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domingo, 24 de janeiro de 2010
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Entre os arquivos e o futuro - O discurso negacionista e o antissemitismo contemporâneo.
Adriana Dias
Universidade Estadual de Campinas - Unicamp
As imagens foram escolhidas por Rita Amaral. Obrigada, querida.
In memorian.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Jornal de Harvard publica anúncio negando o Holocausto; propaganda gera polêmica
RIO - A Universidade de Harvard, uma das mais prestigiadas instituições acadêmicas do mundo, recebeu fortes críticas por permitir a publicação de um anúncio que questionava o Holocausto. Segundo a CNN, a polêmica propaganda saiu no jornal "The Harvard Crimson" e colocava em dúvida o extermínio do antigo campo Birkenau, também conhecido como Auschwitz II, onde milhares de pessoas foram executadas.
Os responsáveis pelo jornal em Harvard reconheceram o erro e pediram desculpas. Em resposta à comoção criada em torno da publicação do anúncio, o presidente da "Crimson", Maxwell L. Child, emitiu um comunicado justificando o erro pelo período de férias, já que não houve revisão editorial entre a inclusão do anúncio e sua publicação no papel.
"Trabalharemos muito para evitar lapsos como esses no futuro, e esperamos que nossos leitores aceitem que o erro é um fracasso logístico." O jornal foi recentemente nomeada como o melhor jornal de notícias e reportagens de todas as universidades americanas.
O anúncio, pago por Bradley R. Smith e sua comissão de debate aberto sobre o Holocausto, lança perguntas sobre o papel do general Eisenhower durante a Segunda Guerra Mundial e sobre a existência de câmaras de gás dos nazistas. Smith garantiu que não houve qualquer impedimento por parte do jornal no momento da publicação. Ele afirmou não se surpreender com a polêmica porque o extermínio de judeus é "um tabu desde o começo".
Os responsáveis pelo jornal em Harvard reconheceram o erro e pediram desculpas. Em resposta à comoção criada em torno da publicação do anúncio, o presidente da "Crimson", Maxwell L. Child, emitiu um comunicado justificando o erro pelo período de férias, já que não houve revisão editorial entre a inclusão do anúncio e sua publicação no papel.
"Trabalharemos muito para evitar lapsos como esses no futuro, e esperamos que nossos leitores aceitem que o erro é um fracasso logístico." O jornal foi recentemente nomeada como o melhor jornal de notícias e reportagens de todas as universidades americanas.
O anúncio, pago por Bradley R. Smith e sua comissão de debate aberto sobre o Holocausto, lança perguntas sobre o papel do general Eisenhower durante a Segunda Guerra Mundial e sobre a existência de câmaras de gás dos nazistas. Smith garantiu que não houve qualquer impedimento por parte do jornal no momento da publicação. Ele afirmou não se surpreender com a polêmica porque o extermínio de judeus é "um tabu desde o começo".
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terça-feira, 26 de maio de 2009
Australiano é preso por negar Holocausto na internet
Postado por Marcelo.
Homem de 64 anos é historiador e professor aposentado
O australiano Frederick Toben foi condenado nesta quarta a três meses de prisão por negar repetidamente o Holocausto em textos publicados na internet e por possuir material revisionista.
Toben, um historiador e professor aposentado de 64 anos, foi considerado culpado de desacato por descumprir em várias ocasiões a ordem judicial que lhe obrigava a deixar de insultar os judeus no portal do Instituto de Adelaide.
O juiz do Tribunal Federal da Austrália do Sul concluiu que Toben descumpriu as ordens da corte ditadas em 2002 e em 2007 para que deixasse de violar a lei australiana contra a discriminação racial, ao se referir aos judeus que se ofendem com a negação do Holocausto como seres com uma inteligência limitada.
Os advogados de Toben apelarão contra a sentença num prazo de duas semanas.
AGÊNCIA EFE
Homem de 64 anos é historiador e professor aposentado
O australiano Frederick Toben foi condenado nesta quarta a três meses de prisão por negar repetidamente o Holocausto em textos publicados na internet e por possuir material revisionista.
Toben, um historiador e professor aposentado de 64 anos, foi considerado culpado de desacato por descumprir em várias ocasiões a ordem judicial que lhe obrigava a deixar de insultar os judeus no portal do Instituto de Adelaide.
O juiz do Tribunal Federal da Austrália do Sul concluiu que Toben descumpriu as ordens da corte ditadas em 2002 e em 2007 para que deixasse de violar a lei australiana contra a discriminação racial, ao se referir aos judeus que se ofendem com a negação do Holocausto como seres com uma inteligência limitada.
Os advogados de Toben apelarão contra a sentença num prazo de duas semanas.
AGÊNCIA EFE
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Um pequeno manifesto
Há cerca de seis anos, quando eu comecei a entrevistar sobreviventes do Holocausto, em especial os residentes do bairro do Pari em São Paulo, entrei em contato com o grande enunciado de Jorge Semprum:
O sentido da palavra humano se fragilizou pela experiência tenebrosa do holocausto, pois a perseguição realizada por parte da humanidade à outra parte estilhaçou o espelho em que mirávamos o nosso rosto pseudo civilizado. Restou-nos resgatar nossa face humana. É verdade que toda uma luta por Direitos Humanos se iniciou, mirando este resgate. Isto, no entanto, parece escapar-nos. Permitir que vozes se levantem negando o Holocausto é não acalmar feridas mal cicatrizadas, é abrir permissão para assassinar novamente.
