todo mais de oito mil URLs, e novos conteúdos são acrescidos todas as semanas; em alguns períodos, diariamente. Em seu código fonte o site não se vale da descrição, mas apresenta como palavras chaves 868 vocábulosnota 4 . 



O quarto portal, o AAARGH, é o portal mantido por uma instituição que se denomina “L'Association des Anciens Amateurs de Récits de Guerres et d'Holocaustes”, fundada em outubro de 1996, e cujo “AAARGH” é um grito que visa expressar a raiva dos “revisionistas”. O portal tem mais de seis mil URLs e disponibiliza material nas línguas francesa, inglesa, italiana, grega, espanhola, hindu, turca, portuguesa, hebraica, russa, polonesa, norueguesa e árabe. Novas línguas são acrescentadas continuadamente, conforme permite o trabalho de tradução de dezenas de voluntários pelo mundo.  Nestes portais o movimento “revisionista” desenvolve, por meio do material disponibilizado, três militâncias políticas distintas. Neste ato de disponibilizar, a prática “revisionista” se revela. No conteúdo deste ato, um discurso é produzido, legitimado, reproduzido. Este discurso é também, portanto, uma prática. Nesta articulação entre as duas únicas “atividades necessárias e presentes nas comunidades humanas” (ARENDT, 1981, p. 34) que podem ser concebidas como políticas, a saber, a ação (práxis) e o discurso (lexis), como apontou Aristóteles, poderíamos pensar nas práticas desenvolvidas nos portais “revisionistas” citados como políticas: o zoon politikon digitalis se denuncia. O “revisionismo” dos sites, ato político evidente, se vale da tecnologia para disputar, primeiramente, a posse da verdade histórica. Dirigido a uma leitura do passado, objetiva negar as mortes industrializadas no Holocausto, tanto em sua quantidade, como em sua natureza. Não teriam sido milhões, não teria sido um genocídio. Os campos não eram matadouros, ou de extermínio, eram “apenas” campos de trabalhos forçados.



Numa segunda direção, os sites “neonazistas” defendem uma particular idéia de “liberdade de expressão”. Voltado para o presente, este segundo aspecto do discurso dos portais apresentados busca validar sua existência, seu sentido e sua manutenção. Finalmente, no terceiro aspecto construído pelo engajamento político destes portais, nasce a preocupação com o “projeto de dominação sionista”. Voltada para o futuro, esta bandeira teme ser silenciada em futuro breve, pelos que “delata”. Imagina que o mundo esteja se tornando, a passos largos, um lugar dominado pelos governos de ocupação sionista. Voltada para temporalidades diversas, em aspectos distintos de sua prática política, o movimento “revisionista” vem crescendo em todo o mundo, o que se observa na Internet pelo crescente número de internautas que acessam esses portais, ou que discutem seus temas em fóruns, comunidades e redes sociais digitais. Interessa-nos entender este movimento.





A disputa pela legitimidade de falar do passado

Ao desacreditar a história do Holocausto, o uso das câmaras de gás, o número de mortes, o movimento “revisionista” torna o próprio passado objeto da luta política dos sites: para eles, há o passado oficial, produzido, segundo os sites, pelo “mundo sionista”, e há o “passado” defendido por eles. O revisionismo, segundo os sites, deve ser entendido como se não pretendesse “pretender defender o Nacional Socialismo como doutrina, nem sugerir sua prática” (NuevOrden), mas como um movimento distinto que tem 



[...] pretendido por anos esclarecer a verdade sobre os chamados ‘crimes de guerra’ dos quais se acusa a Alemanha Nacional Socialista e graças aos quais se mantém a mesma Alemanha e a todos os outros povos do Ocidente com um pé na garganta ante qualquer tentativa de defesa de nossa cultura, com a ameaça de chamar-nos de "racistas" e assim, colocar-nos no Índice do Catálogo dos condenados nesta sociedade supostamente livre e democrática” (NuevOrden). 



Descrevendo o “revisionismo” como um movimento neutro, não político, mas apenas “histórico”, os portais desejam imprimir a ideia de que são equívocos quanto aos dados históricos da Segunda Guerra que precisam ser revistos, para que seja possível retomar o “nacional-socialismo” sem, necessariamente, ocupar a cadeira dos réus. A história denominada de “oficial” passa a ser discutida como uma “propaganda de guerra” dos vencedores e, portanto, um resgate da “história verdadeira” traria de volta a dignidade dos que perderam a luta e, consequentemente, o poder de determinar a verdade dos fatos. 


Foto de um campo de concentração no inverno.Campo de concentração nazista



Um dos mais impressionantes textos acerca do movimento é “22 Paralelos entre a Caça de Hereges e a Caça de Revisionistas”, nos quais os internautas que arquitetaram o portal “NuevOrden” apresentam vários argumentos que pretendem fazer o leitor chegar à seguinte conclusão: se os hereges foram cassados por se colocarem contra a verdade do sistema vigente -a Igreja -, os “revisionistas” também o são por se rebelarem contra a verdade do sistema vigente, a saber: a “história oficial”. O debate se inicia a partir da notícia da condenação do historiador David Irving, sentenciado a três anos de prisão  por afirmações revisionistas.  


Os autores apresentam como principal argumento o de que, durante a Alta Idade Média, “uma atmosfera carregada de homicida intolerância e fanatismo religioso” aterrorizou a Europa, “nossa civilização”, e provocou imensas e violentas ondas de perseguição a hereges e bruxas, “sob a tremenda acusação de ter relações com o diabo”. O discurso analisa os motivos que teriam permitido que as autoridades religiosas e seculares, “dominadas pela histeria coletiva”, declarassem “como coisa provada o que até agora resulta impossível de se provar, e sobre esta base, sentenciavam para seus autodeclarados inimigos um horrível destino”. Desta forma, ao compararem o sistema religioso da Alta Idade Média à historiografia contemporânea, os autores julgam que, definitiva e diretamente podem associar, também, os perseguidos pela Inquisição e os adeptos do “revisionismo”.



