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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Cópia em cache de artigo A WEB NA SALA DE AULA:Desafios para o educadorAdriana Dias (UNICAMP)

A WEB NA SALA DE AULA:
Desafios para o educador
(2009 - junho)
Adriana Dias (UNICAMP)43

Com o advento das novas tecnologias, em todos os setores da vida humana
percebeu-se grandes modificações. Todos nós estamos aprendendo a conviver com um novo
cenário, e os desafios que se apresentam, dinâmicos, exigem mudanças todos os dias na nossa
maneira de buscar e transmitir o conhecimento. Esta nova dinâmica já recebeu o nome de
sociedade informacional, de redes44. Estes nomes surgiram pelo importante papel que a
informática e a transmissão de dados por meio de computadores, ligados em redes, ocupam
no mundo contemporâneo.

Em uma sociedade estruturada na forma de redes, o conhecimento se
difunde de maneira diferente, conectando pessoas, governos e instituições diversas, e isso
muda a forma, também, de pensarmos as próprias estruturas da educação: esta vivenciou essas
mudanças em vários aspectos: desde o uso dos computadores e sistemas de dados para
registro de alunos, currículos e avaliações, passando pela elaboração de aulas, e ainda, pela
utilização dos mesmos pelos alunos, para pesquisas escolares, e em seu lazer, como
ferramenta de comunicação, diversão e sociabilidade.
Nunca antes, ferramentas de comunicação, como as que surgiram com as
novas tecnologias ocuparam um lugar de tão grande destaque na área educacional. Como
afirmou o Professor Ismar Soares45:

“Não haverá melhoria na educação nos próximos anos se o
sistema educativo não se preocupar com o universo da comunicação.
Sabendo que na comunicação, os educadores terão sempre aliados. Acredito
que é justamente essa tônica da sociedade contemporânea dos
comunicadores colocarem à disposição dos educadores para colaborar, isso
está trazendo e trará benefícios muitos grandes”.

A internet possibilita, do ponto de vista educacional, uma fonte enorme de
recursos, mas existem alguns riscos que precisam ser considerados, entre eles, pretendemos
abordar três aspectos desafiadores da web na vida escolar.
O primeiro deles reside no fato dos professores se sentirem, algumas
vezes, menos hábeis para lidar com a informação online que seus alunos. Em vários cursos de
formação de professores, eu ouvi queixas a respeito. Muitos falavam como se pertencessem a
outro mundo ou outra época. Uma frase muito repetida a esse respeito aparece nos discursos
de muitos presidentes de grandes companhias de informática: “Nós somos migrantes
analógicos de um mundo digital”. Esta frase retrata bem a mudança dos paradigmas
educacionais, o mundo digital é rápido, acelerado, conectando tudo e todos.
Mas é possível encarar todo esse processo de outra forma, se cada
professor olhar esse desafio como uma experiência de troca com seus alunos, porque se por
um lado, eles podem se sentir mais à vontade no meio digital, faltam-lhe muitas vezes,
critérios para avaliar fontes de informação e avaliar criticamente aquilo que se lê. O trabalho
do professor, na verdade, não diminui, torna-se ainda mais importante, por representar para
seus alunos, um crivo quanto a confiabilidade e a segurança da informação.

O ensino, para aproveitar todo o potencial das novas tecnologias e
apresentar qualidade, exige do professor que ele se disponha a aprender também, participando
de fóruns e comunidades virtuais, nas redes sociais, por exemplo, para conhecer o novo
universo de possibilidades que a Internet oferece a seus alunos. Isto fará da sala de aula uma
experiência inovadora, aberta, dinâmica e participativa, e trará circunstâncias favoráveis a
uma relação afetiva com os alunos que facilite conhecê-los, acompanhá-los, orientá-los.
Um segundo ponto importante, ainda mais desafiador, é a quantidade de
material na rede que exponha crianças e adolescentes a riscos. Na internet, é possível
encontrar de tudo. Desde discursos que fazem apologia ao suicídio, à anorexia e bulimia, ao
crime e à marginalização de pessoas, incluindo, ainda, páginas com conteúdos impróprios
para os alunos. O educador deve estar ciente que pode ser abordado por um aluno a respeito
desses temas a qualquer momento, e deve ser capaz de oferecer elementos que discutam essas
questões, de modo a proteger seus alunos.

Uma matéria muito interessante, a respeito do perigo que a Internet pode
representar foi divulgada pela revista Galileu, em abril de 2008, e nesta matéria, em que fui
entrevistada, falei a respeito da importância da escola quanto à prevenção do assédio de
criminosos, pois pode formar nos alunos a consciência necessária para distingui-los, no meio
virtual.

Em terceiro lugar, e mais importante, é preciso salientar que o discurso de
ódio cresce de maneira abundante na internet, no mundo todo. Dentro desse discurso de ódio,
o discurso racista, nazista e negacionista exigem dos educadores um preparo ainda mais
especifico.

Eu pesquiso este discurso de ódio, na internet, e os grupos que o
produzem, desde 2002. Quando eu iniciei a pesquisa, havia pouco mais de 7000 sites desse
tipo na rede, entre sites institucionais, blogs, fóruns e comunidades em redes sociais. Durante
a pesquisa foram localizados mais de 13 mil sites, dos quais foram escolhidos quarenta para
etnografia virtual. Os critérios de escolha para selecionar estes quarentas sites foram: o
número de acessos (entre os 800 mais acessados), os que mais links estabeleciam com outros
sites, os que eram mais citados em artigos presentes em outros sites (ainda que não houvesse
links no artigo), os que disponibilizavam mais material para análise.

O conjunto de sites foi também analisado para que incluísse tanto sites
institucionais de movimentos, como também blogs (os mais citados na rede identificada, os
com mais material disponibilizado, quer em forma de artigo, quer em forma de gráfico, os que
forneciam mais links para outros pontos, ampliando o diâmetro da minha busca), lojas e
fóruns (aqueles que possuíam o maior número de participantes e temas mais diversificados).
Destas escolhas se estruturou o universo de análise da pesquisa: 40 sites, num total de 468
páginas em blogs (0,11%), 24.371 páginas em sites (5,57%), 449 páginas em lojas (0,10%) e
412.037 páginas em fóruns (94,22%). Embora o volume de páginas seja bastante volumoso
pela rede, seu conteúdo é muito repetitivo e a leitura dos posts de algumas dezenas de blogs
revelou que em mais de 90% eles reproduzem material dos sites, blogs e lojas, quer
divulgando a ideologia, quer discutindo imagens ou charges dos blogs, quer indicando
produtos das lojas para outros internautas.

