Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Mensagens preconceituosas na internet aumentam em período eleitoral


Mensagens preconceituosas na internet aumentam em período eleitoral

por
EBC
Publicada em 08/10/2012 18:38:13
Um pouco antes do início da apuração dos votos das eleições municipais, neste domingo (7/10), a suástica, símbolo do regime nazista, ocupava as primeiras posições da lista dos assuntos mais comentados no Twitter. 
De acordo com a organização não-governamental Safer Net, esse não é um caso isolado: no período eleitoral, a denúncia contra páginas consideradas ilícitas cresce consideravelmente. 
Na véspera da eleição, a organização recebeu 378 denúncias – 150% a mais do que a média registrada nos sábados anteriores. Os dados parciais do domingo também indicam um número de denúncias pelo menos 272% superior aos domingos anteriores.
O presidente da SaferNet Brasil, Thiago Oliveira, destaca que a maioria das denúncias está relacionada a perfis de usuários nasredes sociais, principalmente Twitter e Facebook, que são indicados por outros usuários por supostamente estarem propagando mensagem de ódio e discriminação. 
Os alvos mais comuns são nordestinos, judeus, homossexuais e negros – incluindo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa.
Antecedentes
Em 2010, uma onda de comentários contra nordestinos também tomou conta das redes sociais, logo depois da eleição da presidenta Dilma Rousseff. 
Um dos casos que ficou mais conhecido foi o da estudante de direito Mayara Petruso que dizia que os eleitores do Nordeste deviam ser “afogados”. 
O perfil dela  recebeu mais de mil denúncias só na SaferNet e a entidade enviou as denúncias ao Ministério Público do estado de São Paulo. 

Quem quiser denúnciar crimes virtuais de racismo, xenofobia ou relacionado a outros tipos de conteúdo deve acessar a página da SaferNet Brasil, indicando o site ou perfil que postou a mensagem considerada ilegal.

A respeito deste tema, já escrevi um artigo, na época da eleição do Presidente Lula. Leia em http://etnografianovirtual.blogspot.com.br/2007/01/proliferando-intolerancias.html 

quinta-feira, 31 de março de 2011

#forabolsonaro 2 - A análise.

Bem, a campanha contra o deputado se mantém firme e forte. No meio disso tudo, acabou um BBB (o mais fraco de todos, ainda bem) e morreu o querido companheiro, guerreiro, lutador (valeu, Zé!), exemplo para os que sofrem as dores do corpo, nesta vida.

Apesar de tudo isso, e olha q bastava bem pouco antes para tirar qualquer expectativa política dos alienados TT brasileiros, o #forabolsonaro se mantém. São milhares de pessoas se organizando em dois dias: passam de 20 mil  30 mil 42mil no FACEBOOK; mais de 60 68 70 mil na Avaaz, são centenas de milhares de RT no Twitter. É o clamor popular.

Fenômeno assim, apenas a #bolinhadepapelfacts...
E ela ajudou a decidir uma eleição. E trouxe humor e frases fantásticas de volta ao cenário político. Ao mesmo tempo que a política se tornava fascista como nunca. Paradoxal, né? Estamos agora gritando pelo fim do fascismo, encarnado no Bolsonaro. Que continua achando que vai escapar dessa. Espero que não. Se ele escapar, sairemos às ruas. É preciso desobediência civil para lembrar a todos que a Constituição tem de ser respeitada?

Exigimos direito de resposta ao CQC. O povo brasileiro assim o faz. #forabolsonaro.

Cada vez temo mais o voto distrital. Pessoas como esse fascista teriam chances reais de viver politicamente de seus distritos, e isso me dá medo. E hoje é a data fúnebre. Como da ditadura sabemos tão pouco, juntemos ao #forabolsonaro, um #queremosaverdade. Vamos erradicar de vez o totalitarismo desse país, pelas entranhas?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Historiador Eric Hobsbawm aponta questões cruciais do século 21

Aos 92 anos, o historiador britânico Eric Hobsbawm continua um feroz crítico da prevalência do modelo político-econômico dos EUA. Para ele, o presidente americano Barack Obama, ao lidar com as consequências da crise econômica, desperdiçou a chance de construir maneiras mais eficazes de superá-la.
"Podemos desejar sucesso a Obama, mas acho que as perspectivas não são tremendamente encorajadoras", diz, na entrevista abaixo. "A tentativa dos EUA de exercer a hegemonia global vem fracassando de modo muito visível."
Hobsbawm discute ainda questões globais contemporâneas --como as tentativas de criar Estados supranacionais, a xenofobia e o crescimento econômico chinês-- à luz do que expressou em livros como "Era dos Extremos" e "Tempos Interessantes" (ambos publicados pela Cia. das Letras).

Pergunta - "Era dos Extremos" termina em 1991, com um panorama de avalanche global --o colapso das esperanças de avanços sociais globais da era de ouro [segundo Hobsbawm, 1949-73]. Quais são as mudanças mais importantes desde então na história mundial?

Eric Hobsbawm - Vejo quatro mudanças principais. Primeiro, o deslocamento do centro econômico do mundo do Atlântico Norte para o sul e o leste da Ásia. Isso já estava começando no Japão nas décadas de 1970 e 80, mas a ascensão da China desde os anos 1990 vem fazendo uma diferença real.
Em segundo lugar, é claro, a crise mundial do capitalismo, que vínhamos prevendo, mas que, mesmo assim, levou muito tempo para ocorrer. Em terceiro, a derrota retumbante da tentativa dos EUA de exercer a hegemonia global solo a partir de 2001 --e essa tentativa vem fracassando de modo muito visível.
Em quarto lugar, a emergência de um novo bloco de países em desenvolvimento, como entidade política --os Brics [Brasil, Rússia, Índia e China]--, não tinha acontecido quando escrevi "Era dos Extremos". E, em quinto lugar, a erosão e o enfraquecimento sistemático da autoridade dos Estados: dos Estados nacionais no interior de seus territórios e, em grandes regiões do mundo, de qualquer tipo de autoridade de Estado efetiva. Isso pode ter sido previsível, mas se acelerou em um grau que eu não teria previsto.
O que mais o surpreendeu desde então?
Hobsbawm - Nunca deixo de me espantar com a pura e simples insensatez do projeto neoconservador, que não apenas fez de conta que a América fosse o futuro, mas chegou a pensar que tivesse formulado uma estratégia e uma tática para alcançar esse objetivo. Pelo que consigo enxergar, eles não tinham uma estratégia coerente, em termos racionais.



Em segundo lugar --fato muito menor, mas significativo--, o ressurgimento da pirataria, algo que já tínhamos em grande medida esquecido; isso é novo. E a terceira coisa, que é ainda mais local: a derrocada do Partido Comunista da Índia (Marxista) em Bengala Ocidental [no leste da Índia], algo que eu realmente não teria previsto.
Prakash Karat, seu secretário-geral, disse-me recentemente que o partido se sentiu sitiado e assediado em Bengala Ocidental. E está prevendo sair-se muito mal diante deste novo Congresso nas eleições locais. Isso depois de governar por 30 anos como partido nacional, por assim dizer.

Pergunta - O sr. visualiza qualquer recomposição política do que foi no passado a classe trabalhadora?

Hobsbawm - Não em sua forma tradicional. Marx [1818-83] acertou, sem dúvida, quando previu a formação de grandes partidos de classe em determinado estágio da industrialização. Mas esses partidos, quando foram bem-sucedidos, não operaram puramente como partidos da classe trabalhadora: se queriam estender-se para além de uma classe estreita, o faziam como partidos do povo, estruturados em torno de uma organização inventada pela classe trabalhadora e voltada a alcançar os objetivos dela.
Mesmo assim, havia limites à consciência de classe. No Reino Unido, o Partido Trabalhista nunca conquistou mais de 50% dos votos. O mesmo se aplica à Itália, onde o Partido Comunista era muito mais um partido do povo. Na França, a esquerda era baseada sobre uma classe trabalhadora relativamente fraca, mas que conseguiu se reforçar como sucessora essencial da tradição revolucionária.

O declínio da classe operária manual na indústria parece, de fato, ter atingido seu estágio terminal. Ainda restam ou vão restar muitas pessoas fazendo trabalhos manuais, e a defesa das condições de trabalho delas continua a ser uma tarefa importante de todos os governos de esquerda. Mas essa defesa não pode mais ser o alicerce principal das esperanças dessas pessoas: elas não possuem mais potencial político, nem mesmo teoricamente, porque não possuem o potencial de organização da classe operária antiga.

Houve três outras mudanças negativas importantes. Uma delas, é claro, é a xenofobia --que, para a maior parte da classe trabalhadora é, nas palavras usadas certa vez por [August] Bebel, "o socialismo dos tolos": proteja meu emprego contra pessoas que estão competindo comigo.
Em segundo lugar, boa parte da mão de obra e do trabalho nos setores que a administração pública britânica qualificava no passado como "graus menores e manipulativos" não é permanente, mas temporária: são estudantes e migrantes trabalhando com catering [fornecimento de refeições para linhas aéreas, gastronomia hospitalar e cozinhas de navios], por exemplo. Assim, não é fácil enxergá-la como tendo potencial de ser organizada.


A única parte facilmente organizável desse tipo de mão de obra é a que é empregada por autoridades públicas, e isso devido ao fato de essas autoridades serem politicamente vulneráveis.
A terceira e mais importante mudança é, a meu ver, a divisão crescente gerada por um novo critério de classe: a saber, a aprovação em exames de escolas e universidades como critério de acesso a empregos. Pode-se dizer que se trata de uma meritocracia, mas ela é medida, institucionalizada e mediada por sistemas de ensino.
O que isso fez foi desviar a consciência de classe da oposição aos patrões para a oposição a representantes de alguma elite: intelectuais, elites liberais, pessoas que se erguem como superiores a nós.
Podem existir meios novos? Não podem mais ser em termos de uma classe única, mas, na minha opinião, isso nunca foi possível. Existe uma política progressista de coalizões, mesmo coalizões relativamente permanentes como as que unem, digamos, a classe média instruída, leitora do "The Guardian", e os intelectuais --os altamente instruídos, que de modo geral tendem a posicionar-se muito mais à esquerda que outros-- e a massa dos pobres e ignorantes.
Os dois grupos são essenciais para um movimento como esse, mas hoje talvez seja mais difícil uni-los do que era antes. É possível, em certo sentido, os pobres se identificarem com os multimilionários, como acontece nos EUA, dizendo "eu só precisaria de sorte para virar popstar". Mas não é possível dizer "bastaria um pouco de sorte para eu virar ganhador do Prêmio Nobel". Isso cria um problema real quando se trata de coordenar as posições políticas de pessoas que, objetivamente falando, poderiam estar do mesmo lado.

Pergunta - Que comparações o sr. traçaria entre a crise atual e a Grande Depressão?
Hobsbawm -[A crise de] 1929 não começou com os bancos --eles só caíram dois anos mais tarde. O que aconteceu, na verdade, foi que a Bolsa de Valores [de Nova York] desencadeou uma queda na produção, com um índice muito mais alto de desemprego e um declínio real muito maior na produção do que havia ocorrido em qualquer momento até então.
A depressão atual levou mais tempo sendo preparada que a de 1929, que pegou quase todos de surpresa. Deveria ter sido claro desde cedo que o fundamentalismo neoliberal gerou uma instabilidade enorme nas operações do capitalismo. Até 2008, isso pareceu afetar apenas as áreas periféricas --a América Latina nos anos 1990 e no início da década de 2000, o Sudeste Asiático e a Rússia.
Parece-me que o verdadeiro indício de algo grave acontecendo deveria ter sido o colapso da Long-Term Capital Management [fundo de investimentos sediado nos EUA], em 1998, que provou como estava errado o modelo inteiro de crescimento. Mas o incidente não foi visto como tal. Paradoxalmente, a crise levou vários empresários e jornalistas a redescobrirem Karl Marx como alguém que tinha escrito algo interessante sobre uma economia globalizada moderna. Não teve absolutamente nada a ver com a antiga esquerda.
A economia mundial em 1929 era menos global do que é hoje. Isso exerceu algum efeito, é claro --por exemplo, teria sido muito mais fácil então para as pessoas que perderam seus empregos retornarem a suas cidadezinhas de origem.
A existência da União Soviética não exerceu efeito concreto sobre a Depressão, mas seu efeito ideológico foi enorme: significava que havia uma alternativa. Desde os anos 1990, temos assistido à ascensão da China e das economias emergentes, fato que vem realmente exercendo um efeito concreto sobre a depressão atual, na medida em que esses países vêm ajudando a manter a economia mundial muito mais equilibrada do que ela estaria sem eles.
Na verdade, mesmo na época em que o neoliberalismo estava supostamente em plena forma, o crescimento real estava ocorrendo em muito grande medida nessas economias em desenvolvimento recente --particularmente na China. Tenho certeza de que, não fosse pela China, a queda de 2008 teria sido muito mais séria.