Entre os vinte e dois argumentos apresentados alguns nos são interessantes para discussão no presente artigo (os textos extraídos dos portais “revisionistas” estão em itálico): 


Ao igual que os hereges cristãos eram inapelavelmente equiparados com falsos predecessores (exemplo: os cátaros anticristãos), assim os “revisionistas” são todos falsamente equiparados com nazistas e fascistas’. Na verdade, acusações de nazismo e “revisionismo” são distintas, e nem sempre ambas são tipificadas como crime. No Brasil a negação do Holocausto não é crime, embora haja projeto de lei que proponha sua tipificação.


’Os perseguidos não são culpados de ação criminosa alguma. A grande ofensa está em que eles estudaram criticamente certas concepções oficiais (estatais) e fizeram públicos suas descobertas; só em razão disto é que se fizeram puníveis de castigo, além de execráveis. São culpados de ação criminosa a partir do momento em que o Estado tipifica o crime. No Estado de Direito há leis que garantem direitos e deveres e que tipificam os crimes, diferentemente do mundo medieval. 


Seu crime é a não crença na religião oficial do Estado (dogma). Quem determina as leis é o   Estado e não a Igreja. Não há dogmas; há leis.



A ação vigorosa de chantagem/censura legal e social não deixa às pessoas dissidentes, críticas da verdade protegida por lei, alternativa que transmitir “ilegalmente” suas opiniões ao público. Interessantíssimo problematizar o que eles chamam de “verdade protegida por lei”. Para eles a defesa de uma “outra verdade, dissidente”, é um ato legítimo.



Eles são vistos como apostatas e em razão disso denunciados e perseguidos. Na verdade são criminosos. 



Na verdade, o objetivo primordial deste tipo de perseguições não é castigar as vítimas, senão mais bem, pôr cabeças ensangüentadas na picota, para escarmento e dissuasão de outros potenciais críticos à ideologia de Estado. Novamente, uma discussão política a respeito de quem deve deter o poder sobre a verdade.



Tal como ocorreu durante a caça medieval de hereges, também em nossos dias os mais viciosos excessos à hora de castigar os crimes de pensamento têm como palco a Alemanha. A Alemanha perseguida pelos defensores da verdade oficial, pátria dos neonazistas, sofre o drama de mais uma caça às bruxas. 



Problematizando os argumentos apresentados pelo portal, podemos pensar como a discussão política encontra apoio num fato histórico que se centrou na religião. A ideia central aparece neste contexto: o que se pretende, na verdade é apresentar a “verdade oficial histórica” como um “dogma de Estado”, como “um elemento religioso” que cega “toda racionalidade” e emudece “toda ciência” como escreve o portal. Omitindo, inclusive, que as grandes vítimas da Inquisição medieval foram os judeus, exatamente porque não partilhavam a fé dominante, os “revisionistas” manobram a história da Inquisição a seu bel-prazer, torcendo dados para que caibam, adequadamente, em seus argumentos. Para dar conta do “revisionismo”, os sites produzem milhares de páginas: sua versão dos fatos precisa ser divulgada. Voltado para o passado, o “revisionismo” não deforma apenas fatos relativos ao Holocausto. Permite-se fazer isso com qualquer fato, texto, laudo, foto, arquivo, desde que sirva para legitimar-se. Como escreveu Moura Mello, “se o passado é um campo de disputas, as mediações com os arquivos podiam oferecer ferramentas para autorizar os discursos e versões do passado (Moura Mello, 2009)”.





Olhando para o presente: pelo direito de “expressão”


Em seus argumentos, o portal NuevOrdem denuncia que a tipificação do “revisionismo” como crime teria transformado “nada menos que a Alemanha; sim, precisamente a Alemanha, a outrora grande nação europeia, agora convertida pelo judeu num Guantánamo para revisionistas”. Contribuíram para tanto, nos informa o portal, a “pesada” perseguição da imprensa, da polícia e do judiciário sobre o grupo. Os autores do texto denunciam que dezenas de milhares de pensadores “dissidentes”, os “negadores do holocausto” estariam sendo castigados com penas “desproporcionalmente severas”. Apenas na Alemanha, mais de 10.000 pessoas estariam sendo condenadas anualmente. Na Áustria, a pena máxima para o “revisionismo” foi elevada a vinte anos de prisão, o que eles consideram um verdadeiro absurdo. Na Europa “uma série de artimanhas jurídicas e a poderosa pressão de Alemanha-EUA, quase em segredo, e às custas do povo e do parlamento holandês”, têm pressionado governos, a exemplo da Holanda, para calar, exemplarmente, os “revisionistas”.




Para os participantes do movimento esta seria “uma violação inaceitável, motivada politicamente, dos Direitos Humanos, da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e da liberdade de ciência”. Para os membros do “AAARGH” é um absurdo que o “revisionismo” do Holocausto seja considerado um crime grave. Na França, as pessoas podem ser levadas para a prisão por até um ano; na Suíça, até três anos; na Alemanha – assim como em Israel – até cinco anos; na Áustria, é possível a prisão até 10 anos. Tudo isto impede a liberdade de expressão, necessária a preservação dos Direitos Humanos, repetem eles. Outro argumento, apresentado pelo portal “AAARGH” é econômico:



Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha pagou bem acima de 100,000,000,000 (uma centena de bilhões) de marcos em indenizações a indivíduos Judeus e instituições. No decurso dessas compensações, para cima de cinco milhões e meio de candidaturas feitas por sobreviventes do Holocausto foram processadas. Obviamente, o número de sobreviventes é bastante grande. Uma vez que as obrigações Alemãs não têm lei estatuária, as exigências para indenizações têm sido ininterruptas e têm-se agravado nos anos recentes. No entanto, nós não estamos a dirigir a pergunta se aqueles que exigem mais dinheiro são os verdadeiros designados, após cinqüenta e cinco anos. Muito mais importante é a questão de porque é que o pagador de impostos Alemão do dia de hoje terá que pagar estes montantes. 99.9% de todos os pagadores de impostos da Alemanha de hoje têm sessenta e cinco anos ou menos e esses eram quase todos pequenas crianças quando a Guerra acabou.