Atualmente, eles passam de 25000, nas línguas que sempre pesquisei
(português, inglês e espanhol). Nos últimos três anos, as redes sociais virtuais, como o Orkut,
MySpace, o Sonico, explodiram em numero de participantes.
Embora em algumas delas seja proibido a participação de menores de 18
anos, como no Orkut, na pratica há centenas de milhares de crianças e adolescentes nesse tipo
de rede social e também em outras que não permitem esse tipo de cadastro. Na verdade, essa
proibição surgiu, em razão do grande numero de crimes que acontecem na rede e pela
compreensão das autoridades de que jovens e crianças não teriam condições emocionais e
cognitivas para reconhecer esse tipo de atividade.

Mas, é preciso se preparar, porque de fato, nas redes sociais, há muito
material criminoso, e não há, pelo menos e o que parece, possibilidade de impedir de fato, que
adolescentes brasileiros possam navegar na rede.

No geral, essas redes sociais tornaram-se uma forma padrão de comunicar
com os amigos e, aliadas aos softwares de comunicação instantânea, ocupam boa parte do
tempo livre de nosso publico alvo. Muitas vezes, os jovens ficam horas na rede falando com
pessoas que vêem todos os dias, como colegas de sala de aula. O crescimento da web se deve,
sem duvida, à enorme possibilidade de troca, dada pela interatividade da ferramenta, que
assegura uma postura muito mais ativa do que a oferecida pela televisão, por exemplo.
Essa característica da rede, seu grande diferencial na verdade, não passou
desapercebido aos grupos subversivos, que vislumbraram nos sites, nas redes sociais e nos
fóruns, um grande espaço para desenvolver seu ativismo político. Uma corrente desses
movimentos subversivos é formada por grupos neonazistas. Eles são assim denominados
porque tentam recuperar a ideologia do partido nazista. Mas, existem algumas diferenças
importantes entre nazismo e neonazismo:

O neonazismo, o racismo e a negação do holocausto na rede, se
estruturaram em paginas que propagam sua ideologia tentando a revestir numa moldura de
verdade, que só pode ser entendida por poucos e especiais. Desta forma, se envolve o discurso
racista, neonazista e negacionista, numa aura de status, que dessa forma que busca a atenção
dos jovens.


O discurso elabora uma fórmula, a idéia de raça 46. Embora não exista, nos
dias de hoje, nenhuma base científica para validar o termo raça como realidade social ou
biológica, para essas pessoas existem diferenças culturais, sociais, políticas, psíquicas,
morais, físicas e comportamentais, entre os seres humanos, de acordo com grupos “raciais”.
É preciso entender, portanto, o que estes sites descrevem quando utilizam o
termo raças: seu discurso defende: a) a espécie humana pode ser classificada, em grupos
raciais, por traços hereditários, entre os quais predomina a cor da pele; b) a estes traços físicos
os racistas associam traços morais, culturais e psicológicos; c) a raça branca ou “ariana”
detém superioridade genética sobre todas as outras, se caracterizando pela homogeneização
destes traços em todos os seus membros. Partindo destes pressupostos que se pretendem
científicos, o discurso racista amplia seus parâmetros para fronteiras éticas: d) para que a
“evolução da humanidade” continue, é preciso que a raça “ariana” domine todas as outras e
incentive sua auto-reprodução, evitando os perigosos “casamentos inter-raciais”.

Para se ter uma idéia, em apenas um fórum racista, chega a ter mais de
3000 paginas, e em apenas um site é possível baixar mais de 300 livros racistas, o que
demonstra que o material oferecido é muito grande em numero, diversidade e tamanho. Ainda
que não haja estatísticas especificas quanto a crime de ódio no Brasil, as ONG’s que
monitoram o tema admitem que eles crescem à casa de oito por cento ao ano, e que os
criminosos utilizam sempre a rede para sua formação e sua comunicação com seus
comparsas.

Recentemente, por exemplo, depois de dia 21 de abril, quando houve o
assassinato de dois jovens, Bernardo Dayrell e Renata Waechter, em abril, participantes de grupos neonazistas, foi destaque, na imprensa, a existência destes grupos no Brasil. Neonazistas de outro grupo rival foram presos, acusados do assassinato dos dois jovens, e material neonazista foi aprendido no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e em São Paulo. Por conta disto, houve grande destaque ao tema na imprensa, mas o processo segue, e os jovens acusados, confessos, foram soltos e aguardam o julgamento em liberdade.

O que pregam os neonazistas? Nos sites, neonazistas há uma espécie de
“curso intensivo” de intolerância: é dito que a “raça branca” vive um processo de extinção,
arquitetado por “judeus” e “negros”. Esses seriam os inimigos, alvos de grande ódio. Os sites
de conteúdo neonazista utilizam armadilhas para fugir da fiscalização e, ao mesmo tempo,
alcançar internautas desavisados. São páginas dentro de páginas, acessadas por meio de vários
links. A isca, para atrair futuros militantes, é abordar temáticas politicamente corretas, como
combate à pedofilia e ao aborto. Tais práticas, quando o usuário chega ao portal neonazista,
são imputadas a negros e judeus. É uma prática absurda, sem a menor correspondência lógica
com a realidade, que só faz sentido dentro da loucura desses grupos, totalmente contrários à
luta de 300 anos de garantia dos direitos humanos.