Por isto, não posso aceitar a vinda do presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil no início de maio. Na delegação de Ahmadinejad, composta por pelo menos cem pessoas, estarão representantes de vários setores do governo iraniano e empresários. Serão assinados acordos de cooperação econômica, técnica e cultural. Este controverso presidente defende varrer Israel do mapa, questiona o Holocausto e recusa pressões para suspender o programa nuclear iraniano. O comércio bilateral com o Irão significa 2 bilhões de dólares e a presença da Petrobrás no Irão - a estatal estuda ampliar a atuação iniciada em 2004.
Esta semana, a administração Obama reafirmou que concorda com Israel a respeito do programa nuclear iraniano: ele é uma gigantesca ameaça à estabilidade, notadamente delicada, do Oriente Médio. Munido de um apelo populista (se auto-proclama "o amigo do povo"), Mahmoud Ahmadinejad quando eleito presidente do Irã, em 2005, no entanto, ainda era uma figura pouco conhecida internacionalmente. Sua trajetória política conhecia como marco a designação para prefeito de Teerã, em 2003. Fortalecido pelo apoio de setores conservadores poderosos, que mobilizaram uma rede de mesquitas a seu favor, a candidatura à presidência obteve vitória nas urnas.
Como prefeito, o ex-militar havia fechado inúmeras lanchonetes de fast-food e obrigado todos os funcionários homens da prefeitura a usar barba e vestir camisas de mangas compridas. Recusava qualquer manifestação pró-ocidente, como exemplifica a proibição, determinada por ele, da primeira campanha publicitária desde a Revolução Islâmica de 1979, apenas por se vincular a imagem de uma celebridade ocidental, o jogador de futebol britânico David Beckham. Ahmadinejad também defende o programa nuclear que tanto preocupa os Estados Unidos e a União Européia. Desde sua posse, o Presidente iraniano manifestou nas Nações Unidas sua intenção firme de prosseguir com a produção de combustível nuclear. Desde então, ele insiste nesta concepção: defende o Irã como possuidor de "um direito inalienável" à energia nuclear e ofereceu mesmo a países estrangeiros um papel no seu programa nuclear.
Não quero partilhar o solo brasileiro com este homem. Simplesmente, porque ele se recusa a partilhar a humanidade com milhões de seres humanos, ao negar sua dor, história e memória.
ninguém sai vivo de um campo de concentração.A perseguição desumana e a inimaginável animalização imposta a estas pessoas pelo mais abominável regime totalitário de todos os tempos foi mais do que suficientemente retratada. Não se trata aqui apenas de reafirmar isto: mas de recordar a dor. Eu convivi em cada uma das entrevistas com a dor, incômoda, nauseante, consternadora. A descrição de toda a tortura criara em mim um estado de alerta: ultrapassamos, como humanos, os limites possíveis. E, se humana me construo, afinal humano ser é humano fazer-se, esta dor é minha. É minha porque não posso permitir a partilha deste fato sem me surpreender que pessoas humanas, como eu e você, um dia optaram por permitir que campos de concentração aprisionassem judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, enfim, outras pessoas humanas, como eu e você.
O sentido da palavra humano se fragilizou pela experiência tenebrosa do holocausto, pois a perseguição realizada por parte da humanidade à outra parte estilhaçou o espelho em que mirávamos o nosso rosto pseudo civilizado. Restou-nos resgatar nossa face humana. É verdade que toda uma luta por Direitos Humanos se iniciou, mirando este resgate. Isto, no entanto, parece escapar-nos. Permitir que vozes se levantem negando o Holocausto é não acalmar feridas mal cicatrizadas, é abrir permissão para assassinar novamente.
Por isto, não posso aceitar a vinda do presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil no início de maio. Na delegação de Ahmadinejad, composta por pelo menos cem pessoas, estarão representantes de vários setores do governo iraniano e empresários. Serão assinados acordos de cooperação econômica, técnica e cultural. Este controverso presidente defende varrer Israel do mapa, questiona o Holocausto e recusa pressões para suspender o programa nuclear iraniano. O comércio bilateral com o Irão significa 2 bilhões de dólares e a presença da Petrobrás no Irão - a estatal estuda ampliar a atuação iniciada em 2004.
Esta semana, a administração Obama reafirmou que concorda com Israel a respeito do programa nuclear iraniano: ele é uma gigantesca ameaça à estabilidade, notadamente delicada, do Oriente Médio. Munido de um apelo populista (se auto-proclama "o amigo do povo"), Mahmoud Ahmadinejad quando eleito presidente do Irã, em 2005, no entanto, ainda era uma figura pouco conhecida internacionalmente. Sua trajetória política conhecia como marco a designação para prefeito de Teerã, em 2003. Fortalecido pelo apoio de setores conservadores poderosos, que mobilizaram uma rede de mesquitas a seu favor, a candidatura à presidência obteve vitória nas urnas.
Como prefeito, o ex-militar havia fechado inúmeras lanchonetes de fast-food e obrigado todos os funcionários homens da prefeitura a usar barba e vestir camisas de mangas compridas. Recusava qualquer manifestação pró-ocidente, como exemplifica a proibição, determinada por ele, da primeira campanha publicitária desde a Revolução Islâmica de 1979, apenas por se vincular a imagem de uma celebridade ocidental, o jogador de futebol britânico David Beckham. Ahmadinejad também defende o programa nuclear que tanto preocupa os Estados Unidos e a União Européia. Desde sua posse, o Presidente iraniano manifestou nas Nações Unidas sua intenção firme de prosseguir com a produção de combustível nuclear. Desde então, ele insiste nesta concepção: defende o Irã como possuidor de "um direito inalienável" à energia nuclear e ofereceu mesmo a países estrangeiros um papel no seu programa nuclear.