Ou seja, ao reconhecer que o número de vítimas é infinitamente menor, se provocaria significativa redução nos impostos pagos pelo povo atualmente.






O “revisionismo” e o futuro: a paranoia da dominação sionista mundial

Na denominada “Ciudad Libre Opinion”, o medo da dominação sionista sobre os povos de origem ariana é assim descrito: “Hoje as nações Arianas estão literalmente ocupadas pelas forças sionistas, pelo egoísmo, pelo poder do dinheiro e estas forças negativas usam de todos os artifícios, desonrados e imorais para deturparem o significado espiritual da Suástica”. Os mesmo judeus, que não foram vítimas do Holocausto, segundo afirmam os portais “revisionistas”, são emoldurados como inimigos, como perseguidores, como arquitetos das forças destruidoras que investiram contra “as nações arianas”. No portal, um internauta (que se identifica como Flávio Gonçalves) expressa sua opinião:




"Completamente irreal" é como se classifica a possibilidade da Alemanha nazi ter procedido ao extermínio de seis milhões de judeus durante a II Guerra Mundial”.



Este estudante de história garante não pertencer a qualquer partido; define-se politicamente como sindicalista revolucionário e ecoanarquista e considera que o Holocausto é "o álibi perfeito" para o Estado de Israel: "qualquer coisa que Israel faça de mal, tem sempre a desculpa do Holocausto”. 




Na mesma linha de argumentação, outro membro da comunidade do portal cita Ford: “O judeu é adversário de toda a ordem social não judaica...”. Outro, acrescenta, num fórum: “O judeu é um autocrata encarniçado... A democracia é apenas um argumento utilizado pêlos agitadores judeus, para se elevarem a um nível superior àquele em que se julgam subjugados. Assim que conseguem, empregam imediatamente seus métodos, para obter determinadas preferências, como se estas lhes coubessem por direito natural.“ No mesmo portal, aliado ao “revisionismo”, outro membro da comunidade virtual escreve em seu blog: “Em outra obra, chamada “Hitler - Culpado ou Inocente”, lemos: ...os judeus mortos nos campos de concentração foram sacrificados deliberadamente pêlos [sic] sionistas, em prol de seu ideal maior".



A ideia de condenar os próprios judeus pelo Holocausto, absurda e paranóica, tem, contudo, uma direção política: é preciso convencer quem lê estas argumentações de que este mesmo “judeu” quer dominar o mundo e o fará, de fato, amanhã. Reescrever a história é, portanto, uma forma de manipular o futuro.





Algumas considerações finais




Imagem de tabuletas de madeira apontando passado, futuro e presente, a ´última apontando  tanto para o passado como  para o futuro.




 Acerca de si mesmo o “revisionismo” informa, no portal etnografado “NSDAP/AO”:





“O que é o Revisionismo? A palavra "Revisionismo" deriva do Latim ‘revidere’, que significa ver novamente. A revisão de teorias guardadas há muito tempo é perfeitamente normal. Acontece nas ciências da natureza assim como nas ciências sociais, à qual a disciplina da história pertence. A ciência não é uma condição estática. É um processo, especialmente para a criação de conhecimento pela pesquisa de provas e evidências. Quando a investigação decorrente encontra novas provas ou quando os pesquisadores descobrem erros em velhas explicações, acontece freqüentemente que as antigas teorias têm que ser alteradas ou até abandonadas. Por "Revisionismo" queremos dizer investigação crítica baseada em teorias e hipóteses no sentido de testar a sua validade. [...] Assim como outros conceitos científicos, os nossos conceitos históricos estão sujeitos a considerações críticas”.


 O “revisionismo” afirma: 




“Não há provas que o Holocausto, tal como é apresentado pelo Grupo de Pressão de Promoção do Holocausto e pela altamente politizada indústria de Hollywood, tenha ocorrido”. 



 Os “revisionistas” afirmam e argumentam que não havia política de estado que apelasse para o "extermínio em massa dos Judeus" ou qualquer outra minoria indesejada. 




“(...) A Alemanha de Hitler era inflexível em não querer que os Judeus fizessem parte da Alemanha porque eram considerados prejudiciais para a criação de uma sociedade etnicamente coesa tal como era imaginada por Hitler. O Führer queria os Judeus "fora da vista." Não tinha grande simpatia por eles. Mas é aí que a história pára. As voltas Talmúdicas e giros que alguns desse povo ainda executam, quando "realojamento" e "evacuação" de Judeus subitamente se transformam em palavras de código para "exterminação", são espantosas. Mais uma vez: Eram centros de detenção. NÃO eram centros de matança”.



 Neste ponto a ideia evolucionista se estende à história: a ciência também evolui e a ciência histórica em sua evolução, revisaria, pretende o discurso etnografado, a questão do Holocausto. Ciente de que distribuir textos “revisionistas” é ato criminoso em muitos países da Europa, o site em análise questiona:




“Embora o “revisionismo” do Holocausto não dirija nada sobre Judeus por si mesmo, todas as comunidades Judaicas sentem-se muito ofendidas, porque o Revisionismo, directa ou indirectamente, chega à conclusão que várias personalidades Judaicas não foram sempre verdadeiros quando testemunharam sobre as suas experiências na Segunda Guerra Mundial. Claro, seria surpreendente se os Judeus fossem o único grupo identificável de seres humanos que nunca mentem, adulteram e exageram, mas aparentemente os líderes representativos Judaicos sentem que a ninguém poderá ser permitido invocar que certos Judeus foram desonestos sobre o Holocausto".



A argumentação se direciona para uma construção negativa; os judeus não podem ser o único povo que jamais mente. Então, é provável que sobreviventes tenham mentido. Logo, é certo que os dados precisariam ser revisitados e, portanto, é um dever reescrever a história. 