Pergunta - E o que dizer das consequências políticas?
Hobsbawm - A Depressão de 1929 levou a um desvio avassalador para a direita, com a exceção notável da América do Norte, incluindo o México, e da Escandinávia. Na França, a Frente Popular teve apenas 0,5% mais votos em 1936 do que tinha em 1932, de modo que sua vitória assinalou uma mudança na composição das alianças políticas, e não alguma coisa mais profunda. Na Espanha, apesar da situação quase ou potencialmente revolucionária, o efeito imediato e, de fato, também o efeito de longo prazo foi um desvio para a direita.
Na maioria dos outros países, especialmente na Europa central e do leste, a política se desviou para a direita de modo muito acentuado.
O efeito da crise atual não é tão nítido. Podemos imaginar que grandes mudanças políticas devem ocorrer não apenas nos EUA ou no Ocidente, mas quase certamente na China. Mas podemos apenas especular sobre quais serão essas mudanças.

Pergunta - O sr. antevê que a China continue a resistir ao declínio?

Hobsbawm - Não há nenhuma razão em especial para prever que a China pare de crescer de uma hora para outra. A depressão causou um choque grave ao governo chinês, na medida em que paralisou muitas indústrias, temporariamente. Mas o país ainda se encontra nos estágios iniciais do desenvolvimento econômico, e há espaço enorme para expansão.
Não quero tecer especulações sobre o futuro, mas podemos imaginar que, dentro de 20 ou 30 anos, a importância relativa da China no palco mundial será maior do que é hoje --pelo menos econômica e politicamente, mas não necessariamente em termos militares. É claro que o país ainda enfrenta problemas enormes; sempre há pessoas que se perguntam se a China vai conseguir continuar unida. Mas acho que as razões reais e ideológicas para que as pessoas desejem que a China se mantenha unida continuam muito fortes.

Pergunta - Que avaliação o sr. faz da administração [do presidente dos EUA, Barack] Obama?

Hobsbawm - As pessoas ficaram tão satisfeitas com a eleição de um homem como ele, especialmente em um momento de crise, que pensaram que certamente seria um grande reformador, que faria o que Roosevelt [presidente dos EUA, 1933-45, responsável pelo New Deal, série de programas econômicos e sociais contra a Grande Depressão] fez.
Mas Obama não o fez. Ele começou mal. Se compararmos os primeiros cem dias de Roosevelt com os primeiros cem dias de Obama, o que salta à vista é a disposição de Roosevelt em aceitar assessores não oficiais, em experimentar algo novo, comparada à insistência de Obama em se conservar no centro. Acho que ele desperdiçou sua chance.
Podemos desejar sucesso a Obama, mas acho que as perspectivas não são tremendamente encorajadoras.

Pergunta - Voltando-nos ao teatro mais explosivo de conflito internacional no mundo no presente, o sr. pensa que a solução de dois Estados, conforme visualizada no momento, é uma perspectiva digna de crédito para a Palestina?

Hobsbawm - Pessoalmente, duvido que ela exista neste momento. Seja qual for a solução possível, nada vai acontecer enquanto os americanos não decidirem mudar totalmente de posição e aplicar pressão sobre Israel.

Pergunta - Existem lugares do mundo nos quais o sr. acha que projetos positivos e progressistas ainda estejam vivos ou tenham chances de ser reativados?

Hobsbawm - Na América Latina, com certeza, a política e o discurso público geral ainda são conduzidos nos velhos termos do iluminismo --liberais, socialistas, comunistas. Esses são os lugares onde se encontram militaristas que falam como socialistas --que são socialistas. Encontram-se fenômenos como [o presidente] Lula, baseado em um movimento da classe trabalhadora, e [o presidente boliviano Evo] Morales.

Para onde isso vai levar é outra questão, mas a velha linguagem ainda pode ser falada, e os velhos modos políticos ainda estão disponíveis. Não estou inteiramente certo quanto à América Central, embora existam indícios de um ligeiro "revival" da tradição da revolução no próprio México --não que isso vá muito longe, na medida em que o México já foi virtualmente integrado à economia americana.

Acho que a América Latina se beneficiou da ausência de nacionalismo étnico-linguístico e de divisões religiosas, e isso fez com que fosse muito mais fácil conservar o discurso antigo. Sempre chamou minha atenção o fato de que, até muito recentemente, não se viam sinais de política étnica. Esta apareceu entre movimentos indígenas no México e no Peru, mas não em escala remotamente comparável ao que se viu na Europa, na Ásia ou na África.

É possível que projetos progressistas possam renascer na Índia, devido à força institucional da tradição secular de Nehru [que se tornou premiê da Índia após a independência do país, em 1947]. Mas isso não parece penetrar muito entre as massas, com a exceção de algumas regiões em que os comunistas têm tido ou tiveram apoio de massa, como em Bengala e Kerala, e possivelmente alguns grupos como os naxalitas ou os maoístas no Nepal.

Além disso, o legado dos velhos movimentos trabalhistas, socialistas e comunistas na Europa continua bastante forte. Os partidos fundados sob [a influência de Friedrich] Engels ainda são, em quase toda parte na Europa, potenciais partidos governistas ou os principais partidos de oposição. Desconfio que em algum momento a herança do comunismo, por exemplo nos Bálcãs ou até mesmo em parte da Rússia, possa se manifestar de maneiras que não podemos prever.

O que vai acontecer na China eu não sei. Mas não há dúvida de que eles estão pensando em termos diferentes, não em termos maoístas ou marxistas modificados.

Pergunta - O sr. sempre foi crítico do nacionalismo como força política, avisando à esquerda que não deve pintá-lo de vermelho. Mas também se manifestou de modo contundente contra violações de soberania nacional cometidas em nome de intervenções humanitárias. Após a falência dos tipos de internacionalismo nascidos do movimento trabalhista, que tipos são desejáveis hoje?

Hobsbawm - Em primeiro lugar, o humanitarismo, o imperialismo dos direitos humanos, não tem muito a ver com internacionalismo. É indicativo ou de um imperialismo renascido, que encontra nele uma desculpa adequada para cometer violações de soberania de Estados --podem ser desculpas absolutamente sinceras--, ou então, o que é mais perigoso, é uma reafirmação da crença na superioridade permanente da região que dominou o planeta do século 16 até o final do século 20.

Afinal, os valores que o Ocidente procura impor são valores especificamente regionais, não necessariamente universais. Se fossem valores universais, teriam que ser reformulados em termos diferentes. Não creio que estejamos lidando aqui com algo que seja nacional ou internacional em si.

Mas o nacionalismo exerce um papel nisso, sim, porque a ordem nacional baseada em Estados-nações --o sistema westfaliano-- tem sido no passado, para o bem ou para o mal, uma das melhores proteções contra a chegada de elementos externos a países. Não há dúvidas de que, uma vez que ela é abolida, o caminho fica aberto para guerras agressivas e expansionistas --de fato, é por essa razão que os EUA têm criticado a ordem westfaliana.

O internacionalismo, que é a alternativa ao nacionalismo, é uma coisa espinhosa. Ou é um slogan politicamente vazio, como foi, concretamente falando, no movimento trabalhista internacional --não queria dizer nada específico--, ou é uma maneira de assegurar uniformidade para organizações centralizadas e poderosas como a Igreja Católica ou a Internacional Comunista.

O internacionalismo significava que, como católico, você acreditava nos mesmos dogmas e participava das mesmas práticas, não importa quem você fosse ou onde vivesse. O mesmo acontecia, teoricamente, com os partidos comunistas. Em que medida isso realmente aconteceu, e em que estágio deixou de acontecer --mesmo dentro da Igreja Católica--, é outra questão. Não é realmente isso o que queríamos dizer com "internacionalismo".

O Estado-nação foi e continua a ser o quadro em que são tomadas todas as decisões políticas, domésticas e externas. Até muito recentemente, as atividades dos partidos trabalhistas --na verdade, todas as atividades políticas-- eram conduzidas quase inteiramente dentro do contexto de um Estado.

Mesmo dentro da UE [União Europeia], a política ainda é articulada em termos nacionais. Em outras palavras, não existe um poder de ação supranacional --apenas Estados separados formando uma coalizão.

É possível que o islã missionário e fundamentalista constitua uma exceção a essa regra, abarcando Estados, mas isso ainda não foi demonstrado concretamente. As tentativas anteriores de criação de Superestados pan-árabes, como a tentativa entre Egito e Síria, fracassaram precisamente devido à persistência das fronteiras existentes --antes coloniais-- dos Estados.

Pergunta - Então o sr. vê obstáculos inerentes a quaisquer tentativas de extrapolar as fronteiras do Estado-nação?

Hobsbawm - Economicamente e na maioria dos outros aspectos --inclusive culturalmente, até certo ponto--, a revolução das comunicações criou um mundo genuinamente internacional, no qual há poderes de decisão que se transnacionalizam, atividades que são transnacionais e, é claro, movimentos de ideias, comunicações e pessoas que são mais facilmente transnacionais do que jamais antes.

Mesmo as culturas linguísticas hoje são suplementadas por expressões idiomáticas das comunicações internacionais. Na política, contudo, não se vê nenhum sinal de que isso esteja acontecendo, e é essa a contradição básica no momento.

Uma das razões pelas quais não vem acontecendo é que, no século 20, a política foi democratizada em grau muito grande --a massa da população comum se envolveu nela. Para essa massa, o Estado é essencial para suas operações cotidianas normais e para suas possibilidades de vida.

Tentativas de fragmentar o Estado internamente, pela descentralização, foram empreendidas, em sua maioria nos últimos 30 ou 40 anos, e algumas delas não deixaram de ter algum sucesso --na Alemanha, com certeza, a descentralização vem tendo alguma medida de sucesso, e na Itália a regionalização vem sendo benéfica.

Mas as tentativas de criar Estados supranacionais não têm funcionado. A UE é o exemplo mais óbvio disso. Ela foi prejudicada, até certo ponto, pelo fato de seus fundadores terem pensado precisamente em termos de um Superestado análogo a um Estado nacional, apenas maior --sendo que essa não era uma possibilidade, creio, e hoje com certeza não é. A UE é uma reação específica no interior da Europa.

Em um ou outro momento se viram sinais de um Estado supranacional no Oriente Médio e em outros lugares, mas a UE é o único que parece ter ido adiante. Não acredito, por exemplo, que exista muita chance de uma federação maior surgir na América do Sul. Pessoalmente, eu apostaria contra essa possibilidade.

Logo, o problema ainda não resolvido continua a ser a seguinte contradição: por um lado, há entidades e práticas transnacionais que estão em processo de esvaziar o Estado, talvez ao ponto de levá-lo ao colapso. Mas, se isso acontecer --coisa que não é uma perspectiva imediata, não em Estados desenvolvidos--, quem se encarregará da função redistributiva e de outras funções até agora empreendidas unicamente pelo Estado?

No momento, temos uma espécie de simbiose e conflito. Esse é um dos problemas básicos de qualquer tipo de política popular hoje.

Pergunta - O nacionalismo claramente foi uma das grandes forças motrizes da política no século 19 e boa parte do século 20. O que o sr. diz da situação atual?

Hobsbawm - Não há dúvida alguma de que o nacionalismo foi, em grande medida, parte do processo de formação dos Estados modernos, que exigiu uma forma de legitimação diferente da do Estado tradicional teocrático ou dinástico. A ideia original do nacionalismo era a criação de Estados maiores, e me parece que essa função unificadora e de expansão foi muito importante.

Um exemplo típico foi o da Revolução Francesa, na qual, em 1790, pessoas apareceram dizendo: "Não somos mais delfineses ou sulistas --somos todos franceses".

Em uma etapa posterior, dos anos 1870 em diante, vemos movimentos de grupos no interior desses Estados impulsionando a criação de seus Estados independentes. Isso, é claro, gerou o momento wilsoniano de autodeterminação --se bem que, felizmente, em 1918-19, ele ainda fosse corrigido, até certo ponto, por algo que desde então desapareceu por completo, a saber, a proteção das minorias.

Era reconhecido, mesmo que não pelos próprios nacionalistas, que nenhum desses novos Estados-nações era, de fato, étnica ou linguisticamente homogêneo. Mas, depois da Segunda Guerra [1939-45], os pontos fracos das situações existentes foram enfrentados, não apenas pelos vermelhos, mas por todos, pela criação proposital e forçada da homogeneidade étnica. Isso provocou uma quantidade enorme de sofrimento e crueldade, e, no longo prazo, também não funcionou.

Apesar disso, até aquele período, o tipo separatista de nacionalismo operou razoavelmente bem. Ele foi reforçado após a Segunda Guerra Mundial pela descolonização, que, por sua própria natureza, havia criado mais Estados; e foi fortalecido ainda mais, no final do século, pela queda do império soviético [em 1991], que também criou novos Miniestados separados, incluindo muitos que, assim como aconteceu com as colônias, não tinham desejado de fato separar-se, mas aos quais a independência foi imposta pela força da história.

Não posso deixar de pensar que a função dos Estados separatistas pequenos, que se multiplicaram tremendamente desde 1945, mudou. Para começo de conversa, eles são reconhecidos como existentes. Antes da Segunda Guerra, os Miniestados --como Andorra, Luxemburgo e todos os outros-- nem sequer eram vistos como parte do sistema internacional, exceto pelos colecionadores de selos.

A ideia de que tudo, até a Cidade do Vaticano, hoje é um Estado, potencialmente membro das Nações Unidas, é nova. Está muito claro, também, que, em termos de poder, esses Estados não são capazes de exercer o papel de Estados tradicionais --não possuem a capacidade de travar guerra contra outros Estados.

Tornaram-se, na melhor das hipóteses, paraísos fiscais ou bases subalternas úteis para as instâncias decisórias transnacionais. A Islândia é um bom exemplo disso, e a Escócia não fica muito atrás.

