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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Direto do Blog do Fórum da Liberdade


*Por Maurício Filippon
Tenho contato com acesso a internet no Brasil desde os tempos da antiga RNP (Rede Nacional de Pesquisa), através da rede da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), quando a internet ainda não era explorada comercialmente no País – isso já faz mais de quinze anos. Com o passar do tempo, a evolução e exploração da internet foi meteórica e absolutamente inacreditável: portais de informações, chats, redes de relacionamentos, mecanismos de busca instantânea, blogs, lojas on-line, cidades virtuais e mais tudo o que a imaginação permitiu foi feito nesse ambiente. E o que explica o porquê de tantas inovações, muitas delas revolucionárias, da qual dependemos hoje em dia para termos uma vida atualizada, facilitada e produtiva – inovações que foram criadas e estão à disposição de todos que possuem uma conexão e um microcomputador ou qualquer outro dispositivo que converse com a rede mundial de computadores? Bom, eu explico o motivo:
A internet é um meio livre, no qual a liberdade pode ser exercida em toda a sua essência: qualquer pessoa, dependendo unicamente de suas capacidades, pode criar o que bem imaginar e colocar, à disposição de todos, seja um blog, seja uma ferramenta de trabalho, utilizando recursos de imagens, áudio e vídeo. Não depende de mais nada. Sua criatividade pode ser exercida e colocada à disposição de todos, como seu criador julgar melhor.
Tal liberdade deixa qualquer governo incomodado, por mais liberal que seja. Acreditam que têm o direito e o dever de controlar o meio, para impedir o mau uso dele, pregando que se trata de uma ferramenta que pode ser nociva se mal utilizada – e é dever dele, governo, regular isso. Mas não é verdade. O fato é que existe receio por parte dos governos de que tal liberdade possa causar movimentos que desagradem aos governantes, principalmente no campo das ideias. É o que acontece com o controle de navegação em países como China e Cuba, por exemplo, onde o acesso ao conteúdo é extremamente restrito e monitorado.
Realmente, o poder de uma ferramenta como a internet é incalculável, tanto para o bem como para o mal. Jamais ela será totalmente voltada para benfeitorias enquanto seus usuários fizerem mau uso dela. Contudo, limitar acessos e controlá-la, ao meu ver, fica totalmente fora de questão. Faço aqui um paralelo com a condução de um veículo: quando mal utilizado, pode causar uma tragédia, seja acidental, seja propositada. Imagine se nossos veículos tivessem trajetória e velocidades pré-estabelecidas, as quais não pudéssemos alterar; veja o quanto estaríamos limitando uma ferramenta cujo maior atrativo e potencial é que cada usuário determine o seu melhor uso, em benefício próprio – e isso implica, obviamente, na responsabilidade em mesma magnitude que a utilidade que tal meio representa.
O que precisamos, na verdade, é de cada vez mais termos bons usuários para a internet, pessoas cada vez mais educadas e instruídas, base para o desenvolvimento de qualquer povo ou nação. Pessoas que produzam, que criem, que contribuam para o aumento do conhecimento global. Conforme a visão de Hayek, o verdadeiro conhecimento está pulverizado no mundo, e esse conhecimento jamais será concentrado em poucos. A internet é um reflexo disso: milhares e milhares de computadores, ligados entre si, de forma descentralizada, formam hoje o maior poder computacional do mundo. E além disso, a internet é o meio que julgo beirar a perfeição para a conexão do conhecimento – antes muito mais fragmentado, com maior dificuldade para se ligarem as peças do quebra-cabeças do conhecimento. Portanto, a internet propicia que inovações cada vez melhores possam surgir em nossas vidas. O caminho realmente não está em controlar e tolher acessos à internet, mas sim em permitir e garantir que ela seja um ambiente completamente livre para o acesso à informação, para a produtividade e para o desenvolvimento.
*Fundador e diretor da Done TI e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

What the Internet Is Doing to Our Brains

Serious thought gives way to skimming and multitasking.

