sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Bourdieu, sempre ele
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Recomendo!!!!!!
Ontem, fui ao lançamento do livro traduzido pela querida amiga Miriam Oelsner, LIT - a Linguagem do Terceiro Reich.Fomos presenteados com falas maravilhosas. O livro é mais que uma tradução, é uma edição comentada. Está maravilhosa e eu recomendo!!!!!!
Publicado pela Contraponto, o livro de Victor Klemperer aguardava uma tradução tão esmerada. Maravilhoso trabalho da Miriam.
Conhecemos análises sobre o nazismo. Lemos livros de história. Temos relatos de sobreviventes de campos de concentração. Vemos filmes sobre episódios da Segunda Guerra Mundial. Mas não sabemos como era o cotidiano nas cidades alemãs nessa época: a atmosfera que a sociedade respirava, o teor das conversas entre pessoas comuns, os tipos humanos, as esperanças e medos, os heroísmos anônimos, as pequenas covardias.
O filólogo Victor Klemperer registrou tudo isso. Judeu alemão assimilado, convertido ao protestantismo, sem militância política, assistiu com perplexidade ao que lhe parecia inverossímil: a ascensão da barbárie no coração da Europa. Perdeu a cidadania do país que amava, quando a doutrina racial tornou-se lei. Foi afastado da cátedra, das bibliotecas e do convívio normal com os demais. Teve a casa confiscada. Viu amigos e conhecidos – e até o próprio filho adotivo – aderirem ao regime que o
discriminava. Forçado a usar a estrela de Davi sobre a roupa, como forma de identificação, conheceu todas as humilhações. Escapou dos campos de concentração graças à mulher, Eva Klemperer, uma “ariana” – para usarmos o termo da época – que se recusou a abandoná-lo, acompanhando-o nas Judenhauser [casas de judeus] como fiadora da sua sobrevivência. Durante a guerra, Victor foi enviado como trabalhador manual para as fábricas carentes de mão de obra.
O desespero e a morte rondaram, durante anos, a vida dos dois. A vingança foi escrever um diário. Victor acordava às 3:30h da manhã para registrar tudo, clandestinamente. Eva contrabandeava as observações para a casa de uma amiga fiel. Elas descrevem, vistas de dentro, a ascensão do nazismo, a glória do regime, a adesão das massas, a onipresença de um poder totalitário, as perseguições, a guerra e, finalmente, a derrota. Mostram muitos aspectos desse processo, mas têm um fio condutor, o estudo da linguagem: “O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões ou frases, impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas mecanicamente. [...] Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e aparentam ser inofensivas;
passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar.”
O nazismo se consolidou quando dominou a linguagem, eis a tese do livro. O filólogo mostra como as palavras aparecem e desaparecem, mudam de sentido e de ênfase, se encadeiam de diversas formas, emitem mensagens diferentes ao longo do tempo. Vê, estarrecido, que até mesmo as vítimas usam a linguagem do Terceiro Reich. Percebe que o poder se exerce, em larga medida, por meio de mecanismos inconscientes: quem controla as maneiras como nos expressamos também controla as maneiras como pensamos.
Depois da guerra, Victor usou os diários para escrever este livro com um objetivo educacional, pois a linguagem nazista ainda predominava na Alemanha que tentava se afastar desse passado. Mas não é de um passado alemão que estamos falando, é de nós mesmos.
César Benjamin
O homem que marchava à frente apertava os dedos da mão esquerda bem espalmada no quadril e inclinava o corpo para o mesmo lado, em busca de equilíbrio, apoiando-se nessa mão, enquanto o braço direito golpeava o ar com o bastão e a perna lançava a ponta da bota para o alto, como se tentasse alcançar o bastão. Pairava oblíquo no vazio, como um monumento sem pedestal, misteriosamente mantido ereto por uma convulsão que o esticava dos pés à cabeça.
Não era um mero exercício, mas uma dança arcaica e uma marcha militar. O homem era, ao mesmo tempo, faquir e granadeiro. Na época, essa crispação e desarticulação convulsiva podia ser vista em esculturas expressionistas, mas na vida nua e crua, como ela é, no realismo da cidade, seu impacto me atingiu com a força de uma novidade absoluta. [...] Foi a primeira vez que me defrontei com o fanatismo em formato especificamente nacional-socialista. Essa figura muda provocou meu primeiro embate com a linguagem do Terceiro Reich.
Victor Klemperer
sábado, 4 de abril de 2009
Livro digital é o futuro da academia (?)
Professor de história na Universidade de Princeton advoga a combinação de publicações online e em papel
Camila Viegas-Lee ESPECIAL PARA O ESTADO EM NOVA YORK
Apesar de ser historiador – e portanto o que os franceses chamam de passéiste, sempre voltado ao passado –, o professor Robert Darnton, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, explica que "de vez em quando bate o olho no retrovisor e capta relances do futuro.”