Um contraponto à visão “revisionista” dos portais se situa no livro “A Escrita ou a Vida”, de Semprun (1987), descrito pelo próprio autor como uma tentativa de exorcizar a experiência de Buchenwald. A transmissão da experiência da travessia pela morte, na morte e com a morte. Semprun denuncia, neste livro, exatamente o que todos os sites “revisionistas” pretendem empalidecer: o que fazer diante de milhares de mortes? A pergunta que ecoa no livro incomoda: “o que fazer com o cheiro de carne queimada?” Pretendem os sites “revisionistas” tornar a fumaça da chaminé inodora?


O luto de Semprum se contrapõe a qualquer possibilidade de revisão histórica, porque deflagra na memória o cheiro da morte. A capilaridade de seu testemunho inquieta. A memória se alimenta desta inquietação. Nutrida, a memória se contrapõe ao relato dos sites revisionistas: e o Revisionismo se revela, por fim, como a continuação do extermínio, como assassinato da memória, como “nova solução final”. 



Diminuir o impacto do massacre nazista sobre os judeus, proposta que se pretende histórica no “revisionismo”, é fornecer, segundo Franco Ferrarotti, um álibi ao crime. Contra a tentação do esquecimento, é preciso romper, segundo o sociólogo italiano, qualquer forma de silêncio e denunciar a realidade que se esconde sob o negacionismo: uma mentalidade conspiratória, demarcada por um antintelectualismo, que “vocifera violentas manifestações xenofóbicas”. 



O movimento “revisionista” na Internet busca o desenvolvimento da “legitimidade” para o movimento neonazista na rede. Estes grupos têm se expandido de forma gigantesca pela WEB. Como escreveu Susan Zickmund, “os indivíduos que propagam ideologias nazistas tradicionalmente operavam isolados, com poucas ligações estruturais maiores. Mas com o advento do correio eletrônico e do acesso às páginas da Internet, esses subversivos estão agora descobrindo meios de propagar suas mensagens além dos limites estreitos de suas ligações pré-estabelecidas”. Na rede, a comunicação circula mais rápido e a menos custo. Também para propostas subversivas. Contra elas, adverte Ferrarotti, há o “imperativo moral de recordar”, para impedir que a manipulação política do “revisionismo” detenha poder sobre o passado em questão e no presente que vivenciamos. Principalmente para a construção de um mundo mais tolerante, no futuro. FIM



Notas
  Doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp. Membro da Associação Brasileira de Antropologia e da Latin American Jewish Studies Association.
  Este movimento, segundo Moraes, inclui: “(1) a defesa e a reabilitação do nacional-socialismo, do III Reich em geral e de Hitler em particular, (2) a tentativa de provar a ausência de culpa da Alemanha pela Segunda Guerra e (3) a banalização, a justificação ou mesmo a negação da inexistência dos campos de extermínio e do Holocausto nazista.” (Moraes, 2004: 757).
  Código fonte é o conjunto de palavras ou símbolos escritos de forma ordenada, contendo instruções em uma das linguagens de programação existentes, de maneira lógica.
  Uma pequena amostra: Nacionalsocialismo, Hitler, letizia ortiz, letizia ortiz principe felipe, ribadesella, protocolo real, prometida principe, ex letizia ortiz, divorcio letizia ortiz, alonso guerrero, alonso guerrero letizia ortiz, sardeu, natalidad, demografia, princesa de asturias, casa real, compromiso principe felipe, inmigracion, inmigrantes, a, 0, aa, nazi, neonazi, bajo la tirania, fascista, neofascista, caballeros teutonicos, beca, Ernst Kaltenbrunner, Alfred Rosenberg, Joseph Ratzinger, Hans Frank, Wilhelm Frick, Aryan Nations, Naciones Arias, ZOG, 88, 1488, sistemas politicos Gustav Krupp von Bohlen und Halbach, Karl Doenitz, Erich Raeder, Baldur von Schirach, Fritz Sauckel, Alfred Jodl, Martin Bormann, Franz von Papen, Arthur Seyss-Inquart, Albert Speer, Constantin von Neurath, Hans Fritzsche,arte historia cultura artes chat chats canal canales exposición exposicion exposiciones bellas bellasartes belleza dibujo dibujos grabado grabados, Die Sturmartillerie, pinturas escultura esculturas artistas artista pintor pintores escultor escultores español dibujante dibujantes obras obra españa hispanoamerica velazquez van gogh goya murillo ribera greco zurbaran ramses miguel angel durero leonardo manet monet rembrandt caravaggio gauguin meninas chinchon, 11-m, SS, SS, arios, indoeuropeos, raza, racismo.
  





Bibliografia
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 5º Edição. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitário, 1981.
DIAS, Adriana. Os Anacronautas do teutonismo virtual; uma etnografia do neonazismo na Internet. Campinas: UNICAMP,  2007 (Dissertação de Mestrado). 
DIAS, Adriana. Links de Ódio: Uma etnografia do Racismo na Internet. Monografia de Conclusão de Curso em Ciências Sociais, Universidade de Campinas, 2005.
FERRAROTTI, Franco. La tentazione dell’oblio – Razzismo, antismetismo e neonazismo Roma: Editori Sagittari Laterza, 2002 
MOURA MELLO, Marcelo. “Visões do campo sobre o arquivo (e vice-versa)”, In DULLEY, Iracema e CUNHA, Flávia Etnografia, etnografias: ensaios sobre a diversidade do fazer antropológico (no prelo), 2010.
MORAES, Luís Edmundo de Souza. “O “revisionismo” Negacionista” In: SANTOS, Ricardo Pinto dos (org.) Enciclopédias de Guerras e Revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004VIDAL-NAQUET. Pierre. Os Assassinos da Memória. Campinas: Papirus, 1988.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Jornal de Harvard publica anúncio negando o Holocausto; propaganda gera polêmica

RIO - A Universidade de Harvard, uma das mais prestigiadas instituições acadêmicas do mundo, recebeu fortes críticas por permitir a publicação de um anúncio que questionava o Holocausto. Segundo a CNN, a polêmica propaganda saiu no jornal "The Harvard Crimson" e colocava em dúvida o extermínio do antigo campo Birkenau, também conhecido como Auschwitz II, onde milhares de pessoas foram executadas.