O discurso neonazista nega o Holocausto, afirma que não morreram
milhões de pessoas sob o regime de Hitler. De fato, morreram milhões de pessoas, mas para
eles, negar é uma forma de defender o uso de violência contra os inimigos, que chamam de
“caluniadores”, objetivando implantar o “estado branco” e a expulsão dos inimigos deste
estado. Ao negar o holocausto, os sites assassinam a memória das vítimas, o que é muito
perverso. Racista e homofóbico, o neonazismo no Brasil acrescenta a seus inimigos também o
nordestino. Utilizam-se da suástica, runas e imagens que fazem referência ao nazismo para
ilustrar seus sites e perfis na rede. Em sua trama paranóica, oferecem material de ativismo
para propagar suas idéias e ensinam a seus membros como ocultar seus crimes. Eles falam
dos militares nazistas como heróis e seus textos incitam ao ódio, ao assassinato e ao
preconceito.
O ativismo defendido por estes sites pode ser de várias formas:



Nestes sites, que objetivam a exaltação da superioridade da ‘raça’ ariana e
à disseminação do ódio a outras etnias e grupos sociais, como homossexuais e judeus, há
muito material proibido por lei no Brasil, pois em nosso país racismo é crime. É muito
importante alertar aos jovens que não se trata “de uma opinião” ou do uso “da liberdade de
expressão”, como tentam discutir os sites criminosos. É crime, e muitos jovens já estão sendo
punidos por isto, principalmente os que participam de comunidades racistas no Orkut.
Estes grupos constroem ou se apropriam de discursos para validar suas
visões e suas ações. Um deles é o discurso biológico, que afirma que os indivíduos
pertencentes à ‘raça ariana’ possuem genes superiores e foram escolhidos por Deus para
promover o desenvolvimento da humanidade e hierarquizar o mundo. Nestes sites, os
neonazistas afirmam não possuir mitocôndrias judias ou negras, como se uma mitocôndria
pudesse ter origem étnica. Isso não existe!

Os sites também usam muitos elementos religiosos e mitológicos. Por
exemplo, o deus nórdico Thor é apontado como o responsável pela legitimação da 'raça
ariana', a suástica é usada como símbolo da identidade ariana e da pureza racial e a runa algiz
é utilizada para a proteção da família, e muitos rituais são copiados de sociedades secretas do
século XIX. Eles ainda desprezam o conceito de nação. Para eles, a raça é a nação.
Mas, o que fazer quando você ou um aluno se depara com um site deste?
Como agir? A maior parte dos site é produzida por pessoas entre 35 a 55 anos, com educação
pré-superior ou superior, que pertencem ao movimento há muito tempo. Muitos são treinados
em armas, inclusive. Por isso, não adianta ficar discutindo, tentando convencê-los, isso pode
ser muito perigoso, porque a grande maioria dos sites têm como localizar o lugar do acesso. O
melhor caminho é passar as informações para o site SAFERNET, ou para a pesquisadora
Adriana Dias, que encaminharam as denúncias as autoridades.

Lembre-se: A Educação é fator fundamental. Os jovens são
arregimentados porque não têm informações. É preciso educar para os Direitos Humanos no
Brasil. Se para nós, existe apenas a raça humana, para esses grupos a raça implicaria numa
hierarquia, e numa luta permanente. Anacrônica, esta idéia tem encontrado, infelizmente, eco
em muitos internautas. Por isso é preciso pensar em propostas que tornem este eco cada vez
menos audível, seja em âmbito familiar, educacional, social ou judicial. A única forma de
combater a formação do pensamento racista e discriminatório é a construção de uma educação
conscientizadora que desmitifique o conceito de raça e pregue a solidariedade entre os povos.
Se para nós, existe apenas a raça humana, para esses grupos a raça
implicaria numa hierarquia, e numa luta permanente. Anacrônica, esta idéia tem encontrado,
infelizmente, eco em muitos internautas. Por isso é preciso pensar em propostas que tornem
este eco cada vez menos audível, seja em âmbito familiar, educacional, social ou judicial. A
única forma de combater a formação do pensamento racista e discriminatório é a construção
de uma educação conscientizadora que desmitifique o conceito de raça e pregue a
solidariedade entre os povos.


Bibliografia Sugerida:
CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
______. Vol. I: A sociedade em rede. 2. ed. São Paulo: Paz e terra, 1999.
______. Vol. II: O poder da identidade. São Paulo: Paz e terra, 1999.
______. Vol. III: Fim de milênio. São Paulo: Paz e terra, 1999.
DIAS, Adriana. "Links de ódio: o racismo, o revisionismo e o neonazismo na Internet" In.: Os
Urbanitas: Revista de Antopologia Urbana. Campinas, ano 3, vol. 3, no. 4, julho de 2006.
GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo Como trabalhar com "raça" em sociologia.
Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517 Acessado em
23/04/09
MILMAN, Luís, VIZENTINI, Paulo et alli. Neonazismo, negacionismo e extremismo
político. Porto Alegre, Editora da Universidade, 2000.
SALAS, Antonio. Diário De Um Skinhead. Um Infiltrado No Movimento Neonazista. São
Paulo:Planeta, 2006.
SALEM, Helena. As Tribos do Mal: O Neonazismo no Brasil e no Mundo. São Paulo:
Editora Atual, 1995.
SOARES, I. O. . Comunicação e Educação: potencial pedagógico. Revista Onda Jovem, São
Paulo, p. 40 - 45, 10 jul. 2007

43 Adriana Dias é Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de Campinas, membro da
Associação Brasileira de Antropologia e da Latin American Jewish Studies Association. Desenvolve
aplicativos, bancos de dados e sites para WEB desde 1999. Foi colaboradora no Laboratório de
Políticas Públicas (LaPPlaNE). Consultora e palestrante na área de Educação e Direitos Humanos,
ministrou seminários em diversas instituições brasileiras e internacionais, e cursos para a Secretaria de
Educação em Campinas e Vinhedo. Lecionou Psicanálise e Antropologia. O blog da pesquisa pode ser
acessado em etnografianovirtual.blogspot.com
Seu e-mail é dias.adriana@gmail.com
44 A idéia veio de Manuel Castells, autor de Galáxia Internet e Sociedade em Rede, entre outros livros.
45 Ismar de Oliveira Soares é jornalista, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da
Universidade de São Paulo, professor titular da Universidade de São Paulo.
46 Para a Biologia, o vocábulo raça é sinônimo de subespécie e caracteriza-se pela comprovada
existência de linhagens distintas dentro das espécies, portanto, para a delimitação de subespécies ou
raças a diferenciação genética é uma condição essencial, ainda que não suficiente. No homo sapiens a
variabilidade genética representa 93 a 95% da variabilidade total, nos sub-grupos continentais, o que
caracteriza, definitivamente, a ausência de diferenciação genética. Portanto, inexistem raças humanas.
Entretanto o termo raça serve para identificar categorias socialmente definidas. Um excelente texto
para o entendimento deste último aspecto encontra-se em “Como trabalhar com 'raça' em sociologia, de
Antônio Sérgio Alfredo Guimarães, disponível pelaInternet em http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag.

terça-feira, 30 de março de 2010

sexta-feira, 12 de março de 2010

UNESCO promove encontro para discutir educação e relações étnico-raciais

UNESCO promove um Encontro para construir uma agenda para acelerar o processo de implementação do Plano Nacional de Implementação da Lei 10.639/2003, de 17 a 18 de março de 2010, na Universidade Federal de São Carlos, São Paulo, Brasil.