Não quero partilhar o solo brasileiro com este homem. Simplesmente, porque ele se recusa a partilhar a humanidade com milhões de seres humanos, ao negar sua dor, história e memória.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Obama e a memória do Holocausto
WASHINGTON, EUA (AFP) - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu nesta quinta-feira, durante uma cerimônia que lembrou os seis milhões de judeus massacrados durante a Segunda Guerra Mundial, que se enfrente "aqueles que contam mentiras sobre a história" e pretendem negar o Holocausto.
"Temos uma oportunidade e uma obrigação de enfrentar este flagelo", disse Obama.
"Temos a oportunidade de nos comprometermos a resistir à injustiça, à intolerância e à indiferença em qualquer forma que assumir, enfrentando aqueles que dizem mentiras sobre a história ou fazendo todo o possível para evitar e pôr fim a atrocidades como as que ocorreram em Ruanda, ou as que ocorrem em Darfur", disse Obama, que fez o seu pronunciamento depois do sobrevivente do Holocausto e Prêmio Nobel da Paz, Elie Wiesel.
Wiesel, que sobreviveu aos horrores do campo de extermínio de Auschwitz, onde sua mãe e sua irmã morreram, acusou o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, de ter se tornado o "principal negador do Holocausto no mundo".
"Existem aqueles que insistem que o Holocausto nunca ocorreu, aqueles quedisse Obama durante uma cerimônia no plenário do Capitólio que incluiu judeus sobreviventes dos campos de extermínio nazistas e não-judeus que os ajudaram durante a guerra.
praticam toda forma de intolerância -racismo, antissemitismo, homofobia,
xenofobia, sexismo e outras",
"Temos uma oportunidade e uma obrigação de enfrentar este flagelo", disse Obama.
"Temos a oportunidade de nos comprometermos a resistir à injustiça, à intolerância e à indiferença em qualquer forma que assumir, enfrentando aqueles que dizem mentiras sobre a história ou fazendo todo o possível para evitar e pôr fim a atrocidades como as que ocorreram em Ruanda, ou as que ocorrem em Darfur", disse Obama, que fez o seu pronunciamento depois do sobrevivente do Holocausto e Prêmio Nobel da Paz, Elie Wiesel.
Wiesel, que sobreviveu aos horrores do campo de extermínio de Auschwitz, onde sua mãe e sua irmã morreram, acusou o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, de ter se tornado o "principal negador do Holocausto no mundo".
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Ação judicial que investiga o bispo negacionista agrava ainda mais a crise com Roma
A cada dia que passa, parece mais evidente. A decisão de Bento XVI de perdoar os quatro bispos lefebvrianos excomungados criou uma crise muito mais grave do que aquela que tentava resolver. Depois da pressão sem precedentes exercida pela Chanceler alemã, Angela Merkel, o Vaticano exigiu, nesta quarta-feira, que Richard Williamson, o bispo que negou o Holocausto, se retrate de forma “inequívoca” se quiser recuperar “as suas funções episcopais na Igreja”. A reportagem é de Miguel Mora e Juan Gómez e publicada no jornal espanhol El País, 05-02-2009. A tradução é do Cepat.
Além disso, se viu obrigado a dar novas explicações sobre o caso, que poderia acabar com o processo penal do ultraconservador na Alemanha. A Secretaria de Estado afirmou em nota oficial [em italiano] que o Papa não estava a par das posições negacionistas de Williamson quando suspendeu a excomunhão, em janeiro passado. Depois de quase duas semanas de controvérsias, a justificativa soou tardia e pouco convincente.
Segundo demonstra a investigação aberta sobre o assunto pela Promotoria Pública de Regensburg, as teses neonazistas de Williamson começaram a dar o que falar dias antes de ser reabilitado por Ratzinger. A revista alemã Der Spiegel antecipou em 19 de janeiro o conteúdo da entrevista concedida pelo bispo à televisão sueca STV, em que negava o genocídio de seis milhões de judeus e a existência das câmaras de gás.
A Rádio Vaticano ecoou a notícia em 23 de janeiro, e a reabilitação foi comunicada pelo L’Osservatore Romano no dia 25, se bem que a notícia já foi veiculada extra-oficialmente no dia 21 de janeiro. Nesse dia, recordou nesta quarta-feira o Vaticano, o Papa assinou o decreto de perdão. A sucessão de datas deixa em maus lençóis a Sala de Imprensa da Santa Sé.
A explicação da quarta-feira coloca também em apuros o porta-voz do Papa, o Pe. Federico Lombardi, que, no dia anterior, replicando a Merkel, sentenciou que a condenação papal da declaração negacionista “não podia ser mais clara”. Pelo que parece, não foi. No comunicado, o Vaticano exige que Williamson se retrate de suas teses “de modo absolutamente inequívoco e público” se quiser recuperar “as suas funções episcopais na Igreja”. E reitera que suas posições sobre o Holocausto “são absolutamente inaceitáveis e firmemente repudiadas pelo Santo Padre”.
O Vaticano tenta sair do aperto, mas não retrocede. Mesmo com a tempestade provocada em países como a Alemanha e a Argentina (onde a mídia local recordou que Williamson foi e é um firme defensor da ditadura), Ratzinger segue disposto a contar com o bispo. A Santa Sé “se esforçará para tratar com os interessados as questões ainda abertas”, para chegar “a uma plena e satisfatória solução dos problemas que deram origem a esta dolorosa fratura”, afirma a Santa Sé. Aduz, além disso, razões técnicas para tentar diminuir a polêmica: “A suspensão da excomunhão libertou quatro bispos de uma pena canônica gravíssima, mas não mudou a situação jurídica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”, e esta ainda não goza de “nenhum reconhecimento canônico” na Igreja católica.