A função histórica de criar uma nação como Estado-nação deixou de ser a base do nacionalismo. Pode-se dizer que não é mais um slogan muito convincente. Pode ter sido eficaz, no passado, como meio de criar comunidades e organizá-las contra outras unidades políticas ou econômicas.

Hoje, porém, o fator xenofóbico do nacionalismo é cada vez mais importante. Quanto mais a política foi democratizada, maior foi o potencial para isso. As causas da xenofobia são muito maiores do que eram no passado. Trata-se de algo muito mais cultural que político --basta pensar na ascensão do nacionalismo inglês ou escocês nos últimos anos--, mas nem por isso menos perigoso.

Pergunta - O fascismo não incluía essas formas de xenofobia?

Hobsbawm - O fascismo ainda foi, até certo ponto, parte da investida para criar nações maiores. Não há dúvida de que o fascismo italiano foi um grande passo à frente na conversão de calabreses e úmbrios em italianos; e mesmo na Alemanha, foi apenas em 1934 que os alemães puderam ser definidos como alemães, e não alemães pelo fato de serem suábios, francos ou saxões.

É verdade que os fascismos alemão e europeu central e oriental foram acirradamente contrários a outsiders --judeus, em grande medida, mas não apenas eles. E, é claro, o fascismo forneceu uma garantia menor contra os instintos xenofóbicos.

Uma das vantagens enormes dos movimentos trabalhistas antigos era que eles forneciam essa garantia. Isso ficou muito claro na África do Sul: não fosse pelo compromisso das organizações de esquerda tradicionais com a igualdade e a não discriminação, teria sido muito mais difícil resistir à tentação de cometer atos de vingança contra os africânderes.

Pergunta - O sr. destacou as dinâmicas separatistas e xenofóbicas do nacionalismo. O sr. vê isso como algo que hoje atua nas margens da política mundial, e não no teatro principal dos acontecimentos?

Hobsbawm - Sim, acho que isso é provavelmente certo --embora existam regiões em que o nacionalismo causou danos enormes, como no sudeste da Europa. Ainda é verdade, é evidente, que o nacionalismo --ou o patriotismo, ou a identificação com um povo específico, que não precisa necessariamente ser definido por critérios étnicos-- seja um enorme fator de legitimação dos governos.

Isso é claramente o caso na China. Um dos problemas da Índia, hoje, é que não existe nada exatamente assim por lá. Os EUA, obviamente, não podem ser definidos por uma unidade étnica, mas certamente têm sentimentos nacionalistas fortes.

Pergunta - Como o sr. prevê a dinâmica social da imigração contemporânea hoje, num momento em que tantos migrantes chegam anualmente à UE e aos EUA? O sr. prevê a emergência gradual de outro caldeirão cultural na Europa, não dessemelhante ao americano?

Hobsbawm - Mas o caldeirão cultural nos EUA deixou de sê-lo desde os anos 1960. Ademais, no final do século 20, a migração já era algo realmente muito diferente das migrações de períodos anteriores, em grande medida porque, ao emigrar, as pessoas já não rompem os vínculos com o passado no mesmo grau em que o faziam antes.

É possível continuar vivendo em dois, possivelmente até três, mundos ao mesmo tempo, e a identificar-se com dois ou três lugares distintos. É possível continuar a ser guatemalteco mesmo vivendo nos EUA. Também há situações como as da UE, nas quais, concretamente, a imigração não gera a possibilidade de assimilação. Um polonês que vem para o Reino Unido não é visto como nada além de um polonês que vem trabalhar no país.

Isso é claramente novo e muito diferente da experiência de pessoas da minha geração, por exemplo --a geração dos emigrados políticos, não que eu tenha sido um--, na qual nossa família era britânica, mas culturalmente nunca deixávamos de ser austríacos ou alemães; mas, apesar disso, acreditávamos realmente que deveríamos ser ingleses.

Mesmo quando um desses emigrados retornasse a seu próprio país, mais tarde, não era exatamente a mesma coisa --o centro de gravidade tinha se deslocado. Sempre há exceções: o poeta Erich Fried [1921-88], que viveu em Willesden (zona noroeste de Londres) por 50 anos, continuou, de fato, a viver na Alemanha.

Acredito realmente que é essencial conservar as regras básicas da assimilação --que os cidadãos de um país particular devem comportar-se de determinada maneira e gozar de determinados direitos, e que esses comportamentos e direitos devem defini-los, e que isso não deve ser enfraquecido por argumentos multiculturais.

A França havia, apesar de tudo, integrado mais ou menos tantos de seus imigrantes estrangeiros quanto os EUA, relativamente falando, e, mesmo assim, o relacionamento entre os locais e os ex-imigrantes é quase certamente melhor lá. Isso acontece porque os valores da República Francesa continuam a ser essencialmente igualitários e não fazem nenhuma concessão pública real.

Seja o que for que você faça no âmbito pessoal --era também esse o caso nos EUA no século 19--, publicamente esse é um país que fala francês. A dificuldade real não será tanto com os imigrantes quanto com os locais. É em lugares como Itália e Escandinávia, que não tinham tradições xenofóbicas prévias, que a nova imigração vem criando problemas sérios.

Pergunta - Hoje é amplamente disseminada a ideia de que a religião tenha retornado como força imensamente poderosa em um continente após o outro. O sr. vê isso como um fenômeno fundamental ou como fenômeno mais passageiro?

Hobsbawm - Está claro que a religião --entendida como a ritualização da vida, a crença em espíritos ou entidades não materiais que influenciariam a vida e, o que não é menos importante, como um elo comum entre comunidades-- está tão amplamente presente ao longo da história que seria um equívoco enxergá-la como fenômeno superficial ou que esteja destinado a desaparecer, pelo menos entre os pobres e fracos, que provavelmente sentem mais necessidade de seu consolo e também de suas potenciais explicações do porquê de as coisas serem como são.

Existem sistemas de governo, como o chinês, que não possuem concretamente qualquer coisa que corresponda ao que nós consideraríamos ser religião. Eles demonstram que isso é possível, mas acho que um dos erros do movimento socialista e comunista tradicional foi optar pela extirpação violenta da religião em épocas em que poderia ter sido melhor não fazê-lo. Uma das grandes transformações interessantes advindas após a queda de Mussolini na Itália foi quando [Palmiro] Togliatti [secretário-geral do Partido Comunista Italiano] deixou de discriminar os católicos praticantes --e com razão.

De outro modo, ele não teria conseguido que 14% das donas de casa votassem nos comunistas na década de 1940. Isso mudou o caráter do Partido Comunista Italiano, que passou de partido leninista de vanguarda a partido classista de massas ou partido do povo.

Por outro lado, é verdade que a religião deixou de ser a linguagem universal do discurso público; e, nessa medida, a secularização vem sendo um fenômeno global, embora apenas em algumas partes do mundo ela tenha enfraquecido gravemente a religião organizada.

Para as pessoas que continuam a ser religiosas, o fato de hoje existirem duas linguagens do discurso religioso gera uma espécie de esquizofrenia, algo que pode ser visto com bastante frequência entre, por exemplo, os judeus fundamentalistas na Cisjordânia --eles acreditam em algo que é evidentemente tolice, mas trabalham como especialistas nisso.

O movimento islâmico atual é composto, em grande medida, por jovens tecnólogos e técnicos desse tipo. Com certeza, as práticas religiosas vão mudar muito substancialmente. Se isso vai realmente produzir uma secularização maior não está claro. Por exemplo, não sei até que ponto a grande mudança na religião católica no Ocidente --ou seja, a recusa das mulheres em pautar-se pelas normas sexuais-- realmente levou as mulheres católicas a serem menos crentes.

O declínio das ideologias do iluminismo deixou um espaço político muito maior para a política religiosa e as versões religiosas de nacionalismo. Mas não creio que todas as religiões tenham vivido uma ascensão grande. Muitas delas estão claramente em declínio.

O catolicismo está lutando arduamente, mesmo na América Latina, contra a ascensão de seitas evangélicas protestantes, e tenho certeza de que está se mantendo na África apenas graças a concessões aos hábitos e costumes sociais que eu duvido que tivessem sido feitas no século 19.

As seitas evangélicas protestantes estão em ascensão, mas não está claro até que ponto são mais que uma minoria pequena entre os setores sociais com mobilidade ascendente, como era o caso antigamente com os não conformistas na Inglaterra. Tampouco está claro que o fundamentalismo judaico, que causa tanto mal em Israel, seja um fenômeno de massas.

A única exceção é o islã, que vem continuando a se expandir sem nenhuma atividade missionária efetiva nos últimos dois séculos. Dentro do islã, não está claro se tendências como o movimento militante atual pela restauração do califado representam mais que uma minoria ativista. Contudo, me parece que o islã possui grandes trunfos que favorecem sua expansão contínua --em grande medida, porque confere às pessoas pobres o sentimento de que valem tanto quanto todas as outras e que todos os muçulmanos são iguais.

Pergunta - Não se poderia dizer o mesmo do cristianismo?

Hobsbawm - Mas um cristão não crê que vale tanto quanto qualquer outro cristão. Duvido que os cristãos negros acreditem que valham tanto quanto os colonizadores cristãos, enquanto alguns muçulmanos negros acreditam nisso, sim. A estrutura do islã é mais igualitária, e o elemento militante é mais forte no islã.

Recordo-me de ter lido que os mercadores de escravos no Brasil deixaram de importar escravos muçulmanos porque eles insistiam em rebelar-se sempre. Onde estamos, esse apelo encerra perigos consideráveis --em certa medida, o islã deixa os pobres menos receptivos a outros apelos por igualdade.

Os progressistas no mundo muçulmano sabiam desde o início que não haveria maneira de afastar as massas do islã; mesmo na Turquia, tiveram que encontrar alguma forma de convivência --aliás, esse foi provavelmente o único lugar onde isso foi feito com êxito.

Pergunta - A ciência foi uma parte central da cultura da esquerda antes da Segunda Guerra, mas, ao longo das duas gerações seguintes, virtualmente desapareceu como elemento central do pensamento marxista ou socialista. O sr. acha que o destaque crescente das questões ambientais deverá reaproximar a ciência da política radical?

Hobsbawm - Tenho certeza de que os movimentos radicais vão se interessar pela ciência. O ambiente e outras preocupações geram razões fundamentadas para combater a fuga da ciência e da abordagem racional aos problemas, fuga que se tornou bastante ampla a partir dos anos 1970 e 80. Mas, com relação aos próprios cientistas, não creio que isso vá acontecer.

Diferentemente dos cientistas sociais, não há nada que leve os cientistas naturais a se aproximarem da política. Historicamente falando, eles, na maioria dos casos, têm sido apolíticos ou seguiram a política padrão de sua classe.

Existem exceções --entre os jovem na França do início do século 19, digamos, e, muito notavelmente, nas décadas de 1930 e 1940. Mas esses são casos especiais, que se devem ao reconhecimento por parte dos próprios cientistas de que seu trabalho estava se tornando cada vez mais essencial para a sociedade, mas que a sociedade não se dava conta disso.

O trabalho crucial sobre isso é "The Social Function of Science" [A Função Social da Ciência, MIT Press], de [J.D.] Bernal, que exerceu efeito enorme sobre outros cientistas. É claro que o ataque deliberado de Hitler contra tudo o que a ciência representava ajudou.

No século 20, as ciências físicas estiveram no centro do desenvolvimento, enquanto no século 21 está claro que são as ciências biológicas que estão. Pelo fato de estarem mais próximas da vida humana, pode haver um elemento de politização maior. Mas há um fato contrário, com certeza: cada vez mais, os cientistas têm sido integrados ao sistema do capitalismo, tanto como indivíduos quanto no interior de organizações científicas.

Quarenta anos atrás, teria sido impensável alguém falar em patentear um gene. Hoje, patenteia-se um gene na esperança de virar milionário, e esse fato afastou um grupo bastante grande de cientistas da política da esquerda. A única coisa que ainda poderá politizá-los é a luta contra governos ditatoriais ou autoritários que interferem em seu trabalho.

Um dos fenômenos mais interessantes na União Soviética foi que os cientistas lá foram forçados a se politizar, porque receberam o privilégio de um certo grau de direitos e liberdades --de tal maneira que pessoas que, de outro modo, não teriam passado de leais fabricantes de bombas de hidrogênio se tornaram líderes dissidentes.

Não é impossível que isso venha a ocorrer em outros países, embora não existam muitos no momento. É claro que o ambiente é uma questão que pode manter muitos cientistas mobilizados. Se houver um desenvolvimento maciço de campanhas em torno das mudanças climáticas, então é evidente que os especialistas se verão engajados, em grande medida combatendo os reacionários e os que nada sabem. Logo, nem tudo está perdido.

Pergunta - O que o atraiu originalmente para o tema das formas arcaicas de movimento social, em "Rebeldes Primitivos", e até que ponto o sr. planejou isso de antemão?

Hobsbawm - Isso surgiu a partir de duas coisas. Quando percorri a Itália na década de 1950, eu não parava de topar com fenômenos aberrantes --representações partidárias no sul do país elegendo testemunhas de Jeová como secretários, e assim por diante; pessoas que refletiam sobre problemas modernos, mas não nos termos aos quais estávamos acostumados.

Em segundo lugar, especialmente após 1956, isso expressava uma insatisfação geral com a versão simplificada que tínhamos do desenvolvimento de movimentos populares da classe trabalhadora.