A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência, e a Cultura (UNESCO) promove nos dias 17 e 18 de março, na Universidade Federal de São Carlos, no estado de São Paulo, encontro para construir uma agenda de ação política articulada entre movimentos negros e organizações parceiras a fim de acelerar o processo de implantação do Plano Nacional da lei 10.639/2003 (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana). A agenda deverá incidir na construção do novo Plano Nacional de Educação (2011-2020).

O evento “O papel da sociedade civil na implementação do Plano Nacional da lei 10.639/2003 - Rumo a uma agenda de ação política articulada" é resultado de uma parceria da UNESCO no Brasil com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/UFSCar), a ONG Ação Educativa, o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e o Programa de educação e profissionalização para igualdade racial e de gênero do CEAO – Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAFRO), e conta com o apoio do Instituto C&A e Save the Children UK.

O encontro dá continuidade ao debate sobre a lei 10.639/2003, organizado pelo Ministério da Educação e pela UNESCO, em novembro de 2007, em Brasília. O workshop, que contou com a participação de várias organizações da sociedade civil e representantes de diferentes instâncias do governo, teve como principal desdobramento a agenda que resultou na elaboração do Plano Nacional de Implementação da Lei 10.639/2003, entregue ao MEC em dezembro de 2008. O Plano foi lançado pelo Ministério da Educação e pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) em maio de 2009.

Para mais informações, por favor, entre em contato com:

Juliana Bezerra do Setor de Educação da UNESCO no Brasil: juliana.bezerra(at)unesco.org.br

Núcleo de Estudos Afrobrasileiros da UFSCar: neab(at)power.ufscar.br.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

De Bertolt Brecht:

"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence." Paulo, merci.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Reflexões acerca do Ensino de Sociologia (e da Antropologia) no Ensino Médio

escrevi este artigo há algum tempo. preciso revê-lo!

Entre Delors e os PCNs “a quem serve o ensino antropológico no Ensino Médio”?

INTRODUÇÃO
O presente texto pretende contribuir com a discussão acerca do material pedagógico para a disciplina Sociologia no Ensino Médio, no Brasil, partindo de duas reflexões: a primeira assume uma postura crítica diante da compreensão evidenciada por diversos órgãos acerca do Ensino Médio, e a segunda trata da disciplina inclusa recentemente no mesmo, dentro das especificidades para ela traçadas pelos documentos do Ministério da Educação e Cultura.
Na primeira parte do texto enfrentaremos a relação entre o Relatório Delors e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o Ensino Médio, mas também discutiremos o relatório final da Reunião Internacional de Especialistas sobre o Ensino Médio no Século XXI: Desafios, Tendências e Prioridades. A proposta é tecer um diálogo crítico com estas propostas, para pensar como a construção de políticas públicas, suas abrangências e sua efetivação, no Brasil, são respostas ás prioridades das agendas internacionais.Para situar cronologicamente o debate, a agenda internacional será discutida no presente texto partindo do Relatório Delors[1], concluído em 1996, (publicado no Brasil, com o título Educação: Um Tesouro a Descobrir, em 1998) e elaborado pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors. Este relatório é fruto de uma longa jornada de textos e discussões priorizadas pela UNESCO, desde a Conferência Mundial de Educação para Todos[2], datada de 1990, e que se amplia acerca da discussão a respeito do ensino médio na conferência Ensino Médio no Século XXI: Desafios, Tendências e Prioridades[3], realizada na China em 2001. A agenda nacional se referencia na Constituição brasileira, de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394), de 20 de dezembro de 1996 e nos diversos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), de 1997. É preciso pensar as propostas destes documentos e relatórios, problematizando-os também como agendas ideológicas, e pensando-os como é possível importar idéias sem avaliar a situação nacional.
Na época em que se estava construindo a discussão acerca da LDB, Florestan Fernandes, num artigo para o Jornal de Brasília[4], afirmara:
Em vista da próxima elaboração da nova lei de diretrizes e bases de educação nacional, é fundamental que se revejam as práticas imperantes em nosso ensino, especialmente no primeiro e segundo graus. Começamos por importar idéias francesas e alemãs, no fim do século passado; tentamos depois, também, “reproduzir” o que nos pareceu ser o ensino primário norte-americano e o enciclopedismo iluminista de segundo grau francês. Em ambas imitações falhamos. As instituições importadas não podem ser redefinidas, em seu significado, estruturas e funções fora do seu contexto psicossocial e cultural. [grifos nossos]