“Para seu futuro reconhecimento”, reitera, “é condição indispensável o pleno reconhecimento do Concílio Vaticano II e do magistério dos Papas João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e do próprio Bento XVI”.
Não parece fácil, porque o movimento fundado em 1970 por Marcel Lefebvre nasceu em oposição ao Concílio Vaticano II, que abriu a Igreja aos movimentos sociais e laicos, e determinou a aproximação com muçulmanos e judeus.
O fato é que Bento XVI perdoou a um dos grupos mais marginais e reacionários do catolicismo, e que sua intenção de “conseguir a unidade da Igreja” teve apenas efeitos negativos. Deteriorou o difícil diálogo com a comunidade judaica e com Israel, e semeou a discórdia entre os setores moderados, tanto laicos como religiosos.
Na Alemanha, o desprestígio não tem fim. Williamson poderia ser réu de um processo penal, e segundo informa a imprensa, como o Süddeutsche Zeitung, o caso causou um grande aumento das apostasias no país, e uma avalancha de protestos nas dioceses.
Nas últimas semanas é possível ver no YouTube Williamson assegurando que nenhum judeu morreu nas câmaras de gás nazistas, que, segundo ele, nem mesmo existiram. E se pode comprovar como reconhece que comete um crime e “suplica” ao jornalista sueco Ali Fegan que seja “cuidadoso” com a entrevista, porque poderia levá-lo à prisão.
O artigo 130 do Código Penal alemão, dedicado à “incitação ao ódio”, prevê castigos de até cinco anos ou multa para quem “negar ou banalizar” os crimes da ditadura nazista “de forma pública”. E castiga com até três anos a quem, da mesma maneira, “justificar, enaltecer ou aprovar” o regime de Hitler.
Além disso, se viu obrigado a dar novas explicações sobre o caso, que poderia acabar com o processo penal do ultraconservador na Alemanha. A Secretaria de Estado afirmou em nota oficial [em italiano] que o Papa não estava a par das posições negacionistas de Williamson quando suspendeu a excomunhão, em janeiro passado. Depois de quase duas semanas de controvérsias, a justificativa soou tardia e pouco convincente.
Segundo demonstra a investigação aberta sobre o assunto pela Promotoria Pública de Regensburg, as teses neonazistas de Williamson começaram a dar o que falar dias antes de ser reabilitado por Ratzinger. A revista alemã Der Spiegel antecipou em 19 de janeiro o conteúdo da entrevista concedida pelo bispo à televisão sueca STV, em que negava o genocídio de seis milhões de judeus e a existência das câmaras de gás.
A Rádio Vaticano ecoou a notícia em 23 de janeiro, e a reabilitação foi comunicada pelo L’Osservatore Romano no dia 25, se bem que a notícia já foi veiculada extra-oficialmente no dia 21 de janeiro. Nesse dia, recordou nesta quarta-feira o Vaticano, o Papa assinou o decreto de perdão. A sucessão de datas deixa em maus lençóis a Sala de Imprensa da Santa Sé.
A explicação da quarta-feira coloca também em apuros o porta-voz do Papa, o Pe. Federico Lombardi, que, no dia anterior, replicando a Merkel, sentenciou que a condenação papal da declaração negacionista “não podia ser mais clara”. Pelo que parece, não foi. No comunicado, o Vaticano exige que Williamson se retrate de suas teses “de modo absolutamente inequívoco e público” se quiser recuperar “as suas funções episcopais na Igreja”. E reitera que suas posições sobre o Holocausto “são absolutamente inaceitáveis e firmemente repudiadas pelo Santo Padre”.
O Vaticano tenta sair do aperto, mas não retrocede. Mesmo com a tempestade provocada em países como a Alemanha e a Argentina (onde a mídia local recordou que Williamson foi e é um firme defensor da ditadura), Ratzinger segue disposto a contar com o bispo. A Santa Sé “se esforçará para tratar com os interessados as questões ainda abertas”, para chegar “a uma plena e satisfatória solução dos problemas que deram origem a esta dolorosa fratura”, afirma a Santa Sé. Aduz, além disso, razões técnicas para tentar diminuir a polêmica: “A suspensão da excomunhão libertou quatro bispos de uma pena canônica gravíssima, mas não mudou a situação jurídica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”, e esta ainda não goza de “nenhum reconhecimento canônico” na Igreja católica.
“Para seu futuro reconhecimento”, reitera, “é condição indispensável o pleno reconhecimento do Concílio Vaticano II e do magistério dos Papas João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e do próprio Bento XVI”.
Não parece fácil, porque o movimento fundado em 1970 por Marcel Lefebvre nasceu em oposição ao Concílio Vaticano II, que abriu a Igreja aos movimentos sociais e laicos, e determinou a aproximação com muçulmanos e judeus.
O fato é que Bento XVI perdoou a um dos grupos mais marginais e reacionários do catolicismo, e que sua intenção de “conseguir a unidade da Igreja” teve apenas efeitos negativos. Deteriorou o difícil diálogo com a comunidade judaica e com Israel, e semeou a discórdia entre os setores moderados, tanto laicos como religiosos.
Na Alemanha, o desprestígio não tem fim. Williamson poderia ser réu de um processo penal, e segundo informa a imprensa, como o Süddeutsche Zeitung, o caso causou um grande aumento das apostasias no país, e uma avalancha de protestos nas dioceses.