Em "Rebeldes Primitivos", eu estava muito longe de ser crítico da leitura padrão-- pelo contrário, eu observava que esses outros movimentos não chegariam a nenhum lugar a não ser que, mais cedo ou mais tarde, adotassem o vocabulário e as instituições modernas.

A despeito disso, ficou claro para mim que não bastava simplesmente ignorar esses outros fenômenos, dizer que sabíamos como todas essas coisas operam. Eu produzi uma série de ilustrações desse tipo, estudos de caso, e disse: "Estes não se encaixam".

Isso me levou a pensar que, antes mesmo da invenção do vocabulário, dos métodos e das instituições políticas modernas, existiam maneiras como as pessoas praticavam política que englobavam ideias básicas sobre as relações sociais --entre elas, em grau não menor, as relações entre poderosos e fracos, governantes e governados-- que possuíam uma certa lógica e se encaixavam.

Mas eu realmente não tive oportunidade de levar esse estudo adiante.

Pergunta - Em "Tempos Interessantes" [publicado em 2002], o sr. expressou reservas consideráveis em relação ao que eram na época modismos históricos recentes. O sr. acha que o cenário historiográfico continua relativamente inalterado?

Hobsbawm - Estou cada vez mais impressionado com a escala do desvio intelectual verificado na história e nas ciências sociais desde os anos 1970. Minha geração de historiadores, que de modo geral transformou o ensino da história, além de muitas outras coisas, procurou essencialmente estabelecer um vínculo permanente, uma fertilização mútua, entre a história e as ciências sociais; era um esforço que datava dos anos 1890.

A disciplina econômica seguiu uma trajetória diferente. Dávamos como certo que estávamos falando de algo real: de realidades objetivas, embora, desde Marx e a sociologia do conhecimento, soubéssemos que as pessoas não registram a verdade simplesmente como ela é.

Mas o que era realmente interessante eram as transformações sociais. A Grande Depressão foi instrumental nesse aspecto, porque reapresentou o papel exercido por grandes crises nas transformações históricas --a crise do século 14, a transição ao capitalismo. Não foram, na realidade, os marxistas que introduziram isso --foi Wilhelm Abel, na Alemanha, o primeiro a fazer a releitura dos fatos da Idade Média à luz da Grande Depressão dos anos 1930. Éramos um grupo que procurava resolver problemas, que se preocupava com as grandes questões. Havia outras coisas cuja importância diminuíamos: éramos tão contrários à história tradicionalista, à história dos governantes e figuras importantes, ou mesmo à história das ideias, que rejeitávamos isso tudo.

Em algum momento da década de 1970, ocorreu uma mudança acentuada. Em 1979-80 a [revista de história] "Past & Present" publicou uma troca de ideias entre Lawrence Stone e mim sobre o "revival da narrativa" --"o que está acontecendo com as grandes perguntas 'por quê'?". De lá para cá, as grandes perguntas transformativas vêm sendo esquecidas pelos historiadores, de maneira geral.

Ao mesmo tempo, ocorreu uma expansão enorme do âmbito da história --passou a ser possível escrever sobre qualquer coisa que se quisesse: objetos, sentimentos, práticas. Parte disso era interessante, mas também se viu um aumento enorme do que se poderia chamar de história de fanzine, na qual grupos escrevem com o objetivo de se sentirem mais positivos a seu próprio respeito.

O exemplo clássico disso é o dos indígenas americanos que se recusaram a acreditar que seus ancestrais tivessem migrado da Ásia, afirmando "sempre estivemos aqui".

Boa parte desse desvio foi político, em algum sentido. Os historiadores oriundos de 1968 não se interessavam mais pelas grandes perguntas --pensavam que todas já tinham sido respondidas. Estavam muito mais interessados nos aspectos voluntários ou pessoais. O [periódico] "History Workshop" foi um desenvolvimento tardio desse tipo.

Não acho que os novos tipos de história tenham produzido quaisquer mudanças dramáticas. Na França, por exemplo, a história pós-Braudel não se compara à que foi feita pela geração dos anos 1950 e 1960. Pode haver trabalhos ocasionais muito bons, mas não é a mesma coisa. E estou inclinado a pensar que o mesmo pode ser dito do Reino Unido. Houve um elemento de antirracionalismo e de relativismo nessa reação dos anos 1970, que, ao todo, constatei ser hostil à história.

Por outro lado, houve alguns avanços positivos. O mais positivo destes foi a história cultural, que todos nós, inegavelmente, tínhamos deixado de lado. Não prestamos atenção suficiente à história do modo como ela de fato se apresenta a seus atores.

O livro "A Europa e os Povos Sem História" [Edusp], de Eric Wolf, é um exemplo de uma mudança positiva nesse respeito.

Também ocorreu uma ascensão enorme da história global. Entre não historiadores tem havido muito interesse pela história geral --ou seja, em como a raça humana começou. Graças a pesquisas de DNA, hoje sabemos muita coisa sobre a expansão de humanos através do planeta. Em outras palavras, dispomos de uma base genuína para uma história mundial.

Outro avanço positivo, em grande medida por parte dos americanos e em parte, também, dos historiadores pós-coloniais, tem sido a reabertura da questão da especificidade da civilização europeia ou atlântica e da ascensão do capitalismo -- "The Great Divergence" [Princeton University Press], de [Kenneth] Pomeranz, e assim por diante. Isso me parece muito positivo, embora seja inegável que o capitalismo moderno surgiu em partes da Europa, e não na Índia ou China.

Pergunta - Se o sr. tivesse que escolher tópicos ou campos ainda inexplorados e que representam desafios importantes para historiadores futuros, quais seriam?

Hobsbawm - O grande problema é um problema muito geral. Segundo padrões paleontológicos, a espécie humana transformou sua existência com velocidade espantosa, mas o ritmo das transformações tem variado tremendamente. Isso claramente indica um controle crescente sobre a natureza, mas não devemos imaginar que sabemos para onde isso nos está conduzindo.

Os marxistas focaram, com razão, as transformações no modo de produção e em suas relações sociais como sendo geradoras de transformações históricas.

Contudo, se pensarmos em termos de como "os homens fazem sua própria história", a grande questão é a seguinte: historicamente, comunidades e sistemas sociais buscaram a estabilização e a reprodução, criando mecanismos para prevenir-se contra saltos perturbadores no desconhecido. A resistência à imposição de transformações de fora para dentro ainda é um fator preponderante na política mundial, hoje. Como, então, humanos e sociedades estruturados para resistir a transformações dinâmicas se adaptam a um modo de produção cuja essência é o desenvolvimento dinâmico interminável e imprevisível?

Os historiadores marxistas poderiam beneficiar-se da pesquisa das operações dessa contradição fundamental entre os mecanismos que promovem transformações e aqueles que são voltados a opor resistência a elas.

Esta entrevista foi publicada originalmente na edição de janeiro/fevereiro da revista britânica "New Left Review".
Tradução de Clara Allain.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Áustria: candidata presidencial levanta-se contra a proibição do Partido Nazista

Da France Presse

A candidata de extrema direita à presidência da Áustria se declarou contrária à lei que proíbe o Partido Nazista, gerando dúvidas sobre a capacidade de o país assumir seu sombrio passado sob o nazismo.

Barbara Rosenkranz, de 51 anos, mãe de dez filhos e líder do partido populista de extrema direita FPO, será a única candidata da oposição no dia 25 de abril no duelo contra o chefe de Estado atual, o social-democrata Heinz Fischer, cujo papel é fundamentalmente honorífico e moral.

Ainda que não tenha nenhuma possibilidade de ser eleita - as pesquisas afirmam que ela possui de 15% a 20% dos votos - suas posições avivam o espectro de uma nova degradação da imagem da Áustria no exterior.

A lei de proibição de 1947 (Verbotsgesetz) prevê uma pena máxima de 20 anos de prisão para quem reavivar o partido nazista ou uma organização similar, propagar sua ideologia ou negar os crimes nazistas contra a humanidade, especialmente o holocausto.

Entretando, Barbara Rosenkranz - cujo marido é um antigo fundador do Partido Neonazista NPD - questiona em nome da "liberdade de expressão" os artigos do Verbotsgesetz, já que reprimem "simples opiniões".

Assim, a candidata afirmou que a negação do holocausto por um deputado de seu partido está incluída nesta "liberdade de expressão".

Sua candidatura criou uma ampla oposição, que vai desde o Partido Social-Democrata (SPO), aliado no poder com os Democratas-Cristãos (OVP) até a comunidade judaica, passando pela Igreja católica.

O cardeal-bispo de Viena, Christoph Schonbord, opinou que "semelhante pessoa era inelegível". No SPO, o ministro de Defesa, Norbert Darabos, afirmou que Rosenkranz "pisava no fundamento antifascista da República".

A candidata de extrema direita foi assim perdendo os apoios que ganhou inicialmente, inclusive em seu próprio partido: durante uma coletiva de imprensa convocada às pressas no dia 5 de março, o presidente do FPO, Heinz-Christian Strache, afirmou que Barbara Rosenkranz "poderia escolher melhor suas palavras" e que "de nenhuma maneira se trata de modificar o Verbotsgesetz".

O diretor do influente jornal popular Kronen Zeitung, Hans Dichand, após ser convocado a votar por Barbara Rosenkranz, exigiu "uma clara condenação do nazismo e do holocausto", sob pena de ela vir a ser "desqualificada".

Como consequência, Rosenkranz se viu obrigada na segunda-feira ante a imprensa em Viena a fazer uma declaração sob juramento, na qual garante "condenar os crimes do nacional-socialismo" e "repudiar sua ideologia".

Entretanto, se recusou a responder a perguntas dos jornalistas sobre suas declarações públicas anteriores, especialmente aquela - realizada novamente na semana passada - em que sustenta que a negação de holocausto é uma questão de "liberdade de expressão".
Barbara Rosenkranz foi lançada pelo próprio presidente do FPO à corrida presidencial, precisamente porque era uma figura da ala mais conservadora do partido, claramente anti-imigrante e antieuropeia.

Todos os seus dez filhos têm nomes germânicos, como Mechthild, Hildrun, Arne ou Sonnhild. Mas sua imagem de defensora dos valores tradicionais da família foi afetada, após a revelação de que abandonou a igreja e que nenhum de seus herdeiros chegou a ser batizado.

"Brasil, mostra a tua cara!"

Postado no blog da Glória Leite

8 Março 2010

Demóstenes Torres (Demo): Estupro consensual. Arre égua!
A TEORIA NEGREIRA DO DEM SAIU DO ARMÁRIO

por ELIO GASPARI

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é uma espécie de líder parlamentar da oposição às cotas para estimular a entrada de negros nas universidades públicas. O principal argumento contra essa iniciativa contesta sua legalidade, e o caso está no Supremo Tribunal Federal, onde realizaram-se audiências públicas destinadas a enriquecer o debate.

Na quarta-feira o senador Demóstenes foi ao STF, argumentou contra as cotas e disse o seguinte:


"[Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. Gilberto Freyre, que hoje é renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual".

O senador precisa definir o que vem a ser "forma muito mais consensual" numa relação sexual entre um homem e uma mulher que, pela lei, podia ser açoitada, vendida e até mesmo separada dos filhos.

Gilberto Freyre escreveu o seguinte:
"Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime".

"O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com a sua docilidade de escrava: abrindo as pernas ao primeiro desejo do sinhô-moço. Desejo, não: ordem."

"Não eram as negras que iam esfregar-se pelas pernas dos adolescentes louros: estes é que no sul dos Estados Unidos, como nos engenhos de cana do Brasil, os filhos dos senhores, criavam-se desde pequenos para garanhões. (...) Imagine-se um país com os meninos armados de faca de ponta! Pois foi assim o Brasil do tempo da escravidão."