Na ocasião, o grande sociólogo brasileiro já advertia acerca da impossibilidade de se importar práticas de ensino, absolutamente distanciadas da realidade brasileira, que apenas ocasionaram, para Florestan Fernandes um imenso empobrecimento educacional: “empobrecemos as instituições, as práticas que elas engendram e o seu rendimento pedagógico”, afirmou ele, no mesmo artigo. É nesse mesmo sentido que esperamos tratar os textos que atendem a demanda internacional para evitar a mera “importação de práticas”: é preciso pensar o ensino, e aqui nos deteremos no ensino médio, enfatizando a realidade nacional, e nosso “contexto psicossocial e cultural” como advertiu Florestan Fernandes. Como pensar o Ensino Médio para que este possa participar da idéia do grande sociólogo brasileiro, defensor da necessidade de “construir uma escola auto-suficiente e autônoma, capaz de crescer por seus próprios dinamismos?”
Na segunda parte tentaremos situar como a inclusão da disciplina Sociologia se relaciona, nas diversas fontes documentais, com a proposta das agendas nacionais e internacionais, e como sua área de abrangência pode influenciar na discussão de toda esta temática, inclusive redirecionando as mesmas para o desafio proposto por Florestan Fernandes: “conferir à sala de aula a capacidade de operar como o experimentum crucis da prática escolar humanizada, de liberação do oprimido, de descolonização das mentes e corações dos professores e alunos, de integração de todos nas correntes críticas de vitalização da comunidade escolar e de transformação do meio social ambiente”. Para tanto, analisaremos como os diversos saberes disciplinares são relacionados no texto, produzido pelo MEC, Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais, Ciências Humanas e suas Tecnologias[5] que regula: “no conjunto das disciplinas curriculares que formam a área de Ciências Humanas e suas Tecnologias, a Sociologia engloba conhecimentos de Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia”. Para efetivar esta análise, utilizamos o software de Pesquisa Qualitativa, o N*VIVO (versão 7), que permitiu relacionar quando temáticas destas disciplinas apareciam nos diversos textos, otimizando e aprofundando a análise. Devido aos limites deste trabalho, no entanto, apresentaremos aqui, apenas, as referentes à Antropologia.


1.1 AS AGENDAS INTERNACIONAIS E O ENSINO MÉDIO

A UNESCO[6] priorizou nas duas últimas décadas pesquisas e produção acerca da Educação, e disponibiliza em sua página muitos textos acerca do tema. Entre estes, o relatório final da Reunião Internacional de Especialistas sobre o Ensino Médio no Século XXI: Desafios, Tendências e Prioridades, que aconteceu em Beijin, República Popular da China, no ano de 2001, aponta para uma profunda necessidade de se pensar o processo educacional diante da “responsabilidade de todos os países na preparação dos estudantes para que possam atuar com competência ética e responsável em um mundo de rápidas transformações econômicas, sociais e culturais”. Neste documento a análise acerca do ensino médio parte de duas proposituras: a) O ensino médio deve merecer alta prioridade; b) Os objetivos e as funções do ensino médio devem ser redefinidos para o século XXI. O Ensino Médio seria, portanto um locus para a habilitar os estudantes em instrumentalizar as “rápidas transformações” do mundo dito contemporâneo, e o acesso ao ensino médio se torna prioritário para que esta demanda seja atendida. É preciso, informa o documento na página 22 atender a demandas do trabalho, e pensar como o ensino médio poderia permitir que o aluno se torne competente na “capacidade de se comunicar, de trabalhar em equipe, de adaptar-se às inovações, de ser renovador e criativo, de ter familiaridade com as novas tecnologias”. As quatro direções sugeridas pelo documento encontram os desejos dos orientadores do mesmo,e o ensino médio em sua “reforma” deveria considerar: “as novas condições de aprendizagem, a sociedade, a economia e o ambiente de trabalho”(pág19); produzindo por assim dizer jovens “capazes de decidir o seu próprio futuro, à luz de seus gostos e aptidões, e adquirir as competências que lhes permitirão ter êxito em sua vida adulta” (pág.15). É preciso priorizar ainda a construção de “sujeitos” capazes de uma revisão crítica dos objetivos e funções do ensino médio” (pág 7), pois, mister se faz lembrar, a reforma do Ensino Médio deve contribuir para os estudantes de modo que “sejam levadas em consideração as necessidades diversificadas dos alunos e para oferecer-lhes conhecimentos e saberes ao longo de toda a vida, inclusive o aprendizado profissional” (pág. 13). O documento orienta-se portanto na direção de se pensar o Ensino Médio como um espaço de aceleração da aprendizagem: é preciso aprender a aprender, para aprender a revisar criticamente o mundo, para decidir o próprio futuro, para aprender uma profissão. Inclusive quando o documento detalha a necessidade de se pensar uma educação mais geral ou uma mais técnica, é o foco na possibilidade do aprendizado em aprender que tecerá as escolhas nacionais e demarcará as viabilidades de cada proposta. Em sua página 45 o relatório afirma:
Já se percebe com clareza, em muitos países, uma tendência à aprendizagem ao longo de toda a vida, em que se modificam constantemente as características e exigências dos empregos e em que as pessoas passam a ter de transferir-se a cada momento entre os locais de ensino, de treinamento e de trabalho. Em vários países, o ensino médio já começou a ajustar-se a esta realidade, ora criando estruturas flexíveis e opções variadas em seus programas, ora reforçando os seus vínculos com o mundo do trabalho.

Nesse sentido o documento de Beijin se articula diretamente ao Relatório Delors, orientando o processo de pensar a educação como uma prática que “deve transmitir, de fato, de forma maciça e eficaz, cada vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, adaptados à civilização cognitiva, pois são as bases das competências do futuro”, ao mesmo tempo em que “compete-lhe encontrar e assinalar as referências que impeçam as pessoas de ficarem submergidas nas ondas de informações”, denominado, portanto, o processo educacional, simultaneamente como “um saber-fazer evolutivo” e “uma bússola”, que por um lado permite a aquisição continuada de dados e competências, intrumentalizando cognitivamente o indivíduo, e, por outro, diante dos novos mapas, permite que este mesmo indivíduo se direcione em sua busca de desenvolvimento, quer pessoal, quer voltado a projetos coletivos. O relatório Delors se arquiteta em quatro pilares do conhecimento – aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser. Nestes se resume a proposta dos diversos documentos produzidos acerca da educação: é preciso preparar o estudante para uma competente capacitação em se adequar às mudanças constantes no processo de trabalho, cada vez mais dinâmico e tecnológico. O texto evidencia ainda quão frágil é a “atualização” num mundo cercado de tão grandes e constantes mudanças, argumentando que apenas um “sujeito” capaz de “aprender a aprender” poderá se manter atualizado e caberia a educação viabilizar este aprendizado do aprendizado, que tornaria o mundo mais justo, mais ético e com menos assimetrias sociais. Esta idealização se vale dos valores do trabalho como forma de satisfação pessoal e desenvolvimento social e criativo do “sujeito”. Nesse sentindo a agenda internacional da UNESCO aponta para uma educação que seja “Básica, Técnica e Tecnológica[7]”, que se direcione a adaptabilidade do sujeito ao mercado de trabalho e a fluidez que a globalização exige deste sujeito, para garantir sua “empregabilidade”. Esperamos com isso ter demonstrado que há, de fato, uma agenda internacional, que pensa a educação como um facilitador de um processo cognitivo continuado, que serve, também aos interesses mercadológicos, econômicos e de produção da globalização e que o Ensino Médio é visto como uma necessidade destes interesses, e que a universalização do mesmo é uma exigência deste processo. Um outro documento acerca da Educação Técnica e Profissional, ETP, (na qual se inclui, evidentemente o Ensino Médio), se afirmou:
Mesmo que a responsabilidade do ETP seja antes de tudo competência do Estado numa economia de mercado moderna, a concepção da política de ETP e sua instauração devem ser assegurados por novas parcerias entre o Estado, empregadores, profissões, empresas, sindicatos e a sociedade. Esta parceria deve criar um quadro legislativo coerente para permitir o lançamento de uma estratégia nacional de mudanças na qual o Estado afora sua função de provedor do ETP, pode dirigir sua orientação e lhe dar configuração para facilitar, coordenar e assegurar a qualidade de forma que o ETP seja acessível a todos, identificando e realizando a missão do serviço público. A capacidade das parcerias deve ser fortalecida por dispositivos e meios de formação destinados a proporcionar as devidas competências.