Nas últimas semanas é possível ver no YouTube Williamson assegurando que nenhum judeu morreu nas câmaras de gás nazistas, que, segundo ele, nem mesmo existiram. E se pode comprovar como reconhece que comete um crime e “suplica” ao jornalista sueco Ali Fegan que seja “cuidadoso” com a entrevista, porque poderia levá-lo à prisão.
O artigo 130 do Código Penal alemão, dedicado à “incitação ao ódio”, prevê castigos de até cinco anos ou multa para quem “negar ou banalizar” os crimes da ditadura nazista “de forma pública”. E castiga com até três anos a quem, da mesma maneira, “justificar, enaltecer ou aprovar” o regime de Hitler.
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sábado, 5 de janeiro de 2008
O ensino da Shoah
Stéphane Bruchfeld; Paul A. Levine
« Dites-le à vos enfants » Histoire de la Shoa en Europe, 1933-1945Paris,
Éditions Ramsay, 2000
tradução adaptada
Prefácio de Serge Klarsfeld*
O ensino da Shoah (Holocausto em língua Iídiche) tornou-se indispensável.
O Fórum Internacional de Estocolmo sobre a educação, a pesquisa e a memória da Shoah (26-28 de Janeiro de 2000) veio confirmar a oportunidade da iniciativa tomada, há dois anos, pelo Primeiro Ministro Sueco Goram Persson: criar uma força de intervenção, uma “Task Force”, encarregada de promover este tipo de ensino em numerosos países.
Os nove países integrantes da “Task Force”, Suécia, Estados Unidos, Reino Unido, Israel, Alemanha, Países Baixos, Itália, França e Polónia, reuniram diplomatas, especialistas, professores, organizações não-governamentais, para ajudar países menos avançados no conhecimento da Shoah. Trata-se principalmente de formar professores que saibam, por sua vez, formar gerações de alunos, de estudantes e de professores. Países como a República Checa, a Argentina, a Letónia, a Lituânia, a Ucrânia, a Bulgária, a Rússia, estão prontos para enveredar pelo mesmo caminho.
A resolução comum, à qual se associaram os quarenta e seis países representados em Estocolmo, testemunha esta vontade pedagógica internacional de transmissão da memória da Shoah. Por aquela ocasião, o discurso do Primeiro Ministro francês, Lionel Jospin, em Estocolmo, exprimiu a mesma determinação: O ensino da Shoah, a compreensão das causas que tornaram possível o Holocausto, a homenagem àqueles que o combateram, constitui um dever.
Em França, subscrevemos plenamente este dever de memória e de educação. Se os governos tardaram em reconhecer a responsabilidade do Estado na perseguição e espoliação dos Judeus de França durante a Segunda Guerra Mundial, a obra realizada nestes últimos anos é muito importante… Temos a intenção de criar uma fundação cujo objectivo principal seja o ensino da Shoah. Uma tal fundação não terá relevância se a ajuda e a participação do Estado não lhe forem garantidas de uma forma duradoura. E sê-lo-ão.
Este discurso segue as mesmas linhas do discurso do Presidente da República, Jacques Chirac, a 16 de Julho de 1995, por ocasião da comemoração nacional da razia do “Vélodrome d’Hiver”, a 6 de Julho de 1942: Essas horas negras conspurcaram para sempre a nossa história e são um insulto ao nosso passado e às nossas tradições. Sim, a loucura criminosa do ocupante foi secundada por cidadãos franceses, pelo Estado Francês… A França, pátria das Luzes e dos Direitos do Homem, terra de acolhimento e de asilo, praticou, naquele dia, o irreparável. Faltando à palavra, entregou aos carrascos os seus protegidos …
Transmitir a memória do povo judeu, dos sofrimentos e dos campos de concentração, testemunhar sempre mais, reconhecer os erros do passado e os erros cometidos pelo Estado, não esconder nada das horas sombrias da nossa história, é defender uma ideia do homem, da sua liberdade e da sua dignidade. É lutar contra as forças obscuras, que actuam sem cessar.
No dia 29 de Fevereiro de 2000, a Assembleia Nacional decidiu, por unanimidade, criar um dia nacional de comemoração
Algumas pessoas, sem falar dos negacionistas, sentem-se incomodadas por esta emergência contínua da Shoah e pelo lugar que este acontecimento, pouco estudado durante décadas, tende a ocupar na história contemporânea. Segundo aquelas, trata-se de uma pretensão judaica à unicidade e à palma do martírio, ou então, de um “Massacre dos Inocentes” estatisticamente gigantesco, mas que não difere na sua natureza de massacres anteriores (Arménios) ou simultâneos (Ciganos) ou posteriores (Cambodja, Ruanda, Bósnia, Cosovo), ou supostamente, de um argumento destinado a ajudar à edificação ou ao reforço do Estado de Israel.
Alguns consideram também que, com a mudança de século e de milénio, a história ficou definitivamente para trás, e que é preferível não regressar àquela imensa página negra do século XX, a última página do grande livro da perseguição aos Judeus entre o ano mil e o ano dois mil.
Militante da memória, há mais de trinta anos, como historiador e como homem de acção, gostaria de tentar responder a esta questão inevitável: porque será o ensino da Shoah tão indispensável?
Aquilo que distingue a Shoah de todas as outras tragédias resulta da combinação de vários elementos.
1 – É um drama da civilização europeia.
O genocídio judaico é o resultado de uma operação essencialmente policial, levada a cabo em todo o território europeu, sob impulso alemão, e sempre com cumplicidades locais (à excepção dos países neutros, Espanha, Portugal, Suíça, Suécia, que foram indirectamente cúmplices, quanto mais não fosse, por terem procedido a repressões, recusado a passagem de vistos e, sobretudo, ajudado os países do Eixo na altura da vitória).