If, while perusing the articles of this month’s Prism, you’ve paused to check your e-mail, read online news, blog, tweet, connect on Facebook, catch a YouTube video, buy on Amazon, or perform one of any number of other Web activities that now permeate our lives, then author Nicholas Carr has a message for you: It’s time to consider how our constant, often disjointed engagement with the World Wide Web is changing us – both individually and as a society.

In a widely discussed 2008 Atlantic Monthly article, Carr asked, “Is Google Making Us Stupid?” His answer has sometimes been interpreted as an antitech creed, yet many recognized themselves in Carr’s descriptions of faltering ability to concentrate and the suspicion that the Internet is a key contributor. “My mind now expects to take in information the way the Net distributes it,” he wrote, “in a swiftly moving stream of particles. Once I was a scuba diver in a sea of words. Now I zip along the surface like a guy on a Jet Ski.”

The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains elaborates upon the original thesis, placing this newest technology within the context of a long history of systems that have not only influenced but also shaped the way we think. “In large measure, civilization has assumed its current form as a result of the technologies people have come to use,” the author writes. “Sometimes our tools do what we tell them to. Other times we adapt ourselves to our tools’ requirements.” Consider how maps and clocks have altered our relation to space and time, he says, developing in us a more abstract sense of the measurement and order of both. In even more dramatic ways have “intellectual technologies” – writing systems, movable type, books, typewriters, telegraphs, and computers – affected our thinking processes. Today the Internet is producing another huge shift, in large part because of its emphasis on speed and connectivity, and its onslaught of advertisements, hyperlinks, pop-ups, sidebars, and e-mail notifications. “Whenever we turn on our computers,” he writes, quoting blogger Cory Doctorow, “we are plunging into an ‘ecosystem of interruption technologies.’”

The book’s subtitle should be interpreted literally. Several chapters are devoted to recent studies of brain functions. Not surprisingly, they tend to reveal the deleterious effects of sustained online activity – decreased comprehension and concentration and less ability to analyze or think creatively. Web use does strengthen rapid decision making, problem solving, and mental coordination, Carr admits. But he questions whether these positives outweigh the negatives. While the Internet offers far greater access to information, it also encourages superficial connection to that knowledge. A 2006 study tracking how people read online found, for example, that the majority skimmed a Web article in a manner that resembles the letter F. The first few lines of text were read fully, but readers then dropped down to read a few more lines, then skimmed the rest, concentrating primarily on the left-hand side of a page. Most spent no more than 4.4 seconds on each page.

As we become more agile at multitasking online, Carr charges, “we train our brains to process information quickly and efficiently but without sustained attention.” The implications of that loss could be significant. Even if you are one of those increasingly rare specimens who maintain steady, measured control over your online consumption, what about your students and colleagues, who are being swept into a 24/7 Internet existence? Though the wealth of material made available by the Internet would seem to make more extensive research possible, for example, a 2008 study has revealed just the opposite. The findings, published in Science magazine, revealed that the number of citations in academic articles has plummeted, with much greater reliance being placed on more recently published articles.

This is a book you will want to read carefully, for the number of provocative issues it raises and the compelling manner in which they are presented. So, when you take up The Shallows, do it with a hard copy and sustained attention – then see how long it takes before the digital urge comes calling.
The posting below looks at the impact of internet multitasking on our brains and our way of thinking. It is a review by Robin Tatu, senior editor of Prism, of the book, The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains by Nicholas Carr. W.W. Norton & Co., 276 pages
. The review is from Prism, December, 2010. Copyright 2010
 American Society for Engineering Education
1818 N Street, N.W., Suite 600
Washington, DC 20036-2479
 Web: www.asee.org

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

terça-feira, 16 de setembro de 2008

recordar é viver? ENIAC

Do mainframe ao PC
Primeiro computador amplamente conhecido, o ENIAC (Eletronic Numerical Integrator and Calculator) foi construído pelo Exército norte-americano. Tinha quase 18 mil válvulas e calculava trajetórias de tiros. Pesava 27 toneladas e começou a funcionar em 1946.
Veja mais da história em


Entrevista: Lila King detalha impacto da web no jornalismo da CNN

Em 16 de abril de 2007, o sul-coreano Seung-Hui Cho adentrou o campus da Universidade Virginia Tech empunhando duas armas. Na próxima hora e meia, a ação de Cho resultou em 23 feridos, 32 mortos e no seu suicídio. O desespero dos pais e a histeria da mídia na cobertura do caso promoveu informações desencontradas logo após o início do massacre.