Os responsáveis pelo jornal em Harvard reconheceram o erro e pediram desculpas. Em resposta à comoção criada em torno da publicação do anúncio, o presidente da "Crimson", Maxwell L. Child, emitiu um comunicado justificando o erro pelo período de férias, já que não houve revisão editorial entre a inclusão do anúncio e sua publicação no papel.

"Trabalharemos muito para evitar lapsos como esses no futuro, e esperamos que nossos leitores aceitem que o erro é um fracasso logístico." O jornal foi recentemente nomeada como o melhor jornal de notícias e reportagens de todas as universidades americanas.

O anúncio, pago por Bradley R. Smith e sua comissão de debate aberto sobre o Holocausto, lança perguntas sobre o papel do general Eisenhower durante a Segunda Guerra Mundial e sobre a existência de câmaras de gás dos nazistas. Smith garantiu que não houve qualquer impedimento por parte do jornal no momento da publicação. Ele afirmou não se surpreender com a polêmica porque o extermínio de judeus é "um tabu desde o começo".

terça-feira, 26 de maio de 2009

Australiano é preso por negar Holocausto na internet

Postado por Marcelo.

Homem de 64 anos é historiador e professor aposentado
O australiano Frederick Toben foi condenado nesta quarta a três meses de prisão por negar repetidamente o Holocausto em textos publicados na internet e por possuir material revisionista.
Toben, um historiador e professor aposentado de 64 anos, foi considerado culpado de desacato por descumprir em várias ocasiões a ordem judicial que lhe obrigava a deixar de insultar os judeus no portal do Instituto de Adelaide.
O juiz do Tribunal Federal da Austrália do Sul concluiu que Toben descumpriu as ordens da corte ditadas em 2002 e em 2007 para que deixasse de violar a lei australiana contra a discriminação racial, ao se referir aos judeus que se ofendem com a negação do Holocausto como seres com uma inteligência limitada.
Os advogados de Toben apelarão contra a sentença num prazo de duas semanas.
AGÊNCIA EFE

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Um pequeno manifesto

Há cerca de seis anos, quando eu comecei a entrevistar sobreviventes do Holocausto, em especial os residentes do bairro do Pari em São Paulo, entrei em contato com o grande enunciado de Jorge Semprum:
ninguém sai vivo de um campo de concentração.
A perseguição desumana e a inimaginável animalização imposta a estas pessoas pelo mais abominável regime totalitário de todos os tempos foi mais do que suficientemente retratada. Não se trata aqui apenas de reafirmar isto: mas de recordar a dor. Eu convivi em cada uma das entrevistas com a dor, incômoda, nauseante, consternadora. A descrição de toda a tortura criara em mim um estado de alerta: ultrapassamos, como humanos, os limites possíveis. E, se humana me construo, afinal humano ser é humano fazer-se, esta dor é minha. É minha porque não posso permitir a partilha deste fato sem me surpreender que pessoas humanas, como eu e você, um dia optaram por permitir que campos de concentração aprisionassem judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, enfim, outras pessoas humanas, como eu e você.

O sentido da palavra humano se fragilizou pela experiência tenebrosa do holocausto, pois a perseguição realizada por parte da humanidade à outra parte estilhaçou o espelho em que mirávamos o nosso rosto pseudo civilizado. Restou-nos resgatar nossa face humana. É verdade que toda uma luta por Direitos Humanos se iniciou, mirando este resgate. Isto, no entanto, parece escapar-nos. Permitir que vozes se levantem negando o Holocausto é não acalmar feridas mal cicatrizadas, é abrir permissão para assassinar novamente.

Por isto, não posso aceitar a vinda do presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil no início de maio. Na delegação de Ahmadinejad, composta por pelo menos cem pessoas, estarão representantes de vários setores do governo iraniano e empresários. Serão assinados acordos de cooperação econômica, técnica e cultural. Este controverso presidente defende varrer Israel do mapa, questiona o Holocausto e recusa pressões para suspender o programa nuclear iraniano. O comércio bilateral com o Irão significa 2 bilhões de dólares e a presença da Petrobrás no Irão - a estatal estuda ampliar a atuação iniciada em 2004.

Esta semana, a administração Obama reafirmou que concorda com Israel a respeito do programa nuclear iraniano: ele é uma gigantesca ameaça à estabilidade, notadamente delicada, do Oriente Médio. Munido de um apelo populista (se auto-proclama "o amigo do povo"), Mahmoud Ahmadinejad quando eleito presidente do Irã, em 2005, no entanto, ainda era uma figura pouco conhecida internacionalmente. Sua trajetória política conhecia como marco a designação para prefeito de Teerã, em 2003. Fortalecido pelo apoio de setores conservadores poderosos, que mobilizaram uma rede de mesquitas a seu favor, a candidatura à presidência obteve vitória nas urnas.

Como prefeito, o ex-militar havia fechado inúmeras lanchonetes de fast-food e obrigado todos os funcionários homens da prefeitura a usar barba e vestir camisas de mangas compridas. Recusava qualquer manifestação pró-ocidente, como exemplifica a proibição, determinada por ele, da primeira campanha publicitária desde a Revolução Islâmica de 1979, apenas por se vincular a imagem de uma celebridade ocidental, o jogador de futebol britânico David Beckham. Ahmadinejad também defende o programa nuclear que tanto preocupa os Estados Unidos e a União Européia. Desde sua posse, o Presidente iraniano manifestou nas Nações Unidas sua intenção firme de prosseguir com a produção de combustível nuclear. Desde então, ele insiste nesta concepção: defende o Irã como possuidor de "um direito inalienável" à energia nuclear e ofereceu mesmo a países estrangeiros um papel no seu programa nuclear.