O texto acima, retirado do relatório de 1999, Recomendações sobre Ensino Técnico e Profissional, produzido na conferência de Seul, revela a dinâmica e esperada associação entre o setor privado e público para favorecer aos interesses da “economia de mercado moderna” que pense a educação não mais sob a ótica do “encicopledismo francês”, mas sob o interesse do neoliberalismo globalizado. Mais uma vez, importaremos sem problematizar?

A IMPORTAÇÃO DA AGENDA INTERNACIONAL: A LDB, OS PCNS E O LUGAR DO ENSINO DE SOCIOLOGIA
Na Lei nº 9.394, que “estabelece as diretrizes e bases da educação nacional”, o artigo 35, trata das finalidades do ensino médio, priorizando neste: a)um lugar de aprendizado que ao mesmo tempo que aprofunda e retoma estudos anteriores, prepara para etapas posteriores; b) uma etapa de “preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando”; c) a construção de uma “formação ética” aliada ao “desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico”; visando o “aprimoramento do educando como pessoa humana”; d) a apreensão de elementos “científico-tecnológicos dos processos produtivos”, teóricos e práticos, nas diversas disciplinas, que o capacitem para uma maior apreensão dos mesmos em etapas posteriores. Avaliando estas “finalidades” é possível pensar o ensino médio como um lugar de passagem, que ao mesmo tempo, retoma e antecipa, forma e prepara. Na LDB, no artigo seguinte se tratará das diretrizes do currículo do ensino médio, .e especificamente no parágrafo., inciso III, do § 1º se trata da Sociologia:
Os conteúdos, as metodologias e as formas de avaliação serão organizadas de tal forma que ao final do Ensino Médio o educando demonstre:
III – domínio dos conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania.”
Abria-se a porta para o retorno da Sociologia, enquanto disciplina, ao currículo do ensino médio brasileiro. Excluída do mesmo desde 1941 quando a Reforma Capanema desobriga sua presença nos cursos secundários, com exceção do denominado curso normal, que preparava professores para a Educação básica, a Sociologia vai perdendo força nos currículos, até sua retirada maciça dos mesmos no período militar, que em sua ideologia de civismo e culto à obediência e à lei via na disciplina uma matéria indesejável. É na década de 90 que a luta de associações, estudantes, professores, parlamentares se vê contemplada, com a efetivação do Parecer CNE/CEB Nº: 38/2006 do Conselho Nacional de Educação, que trata da Inclusão obrigatória das disciplinas de Filosofia e Sociologia no currículo do Ensino Médio. Tendo como relatores Cesar Callegari, Murílio de Avellar Hingel e Adeum Hilário Sauer, o Parecer reitera:
a importância e o valor da Filosofia e da Sociologia para um processo educacional consistente e de qualidade na formação humanística de jovens que se deseja sejam cidadãos éticos, críticos, sujeitos e protagonistas. Essa relevância é reconhecida não só pela argumentação dos proponentes, como por pesquisadores e educadores em geral, inclusive não filósofos ou não sociólogos.

Reconhece, ainda, “essa importância ao destacar nominalmente os conhecimentos de Filosofia e de Sociologia, dando-lhes valor essencial e não acidental, com caráter de finalidade do processo educacional do Ensino Médio. (artigo 36, § 1o, inciso III, da Lei nº 9.394/96)”, e destaca:
Sob a ótica da LDB, os conhecimentos de Filosofia e Sociologia são justificados como “necessários ao exercício da cidadania” (artigo 36, § 1o, inciso III, da Lei nº 9.394/96). Com os demais componentes da Educação Básica, devem contribuir para uma das finalidades do Ensino Médio, que é a de “aprimoramento como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico” (art. 35, inciso II, da LDB). E devem, ainda, mais especialmente, seguir a diretriz de “difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática” (art. 27, inciso I, da LDB).

Em sua conclusão o documento afirma que adotando-se, por parte do estabelecimento de ensino, segundo permite a lei específica, organização curricular flexível, deve-se incluir o “domínio de conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania”, adotando-se a organização curricular estruturada por disciplinas, deverão ser incluídas as de Filosofia e Sociologia. Mas, o que os PCNs, que orientam esta inclusão, entendem por Sociologia?
O primeiro volume dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que trata das bases Legais[8], se refere por quatro vezes vezes, o texto da LDB supracitado. Explicando-o o relatório informa:
Pela constituição dos significados de seus objetos e métodos, o ensino das Ciências Humanas e Sociais deverá desenvolver a compreensão do significado da identidade, da sociedade e da cultura, que configuram os campos de conhecimentos de História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito, entre outros. Nesta área incluir-se-ão também os estudos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania, para cumprimento do que manda a letra da lei. No entanto, é indispensável lembrar que o espírito da LDB é muito mais generoso com a constituição da cidadania e não a confina a nenhuma disciplina específica, como poderia dar a entender uma interpretação literal da recomendação do inciso III do Parágrafo primeiro do Artigo 36. Neste sentido, todos os conteúdos curriculares desta área, embora não exclusivamente dela, deverão contribuir para a constituição da identidade dos alunos e para o desenvolvimento de um protagonismo social solidário, responsável e pautado na igualdade política.