A primeira informação concreta sobre a quantidade de tiros dados por Cho chegou à mídia na forma de um vídeo de 1 minuto e 15 segundos feito por um estudante da universidade em seu telefone celular. Na filmagem, tremida pelo misto de nervosismo com vento forte, ouvem-se sucessivos tiros no campus da Virginia Tech.

O vídeo foi publicado pelo seu autor, Jamal Albarghouti, no iReport, serviço de jornalismo cidadão criado pela CNN em agosto de 2006 como um canal para que leitores, telespectadores e ouvintes do conglomerado de comunicação publicassem coberturas do trivial, como condições metereológicas, tragédias, como o tsunami na Ásia ou enchentes nos Estados Unidos, passando pela morte de celebridades ou tensões militares entre nações.

Mais de dois anos após ser lançado, o iReport supera 100 mil usuários ativos e acumula uma média de 150 mil conteúdos amadores, entre relatos por texto, fotos ou vídeos. Em visita ao Brasil para o MediaOn, a produtora sênior do CNN.com e criadora do iReport, Lila King, conversou com o IDG Now! sobre as contribuições de leitores e como os jornalistas integram o material no noticiário.

Como nasceu a idéia do iReport dentro da CNN?A idéia veio aos poucos, por diferentes motivos, mas ganhou força após o tsunami na Ásia (em dezembro de 2005), quando vimos que não poderíamos colocar um repórter sentado esperando que a notícia acontecesse nos lugares onde houvesse notícias.

A popularização de câmeras e filmadoras digitais nos fez entender muito rápido que as pessoas tinham a habilidade de não apenas escrever, mas também contar suas histórias com fotos e vídeos por meio de tecnologia que usamos diariamente. O iReport nasceu desta concepção e conseguimos colocar o serviço no ar em 2006.

Foi desta maneira (pelas lentes cidadãs) que vimos a tragédia (do tsunami) - não era de repórteres caminhando pela praia, mas de pessoas da região que tinham câmeras e estavam documentando os locais. Foi uma história enorme e totalmente impactante que teve como fonte principal os registros dos "leitores".

Qual foi a contribuição mais importante dentro do iReport?
É difícil dizer qual o mais importante já que são recebidos milhares de novos conteúdos por dia no iReport, mas o provável momento de maior assombro e que mostrou que o serviço é uma ferramenta muito valiosa foi logo após o tiroteio na faculdade Virginia Tech. Esta foi a primeira história em que tivemos um vídeo exclusivo que nos ajudou a mostrar o que realmente estava acontecendo no campus e rapidamente se tornou o pedaço de informação central da cobertura.
Todas as organizações cobrindo o caso estavam ainda tentando descobrir quantos e aonde tiros haviam sido dados - o vídeo do iReport, feito com um celular fora da sala de aula, nos mostrou que o massacre foi maior do que esperávamos. Este foi o momento em que a nossa indústria de notícias acordou e percebeu o potencial daquela ferramenta. A CNN licenciou clipes da filmagem e distribuiu gratuitamente entre outras emissoras cobrindo o assunto.


Quanto conteúdo amador vocês recebem por dia no iReport?
Ontem (terça-feira, 09 de setembro), vi que tínhamos recebido cerca de 1.100 histórias, entre contribuições na forma de uma foto, um conjunto de fotos, um vídeo, uma série de vídeo, um texto. Existem mil maneiras de se contar uma história e na internet você pode se aproveitar do aspecto multimídia. Mensalmente, recebemos 15 mil histórias, em média

Como vocês organizam este conteúdo?
A comunidade se organiza. O site conta com ferramentas para que haja classificação por tags ou assuntos, para que o internauta dê notas, escreva comentários ou vote na história para que ela apareça na capa do iReport.