Não quero partilhar o solo brasileiro com este homem. Simplesmente, porque ele se recusa a partilhar a humanidade com milhões de seres humanos, ao negar sua dor, história e memória.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Obama e a memória do Holocausto

WASHINGTON, EUA (AFP) - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu nesta quinta-feira, durante uma cerimônia que lembrou os seis milhões de judeus massacrados durante a Segunda Guerra Mundial, que se enfrente "aqueles que contam mentiras sobre a história" e pretendem negar o Holocausto.


"Existem aqueles que insistem que o Holocausto nunca ocorreu, aqueles que
praticam toda forma de intolerância -racismo, antissemitismo, homofobia,
xenofobia, sexismo e outras",
disse Obama durante uma cerimônia no plenário do Capitólio que incluiu judeus sobreviventes dos campos de extermínio nazistas e não-judeus que os ajudaram durante a guerra.

"Temos uma oportunidade e uma obrigação de enfrentar este flagelo", disse Obama.

"Temos a oportunidade de nos comprometermos a resistir à injustiça, à intolerância e à indiferença em qualquer forma que assumir, enfrentando aqueles que dizem mentiras sobre a história ou fazendo todo o possível para evitar e pôr fim a atrocidades como as que ocorreram em Ruanda, ou as que ocorrem em Darfur", disse Obama, que fez o seu pronunciamento depois do sobrevivente do Holocausto e Prêmio Nobel da Paz, Elie Wiesel.

Wiesel, que sobreviveu aos horrores do campo de extermínio de Auschwitz, onde sua mãe e sua irmã morreram, acusou o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, de ter se tornado o "principal negador do Holocausto no mundo".

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ação judicial que investiga o bispo negacionista agrava ainda mais a crise com Roma

A cada dia que passa, parece mais evidente. A decisão de Bento XVI de perdoar os quatro bispos lefebvrianos excomungados criou uma crise muito mais grave do que aquela que tentava resolver. Depois da pressão sem precedentes exercida pela Chanceler alemã, Angela Merkel, o Vaticano exigiu, nesta quarta-feira, que Richard Williamson, o bispo que negou o Holocausto, se retrate de forma “inequívoca” se quiser recuperar “as suas funções episcopais na Igreja”. A reportagem é de Miguel Mora e Juan Gómez e publicada no jornal espanhol El País, 05-02-2009. A tradução é do Cepat.

Além disso, se viu obrigado a dar novas explicações sobre o caso, que poderia acabar com o processo penal do ultraconservador na Alemanha. A Secretaria de Estado afirmou em nota oficial [em italiano] que o Papa não estava a par das posições negacionistas de Williamson quando suspendeu a excomunhão, em janeiro passado. Depois de quase duas semanas de controvérsias, a justificativa soou tardia e pouco convincente.

Segundo demonstra a investigação aberta sobre o assunto pela Promotoria Pública de Regensburg, as teses neonazistas de Williamson começaram a dar o que falar dias antes de ser reabilitado por Ratzinger. A revista alemã Der Spiegel antecipou em 19 de janeiro o conteúdo da entrevista concedida pelo bispo à televisão sueca STV, em que negava o genocídio de seis milhões de judeus e a existência das câmaras de gás.

A Rádio Vaticano ecoou a notícia em 23 de janeiro, e a reabilitação foi comunicada pelo L’Osservatore Romano no dia 25, se bem que a notícia já foi veiculada extra-oficialmente no dia 21 de janeiro. Nesse dia, recordou nesta quarta-feira o Vaticano, o Papa assinou o decreto de perdão. A sucessão de datas deixa em maus lençóis a Sala de Imprensa da Santa Sé.

A explicação da quarta-feira coloca também em apuros o porta-voz do Papa, o Pe. Federico Lombardi, que, no dia anterior, replicando a Merkel, sentenciou que a condenação papal da declaração negacionista “não podia ser mais clara”. Pelo que parece, não foi. No comunicado, o Vaticano exige que Williamson se retrate de suas teses “de modo absolutamente inequívoco e público” se quiser recuperar “as suas funções episcopais na Igreja”. E reitera que suas posições sobre o Holocausto “são absolutamente inaceitáveis e firmemente repudiadas pelo Santo Padre”.
O Vaticano tenta sair do aperto, mas não retrocede. Mesmo com a tempestade provocada em países como a Alemanha e a Argentina (onde a mídia local recordou que Williamson foi e é um firme defensor da ditadura), Ratzinger segue disposto a contar com o bispo. A Santa Sé “se esforçará para tratar com os interessados as questões ainda abertas”, para chegar “a uma plena e satisfatória solução dos problemas que deram origem a esta dolorosa fratura”, afirma a Santa Sé. Aduz, além disso, razões técnicas para tentar diminuir a polêmica: “A suspensão da excomunhão libertou quatro bispos de uma pena canônica gravíssima, mas não mudou a situação jurídica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”, e esta ainda não goza de “nenhum reconhecimento canônico” na Igreja católica.

“Para seu futuro reconhecimento”, reitera, “é condição indispensável o pleno reconhecimento do Concílio Vaticano II e do magistério dos Papas João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e do próprio Bento XVI”.

Não parece fácil, porque o movimento fundado em 1970 por Marcel Lefebvre nasceu em oposição ao Concílio Vaticano II, que abriu a Igreja aos movimentos sociais e laicos, e determinou a aproximação com muçulmanos e judeus.

O fato é que Bento XVI perdoou a um dos grupos mais marginais e reacionários do catolicismo, e que sua intenção de “conseguir a unidade da Igreja” teve apenas efeitos negativos. Deteriorou o difícil diálogo com a comunidade judaica e com Israel, e semeou a discórdia entre os setores moderados, tanto laicos como religiosos.