O texto portanto insere a disciplina Sociologia na área de Ciências Humanas e Sociais, que partilha o interesse didático pelo desenvolvimento da “compreensão do significado da identidade, da sociedade e da cultura”, cujas divisões disciplinares abarcariam “História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito, entre outros”. Caberia a esta área de “Ciências Humanas e Sociais”, cumprir “a letra da lei” pela inclusão da Sociologia e da Filosofia, esta última não enumerada na relação que antecede, para efetivar a exigência da LDB que prevê nestas duas disciplinas os estudos “ necessários ao exercício da cidadania”, ainda que, para os autores dos PCNs estes estudos sejam também contemplados não confinados “a nenhuma disciplina específica”, apontando para que TODOS os conteúdos desta área contribuam, de fato, para “a constituição da identidade dos alunos e para o desenvolvimento de um protagonismo social solidário, responsável e pautado na igualdade política”. Desta forma se define, no texto dos PCNs que tratam das abses legais, o sentido de exercício de cidadania: por um lado a formatação de uma “identidade dos alunos” e por outro um “protagonismo social solidário, responsável e pautado na igualdade política”.
A seguir, no quarto volume dos PCNs, que tratam especificamente das “Ciências Humanas e suas Tecnologias[9]”, a disciplina Sociologia é mais abrangentemente discutida: o texto destaca que na formação dos “textos específicos voltados para os conhecimentos de História, Geografia, Sociologia e Filosofia”, foram inseridas “diversas alusões – explícitas ou não – a outros conhecimentos das Ciências Humanas que consideramos fundamentais para o Ensino Médio.” (pág.04) Estes conteúdos se referem segundo os PCNs, “a conhecimentos de Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia”. A idéia, segundo o relatório, é definir, independentemente de como será a adequação das instituições escolares quanto a denominação e carga horária escolhidos para o fim de inclusão dos conteúdos enumerados, “afirmar que conhecimentos dessas cinco disciplinas são indispensáveis à formação básica do cidadão”. O documento inclui nestes “conhecimentos”, tanto os “principais conceitos e métodos com que operam”, como abordam “as situações concretas do cotidiano social, tais como o pagamento de impostos ou o reconhecimento dos direitos expressos em disposições legais”. Importa, portanto, permitir ao aluno decodificar léxicos próprios destas disciplinas, e os PCNs citam explicitamente “economês” e o “legalês”, como exemplos disto. Se o quarto volume aborda os conteúdos da disciplina desta Sociologia desta forma, no texto das Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais Ciências Humanas e suas Tecnologias, também editado pelo MEC, retoma o documento anterior com uma citação: “segundo os PCNEM, o estudo das Ciências Sociais no Ensino Médio tem como objetivo mais geral introduzir o aluno nas principais questões conceituais e metodológicas das disciplinas de Sociologia, Antropologia e Política. (p. 317)”; ainda que acrescente a estas temáticas conteúdos oriundos de outras disciplinas referentes aos “conceitos e métodos do Direito, da Economia e da Psicologia seriam também indispensáveis à formação básica do cidadão” (pág. 87).
Como no texto dos PCNs e das Orientações Educacionais Complementares as disciplinas vivem em estado de fluidez, achamos necessários abordar como alguns elementos teóricos conceituais são tratados, em especial a Antropologia. Visitaremos algumas marcações disciplinares a seguir:
Há várias citações acerca da Antropologia, as três primeiras retomam a idéia de incorporá-la ao conteúdo da “Área de Ciências Humanas e Sociais”, especificado um laço entre Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia. Isto se dá por duas vezes na página 4 e uma vez na página 06. è nesta mesma página que se dá a seguir, a primeira tentativa de definir o campo da disciplina. Diz o texto: “a Antropologia, em sua vertente etnográfica, lançou-se à descrição dos povos “exóticos”, que a expansão econômica e política das grandes potências capitalistas necessitava submeter”. Esta primeira definição, exila a Antropologia na descrição dos povos ditos “exóticos”, ignora que embora a Antropologia na sua constituição disciplinar tenha tido no trabalho etnográfico acerca dos ditos “povos primitivos” ou “sociedades simples” a disciplina se consolidou exatamente por desenvolver todo um conjunto de monografias que teceram, ao longo de décadas parâmetros suficientes para mostrar que não haviam estas “simples sociedades”, pelo contrário: seus sistemas de parentesco, suas crenças, seus mitos e rituais são extremamente complexos, e também deve-se à perspectiva etnográfica o demonstrar que a humanidade e seus complexo processos mentais estão presentes em todas as sociedades humanas, e se algo as difere, isto se daria pelo isolamento geográfico que permitiu trocas culturais menos numerosas (LÈVI-STRAUSS: 1950).
A seguir o documento traça um paralelo, na página 12 entre Sociologia e Antropologia, ambas responsáveis, segundo o texto na “construção da identidade social e, sem negar os conflitos, a convivência pacífica. Dá-se especial destaque ao relativismo cultural proposto pelas correntes antropológicas surgidas após a Segunda Guerra Mundial, que advogam o direito de todos os povos e culturas construírem sua organização própria, respeitando da mesma forma os direitos alheios.” Se a tentativa era comparar o início da disciplina com a ascensão do relativismo cultural, talvez fosse mais interessante e elucidativo que isto fosse explicitado, para evitar marcar a disciplina antropológica ora pela tatuagem de ter servido aos interesses econômicos dominantes, “em sua vertente etnográfica”, ora por promover “ a convivência pacífica”. A etnografia na Antropologia abarca muitas outras direções, e se há antropologia das sociedades ditas simples, há a etnografia da sociedade dita complexa, que tem demonstrado um grande poder denunciador das diversas formas de dominação, quer se pretendam religiosas, científicas, políticas, econômicas, dentre outras.
Logo a seguir a Antropologia divide com a Geografia e a História o “papel a desempenhar na formação dos futuros cidadãos,entendendo-se estes quer como cidadãos de uma nação, quer como cidadãos do mundo”(pág 13). A Antropologia divide também com a história outro lugar no texto, na página 22, o de considerarem “a cultura não apenas em suas manifestações artísticas, mas nos ritos e festas, nos hábitos alimentares, nos tratamentos das doenças, nas diferentes formas que os vários grupos sociais, ao longo dos séculos, têm criado para se comunicar, como a dança, o livro, o rádio, o cinema, as caravelas, os aviões, a Internet, os tambores e a música”. construção e consolidação da cidadania plena. Em outra “vertente”, se considera a capacidade da Antropologia para fornecer “elementos teórico-metodológicos para se pensar as sociedades complexas, a partir de noções como experiências culturais (que, em certa medida, moldam nossos “mapas” de orientação para a vida social), rede de relações, papéis sociais, que informam o processo de constituição das identidades sociais, num constante fluxo, na maioria das vezes etnocêntrico, de diferenciações, entre “nós” e os “outros”. Um outro comentário na página 46 revela que a Antropologia “dada a sua materialização como escrita, muitas vezes de beleza e vigor poéticos incomparáveis” é muitas vezes “aproximada da Literatura”. Um pouco mais adiante esta “enunciação estético-expressiva” é associada ao relativismo na antropologia cultural. Entre a dominação colonial e o ato da bela escrita, os PCNs descrevem várias antropologias, e um pouco do que se espera de sua contribuição ao conteúdo da disciplina.
Nas Orientações Complementares a primeira aparição da Antropologia se dá no seguinte contexto: “A divisão de territórios entre as distintas ciências humanas é um exemplo de como, na organização disciplinar do conhecimento, não há demarcações absolutas, pois há mesmo aspectos comuns da geografia e da sociologia, ou também da história e da antropologia, tanto da perspectiva conceitual e/ou temática quanto de instrumentos analíticos. (pág. 15)” Mais adiante a contribuição antropológica é retomada (pág. 45), num trecho que expressa o vínculo da Filosofia coma disciplina antropológica: “Ao analisar os fundamentos e os fins da ação, parte-se das grandes áreas de reflexão da ética, estética, política, antropologia etc., a fim de compreender as formas de agir nos campos da moral, da arte, do exercício do poder, da técnica, da magia etc.” Caberia pensar aqui que a ética, a estética e a política são desde os primórdios da fundação da filosofia parte integrante da mesma?
Na página 72, o texto das Orientações Complementares aborda como na fronteira entre a História e a Antropologia “os sistema de relações, passaram a ser consideradas como partes da realidade social a ser investigada e analisada.” Segundo o texto, “a incorporação das representações do mundo social como objeto da História deve muito à Escola dos “Annales”, à Nova História e também às aproximações entre a História e a Antropologia que ampliaram o conceito de cultura nos trabalhos historiográficos, como mencionam os PCNEM:” Refletindo, na página 89 acerca das habilidades específicas do currículo de Sociologia, o texto aponta para “o conjunto das disciplinas curriculares que formam a área de Ciências Humanas e suas Tecnologias” no qual “a Sociologia engloba conhecimentos de Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia.” O objetivo desta área seria, portanto,
“Identificar, analisar e comparar
a) os diferentes discursos sobre a realidade;
b)as explicações das Ciências Sociais, amparadas nos vários paradigmas teóricos, e as do senso comum.”