É claro que também existem os produtores e jornalistas da CNN que trabalham com o conteúdo diariamente para checar que histórias podem ser usadas em matérias do canal. Treinamos centenas de jornalistas de todo o conglomerado (que inclui o CNN.com, os canais de TV CNN e CNN International e rádios homônimas) para que elas tivessem acesso às contribuições do iReport.
Temos um time de 9 pessoas na CNN.com responsável por gerenciar o conteúdo publicado e fazer novas perguntas à comunidade, mas fizemos um esforço para distribuir as ferramentas pela rede (da empresa) já que não havia jeito de imaginar que apenas um pequeno time conseguisse analisar as milhares de histórias mensais e as usassem como parte do noticiário.
Tornou-se também parte da nossa rotina diária dentro da redação: toda manhã, quando editores de toda a empresa se juntam para discutir o que está sendo feito, o iReport é trazido à mesa. Discutimos a apuração de notícias nacionais, internacionais e passamos por cima do que está acontecendo no iReport.

Foi difícil treinar jornalistas acostumados com o papel?
Não sei se chamaria de difícil, já que depende do perfil do jornalista. Acho que é natural (enfrentar resistências). Estamos, de uma certa maneira, "ofendendo" o jornalismo tradicional, algo que deixará muitos em uma situação desconfortável.
Mas você acaba convencendo uma pessoa por vez quando consegue demonstrar as possibilidades do iReport, mostrando diferentes perspectivas ou materiais que podemos usar a partir da contribuição no serviço. Quando fazemos estes treinamentos, a primeira coisa que citamos é o jornalismo e a importância de checar fatos e fazer as mesmas verificações no iReport que faríamos em qualquer outro conteúdo dentro do conglomerado.

Vocês têm problemas com plágio ou informações não corretas?
Para ser honesta, não é algo que temos muitos problemas e não é surpresa para mim a qualidade média do conteúdo publicado no iReport. Acontece muito raramente descobrir durante a seleção que determinada história tem problemas. O que mais acontece durante a verificação é percebermos que a pessoa não teve treinamento profissional e pode ter sido ingênua na redação ou na edição.
Aconteceu recentemente com um usuário na Flórida que tirou fotos de uma tempestade e aplicou mais contraste no PhotoShop, que tinha acabado de comprar. Percebemos que havia algo não real na imagem e um dos produtores ligou para ele, que admitiu que tinha colocado mais contraste na foto enquanto aprendia a mexer no programa. Ele mandou a versão original e nós explicamos que no fotojornalismo não se faz edições deste tipo, já que a imagem tem que estar o mais próximo possível da realidade. No fim, a técnica de jornalismo do leitor melhorou.
Não posso ter certeza que não vi algo do gênero no iReport, mas nossa comunidade começou a desenvolver uma paixão forte pela qualidade do que está no site. Com bastante freqüência, vemos usuários que publicam conteúdo e atraem a atenção de outros usuários que já conhecem aquela informação ou aquela foto e chama a atenção de quem "copiou".

Existe uma relação entre o número de relatos, fotos ou vídeos recebidos no iReport e os usados dentro do noticiário da CNN?
Varia sempre de mês para mês e depende também do assunto, mas, na média, usamos cerca de 10% do que recebemos tanto na TV como na CNN.com, com o aproveitamento em histórias significativas quando existe uma contribuição maior da comunidade. No caso das enchentes que atingiram os Estados Unidos há uma semana, recebemos muitas fotos, relatos e vídeos de habitantes ilhados e usamos cerca de 60% do material.