2 – É um drama da civilização cristã.
O povo que o nazismo procurou aniquilar é o mesmo que revelou ao mundo o monoteísmo e a Bíblia, o mesmo que deu origem ao cristianismo. Os seus valores morais foram transmitidos pelo cristianismo a todo o Ocidente, sobretudo o quinto mandamento: “Não matarás”. No entanto, a Shoah desenrolou-se sobre o continente europeu, onde, à excepção dos Judeus e de um pequeno número de muçulmanos, todos os habitantes eram cristãos, católicos, protestantes ou ortodoxos. O desprezo de que, durante tanto tempo, os Judeus foram alvo por parte da cristandade facilitou a tarefa dos organizadores da solução final da questão judaica: isso explica a indiferença por parte dos que não participaram nela, mas à qual nunca se opuseram.
3 – É um drama da civilização ocidental.
O genocídio foi concebido e organizado na Europa por um estado ocidental, o Estado Alemão, por um país, a Alemanha, um dos mais avançados do mundo, tanto do ponto de vista económico, social, administrativo, técnico e militar, como cultural e intelectual. Os grandes Aliados estão igualmente implicados, mesmo tendo corajosa e vitoriosamente lutado contra os países do Eixo: a Inglaterra, que fechou as portas da Palestina e deixou passar ao largo barcos carregados de Judeus; os Estados Unidos, que só muito discretamente abriram as suas portas e que nenhum esforço fizeram em 1938 para que a conferência de Évian encontrasse uma solução para o acolhimento maciço dos Judeus europeus.
4 – É um drama, pela sua amplitude sem precedentes.
Em menos de cinco anos, a destruição dos Judeus foi levada a cabo em dois terços, uma vez que, em cerca de nove milhões de Judeus, seis milhões pereceram. Se o Reich tivesse aguentado mais algum tempo, nenhum Judeu teria sido liberto. Se os nazis tivessem podido estender a sua influência a outros continentes, milhões de outros Judeus teriam sido exterminados. Lembremo-nos de que existiam, na época, seis milhões de Judeus fora da Europa.
5 – É uma tragédia da modernidade.
Confrontados com as dificuldades técnicas da eliminação simultânea de milhares de seres humanos, os nazis conceberam uma maquinaria industrial capaz de suprimir as suas vítimas em vastas câmaras de gás camufladas e munidas de fornos crematórios. Uma poderosa e racional organização administrativa, policial e diplomática, baseada na divisão do trabalho, grandes redes ferroviárias e os mais rápidos meios de comunicação (telex, telegramas, despachos, telefones) foram colocados ao serviço da solução final.
6 – É um drama da natureza humana.
Ao abrir perspectivas terríveis sobre a infinita capacidade do homem, supostamente organizado, de produzir o mal, a crueldade nazi não conhece limites. Ela ultrapassa tudo o que até ali se havia podido recear, enfraquecendo a confiança do homem em si próprio e revelando a sua profunda bestialidade.
7 – É um drama indizível.
Após a guerra, a Shoah não recebeu um nome. O processo de Nuremberga contra os criminosos nazis falou de “genocídio dos Judeus”. Com a guerra fria, o silêncio histórico e judicial caiu sobre o Holocausto, e é apenas com a decisão do governo de Israel de se encarregar de Adolf Eichmann e de levantar-lhe, em 1961, um processo histórico, o da solução final da questão judaica, que a Shoah (ou Holocausto) emerge da noite e do nevoeiro.
8 – É um drama ameaçado de esquecimento ou de negação.
Os negacionistas e outros falsificadores têm tentado apagá-la da história. Horrorizados por esta contestação infame cujo apogeu se situa no final dos anos setenta, os resgatados dos campos de extermínio e respectivos descendentes procuraram ripostar, reunindo a indispensável documentação sobre cada aspecto do Holocausto, recolhendo testemunhos, reforçando e renovando os centros de documentação já existentes, criando ainda novos centros mais poderosos. A geração dos resgatados, bem como a dos filhos dos deportados e dos sobreviventes, cumprem assim uma missão científica e moral, com desígnios à altura da tragédia: escrever o nome e a história de cada vítima. A Shoah deve representar, não os milhões de vítimas, mas cada uma delas em particular, a fim de que a todos sejam restituídos o seu estado civil, o seu itinerário, a sua dignidade. A fim de que todas possam sair do esquecimento e do anonimato.
A fim de que, de objectos da História, estes nomes se tornem sujeitos da História.Porquê então um ensino da Shoah? Para se evitar, no Ocidente, o regresso da barbárie, qualquer que seja a sua forma. O genocídio judaico interpela a consciência universal devido à sua amplitude, ao que ele revelou de inquietante sobre o homem, e à sua incapacidade de impedir novos massacres e genocídios noutras regiões do mundo. O perigo é real, e a nossa vigilância, sem cair no alarmismo, deve ser permanente e preventiva. O racismo, a xenofobia e o anti-semitismo estão sempre presentes, e a extrema-direita continua a ser uma família política em actividade na Europa, mesmo fora dos tempos de crise. A Shoah é o verdadeiro produto daquilo que tais forças são capazes de gerar.O estudo do Holocausto, se passa por ser uma lição de história, é também uma lição de moral e de civismo, que ensina que o valor fundamental é o respeito absoluto pela pessoa humana. Será assim que os nossos jovens conseguirão, não só manter e reforçar, sob todos os seus aspectos, a democracia no Ocidente, mas também combater a desumanidade que ainda causa grandes estragos em amplas regiões do planeta.