Darnton, que já presidiu a Associação Histórica Americana, é um dos maiores defensores da combinação de publicações digital e impressa. Ele está no Brasil onde participará de uma conferência organizada pelo Projeto Copesul Cultural, em Porto Alegre, no dia 27 de março.
Para o professor, as publicações eletrônicas têm vantagens evidentes como acessibilidade e facilidade de pesquisa. “O preço para desenvolver mecanismos de busca e programar links deverá cair na medida em que bibliotecas e usuários aumentarem a demanda por esses serviços”, diz. Além disso, ele explica, já existem impressoras por demanda que podem produzir livros tradicionais a partir de e-books (livros eletrônicos) e facilitar leituras prolongadas.
“Práticas como essa vão mudar a indústria editorial incluindo impressão, estoque e distribuição”, diz ele.
Darnton defende que, passadas as fases de entusiasmo utópico e desilusão das publicações eletrônicas, estamos entrando numa fase de pragmatismo. “E-books podem incrementar o livro tradicional. Nunca me ocorreu que uma nova forma de comunicação sairia da internet, mas estou feliz que ela esteja aqui.”
Darnton está escrevendo a história do comércio de livros na França durante o século XVIII. O livro deve ser publicado parte em papel pela Oxford University Press e parte na internet. “Não se trata do acúmulo de dados, como uma nota de rodapé elaborada”, diz. “Vou organizar o texto em camadas como uma pirâmide em que o cume é o livro impresso, e as camadas debaixo são monografias aprofundando temas citados no livro, dossiês em francês, transcrições interpretativas de documentos, cópias de cartas originais e assim por diante.”
Para escrever esse livro, Darnton conta que, desde 1965, leu cerca de 50 mil cartas originais de praticamente todos os tipos de pessoas envolvidas no comércio de livros na época, incluindo autores, editores, impressores, distribuidores e vendedores, arquivadas em uma pequena editora em Neuchâtel, na Suíça. O professor explica que a censura francesa no século XVIII era severa e que os livros mais ousados vinham de lugares que hoje são a Bélgica, a Holanda e a Suíça.
Darnton vai descrever como os livros entravam clandestinamente na França, a partir da viagem de cinco meses de um vendedor ambulante em 1778. O personagem é verídico e o professor encontrou as cartas que ele escreveu durante a viagem. “A maioria das cartas é de prestação de contas, mas há momentos em que ele conta que teve de vender o cavalo e que passou cinco dias viajando debaixo de chuva. Divertido.”
Por causa do formato, o leitor poderá ler o material tanto na horizontal quanto na vertical. “A beleza da nova tecnologia está aí. O leitor ganha autoridade e se torna um colaborador ativo capaz de fazer associações diferentes das minhas”, diz entusiasmado.
É impressão minha ou essa função de colaborador ativo é intrínseca ao livro? Quero dizer, nós já não fazemos associações diferentes das do autor de um livro ou texto, uma vez que somos diferentes dele, e uma vez que nosso arcabouço teórico e de valores é diferente do dele?
Contudo o entusiasmo diminui quando o professor comenta que estudantes do outro lado do mundo mandam perguntas sobre o iluminismo por e-mail. “Eles têm que estudar por conta própria. Às vezes recebo e-mails extremamente informais do tipo ‘oi Bob’. Antigamente eu respondia a todos, hoje já não dá mais tempo.”
Apesar do entusiasmo com a tecnologia e de ser autor de projetos online, o professor garante que sempre haverá espaço para o livro tradicional. “O livro tem provado ser uma ferramenta excelente e não vai desaparecer.” Para ele, o livro é fácil de manusear, resistente, confortável, bonito e permite rápido acesso à informação, sem depender de bateria ou de conexão à internet.
Concordo com o rapaz, adoro livros e jamais abriria mão de manuseá-los, sentir seu cheirinho de gráfica, o que seja (chamem de mania, chamem de esquisitice, como queiram). Mas vamos combinar que, apesar de não depender de 'bateria ou conexão à internet', aqui no Brasil ele depende de poder financeiro - o que dá no mesmo, ou pior, em questão de acesso rápido e fácil à informação
Além disso, “quando toma nota de informações contidas em livro, o pesquisador passa por um processo de interpretação, entendimento e síntese”. Darnton mesmo guarda suas anotações, centenas de cartões cuidadosamente catalogados, em cerca de 20 caixas de sapato em seu escritório em Princeton. “Quando escrevo, coloco os cartões na mesa e vou organizando as informações que me interessam.”