Você falou muito sobre tragédias nos exemplos de sucesso do iReport - o tsunami na Ásia, o tiroteio em Virginia Tech e as inundações nos Estados Unidos. Existe um perfil médio de notícias que inscritos no iReport costumam publicar?
Você está certo, falamos muito sobre tragédias. Mas se você olhar para duas das nossas histórias mais populares no iReport, verá que ambas não têm relação nenhuma. Nós pedimos opiniões em vídeo sobre a escolha de Sarah Palin para ser candidata a vice-presidente dos Republicanos nas eleições norte-americanas e esta história se tornou a mais comentada da história do serviço. Outro destaque foi quando pedimos que as pessoas publicassem fotos dos seus ambientes corporativos.
É difícil de comparar as duas coisas. Acho que o ponto comum entre ambas é que se tratavam de assuntos populares quando foram publicadas - na semana do segundo exemplo, tínhamos um especial sobre ambiente corporativo no CNN.com.
No setor de apuração de notícias, o mais popular diz respeito ao clima, afinal é algo que está disponível para todos, faz parte do noticiário e tem um impacto direto na vida das pessoas. Mas o que é mais importante...

Existem planos de repartir receita com usuários do iReport caso o conteúdo seja interessante o suficiente para ser vendido para terceiros?
Atualmente, não pagamos nada pela contribuição. Não temos um plano agora para o compartilhamento de receita, mas mudamos os termos de serviços do iReport há três semanas para indicar que, caso vendermos o conteúdo para uma empresa jornalística não afiliada à CNN, nós dividiremos o investimento com o "jornalista".

Jennifer Martin, diretora de relações públicas da CNN: É um "chute" meu, mas é provável que a venda de conteúdo do iReport aconteça quando for um assunto realmente relevante, como o impacto que, por exemplo, o vídeo do tiroteio em Virginia Tech teve. Imagine que alguém consiga registrar em vídeo...

O Pé-Grande...
Sim, mas de verdade. A gente vai vender o conteúdo e dividir totalmente a receita (proveniente da venda do vídeo) com o "iReporter". É o mais justo, afinal estaríamos ganhando dinheiro baseado em conteúdo alheio.

Baseado na sua experiência no iReport, você concebe um serviço que use o jornalismo cidadão como modelo de negócios, em uma espécie de agência de notícias amadora?
Da minha perspectiva, uma das razões para o sucesso do iReport é uma mistura entre o jornalismo cidadão e o jornalismo profissional. Ambas as atividades juntas fazem o noticiário ser melhor, mais interessante, mais correto e mais relevante. Existem duas metades que devem ser usadas juntas.

Não descarto a idéia de alguém descobrir um modelo comercial que se sustente apenas por jornalismo cidadão, mas acredito que o que torna o iReport único e efetivo é que ele mescla o jornalismo cidadão com o rigor e os padrões do jornalismo tradicional. Juntos, ambos contam uma história melhor.
Publicado por Guilherme Felitti, às 07h00