Serge Klarsfeld
*Serge Klarsfeld, advogado e historiador, é presidente da Associação dos Filhos e Filhas dos Deportados Judeus de França. Milita há trinta anos pelo julgamento dos crimes contra a humanidade.
« Dites-le à vos enfants » Histoire de la Shoa en Europe, 1933-1945Paris,
Éditions Ramsay, 2000
tradução adaptada
Prefácio de Serge Klarsfeld*
O ensino da Shoah (Holocausto em língua Iídiche) tornou-se indispensável.
O Fórum Internacional de Estocolmo sobre a educação, a pesquisa e a memória da Shoah (26-28 de Janeiro de 2000) veio confirmar a oportunidade da iniciativa tomada, há dois anos, pelo Primeiro Ministro Sueco Goram Persson: criar uma força de intervenção, uma “Task Force”, encarregada de promover este tipo de ensino em numerosos países.
Os nove países integrantes da “Task Force”, Suécia, Estados Unidos, Reino Unido, Israel, Alemanha, Países Baixos, Itália, França e Polónia, reuniram diplomatas, especialistas, professores, organizações não-governamentais, para ajudar países menos avançados no conhecimento da Shoah. Trata-se principalmente de formar professores que saibam, por sua vez, formar gerações de alunos, de estudantes e de professores. Países como a República Checa, a Argentina, a Letónia, a Lituânia, a Ucrânia, a Bulgária, a Rússia, estão prontos para enveredar pelo mesmo caminho.
A resolução comum, à qual se associaram os quarenta e seis países representados em Estocolmo, testemunha esta vontade pedagógica internacional de transmissão da memória da Shoah. Por aquela ocasião, o discurso do Primeiro Ministro francês, Lionel Jospin, em Estocolmo, exprimiu a mesma determinação: O ensino da Shoah, a compreensão das causas que tornaram possível o Holocausto, a homenagem àqueles que o combateram, constitui um dever.
Em França, subscrevemos plenamente este dever de memória e de educação. Se os governos tardaram em reconhecer a responsabilidade do Estado na perseguição e espoliação dos Judeus de França durante a Segunda Guerra Mundial, a obra realizada nestes últimos anos é muito importante… Temos a intenção de criar uma fundação cujo objectivo principal seja o ensino da Shoah. Uma tal fundação não terá relevância se a ajuda e a participação do Estado não lhe forem garantidas de uma forma duradoura. E sê-lo-ão.
Este discurso segue as mesmas linhas do discurso do Presidente da República, Jacques Chirac, a 16 de Julho de 1995, por ocasião da comemoração nacional da razia do “Vélodrome d’Hiver”, a 6 de Julho de 1942: Essas horas negras conspurcaram para sempre a nossa história e são um insulto ao nosso passado e às nossas tradições. Sim, a loucura criminosa do ocupante foi secundada por cidadãos franceses, pelo Estado Francês… A França, pátria das Luzes e dos Direitos do Homem, terra de acolhimento e de asilo, praticou, naquele dia, o irreparável. Faltando à palavra, entregou aos carrascos os seus protegidos …
Transmitir a memória do povo judeu, dos sofrimentos e dos campos de concentração, testemunhar sempre mais, reconhecer os erros do passado e os erros cometidos pelo Estado, não esconder nada das horas sombrias da nossa história, é defender uma ideia do homem, da sua liberdade e da sua dignidade. É lutar contra as forças obscuras, que actuam sem cessar.
No dia 29 de Fevereiro de 2000, a Assembleia Nacional decidiu, por unanimidade, criar um dia nacional de comemoração
“em memória das vítimas dos crimes racistas e anti-semitas do Estado Francês e
em homenagem aos Justos de França.”
Algumas pessoas, sem falar dos negacionistas, sentem-se incomodadas por esta emergência contínua da Shoah e pelo lugar que este acontecimento, pouco estudado durante décadas, tende a ocupar na história contemporânea. Segundo aquelas, trata-se de uma pretensão judaica à unicidade e à palma do martírio, ou então, de um “Massacre dos Inocentes” estatisticamente gigantesco, mas que não difere na sua natureza de massacres anteriores (Arménios) ou simultâneos (Ciganos) ou posteriores (Cambodja, Ruanda, Bósnia, Cosovo), ou supostamente, de um argumento destinado a ajudar à edificação ou ao reforço do Estado de Israel.
Alguns consideram também que, com a mudança de século e de milénio, a história ficou definitivamente para trás, e que é preferível não regressar àquela imensa página negra do século XX, a última página do grande livro da perseguição aos Judeus entre o ano mil e o ano dois mil.
Militante da memória, há mais de trinta anos, como historiador e como homem de acção, gostaria de tentar responder a esta questão inevitável: porque será o ensino da Shoah tão indispensável?
Aquilo que distingue a Shoah de todas as outras tragédias resulta da combinação de vários elementos.
1 – É um drama da civilização europeia.
O genocídio judaico é o resultado de uma operação essencialmente policial, levada a cabo em todo o território europeu, sob impulso alemão, e sempre com cumplicidades locais (à excepção dos países neutros, Espanha, Portugal, Suíça, Suécia, que foram indirectamente cúmplices, quanto mais não fosse, por terem procedido a repressões, recusado a passagem de vistos e, sobretudo, ajudado os países do Eixo na altura da vitória).
2 – É um drama da civilização cristã.