Demóstenes Torres disse mais:

"Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (...) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da economia africana".
Nós, quem, cara-pálida? Ao longo de três séculos, algo entre 9 milhões e 12 milhões de africanos foram tirados de suas terras e trazidos para a América. O tráfico negreiro foi um empreendimento das metrópoles europeias e de suas colônias americanas. Se a instituição fosse africana, os filhos brasileiros dos escravos seriam trabalhadores livres.
No início do século 20 os escravos não eram o principal "item de exportação da economia africana". Àquela altura o tráfico tornara-se economicamente irrelevante.
Ademais, não existia "economia africana", pois o continente fora partilhado pelas potências europeias. Demóstenes Torres estudou história com o professor de contabilidade de seu ex-correligionário José Roberto Arruda.
O senador exibiu um pedaço do nível intelectual mobilizado no combate às cotas.

domingo, 13 de setembro de 2009

Listas do Wikio


Digital Activism Survey Report 2009

Authors: Kate Brodock, Mary Joyce, Timo Zaeck
Data Set: download spreadsheet (.xls)
Abstract: Our goal in creating this survey was to collect the first international demographic data on the new group we call “digital activists”: people who use digital technology as part of grassroots campaigns for social and political change.
From late mid-February to mid-April of 2009, DigiActive collected 122 responses through an open online form, followed by three rounds of qualitative and quantitative analysis. Despite the challenges of researching the world’s digital activists we felt a need to record – in some rough way – this evolving demographic. Our original data set is available for download above and we welcome comments below through survey@digiactive.org.
Key Findings:
Age: Of the survey’s 122 respondents, 28% were between the ages of 26 and 30, with 10% above age 50 and only 2% below the age of 20. The low activism rates of these young “digital natives” may be explained by political apathy and entertainment preferences online.
Gender: Outside North America, male respondents outnumbered female respondents by a margin of 7 to 3. If this gap holds true for digital activists in general, this further challenges the gender-neutral identity of technology.
Geography: Geographic representation was largely consistent with global Internet access but should not be used as representative of the true distribution of digital activists around the world.
Economics: Digital activists, particularly in developing countries, are much more likely than the population at large to pay a monthly subscription fee to have Internet at home, to be able to afford a high-speed connection, and to work in a white-collar job where Internet is also available. In short, digital activists are likely to be prosperous.
Access: Intensity of use, rather than simple access, is critical as to whether or not a person is a digital activist. This high use is only possible for people with the ability to pay for it. The Internet may be democratizing, but its effects are felt most strongly in the global middle class.
Mobiles: Respondents with more features on their mobile phone – such as Internet, video, and GPS – are more likely to use their phones for activism. This is another indicator of the importance of financial resources for digital activists, both quantitatively, in terms of greater technology access, and qualitatively, in terms of better (mobile) hardware.
Causes: Across regions, “rights” emerged as the most popular cause, with 21 different types identified by respondents.
Broadcast: The plurality of respondents (37%) believe digital technology’s greatest value for activism is one-way communication. What makes social media useful for digital activism may not be its interactivity but rather the fact that these technologies collapse the barrier to broadcast.
Platforms: Social networks are the most common “gateway drug” into digital activism.
Design: None of most popular activist tools – social networks, blogs, and email – were specifically made for activism. It is likely a combination of their open and agnostic architecture, as well as their high user base, that has made them popular with activists.
Skills: Findings on technology and advocacy skills acquisition challenge the assumption that those who have a facility with technology are more likely to become digital activists and gives encouragement to programs that seek to teach technology skills to traditional activists.
Offline: Older activists in the respondent group are most likely to use digital technology to increase the efficiency of offline activities, such as training and evidence collection, and less likely to participate in activities which have gained popularity because of the availability of online tools, such as posting original content on web sites.
Download PDF (2.2MB)

How Do Politicians Use Twitter? A Case Study of Rep. Laura Brod

mais um artigo interessante. Método: estudo de caso.

The Iranian Election on Twitter

artigo em

http://akgul.bilkent.edu.tr/WEP-twitterFINAL.pdf


hj quem posta é Marcelo, heim!

Políticos apimentam Twitter de olho nas eleições de 2010

Maurício SavareseDo UOL NotíciasEm São Paulo

Veloz e perigoso, o microblog Twitter tornou-se o território virtual preferido de vários políticos que buscam eleitores na rede mundial de computadores - apesar de eventuais constrangimentos irrevogáveis por conta de postagens polêmicas. Ali, quase sempre fazem comentários genéricos e sugestões, mas já aprenderam a melhor maneira de atrair mais seguidores e atenção: cutucando os adversários. No horizonte, as eleições de 2010.

De acordo com políticos de vários partidos ouvidos pelo UOL Notícias, ironias e críticas duras de fatos daquele mesmo dia são a melhor estratégia para ganhar seguidores e obter repercussão na mídia. Nenhum deles se disse arrependido de postagens menos cordiais, que variam entre suposto uso de remédios tarja preta por um colega de partido e insinuações de alcoolismo do presidente da República.


leia mais em http://noticias.uol.com.br/politica/2009/09/13/ult5773u2445.jhtm
"Quando você põe uma frase mais polêmica e sacaneia um adversário, tem resposta", disse o presidente do Democratas, deputado Rodrigo Maia (RJ), cujo perfil tem pouco mais de 1.100 seguidores. "Tem que ter bom humor, sem agressividade, mas é uma ferramenta que se encaixa bem para quem quer ser mais econômico. Os comentários ganham atenção na mídia também porque às vezes você está em casa, pensando na vida, e vem uma ideia boa. O Twitter te permite usá-la."

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Frase do século para quem ainda não entendeu o que a Internet significa politicamente!

A política da mídia não se aplica a todas as formas de fazer política, mas todas
as formas de política têm necessariamente de passar pela mídia para influenciar
o processo decisório.[1]
Manuel Castells
[1] CASTELLS, M. O Poder da Identidade. São Paulo, Paz e Terra, 1999 (Obra original de 1996), pp. 374.

Política se faz com links

Apoio ao Ministro Joaquim Barbosa
http://www.petitiononline.com/Ministro/petition.html

Quando é que vai se acordar que agora a Política tem na Grande Rede, o Agora?
Internet frita Mendes
Do blog Cidadania, do Eduardo Guimarães. Leia tudo aqui.


Em todos os grandes portais da mídia corporativa que fizeram enquetes sobre o
assunto, os comentários chegaram aos milhares e foram quase unânimes em apoiar
Barbosa. Reservo, aqui, um espaço especial ao UOL, que veiculou uma enquete perguntando ao internauta qual dos ministros do STF tinha razão e quebrou a cara de uma tal maneira que simplesmente sumiu com ela pouco depois de publicada, quando o contador de comentários já se aproximava do terceiro milhar e praticamente todos esses comentários eram favoráveis a Barbosa.


Na blogosfera não foi diferente. Os blogs afinados com Gilmar Mendes (Esgoto, Noblat) viram seus posts em defesa do presidente do STF ficarem quase às moscas. No do Josias, ele parece ter optado por não deletar os apoiadores de Barbosa - o número de comentários foi alto (770, na hora em que verifiquei), mas quase todos apoiando Barbosa.


Enquanto isso, os blogs independentes – que apoiaram Barbosa em peso –, tais como o do Azenha, do Nassif, do PHA, do Idelber Avelar e, entre outros, modestamente também este blog, produziram centenas de comentários, com destaque impressionante para o blog do Luis Nassif, onde os comentários chegaram a mais de 700 no momento em que eu escrevia este post – o que pôs o Esgoto em pânico, aliás.


Enfim, estou começando a ficar animado com a “brincadeira”. A internet está começando a mostrar quem é quem politicamente hoje no Brasil. E, a partir disso, tem sido possível até mobilizar centenas, milhares de cidadãos – se se levar em conta os que têm acompanhado e apoiado atos públicos convocados pela Rede como o da ditabranda sem terem tido como participar em pessoa.



A mentalidade política nacional está mudando rapidamente e à revelia do bombardeio político avassalador das redes de televisão e rádio e dos grandes jornais e revistas, todos alinhados ao grupo político-partidário que envolve Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Gilmar Mendes e as famílias midiáticas Frias, Marinho, Civita e congêneres.

Joaquim Benedito Barbosa Gomes é o nome dele.

Conhecido como Joaquim Barbosa, apenas, ele é ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil desde 25 de junho de 2003, quando nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o único negro entre os atuais ministros do STF.
Joaquim Barbosa nasceu no município mineiro de Paracatu em 7 de outubro de 1954 (54 anos), noroeste de Minas Gerais.
É o primogênito de oito filhos.
Pai pedreiro e mãe dona de casa, passou a ser arrimo de família quando estes se separaram.
Aos 16 anos foi sozinho para Brasília, arranjou emprego na gráfica do Correio Braziliense e terminou o segundo grau, sempre estudando em colégio público.
Obteve seu bacharelado em Direito na Universidade de Brasília, onde, em seguida, obteve seu mestrado em Direito do Estado.
Prestou concurso público para Procurador da República e foi aprovado.
Licenciou-se do cargo e foi estudar na França por quatro anos, tendo obtido seu Mestrado em Direito Público pela Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas) em 1990 e seu Doutorado em Direito Público pela Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas) em 1993.
Retornou ao cargo de procurador no Rio de Janeiro e professor concursado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Foi Visiting Scholar no Human Rights Institute da faculdade de direito da Universidade Columbia em Nova York (1999 a 2000), e Visiting Scholar na Universidade da California, Los Angeles School of Law (2002 a 2003).
Fez estudos complementares de idiomas estrangeiros no Brasil, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Áustria e na Alemanha. É fluente em francês, inglês e alemão.

O currículo do ministro do STF Joaquim Barbosa que vocês acabam de ler foi extraído da Wikipédia, mas pode ser encontrado facilmente nos arquivos dos órgãos oficiais do Estado Brasileiro.
“E o que mostra esse currículo?”, perguntarão vocês. Antes de responder, quero dizer que o histórico de vida de Joaquim Barbosa pesa muito neste caso, porque mostra que ele, à diferença de seus pares, é alguém que chegou aonde chegou lutando contra dificuldades imensas que os outros membros do STF jamais sequer sonharam em enfrentar.
Não se quer aceitar, nesse debate – ou melhor, a mídia, a direita, o PSDB, o PFL, os Frias, os Marinho, os Civita não querem aceitar –, que Joaquim Barbosa é um estranho no ninho racialmente elitista que é o Supremo Tribunal Federal, pois esse negro filho de pedreiro do interior de Minas é apenas o terceiro ministro negro da Corte em 102 anos, conforme a Wikipédia, tendo sido precedido por Pedro Lessa (1907 a 1921) e por Hermenegildo de Barros (1919 a 1937).

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Pois é...

Ministro Joaquim Barbosa:

Vossa Excelência não está na rua não, Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Internet: ¿Democracia o Anarquía?

Acerca del artículo
Autor: Manuel Calvo HernandoAño: 2001Publicado en: I Jornadas "Ciencia, Periodismo e Internet"
Documentos relacionados
Contra la fractura digital
¿Una Internet cuántica en este siglo?
¿El tejido de nuestras vidas?

EL MATERIAL DEL CIBERESPACIO ES TAN DIGNO O INDIGNO DE FIAR COMO LAS FUENTES DE QUE PROCEDA

Internet está acaparando la atención de especialistas en los campos más diversos, desde el comercio electrónico hasta la filosofía, y se abordan aspectos del universo virtual y el mundo digital, con nuevos y sugestivos análisis. El autor de uno de estos libros es Gordon Graham y el título de su libro, Internet. Una indagación filosófica. Por otra parte, la Universidad de Brandeis, en Boston, es la primera en Estados Unidos que ofrece una especialización en In-ternet, con clases interdisciplinares que analizarán el cambio que ha experimentado la vida cotidiana con la tecnología de la red y sus ramificaciones en la política, la economía, la cultura y el arte. Los alumnos podrán elegir esta especialidad como parte de las carreras de Derecho, Sociología, Arte, Política, Economía e Informática. En esta relación falta la Ciencia, que es uno de los componentes más importantes de la red.

Es impresionante el grado y la rapidez con que la modalidad interconectada de comunicación electrónica –conocida indistintamente como la Red, Internet, la Web y el ciberespacio- ha entrado en casi todos los campos de la vida actual. Pero, a pesar de su popularidad y de su amplia propagación, es todavía nueva, demasiado nueva como para permitir una reflexión retrospectiva sobre su naturaleza y su impacto. Aun así, es imposible negar su importancia y, por eso, la tentación de enjuiciar qué es y qué puede significar para la cultura, la ley y la política es muy grande. Un aspecto decisivo lo constituye el hecho de que tanto la tecnología como su uso sufrirán cambios apreciables mientras se redacta el informe.En el mundo de la tecnología de la información Internet es lo más nuevo de lo nuevo; entre las formas del pensamiento, la filosofía es lo más viejo de lo viejo.¿Es lógico pensar que las viejas preguntas de la filosofía puedan iluminar la última innovación tecnológica. Internet es algo muy nuevo, pero ha impulsado ya un gran número de libros, que buscan ir más allá de la explicación y de la exploración de su uso para reflexionar sobre su naturaleza y su impacto.¿ES TRANSFORMADOR INTERNET?

¿Hasta qué punto es transformador Internet?, se pregunta el autor de este libro, Gordon Graham. La Red ofrece distintos aspectos: una extensa biblioteca, una gigantesca galería de cuadros, un tablón de anuncios mundial y es cada vez más el vehículo primario con el que un gran número de grupos se comunican entre sí, Cualquier clase imaginable de curiosidad, cualquier tipo de actividad, encuentra hoy expresión en Internet, desde la investigación científica más avanzada hasta las aficiones más triviales, desde las granes religiones hasta la menor de las perversiones humanas. Es posible hacer operaciones bancarias, comprar bienes de consumo, intercambiar datos académicos, hacer planes de viaje, reservas de avión o incluso echar un vistazo a las posibles habitaciones de los diferentes hoteles.En Internet se hacen nuevas amistades y existen ya muchos ejemplos de profundas personales que han nacido en la Red, y que a veces han conducido a matrimonios entre gente que no se vieron el uno al otro hasta el momento de la boda. El poder del ordenador personal, que hasta hace unos años era poco más que una máquina de escribir con calculadora, ha alcanzado límites insospechados. Para hacernos una idea de lo que es Internet, necesitamos imaginar una combinación de biblioteca, galería, estudio de grabación, cine, cartelera, sistema de correo, galería de compras, tabla horaria, banco, aula, bo-letín de club y periódico. Luego, deberíamos multiplicar por un número infinitamente grande y darle una diseminación geográfica ilimitada. Un ejercicio mental como éste podría ayudarnos a comprender el tamaño y el alcance de Internet, pero lo que quizá no logre destacar en toda su trascendencia es el aspecto extraordinario de la interacción. Aunque puede usarse como una fuente de información, como una extensa enciclopedia, y que ofrece un medio nuevo para noticias y anuncios, es mucho más que eso y no sólo hace posible observar el mundo de Internet; es posible existir y actuar en él. Esto es lo que ha hecho posible acuñar el término “ciberespacio”, que indica una dimensión “espacial” enteramente nueva creada por la cibernética.