Além disso é necessário que seja capaz de:
Produzir novos discursos sobre as diferentes realidades sociais, a partir das observações e reflexões realizadas.

Nesta perspectiva, o texto acrescenta, na página seguinte:
“Nesse segmento, a contribuição da Antropologia é marcante, ao envolver os conceitos de cultura e de diversidade cultural. Ao lado disso, a possibilidade de ampliar a visão de mundo, desenvolver uma visão crítica da sociedade contemporânea e respeitar as diversidades culturais, sociais e pessoais vão permitir ao aluno a decodificação da complexa realidade social, levando-o a assumir atitudes mais críticas e atuantes na comunidade.

Mais tarde, quando sugere a organização dos eixos temáticos da disciplina, a Antropologia aparece para problematizar, ao lado da Filosofia o conceito de cultura.
É interessante notar como parece num primeiro momento distante toda a construção de uma disciplina no texto e os objetivos do Ensino Médio enumerados nas bases legais dos PCNs e dos documentos da agenda internacional. Apenas neste último texto fica claro como se pretende incorporar de alguma forma o saber antropológico no contexto, esperando que isto gere respeito e atuação social.
Esta colcha de comentários pretende contribuir para pensarmos como os PCNs “importam” (para privilegiar a fala de Florestan Fernandes) o saber Antropológico, e como fazem “em sua vertente etnográfica” acerca da mesma uma utilização da mesma, que parafraseando o próprio texto, buscaria a integração da mesma na “globalização econômica e política das grandes potências neoliberais necessitam submeter”... É preciso propor sim que os eixos temáticos sejam capazes de abarcar a contribuição antropológica, não apenas quando se trata de cultura, seja dito, mas qual antropologia? E para que?



[1] O Relatório UNESCO sofreu várias atualizações: a ultima está disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001298/129801por.pdf
[2] O relatório está disponível em http://www.unesco.org.br/publicacoes/copy_of_pdf/decjomtien
[3] O texto oficial está disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001335/133539por.pdf
[4] Publicado originalmente in: Jornal de Brasília, de 23/03/1989; e reproduzido na coletânea “O desafio educacional”, Florestan Fernandes. São Paulo: Cortez e Editora Autores Associados, 1989, pp. 22-24.
[5] http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/CienciasHumanas.pdf
[6] A agência das Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, possui 192 membros e foi criada em 1945. Seu site está disponível em http://www.unesco.org.br/
[7] Acerca desta divisão, há o documento Educação, trabalho e desemprego: novos tempos, novas perspectivas, que atende a esta elucidação. Disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001302/130294porb.pdf
[8] http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/blegais.pdf
[9] http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/cienciah.pdf