O povo que o nazismo procurou aniquilar é o mesmo que revelou ao mundo o monoteísmo e a Bíblia, o mesmo que deu origem ao cristianismo. Os seus valores morais foram transmitidos pelo cristianismo a todo o Ocidente, sobretudo o quinto mandamento: “Não matarás”. No entanto, a Shoah desenrolou-se sobre o continente europeu, onde, à excepção dos Judeus e de um pequeno número de muçulmanos, todos os habitantes eram cristãos, católicos, protestantes ou ortodoxos. O desprezo de que, durante tanto tempo, os Judeus foram alvo por parte da cristandade facilitou a tarefa dos organizadores da solução final da questão judaica: isso explica a indiferença por parte dos que não participaram nela, mas à qual nunca se opuseram.
3 – É um drama da civilização ocidental.
O genocídio foi concebido e organizado na Europa por um estado ocidental, o Estado Alemão, por um país, a Alemanha, um dos mais avançados do mundo, tanto do ponto de vista económico, social, administrativo, técnico e militar, como cultural e intelectual. Os grandes Aliados estão igualmente implicados, mesmo tendo corajosa e vitoriosamente lutado contra os países do Eixo: a Inglaterra, que fechou as portas da Palestina e deixou passar ao largo barcos carregados de Judeus; os Estados Unidos, que só muito discretamente abriram as suas portas e que nenhum esforço fizeram em 1938 para que a conferência de Évian encontrasse uma solução para o acolhimento maciço dos Judeus europeus.
4 – É um drama, pela sua amplitude sem precedentes.
Em menos de cinco anos, a destruição dos Judeus foi levada a cabo em dois terços, uma vez que, em cerca de nove milhões de Judeus, seis milhões pereceram. Se o Reich tivesse aguentado mais algum tempo, nenhum Judeu teria sido liberto. Se os nazis tivessem podido estender a sua influência a outros continentes, milhões de outros Judeus teriam sido exterminados. Lembremo-nos de que existiam, na época, seis milhões de Judeus fora da Europa.
5 – É uma tragédia da modernidade.
Confrontados com as dificuldades técnicas da eliminação simultânea de milhares de seres humanos, os nazis conceberam uma maquinaria industrial capaz de suprimir as suas vítimas em vastas câmaras de gás camufladas e munidas de fornos crematórios. Uma poderosa e racional organização administrativa, policial e diplomática, baseada na divisão do trabalho, grandes redes ferroviárias e os mais rápidos meios de comunicação (telex, telegramas, despachos, telefones) foram colocados ao serviço da solução final.
6 – É um drama da natureza humana.
Ao abrir perspectivas terríveis sobre a infinita capacidade do homem, supostamente organizado, de produzir o mal, a crueldade nazi não conhece limites. Ela ultrapassa tudo o que até ali se havia podido recear, enfraquecendo a confiança do homem em si próprio e revelando a sua profunda bestialidade.
7 – É um drama indizível.
Após a guerra, a Shoah não recebeu um nome. O processo de Nuremberga contra os criminosos nazis falou de “genocídio dos Judeus”. Com a guerra fria, o silêncio histórico e judicial caiu sobre o Holocausto, e é apenas com a decisão do governo de Israel de se encarregar de Adolf Eichmann e de levantar-lhe, em 1961, um processo histórico, o da solução final da questão judaica, que a Shoah (ou Holocausto) emerge da noite e do nevoeiro.
8 – É um drama ameaçado de esquecimento ou de negação.
Os negacionistas e outros falsificadores têm tentado apagá-la da história. Horrorizados por esta contestação infame cujo apogeu se situa no final dos anos setenta, os resgatados dos campos de extermínio e respectivos descendentes procuraram ripostar, reunindo a indispensável documentação sobre cada aspecto do Holocausto, recolhendo testemunhos, reforçando e renovando os centros de documentação já existentes, criando ainda novos centros mais poderosos. A geração dos resgatados, bem como a dos filhos dos deportados e dos sobreviventes, cumprem assim uma missão científica e moral, com desígnios à altura da tragédia: escrever o nome e a história de cada vítima. A Shoah deve representar, não os milhões de vítimas, mas cada uma delas em particular, a fim de que a todos sejam restituídos o seu estado civil, o seu itinerário, a sua dignidade. A fim de que todas possam sair do esquecimento e do anonimato.
A fim de que, de objectos da História, estes nomes se tornem sujeitos da História.Porquê então um ensino da Shoah? Para se evitar, no Ocidente, o regresso da barbárie, qualquer que seja a sua forma. O genocídio judaico interpela a consciência universal devido à sua amplitude, ao que ele revelou de inquietante sobre o homem, e à sua incapacidade de impedir novos massacres e genocídios noutras regiões do mundo. O perigo é real, e a nossa vigilância, sem cair no alarmismo, deve ser permanente e preventiva. O racismo, a xenofobia e o anti-semitismo estão sempre presentes, e a extrema-direita continua a ser uma família política em actividade na Europa, mesmo fora dos tempos de crise. A Shoah é o verdadeiro produto daquilo que tais forças são capazes de gerar.O estudo do Holocausto, se passa por ser uma lição de história, é também uma lição de moral e de civismo, que ensina que o valor fundamental é o respeito absoluto pela pessoa humana. Será assim que os nossos jovens conseguirão, não só manter e reforçar, sob todos os seus aspectos, a democracia no Ocidente, mas também combater a desumanidade que ainda causa grandes estragos em amplas regiões do planeta.
Serge Klarsfeld
*Serge Klarsfeld, advogado e historiador, é presidente da Associação dos Filhos e Filhas dos Deportados Judeus de França. Milita há trinta anos pelo julgamento dos crimes contra a humanidade.
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