TV: FORMAS POBRES DE ENTRETENIMIENTO

Se puede argumentar, sin hacer el ridículo, que la televisión ha producido formas más pobres de entretenimiento que sus predecesores y, además, formas que explotan su capacidad de confundir información con diversión. Un reproche diferente, pero relacionado con el mismo problema, se le podría hacer también a la relación que existe entre las noticias “normales” que ofrece la televisión y la diseminación del conocimiento, así como de su importancia social. Aunque mucha más gente está hoy mejor informada que antes, es relativamente muy poco lo que puede hacer con esta información. Y lo más probable es que el mayor conocimiento que tenemos de las cosas incremente nuestra frus-tración con respecto a nuestras posibilidades de poder. Desde este punto de vista hoy podría decirse que “el conocimiento es frustración”.La indudable capacidad de la televisión para aumentar nuestro conocimiento no es en sí misma un enriquecimiento. Gran parte de la información transmitida es trivial y trivializadora, Mentes de calidad como la de Gordon Graham piensan que cualquier enriquecimiento de la diversión, ampliamente interpretado, debería dar lugar a un aumento de la capacidad imaginativa y no meramente de su más amplia distribución. Sucede que la televisión nos permite llenar más horas del tiempo de ocio que antes, pero no mejor que lo hacían las formas más antiguas del entretenimiento, la conversación y el arte popular. Disponemos seguramente de una mayor elección, si es que pensamos en la elección desde un punto de vista estrictamente numérico, Pero, ¿acaso hemos mejorado nuestros criterios para elegir?Hay razones para pensar que la invención de la radio cambió la manera de funcionar de la política, y que la televisión añadió relativamente poco, en parte porque, mucho más que la radio, es “una ventana de una sola dirección”: el espectador sólo ve lo que el realizador elige mostrarle. Según Graham, existe un escepticismo general sobre la capacidad social y política de la televisión. Fue la radio, no la televisión, lo que produjo una transformación política, y si es así, este hecho ilustra la posibilidad de que las innovaciones tecnológicas que atraen más atención no sean necesariamente las más importantes.Volviendo a Internet, la web es el poder para el pueblo, acompañado de una venganza, pues a diferencia del carácter más bien pasivo de la televisión, su carácter interactivo ofrece a los ciudadanos ordinarios la posibilidad de ejercer una influencia inaudita sobre los acontecimientos políticos y sociales que determinan sus circunstancias y perspectivas. Internet satisface también el criterio de ser radicalmente nuevo, pues al subvertir las fronteras nacionales pre-sagia un cambio importante en las formas culturales y sociales. Por eso se dice que es una World Wide Web, una red a través del mundo.

INTERNET COMO DEMOCRACIA

Los dos aspectos de Internet, su democracia y su internacionalismo muestran que la innovación tecnológica permite a los seres humanos entrar en ámbitos radicalmente nuevos. Según parece, cada innovación tecnológica im-portante y social se acompaña de desventajas y riesgos imprevistos. Tenner examina cuatro áreas importantes en que la innovación tecnológica fue anunciada como muy ventajosa y fue aplicada con rigor: la medicina, la agricultura, el procesamiento de la información y el deporte. Para bien y para mal, la tecnología avanza y la triste realidad es que “la tecnología contemporánea no es ni un arma milagrosa ni una ruina” (Tenner). Excepto quizá en unos pocos casos limitados, al tecnología no debería ser considerada como el servidor de los deseos y de las necesidades humanas, sino como un contribuyente muy importante de su formación.Aunque el uso y la popularidad de Internet avanzan con inaudita rapidez, todavía estamos al principio de su evolución. Entre los sueños a que da lugar, y que algunos activamente proclaman, está el de un mundo cuya libertad de expresión y cuyo control democrático sobrepasen a cualquier cosa que haya conocido la historia de la humanidad. ¿Qué tiene Internet para haber dado origen a la idea de que podría ser un poderoso instrumento democrático? La palabra “foro” ha adquirido hoy un significado principalmente metafórico. Sus raíces etimológicas, sin embargo, proceden de la palabra latina forum, que era la plaza donde los ciudadanos trataban en Roma los negocios públicos. Las realida-des prácticas requieren de nosotros que aceptemos la necesidad de la democracia representativa en vez de la directa.Con el advenimiento del e-mail la contribución de los individuos y de los grupos al debate público puede ahora llevarse a cabo con mucho menos gasto e incomodidad que antes y sin el riesgo de la exposición personal que disuade a muchos de cualquier forma de participación política.

INTERNET COMO ANARQUÍA

La democracia no es el ideal admirable que se suele pensar. De hecho, la idea de “anarquía” puede abordarse de dos maneras, una positiva y otra negativa. Dentro de la positiva, que es la concepción de famosos anarquistas, la anarquía significa ausencia de gobierno, y ausencia de gobierno significa libertad respecto al poder coercitivo del Estado. La anarquía negativa también denota ausencia de gobierno, pero interpreta esto como una condición de ause-cia de ley, un régimen no de libertad, sino de libertinaje.Internet tiene otros aspectos llamativos: su internacionalidad y su popu-lismo. Las relaciones internacionales han sido hasta hoy manejadas por los Estados y ahora pueden cambiar las cosas. En cuanto al populismo, significa que su acceso está limitado por la habilidad y el equipo técnico. Han sido propues-tas formas de censura, pero por ahora ninguna es eficaz. Por ahora, Internet está abierto a todo, pero su autoridad es discutible y depende de las fuentes. Como en el resto de los medios, los juicios de valor se podrán basar en el conocimiento previo y en la reputación adquirida, es decir, si somos capaces de verificarlo con lo que sabemos de otra parte. Internet es una valiosa fuente de conocimiento e información sólo si somos capaces de someter lo que allí encontramos a las verificaciones normales que solemos aplicar a las demás fuentes, y ni su tamaño, ni la libertad del individuo para acceder a la Red alteran este principio. El material de Internet es tan digno o indigno de fiar como las fuentes de que procede.

BIBLIOGRAFÍA-Graham, Gordon (1999): Internet. Una indagación filosófica, Fronesis. Cátedra y Universidad de Valencia.
Otros libros recientes sobre el tema:
-Burgos, Daniel, y Luz De-León (2001): Comercio electrónico, publicidad y márketing en Internet. McGraw-Hill.
-El saber en el universo digital (2001), “Revista de Occidente”, Nº 239.
-Lévy, Pierre (1999): ¿Qué es lo virtual? Paidós.
-Negroponte, Nicholas (1999): El mundo digital. Un futuro que ya ha llegado. Ediciones B.
-Woolley, Benjamín (1994): El universo virtual. Acento Editorial.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

PROLIFERANDO INTOLERÂNCIAS

Uma análise do debate a respeito das eleições presidenciais
em duas comunidades do Orkut na Internet

Introdução
A política da mídia não se aplica a todas as formas de fazer política, mas todas as formas de política têm necessariamente de passar pela mídia para influenciar o processo decisório.[1]
Manuel Castells

Introdução
Passar pela mídia. Eis o novo desafio, segundo Manuel Castells advoga, que submete, necessariamente, todas as formas de políticas. Com o advento de novas formas de mídia, em particular àquela associada à Sociedade de Rede, surgem novas formas de comunicação e sociabilidade, e entre elas, as comunidades virtuais centram a presente discussão. A proposta é, num contínuo diálogo com a obra de Castells[2], focar e problematizar a discussão de duas comunidades virtuais, situadas no Orkut: a primeira se define como “pró-Lula”, a segunda como “pró- Alckmin[3]”. Venho acompanhando a discussão das mesmas, desde o primeiro turno para eleições presidenciais, em especial seus tópicos de debates, com o software N*Vivo, me comunicando com alguns de seus membros, por meio do Orkut, observando a contínua mudança nos nomes das comunidades, enfim, apreendendo seus discursos e transformando o mesmo em dados de análise. A questão como novas dimensões abarcadas pela democracia no pós-advento da Internet reformatam o debate político, se divide, neste texto, em três partes, na primeira a análise se centrar;a no primeiro turno eleitoral, na segunda, no período entre turnos e no pós-eleição. Na terceira parte algumas conclusões que teci ao longo do percurso. Como o texto se fundamenta em duas comunidades do Orkut, primeiramente é preciso apresenta-lo: o Orkut é uma comunidade virtual, na qual os participantes aderem por convite de outros membros, e que possibilita a discussão dos mais variados temas, relacionados a inúmeras áreas de interesse. Seu criador, Orkut Büyükkökten[4] (nascido em Konya, em 6 de fevereiro de 1977) um engenheiro de software, desenvolveu a rede social Orkut[5] como um projeto independente enquanto estudava na Universidade de Stanford. Formou-se em 1997, e adquiriu seu PHD em 2002, em Computer Science, e trabalha no Google. Em 19 de Janeiro de 2004 a comunidade virtual foi lançada, objetivando ampliar “o diâmetro social” de seus membros, como afirma em sua página de acesso, e para fazer parte dela é preciso receber o convite de um membro já cadastrado. Ao efetivar este cadastro, o novo membro é convidado a preencher um perfil, dividido em três partes, social, profissional e pessoal, a fazer upload de fotos, enfim, a operacionalizar uma página que descreva sua aparência física, suas preferências afetivas, artísticas e intelectuais, seus interesses, e a se conectar com seus amigos já membros do Orkut, ou convidados por ele. Este sistema é inspirado na teoria de Stanley Milgram[6], na qual se arquitetou que cada um de nós está a somente seis graus de separação de outro grupo de pessoas. Para alguns pesquisadores de redes sociais, e redes digitais, o Orkut seria uma prova definitiva desta teoria[7].
Após o preenchimento do perfil, parcial ou totalmente, é possível se cadastrar em comunidades já existentes, ou ainda criar uma nova. Na página de cada comunidade há espaço para seu nome, perfil, e várias outras informações. Na tabela abaixo, são dadas as informações disponibilizadas pelas duas comunidades estudadas no presente texto[8]:

Tabela Um
O perfil das comunidades analisadas

Dado
Comentário
“pró-Lula”
“pró- Alckmin”
Nome
Nome atual
Nós reelegemos Lula Presidente
Geraldo Alckmin
Idioma
Dos Fóruns
Português
Português
Categoria
Tipo de Comunidade[9]
Governo e Política
Governo e Política
Dono
Quem criou e coordena?
Alex ¹³ Piero[10]
Thierry 45 Besse - Moderador[11]
Data de criação

23 de Junho de 2005
26 de Agosto de 2004
Membros
Número
108.243
154.725
Fórum

Público e não-anônimo
Público e não anônimo[12]
Número de Tópicos
Fóruns abertos
29215
32615

As comunidades se descrevem da seguinte forma no perfil: Comunidade Pró-Lula:
É LULA DE NOVO COM A FORÇA DO POVO!
"Reconheço que Deus tem sido generoso comigo. Mais do que mereço. Eu pedi forças... " Leia o restante do final do discurso de posse de Lula no Congresso Nacional aqui: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=2826730&tid=2507636837857477484

FIM DA ENQUETE
Vitória do atual nome, Nós reelegemos Lula Presidente com 61,98% dos votos, contra 38,02% para o nome "Nós apoiamos Lula Presidente". Parabéns a todos pelo ato democrático!
Mensagem de Lula para nós
www.lulaorkut.has.it
Bate-papo da comunidade
www.batepapo.has.it
Adesive sua foto
www.iapes.com.br/lula/upload.php
Comunidade na imprensa
www.imprensa.has.it
Vídeos
www.lulavideos.has.it
Convide seus amigos
www.convite.has.it
Seus amigos que estão conosco
www.aquiconosco.has.it
Fatos que merecem destaque
www.pedalaoposicao.blogspot.com
Perguntas freqüentes
www.perguntas.has.it
Moderação compartilhada
www.moderacao.has.it

Já a descrição da comunidade “pró-Alckmin” informa:
Comunidade oficial de apoio a Geraldo Alckmin.
A MAIOR COMUNIDADE DE GERALDO ALCKMIN NO ORKUT -
Convide seus amigos ¤
www.orkut.com/CommInvite.aspx?cmm=316707
Fundador do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) em 1988.
1972 - Eleito Vereador de Pindamonhangaba
1976 - Eleito Prefeito de Pindamonhangaba
1982 - Eleito Deputado Estadual por São Paulo
1986 - Eleito Deputado Federal por São Paulo
1990 - Reeleito Deputado Federal por São Paulo
1994 - Eleito Vice-Governador de São Paulo
1998 - Reeleito Vice-Governador de São Paulo
2002 - Eleito Governador de São Paulo
2006 - Candidato a Presidência da República Brasileira
Pré-candidato a Presidência da República em 2010
Sem UNIÃO não se vence eleição!