sábado, 16 de agosto de 2008

RENÉ ARMAND DREIFUSS

RENÉ ARMAND DREIFUSS
TRANSFORMAÇÕES: MATRIZES DO SÉCULO XXI
Resenha
Estrella Bohadana*
Transformações: matrizes do século XXI é o legado com que René Armand Dreifuss, um dos mais brilhantes cientistas políticos da atualidade, falecido em maio de 2003, brinda o leitor. Com essa obra póstuma de quase 700 páginas, o autor do clássico 1964: A Conquista do Estado, publicado pela Editora Vozes em 1980, aumenta o acervo de suas fascinantes pesquisas, apresentando mais uma vez um pensamento de fina prospecção, agudeza e ousadia, pronto a analisar e a denunciar os diferentes liames que tecem os fios do poder.
Mergulhando nas várias articulações das corporações que constituem o sistema de produção global, em Transformações: matrizes do século XXI Dreifuss desvenda os vínculos entre as diferentes corporações e o modo pelo qual estas alimentam as tecnognoseonomias e os pólos motores de desenvolvimento tecnológico e de produção, e por eles são alimentadas.
Dreifuss apresenta uma investigação rica e minuciosa das mutações tecnológicas, aprofundando dois conceitos importantes, elaborados em seu livro A época das perplexidades, de 1996, publicado pela Editora Vozes, hoje na 4a edição: o capacitador teleinfocomputrônico satelital e os tecnobergs.
No que se refere ao capacitador teleinfocomputrônico satelital, esse aprofundamento conceitual revela-se quando o autor demonstra que, como potência, o capacitador retroalimenta as mais diversas descobertas científicas, além de se constituir em potente suporte viabilizador de um novo modo de produção e de novas organizações sociais da produção, ambos sinergeticamente transnacionalizados e realizando-se de maneira global.
A partir dessa formulação, o autor afirma que, com o auxílio dos sistemas de comunicação digitalizada, o planeta ingressa em uma forma de existência que supera distâncias, propiciando inovações na mobilidade e na agregação social, e facilitando, para alguns grupos sociais, a vinculação sistemática, constante, ampla e profunda dos “muito distantes” (em termos de personalidade, cultura e geografia). Ao mesmo tempo, porém, promove a segregação de outros grupos – basta verificar a diminuta participação dos países que constituem o eixo Sul-Sul.
Esses sistemas, por sua vez, ao provocarem seqüências de interação pontual, serial e circunstancial, tornam-se manifestações que se processam tanto dentro de perímetros nacionais, estando espacialmente localizadas, quanto em espaços transfronteiriços, como eventos desterritorializados. Dessa maneira, tais sistemas desempenham papéis essenciais como insumo e como produto final, constituindo-se simultaneamente em instrumento de produção e de serviço, e operador em tempo real. Tendo como traço marcante sua difusão mundial em curtíssimo intervalo de tempo, trata-se de tecnologias aplicadas em todas as atividades do planeta, vinculadas ao existir humano e capazes de afetar todas as funções societárias. Assim, estando a comunicação no comando do cotidiano, o complexo capacitador teleinfocomputrônico satelital delineia também outro paradigma cognitivo.
Aprofundado o conceito do capacitador, Dreifuss, de forma engenhosa, demarca um estádio diferente para designar os tecnobergs, que passariam a determinar os processos substanciais de modificação nos horizontes e no sentido da vida, reformulando as relações entre os Estados e delineando não só uma nova heterotopia econômica transnacional, como também uma nova ordem internacional e transfronteiriça do conhecimento, ambas acopladas a uma heterarquia político-estratégica. Esboçam-se, portanto, os elementos constituintes de outro modo de organização social da produção globalizada, que demanda uma profunda reorganização empresarial. As conseqüências de tal reorganização para o comércio entre as nações contribuem para o desemprego estrutural, em seu formato atual, e para o lazer ampliado de grupos seletos. Ademais, são estimuladas distintas dimensões da pesquisa e da utilização da ciência e da tecnologia, direcionando o processo de produção de conhecimento e de desenvolvimento de saberes e destrezas, bem como de sua aplicação, fortalecendo, como gnoseonomia, os entornos da oikonomia.
No cerne dos tecnobergs, as corporações, que se configuravam em função de uma racionalidade bipolar de instalação das indústrias e dos serviços (doméstico-multidoméstico, local-multinacional), passam a ser globalizadas. Esses tecnobergs alavancam três fenômenos multifacetados, simultâneos, diferenciados e que se reforçam mutuamente: a mundialização de estilos, usos e costumes (metanacional); a globalização tecnológica, produtiva e comercial (transnacional); e a planetarização da gestão (supranacional). Esses fenômenos (também apresentados em A época das perplexidades) são discutidos agora a partir do amplo acoplamento do processo de concentração de controle de propriedade dos meios de produção e comercialização, que se dá em cada segmento dos produtos de consumo de massa. Esse processo de concentração é visto no livro por meio das fusões, alianças e aquisições, em movimentos transnacionais (intra, inter e multissetoriais) e apoiado na interação potencializadora dos variados conhecimentos, interligando ainda mais os processos de mundialização e de globalização.