Na Alemanha, o desprestígio não tem fim. Williamson poderia ser réu de um processo penal, e segundo informa a imprensa, como o Süddeutsche Zeitung, o caso causou um grande aumento das apostasias no país, e uma avalancha de protestos nas dioceses.

Nas últimas semanas é possível ver no YouTube Williamson assegurando que nenhum judeu morreu nas câmaras de gás nazistas, que, segundo ele, nem mesmo existiram. E se pode comprovar como reconhece que comete um crime e “suplica” ao jornalista sueco Ali Fegan que seja “cuidadoso” com a entrevista, porque poderia levá-lo à prisão.

O artigo 130 do Código Penal alemão, dedicado à “incitação ao ódio”, prevê castigos de até cinco anos ou multa para quem “negar ou banalizar” os crimes da ditadura nazista “de forma pública”. E castiga com até três anos a quem, da mesma maneira, “justificar, enaltecer ou aprovar” o regime de Hitler.

sábado, 5 de janeiro de 2008

O ensino da Shoah

Stéphane Bruchfeld; Paul A. Levine
« Dites-le à vos enfants » Histoire de la Shoa en Europe, 1933-1945Paris,
Éditions Ramsay, 2000
tradução adaptada
Prefácio de Serge Klarsfeld*

O ensino da Shoah (Holocausto em língua Iídiche) tornou-se indispensável.

O Fórum Internacional de Estocolmo sobre a educação, a pesquisa e a memória da Shoah (26-28 de Janeiro de 2000) veio confirmar a oportunidade da iniciativa tomada, há dois anos, pelo Primeiro Ministro Sueco Goram Persson: criar uma força de intervenção, uma “Task Force”, encarregada de promover este tipo de ensino em numerosos países.

Os nove países integrantes da “Task Force”, Suécia, Estados Unidos, Reino Unido, Israel, Alemanha, Países Baixos, Itália, França e Polónia, reuniram diplomatas, especialistas, professores, organizações não-governamentais, para ajudar países menos avançados no conhecimento da Shoah. Trata-se principalmente de formar professores que saibam, por sua vez, formar gerações de alunos, de estudantes e de professores. Países como a República Checa, a Argentina, a Letónia, a Lituânia, a Ucrânia, a Bulgária, a Rússia, estão prontos para enveredar pelo mesmo caminho.

A resolução comum, à qual se associaram os quarenta e seis países representados em Estocolmo, testemunha esta vontade pedagógica internacional de transmissão da memória da Shoah. Por aquela ocasião, o discurso do Primeiro Ministro francês, Lionel Jospin, em Estocolmo, exprimiu a mesma determinação: O ensino da Shoah, a compreensão das causas que tornaram possível o Holocausto, a homenagem àqueles que o combateram, constitui um dever.

Em França, subscrevemos plenamente este dever de memória e de educação. Se os governos tardaram em reconhecer a responsabilidade do Estado na perseguição e espoliação dos Judeus de França durante a Segunda Guerra Mundial, a obra realizada nestes últimos anos é muito importante… Temos a intenção de criar uma fundação cujo objectivo principal seja o ensino da Shoah. Uma tal fundação não terá relevância se a ajuda e a participação do Estado não lhe forem garantidas de uma forma duradoura. E sê-lo-ão.

Este discurso segue as mesmas linhas do discurso do Presidente da República, Jacques Chirac, a 16 de Julho de 1995, por ocasião da comemoração nacional da razia do “Vélodrome d’Hiver”, a 6 de Julho de 1942: Essas horas negras conspurcaram para sempre a nossa história e são um insulto ao nosso passado e às nossas tradições. Sim, a loucura criminosa do ocupante foi secundada por cidadãos franceses, pelo Estado Francês… A França, pátria das Luzes e dos Direitos do Homem, terra de acolhimento e de asilo, praticou, naquele dia, o irreparável. Faltando à palavra, entregou aos carrascos os seus protegidos …

Transmitir a memória do povo judeu, dos sofrimentos e dos campos de concentração, testemunhar sempre mais, reconhecer os erros do passado e os erros cometidos pelo Estado, não esconder nada das horas sombrias da nossa história, é defender uma ideia do homem, da sua liberdade e da sua dignidade. É lutar contra as forças obscuras, que actuam sem cessar.

No dia 29 de Fevereiro de 2000, a Assembleia Nacional decidiu, por unanimidade, criar um dia nacional de comemoração
“em memória das vítimas dos crimes racistas e anti-semitas do Estado Francês e
em homenagem aos Justos de França.”

Algumas pessoas, sem falar dos negacionistas, sentem-se incomodadas por esta emergência contínua da Shoah e pelo lugar que este acontecimento, pouco estudado durante décadas, tende a ocupar na história contemporânea. Segundo aquelas, trata-se de uma pretensão judaica à unicidade e à palma do martírio, ou então, de um “Massacre dos Inocentes” estatisticamente gigantesco, mas que não difere na sua natureza de massacres anteriores (Arménios) ou simultâneos (Ciganos) ou posteriores (Cambodja, Ruanda, Bósnia, Cosovo), ou supostamente, de um argumento destinado a ajudar à edificação ou ao reforço do Estado de Israel.

Alguns consideram também que, com a mudança de século e de milénio, a história ficou definitivamente para trás, e que é preferível não regressar àquela imensa página negra do século XX, a última página do grande livro da perseguição aos Judeus entre o ano mil e o ano dois mil.

Militante da memória, há mais de trinta anos, como historiador e como homem de acção, gostaria de tentar responder a esta questão inevitável: porque será o ensino da Shoah tão indispensável?

Aquilo que distingue a Shoah de todas as outras tragédias resulta da combinação de vários elementos.

1 – É um drama da civilização europeia.
O genocídio judaico é o resultado de uma operação essencialmente policial, levada a cabo em todo o território europeu, sob impulso alemão, e sempre com cumplicidades locais (à excepção dos países neutros, Espanha, Portugal, Suíça, Suécia, que foram indirectamente cúmplices, quanto mais não fosse, por terem procedido a repressões, recusado a passagem de vistos e, sobretudo, ajudado os países do Eixo na altura da vitória).