Nesta primeira observação, podemos notar um fenômeno discutido por Castells, a “dimensão tecnológica” que se relaciona com a sociedade em rede, e as reações comunais desenvolvidas a partir desta nova estrutura social (CASTELLS: 1996, 366). São as comunidades que apóiam, denunciam, fazem campanha, reelegem, são elas que se pretendem como uma força de influência no que Castells denominou de “política informacional”. Segundo este autor este compartilhar contínuo entre a tecnologia e a política, evidente no discurso das comunidades analisadas neste ensaio, permitem “a criação de novas regras do jogo” (CASTELLS: 1996, 367), por interagirem profundamente com transformações radicais no âmbito social, cultural e político. A própria essência da política, segundo Castells é afetada, pois colocaria “a direita, a esquerda e o centro” no mesmo embate tecnológico: é preciso atingir os cidadãos também pelos meios midiáticos. Esclarecendo que não advoga por uma teoria que vê na mídia uma força impositora da qual não se poderia escapar, nem no receptor um sujeito passivo diante da mesma, Castells destaca, de maneira precisa, “o papel crucial da mídia eletrônica na política contemporânea”, que se revigorou com as crises dos sistemas políticos tradicionais e da capilaridade dos novos meios midiaticos, formatando assim um novo modus operantis no qual “as informações política são capturadas no espaço da mídia”.
Nesta mesma direção Mark Pôster discutiu a intima relação entre política e tecnologia na Internet, e para o autor a Web é responsável não apenas por instituir novas funções sociais mas também por desafiar nossa existência teórica aproximando-se de questões como a restrição ou expansão da sobrevivência dos ramos executivo, legislativo e judiciário do governo por permitir inusitadas formas de participação política. Pôster também advoga a idéia de que a rede estaria modificando o próprio lugar do debate político, discutindo a esfera pública, retomando idéias de Habemas[13]
O assunto da esfera pública está no coração de qualquer reconceituação de democracia. Relações sociais contemporâneas parecem estar desprovidas de um nível básico de interatividade prática que, no passado, foi a matriz da democratização política: locus tal como o ágora , a prefeitura da Nova Inglaterra, a Igreja da aldeia, o café de casa, a taverna, a praça pública, um celeiro conveniente, um salão, um parque, uma sala de refeições, e ainda a esquina. [...] Por muito tempo, teorias críticas têm insistido em uma esfera pública, lamentando o fato da "interferência" da mídia, a indiferença do primeiro rádio e então o papel da televisão na política. Mas o fato é que o discurso político tem sido por muito tempo mediado pelas máquinas eletrônicas: o assunto agora é que as máquinas possibilitam novas formas de diálogo descentralizado e criam novas combinações de homem-máquina reunidos, novas "vozes" individuais e coletivas, "espectros", "interatividades", que são os novos blocos construídos de formação política e agrupamentos.

Mediado pelas máquinas, o discurso político das comunidades do Orkut que fenecem os dados desta pesquisa, é o tema, complexo que pretendo ler. Neste contexto teórico é possível desenvolver uma apreensão não apenas deste discurso revelado no perfil das comunidades, mas também e principalmente, como elas reagiram nos diversos momentos: na confirmação do evento do segundo turno, no episódio do “dossiê”, na eleição do presidente Lula, e no período pós-eleitoral. É preciso também pensar a respeito do impacto que as tecnologias de informação e comunicação exercem sobre a própria investigação acerca do tema, pelas ciências sociais, inclusive sobre a maneira de construir a teoria social, segundo o que escreveu Tom Dwyer, também por permitir a publicação e a divulgação de dados e disponibiliza-los de maneira mais ampla e rápida, por disponibilizar bases de dados e fontes de investigação em formato digital, da qual estas comunidades do Orkut são um exemplo, e por fim por propiciar a análise dos dados por meio de software, como o utilizado na presente pesquisa, que permitiram a sistematizam dos dados e identificação de como as comunidades se referem uma a outra, simplificando muitíssimo esta tarefa. Tais mudanças entre outras (DWYER: 2004, 325-333) deixam marcas no presente texto e facilitam minhas questões de análise: quais discussões aconteceram nas comunidades, como se deram as mesmas? Como uma comunidade se referia a outra? Como discutiram os temas que geririam esta eleição presidencial? Como se deu o fluxo de seus membros, ou seja a entra e saída de participantes? É na tentativa de problematizar estas questões que o presente trabalho se inicia.

Preparando o primeiro turno

A comunidade “pró-Alckmin”, formada antes mesmo de se confirmar a candidatura de Geraldo Alckmin como presidenciável, começa exatamente por este debate, que discute em 34 tópicos a candidatura do mesmo, preferindo-o a Serra, e salientando suas virtudes pessoais e políticas, como garantias de vitória[14]. Foram ao todo 412 postagens numa comunidade que já possuía cerca de 140.000 membros.
”Nestes tópicos o nome de Lula aparece diretamente quinze vezes, ao em diversas expressões: é preciso “chutar fora a corrupção/Lula/PT”, a comunidade informa, por meio de seus membros: “nao basta o Lula ter continuado o mesmo modelo porco de governo de FHC, e ter feito muito pior”. Sem se dar conta que Geraldo Alckmin é exatamente do mesmo partido que Fernando Henrique Cardoso. É importante lembrar que este fenômeno concorda com a teoria de Castells que aponta uma grande reestruturação da política, pelo processo de “personalização dos eventos” (CASTELLS: 1996, 380). São os políticos os atores do drama. Então não importa o partido: “eu voto é no candidato” afirmam 216 membros da comunidade, durante os tópicos. Jaime, um dos membros, informa-nos, em 23 de janeiro de 2006: “melhorar as estradas federais que estão um verdadeiro caos, pois o Lula não fez nada, também só anda de avião, para que asfalto?” Esta seria uma tarefa do “experiente governador de São Paulo”, segundo André que concorda com a habilidade do mesmo em resolver problemas de estrada... E Jaime acrescenta: “Geraldo não deixará as estradas do Brasil como o Lula, deixou, pois Geraldo é competente”. Na infovia, toma-se partido claramente, como o faz, Alllysson: Eu voto no Alckmin desde Outubro de 2005, quando vi na tv que ele diminui o imposto no estado de São Paulo, e o estado cresceu. Acredito que ele terá capacidade de fazer isso também no Brasil, já o Serra, gostei muito do trabalho dele, quando foi ministro da saúde, mas as palavras ditas por ele, na candidatura de São Paulo(ficarei 4 anos, como prefeito), será instrumento para o Lula, chamá-lo de mentiroso. Eu acho que se for o Serra, será fácil para o Lula, e mais 4 anos de Lula , fala serio...” Nota-se que as pessoas são mais importantes que idéias, segundo apontava Castells, o que fica mais claro na medida que gradativamente a eleição se aproxima: se no início ainda aparecem estradas e educação, posteriormente vai se formando, nas comunidades um perfil de seu candidato e um perfil de seu concorrente. Já nesta fase a comunidade que apóia Geraldo Alckmin denomina Lula de sapo várias vezes, ou de corrupto, ou de cego. E também o observa como um candidato muito dificil de ser derrotado. Informa-nos Allysson:
Um importante dirigente do PSDB dizia, há tempos, que o candidato do partido à Presidência da República seria escolhido por um critério simples: se a eleição fosse muito fácil, Fernando Henrique. Se fosse fácil, mas nem tanto, José Serra. Se fosse difícil, Geraldo Alckmin. Se fosse muito difícil, o candidato seria algum tucano de fora de São Paulo. Para o PSDB, a eleição, pelo jeito, está difícil. É, portanto, a hora de Alckmin. A análise do dirigente tucano tem, além do tempero da maldade, uma certa lógica. Serra tem mais três anos de mandato como prefeito; se sair e perder a eleição, fica sem nada. Já Alckmin está terminando seu período de governo. Está disposto, portanto, a correr mais riscos eleitorais do que Serra. E o prefeito paulistano, como não disse oficialmente que é candidato, pode simplesmente ficar no cargo, sem precisar desistir de uma campanha na qual não disse que entrou.

Se a discussão é acerca de quem poderia ser o vice de Geraldo Alckmin, os membros são taxativos:
“Eu prefiro José Agripino por três motivos: 1. está desempenhando muito bem o papel de líder do seu partido no senado; 2. É mais carismático do que Bornhausen; e 3. Acrescentaria mais à chapa em termos regionais, pois ficaria o candidato a presidente do sudeste e o vice do nordeste, ressaltando que é na região nordeste aonde Lula tem o seu melhor desempenho eleitoral e um candidato a vice na chapa contrária pesaria no momento da escolha. Por tudo isso, acho que José Agripino acrescentaria mais como candidato a vice”. (postado por Henrique)

Uma forte rejeição a Lula se manifesta, e dados que apóiam este posicionamento, são fartos nos tópicos:
" Mas o presidente continua a enfrentar problemas sérios de rejeição, apesar de ter melhorado também nesse quesito. Hoje são 53% os que consideram que ele não merece uma segunda chance, enquanto 45% apóiam a reeleição. Mas esse número já foi pior: em dezembro do ano passado, a reeleição de Lula chegou a ter a rejeição de 61% do eleitorado. Atualmente, o índice dos que não votariam nele de maneira alguma está em 31%, enquanto os que já decidiram votar é de 34%. "

Como teorizou Castells o papel da Internet em difundir informação é eficaz e inquestionável, tanto que o comentário acima provocou um tópico com 116 postagens na outra comunidade, que defendia o presidente, como o candidato do povo. Outro tópico é abertto na comunidade “pró-Alckmin” e nela Márcia adverte: “Lula é de longe o candidato mais conhecido do eleitorado, mais conhecido até mesmo que Serra, e está sozinho na raia neste momento. O governador Geraldo Alckmin é o menos conhecido de todos, sendo que uma parte da população diz que nunca ouviu falar dele.” E são candidatos que ganham ou perdem eleições, nunca idéias ou propostas de governo: “Saibam que tanto Alckmin quanto Serra terão boas chances se nossos palanques estaduais forem fortes. Do contrario o Lulão levara a eleição.” Castells discute esta “personalização”num contexto que engloba: “a) o declínio dos partidos políticos, bem como do papel por eles representado na escolha de candidatos; b) o surgimento de um complexo sistema de veículos de comunicação [...]; c) o desenvolvimento do marketing político”(CASTELLS: 1996, 374 e 375). No debate que antecede a escolha de Alckmin como candidato à presidência da República, os três aspectos interagem na comunidade, de forma evidente e precisa. Os dados também concordam com a idéia expressa por Pôster acerca da comunicação política na rede: “o que está em jogo é a solicitação direta para a construção de identidades no curso das práticas de comunicação. Usuários inventam sobre si próprios e fazem isso repetida vezes e de diferentes formas ao longo da conversação ou mensagem eletrônica.” Muitos perfis trazem fotos do candidato no lugar do participante, ou de seus aliados. Identidades são fabricadas, mensagens são abundantes: a idéia é produzir ao máximo. Isto nos recorda Wolton: "o cidadão é um gigante em matéria de informação” e nas comunidades, discordando deste autor, não é um nanico em ação, porque posta, cria tópicos, invade a outra comunidade com um perfil falso, faz da rede uma verdadeira arena.
Antes do primeiro turno a comunidade “Nós votamos LULA 13”, primeiro nome da comunidade “pró-Lula”, estava com cerca de 4 mil membros. O debate era menor, apenas respondendo ao que entendia como provocação da comunidade “pró-Alckmin”, em particular quando o presidente era ofendido, por sua origem pobre,nordestina ou por sua aparência (estes elementos dão origem a cerca de 300 postagens). A única exceção se dá no debate acerca do índice de rejeição do presidente. Os tópicos criados na comunidade se destacam por discutir educação, saúde e moradia. Para comentar a respeito das propostas do oponentes as mensagens parecem bem menos agressivas, e mais elaborada:
O governo de Geraldo Alckmin continua a aprovar seu pacote de ataques à educação. Após vetar o aumento em 1%, passando por cima do aprovado na Assembléia Legislativa de LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e de reduzir a verba da educação estadual por ao seu menor índice em quatro anos, Alckmin fez manobra orçamentária de contabilizar desconto de tarifa como sendo investimento na educação e dessa forma reduzindo o montante que de fato deveria estar sendo destinado a esta pasta. Este fraude contábil resulta em transferência de orçamento do setor de transportes para e educação, o que significa um corte brutal na magnitude de R$ 32 milhões. Para se ter um parâmetro da redução de gastos o montante é de cerca de 10% dos gastos do governo nas instalações de todas as escolas estaduais no ano de 2004. Este é, portanto mais um ataque de Alckmin a educação paulista.
E ainda:
Dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) demonstram que a qualidade do ensino paulista é pior que a média do Brasil. Segundo esta fonte oficial a porcentagem de alunos que se encontram nos estágios crítico e muito crítico representam 41,8% do total de alunos do estado. Ao passo que em nível nacional os alunos que se situam nestes mesmos estágios representam 5,6% do total. Portanto, levando-se em consideração este indicador relevante e oficial o desempenho da educação gerenciada por Alckmin é 86,6% pior que a do Brasil.