Nessa dinâmica atual, ao concentrar a propriedade e o controle dos agentes, e oligopolizar os meios de pesquisa e a produção por meio de fusões e incorporações, a nova fase do processo de mundialização e de globalização assegura a produção transnacional, realizada e centrada no que será definido pelo autor como corporações estratégicas.
De maneira inusitada, Dreifuss demonstra como as corporações estratégicas, interagindo por meio de matrizes, definem suas core competences, num processo concentracionista que desmonta a lógica anteriormente prevalente de grandes conglomerados de capital com investimentos diversificados, estipulando agora uma diferente relação entre ciência e tecnologia como eixo de refocalização das cadeias produtivas.
Ao mesmo tempo, o autor mostra como se dá a transição-em-rede das redes para um tecido de pesquisa e produção transnacional, muito mais complexo em seu desenho produtivo e de comercialização, sustentado por conhecimentos e agindo como concentrador de capacidades. Para Dreifuss, neste cenário configura-se uma sucessão infindável de compras, vendas, desmantelamentos e integrações complementares.
Como desdobramento, forma-se também uma heterotopia tecnoprodutiva multinacional, transitória em tempo e em referências, configurando rapidamente uma equivalência gnoseogeonômica, ambas determinadas pelo entrelaçamento de focos indutores de ciência e tecnologia, com a correspondente concentração de conhecimento e disponibilidade para realizações de ponta, através de pólos motores tecnoprodutivos e de plataformas terceirizantes e quarteirizantes de produção e comercialização.
A integração global de operações empresariais e atividades tecnoprodutivas, afirma o autor, compreende não só a luta por mercados e sua partilha, mas também o desenvolvimento de estratégias corporativas de participação nos mercados, buscando formas de compartilhá-los.
A lógica da infonomia ou da gnoseonomia dos tecnobergs e da formação de sociedades de informação é a da primazia das core competences e da determinação de padrões a partir delas, com base na dinâmica de integração de meio, mensagem e conteúdo. Partindo de cada segmento, procura-se expertise nos outros, assim como complementação.
De maneira brilhante, encontramos em Transformações: Matrizes do Século XXI o modo pelo qual as corporações estratégicas do complexo capacitador de conteúdo buscam a fusão ou a absorção de corporações que possam viabilizar suas opções de comando e indução científico-tecnológica (ou seja, que lhes permitam dominar os vários segmentos de conhecimento que o compõem) e de predominância tecnonômica no espaço multimidiático e multifuncional do emergente sistema teleinfocomputrônico satelital de produção e de serviços. As empresas procuram controlar o formato, os meios e o conteúdo.
Finalmente, o autor, retomando os conceitos de mundialização, globalização e planetarização, revela a maneira pela qual a nova dinâmica, galgada por esses fenômenos, bem como as tendências à configuração de hierarquias de conhecimento mutáveis, heterotopias-em-recomposição de pesquisa e produção, poliarquias supranacionais em gestação e heterarquias político-estratégicas convergentes implicam uma multiforme e complexa emergência e constituição de outra realidade.
Realidade paradoxal, posto que, concomitantemente a esse processo, uma significativa parcela da população mundial se encontra alijada dos benefícios de tamanha concentração de conhecimento gerado pelos tecnobergs. Portanto, é imperativo que se repensem outros caminhos que permitam um novo caminhar, a fim de devolver à humanidade a crença de que é possível fazer do planeta Terra um habitat digno de nossa existência.
E, em memória de René Armand Dreifuss, que acreditou na possibilidade de o homem transformar a realidade, vale lembrar a frase com que encerra seu Transformações: Matrizes do Século XXI: “E o jogo continua...”
* Filósofa, doutora em História dos Sistemas de Pensamento – Escola de Comunicação da UFRJ –, autora de vários livros e periódicos e integrante do corpo docente do Mestrado em Educação e Cultura Contemporânea da UNESA – Rio de Janeiro. Esposa de René Dreifuss e responsável pela editoração da obra póstuma, incluindo Transformações: Matrizes do Século XXI, Petrópolis, Editora Vozes, 2004, objeto desta resenha.