2 – É um drama da civilização cristã.
O povo que o nazismo procurou aniquilar é o mesmo que revelou ao mundo o monoteísmo e a Bíblia, o mesmo que deu origem ao cristianismo. Os seus valores morais foram transmitidos pelo cristianismo a todo o Ocidente, sobretudo o quinto mandamento: “Não matarás”. No entanto, a Shoah desenrolou-se sobre o continente europeu, onde, à excepção dos Judeus e de um pequeno número de muçulmanos, todos os habitantes eram cristãos, católicos, protestantes ou ortodoxos. O desprezo de que, durante tanto tempo, os Judeus foram alvo por parte da cristandade facilitou a tarefa dos organizadores da solução final da questão judaica: isso explica a indiferença por parte dos que não participaram nela, mas à qual nunca se opuseram.

3 – É um drama da civilização ocidental.
O genocídio foi concebido e organizado na Europa por um estado ocidental, o Estado Alemão, por um país, a Alemanha, um dos mais avançados do mundo, tanto do ponto de vista económico, social, administrativo, técnico e militar, como cultural e intelectual. Os grandes Aliados estão igualmente implicados, mesmo tendo corajosa e vitoriosamente lutado contra os países do Eixo: a Inglaterra, que fechou as portas da Palestina e deixou passar ao largo barcos carregados de Judeus; os Estados Unidos, que só muito discretamente abriram as suas portas e que nenhum esforço fizeram em 1938 para que a conferência de Évian encontrasse uma solução para o acolhimento maciço dos Judeus europeus.

4 – É um drama, pela sua amplitude sem precedentes.
Em menos de cinco anos, a destruição dos Judeus foi levada a cabo em dois terços, uma vez que, em cerca de nove milhões de Judeus, seis milhões pereceram. Se o Reich tivesse aguentado mais algum tempo, nenhum Judeu teria sido liberto. Se os nazis tivessem podido estender a sua influência a outros continentes, milhões de outros Judeus teriam sido exterminados. Lembremo-nos de que existiam, na época, seis milhões de Judeus fora da Europa.

5 – É uma tragédia da modernidade.
Confrontados com as dificuldades técnicas da eliminação simultânea de milhares de seres humanos, os nazis conceberam uma maquinaria industrial capaz de suprimir as suas vítimas em vastas câmaras de gás camufladas e munidas de fornos crematórios. Uma poderosa e racional organização administrativa, policial e diplomática, baseada na divisão do trabalho, grandes redes ferroviárias e os mais rápidos meios de comunicação (telex, telegramas, despachos, telefones) foram colocados ao serviço da solução final.

6 – É um drama da natureza humana.
Ao abrir perspectivas terríveis sobre a infinita capacidade do homem, supostamente organizado, de produzir o mal, a crueldade nazi não conhece limites. Ela ultrapassa tudo o que até ali se havia podido recear, enfraquecendo a confiança do homem em si próprio e revelando a sua profunda bestialidade.

7 – É um drama indizível.
Após a guerra, a Shoah não recebeu um nome. O processo de Nuremberga contra os criminosos nazis falou de “genocídio dos Judeus”. Com a guerra fria, o silêncio histórico e judicial caiu sobre o Holocausto, e é apenas com a decisão do governo de Israel de se encarregar de Adolf Eichmann e de levantar-lhe, em 1961, um processo histórico, o da solução final da questão judaica, que a Shoah (ou Holocausto) emerge da noite e do nevoeiro.

8 – É um drama ameaçado de esquecimento ou de negação.
Os negacionistas e outros falsificadores têm tentado apagá-la da história. Horrorizados por esta contestação infame cujo apogeu se situa no final dos anos setenta, os resgatados dos campos de extermínio e respectivos descendentes procuraram ripostar, reunindo a indispensável documentação sobre cada aspecto do Holocausto, recolhendo testemunhos, reforçando e renovando os centros de documentação já existentes, criando ainda novos centros mais poderosos. A geração dos resgatados, bem como a dos filhos dos deportados e dos sobreviventes, cumprem assim uma missão científica e moral, com desígnios à altura da tragédia: escrever o nome e a história de cada vítima. A Shoah deve representar, não os milhões de vítimas, mas cada uma delas em particular, a fim de que a todos sejam restituídos o seu estado civil, o seu itinerário, a sua dignidade. A fim de que todas possam sair do esquecimento e do anonimato.

A fim de que, de objectos da História, estes nomes se tornem sujeitos da História.Porquê então um ensino da Shoah? Para se evitar, no Ocidente, o regresso da barbárie, qualquer que seja a sua forma. O genocídio judaico interpela a consciência universal devido à sua amplitude, ao que ele revelou de inquietante sobre o homem, e à sua incapacidade de impedir novos massacres e genocídios noutras regiões do mundo. O perigo é real, e a nossa vigilância, sem cair no alarmismo, deve ser permanente e preventiva. O racismo, a xenofobia e o anti-semitismo estão sempre presentes, e a extrema-direita continua a ser uma família política em actividade na Europa, mesmo fora dos tempos de crise. A Shoah é o verdadeiro produto daquilo que tais forças são capazes de gerar.O estudo do Holocausto, se passa por ser uma lição de história, é também uma lição de moral e de civismo, que ensina que o valor fundamental é o respeito absoluto pela pessoa humana. Será assim que os nossos jovens conseguirão, não só manter e reforçar, sob todos os seus aspectos, a democracia no Ocidente, mas também combater a desumanidade que ainda causa grandes estragos em amplas regiões do planeta.


Serge Klarsfeld
*Serge Klarsfeld, advogado e historiador, é presidente da Associação dos Filhos e Filhas dos Deportados Judeus de França. Milita há trinta anos pelo julgamento dos crimes contra a humanidade.