Claro que me restrinjo na análise de duas comunidades, e nestas a diferença parece imensa, na comunidade pró-Lula, quase não aparecem ataques pessoais, quando se dão, não se fala da pessoa Alckmin, mas de seu comportamento político, e a informação circula... Deco, por exemplo, postou:
Governo Alckmin impede 67 CPIs na assembléia paulista. Desde 2003, com a reeleição do governador Geraldo Alckmin, a Assembléia Legislativa de São Paulo não sabe o que é uma Comissão Parlamentar de Inquérito funcionando. No entanto, 67 CPIs aguardam a hora de ser instaladas: 58 estão prontas para instalação e outras nove para verificação de assinaturas. A tática da base governista é usar um mecanismo regimental que condiciona a instalação das comissões a acordo de líderes. Sem acordo sobre quais assuntos devem ser investigados, as CPIs não são instaladas. Quais são elas, por área: São 18 pedidos de investigação nas áreas de economia e tributação. A maior parte se refere às irregularidades de setores privados sobre a arrecadação de tributos, concessões de créditos para privatizações e a guerra fiscal entre os Estados. Onze pedidos tratam da área de serviços públicos como as irregularidades praticadas pelas concessionárias de telefonia fixa e móvel. Dez pedidos são ligados a questões sociais como saúde, educação, problemas ligados ao trabalho no campo e assistência social. Nove pedidos na área de saneamento e questões ambientais, envolvendo os problemas de abastecimento de água na região metropolitana, irregularidades de exploração em espaços de preservação ambiental e casos de contaminação de solo em áreas residenciais. Outros nove pedidos de investigação de irregularidades e superfaturamento como os casos da construção do Rodoanel, do rebaixamento da calha do rio Tietê, do metrô, e a construção de casas populares pelo CDHU. É esse o presidente que queremos??????
O debate apenas começava. O primeiro turno aos poucos se aproximava, e as comunidades atingiram números bem maiores: a primeira “pró-Lula”, chega perto dos 60.000 membros, a segunda como “pró- Alckmin ultrapassa os 190.000.

Um novo tratado de Tordesilhas?
Nasce o primeiro turno. Na manhã de segunda-feira novas discussões disparam na mídia. No então 2 de dezembro a mídia impressa, televisiva e na Internet questionava a divisão que parecia sugerir um novo tratado de Tordesilhas, segundo a revista Isto É Dinheiro. Informava a reportagem: “As regiões Norte e Nordeste seriam a ‘América’ de Lula. Centro-Oeste, Sul e grande parte do Sudeste são o continente de Geraldo Alckmin[15] . Depois do resultado do primeiro turno a comunidade “pró-Lula”e atingiu a marca de 114.052, e continuaria crescendo até os 300.000 participante registrados por ocasião do segundo turno. A discussão se modificara drasticamente: o resultado das urnas parecia apontar um quadro em que o Brasil se dividia em dois: O Norte e Nordeste votavam Lula, o Sul, Centro-Oeste e Sudeste no candidato Geraldo Alckmin, seu maior concorrente. As comunidades disponibilizam para seus membros a possibilidade de “adesivar”sua foto do perfil do orkut, ou seja colocar uma tarja de propaganda de Lula ou Alckmin. É interessante notar que o 13 ou o 45 sobrescrito ao lado do nome se tornou marca de muitos participantes. Entre os milhares de fóruns da comunidade, àqueles que abordariam a questão da divisão do país, são o centro desta segunda parte. A idéia expressa na afirmação de Castells, que apresenta como característica importante da sociedade informacional, ainda que não esgote todo o seu significado, "a lógica de sua estrutura básica em redes, o que explica o uso do conceito de 'sociedade em rede'" (Castells, 1999: 46, nota 33) é de particular elucidação neste caso. E é na rede, de participantes, de respostas, e principalmente, de discussões por ambos levantadas que pretendo me deter neste momento.
Nesta ocasião o debate se aquece de maneira drástica: racismo, injurias, ofensas e palavrões são notadas nas postagens. Lula é “o nordestino maldito” (5 vezes), o “nordestino ladrão e analfabeto”(12 vezes), “candidato de pobre, preto e nordestino” (129 vezes), “fedorento”(2 vezes), corrupto (19 vezes), “cego que se faz de tonto”(2 vezes). Geraldo é o “racista” (110 vezes), “não gosta de nordestino” (4 vezes), hipócrita (140 vezes), “não gosta de pobre” (8 vezes). Neste debate os dados demonstram, inclusive pela referência que um tópico de uma comunidade faz a outra, e às datas de postagens que a comunidade pró-Lula se posicionava mais eticamente, muitas vezes apenas respondendo às provocações da comunidade “pró-Alckmin”, ainda que algumas vezes tenha provocado a primeira sempre se referindo ao candidato como “picolé de chuchu”(459 vezes), ou como tucanada (uma refer6encia ao totem partidário do candidato – 436 vezes). Mas, em nenhum dos tópicos ele foi agredido por origem étnica ou racial. Mas, agrediu-se bastante o ex-governador por sua possível vinculação com a Opus Dei: foram 349 vezes, e em muitas delas a intolerância era gigantesca: “o enviado maldito da Opus Dei”, por exemplo...
Uma outra questão,a que se denominou de “Brasil dividido”, apresentada por Diogo num fórum “pró-Lula”, é bastante interessante:
“Pq o povo da Região Sul prefere o Alckmin?”. A esta pergunta, no título do Fórum, ele acrescenta um post: “Pq o povo da Região Sul prefere o Alckmin? Queria saber o que esse sujeito fez de bom pra essa região. Pq pelo que eu saiba o Lula obteve somente 34% dos votos não foi isso? O Alckmin conseguiu mais de 60% lá. Portanto, temo que fazer mais divulgação petista lá no Sul. Pq eles preferem o Alckmin isso que eu queria saber?” A resposta, é abordada, neste texto, em cinco postagens: cinco passagens (dados filtrados pelo NVIVO),
Mariana LULA 15/10/2006 21:44 Moderador, SC, pelo menos nas últimas eleições, não foi assim... Florianópolis foi a capital com o maior número de votos para Lula... Aqui, por exemplo, a HH teve 16%, uma média, mto maior que a nacional...Acho que se o PT investisse mais por aqui, poderia arranjar parte dos votos da HH...O problema maior acho que está na candidatura do Governador... O Luis Henrique que apoiava o Lula nas últimas eleições, tá apoiando o Chuchu nessas...É um safado, traíra...Como o seu adversário Amin não vai apoiar o Lula, acabou que o Lula não tem apoio de nenhum candidato no segundo turno :... Faltou poder político...

Eduardo 15/10/2006 21:52 Infelizmente, o Bolsa Família não tem poder decisivo no Sul, até porque muitos beneficiados são influenciados pela mídia, e sempre tem parentes ou amigos (de melhores condições financeiras) que tendem pra direita. Os programas do governo do Sul foram quase todos àqueles genéricos, que existem por aqui, e em todos os lugares (exceto a duplicação da BR-101 sul em Santa Catarina, e a transformação do Cefet de Curitiba em Universidade Tecnológica Federal). Fora isso, repito, não houve nada específico para o Sul. É lógico que Farmácias Populares, maior crédito habitacional, incentivo à agricultura familiar e outros programas de alcance nacional são importantes. Mas a mídia do Sul é direitista, e os prefeitos do Sul são mais oportunistas. Na cidade onde está a maior parte de minha família (Umuarama - PR), por exemplo, a prefeitura retirou a logomarca do Governo Federal da Farmácia Popular, e o prefeito de lá, que do PPS (argh!) e apoia o Alcrime, acaba colhendo frutos para si, e para quem ele apóia. Repito, o Lula deveria criar extensões universitárias no interior dos três Estados, implantar mais delegacias da Polícia Federal, que não correspondem ao número de comarcas federais do TRF4, recuperar as rodovias federais, até para fazer frente às rodovias estaduais de lá. Se isso fosse feito, já seria muito bom. Peço muitos votos para o Lula, mas ele vai precisar de fazer propostas específicas (específicas mesmo) para o Sul.

Jorge 16/10/2006 09:04 Mateus não tem autoridade para falar do RS Companheiros, Fico pasmo que um companheiro (?) coimo o Mateus diga inverdades que não condizem com a verdade. O candidato Olívio não merece o que foi afirmado pelo rapaz. Ele não embora a Ford, como a direita e a mídia daqui tenta passar nos últimos oito anos. Na verdade, aconteceu um golpe. Sob o comando de FHC, foi aprovado um projeto que permitia ao governo baiano dar uma série de benefícios ao grupo multinacional. Olívio, na verdade, defendeu o Estado porque não poderia competir, deixando o Estado na míngua, como tinha feito o Antônio Britto. Mais: o governo Olívio foi excelente, dando prioridade para a agricultura familiar e para os pequenos e médios empresários, além de criar a universidade regional e adotar o festejado Orçamento Participativo. O que aconteceu é que a direita e grande imprensa fizeram uma lavagem cerebral na população, que parece ter afetada inclusive o Mateus.

Fabiano 16/10/2006 09:28 Sobre o Mateus! Ele disse que votava Gertaldo e perguntou se poderia postar as razões dele sobre sua intenção de voto. Muitos que estavam na sala faslaram que tudo bem... ele então se posicionou, em nenhum momento foi derespeitoso ou preconceituoso. Nós queremos decobrir e desconstruir essa amarra que colocaro no PT aí no sul para mudar a intenção de voto . Sou de São Paulo, tomasmos cacete no primeiro turno e tomaremos outro no segundo, tudo bem estamos acostumados. mas sempre comemoramos as nossas vitórias aí no sul, esse rewsulatado nos decepciona, parece que temos culpa, isso não pode acontyecer. Sem radicalismos. Até a vitória sempre.

Danilo Flavio 28/10/2006 13:38 ... Outra coisa também, a maioria dos eleitores que votam em geraldo alckmin são de maior poder aquisitivo, isso todo mundo sabe ... esse é um dos motivos também afinal de contas a região sul tem muitos decendentes de alemães entre outras nacionalidades que são muito ricos.

Prolongando o debate, ora responsabilizando o desempenho de Lula nos estados sulistas, pela via de justifica-lo como falta de apoio político, ora considerando como preconceito, ainda que ignorando resultados obtidos pelo candidato anteriormente, ora responsabilizando a mídia, como afirma o internauta: “Bruno 15/10/2006 21:30 Opinião de um Paulista: Mídia + Crise agrícola + Preconceito e falso moralismo (de alguns claro)”, ou, ainda,
Guilherme 15/10/2006 22:08 MINHA HUMILDE OPINIÃO: 1º Campanha fraca do PT no Sul - SC; 2º Prefeitos e Governador usaram obras federais para benefício de campanha própria. No caso dos prefeitos, o apoio à candidatos ao senado, câmara e gov. dos partidos de oposição à Lula foi forte. E muitos usaram este "artifício". Provo: Idelí Salvati PT/SC, denunciou o TRAIDOR LHS - que se elegeu 2002 por ter apoio de Lula - por divulgar que SAMU era conquista de seu Gov. Fato. 3° Acesso rápido à informação. O que gerou o voto de protesto; 4° Em Santa Catarina o Curral é do Jorge Bornhausen - PFL. SC, em especial Fpolis é cabideiro de emprego para todo lado; 5° Fato que já denunciei aqui e reafirmo: Existe um complô fortíssimo entre unidades de ensino médio - cursinhos - que estão vendo seu IMPERIO ameaçado em virtude da facilitação do acesso às universidades particulares - Bolsa Art.170, PROUNI, Financiamentos junto à CEF. Os alunos questionam-se: Para que fazer vestibular se tenho acesso tranquilo em boas univ. particulares? A UFSC é tomada por burgueses. Os alunos tem carros MUITO superiores aos dos professores... E com certeza não trabalham: A maioria dos cursos são de período integral. E para matar: Jovens entre 16 e 24 anos são 21% do eleitorado do Sul; 6º A mídia atribui ao governo a queda na produção de grãos no Sul. Mas o gov. liberou 20bi para os agricultores. O que eles esquessem é da seca: A MAIOR DOS ULTIMOS 25 ANOS. 7º Empresário força o voto de cabresto: O Empresário Catarinense tem hábito de sonegar! Fato! Com a maior eficiência na cobrança dos tributos e impostos, muita empresa quebrou e/ou foi notificada pela receita fed.; 8º A maioria de nós aqui no Sul tem INSTRUÇÃO e não CULTURA E MEMÓRIA POLÍTICA. São coisas diferentes e que acredito que os Bahianos estão muito na nossa frente - tenho humildade para reconhecer; E para fechar minhas opiniões - acho que tem mais coisa - o BAIRRISMO. O Sul achava que o gov. Lula deveria dar prioridade para quem o apoiou com mais peso - salvo proporções. Muitos não aceitam o apoio dado ao Norte/Nordeste - BURRICE.

Note-se nos textos dos internautas como a "ação de conhecimentos sobre os próprios conhecimentos como principal fonte de produtividade"(Castells, 1999: 35), expressando o novo paradigma tecnológico, baseado na tecnologia da informação.
Já na comunidade que apoiava o ex-governador de São Paulo, a explicação se daria em outros termos:
Sou um dos milhões de portadores da carteirinha (de arrependido por ter votado no PeTralha-mor em 2002) que afirma: "Há 3 coisas que só se faz uma vez: Nascer, morrer e votar no PT". O único espetáculo do crescimento que se vê no desgoverno do PT é o da corrupção; o discurso do Luiz Pingácio pretende semear a animosidade entre 2 grupos: 1) Os que votam nele porque recebem suas esmolas e 2) Aqueles que ele considera elite, porque têm emprego decente e não precisam de suas bolsas-esmola. Certamente há um terceiro grupo que vota nele porque não aceita a idéia de largar o osso.

Ou ainda:
Não sou nenhum idiota", diz isso e vota no LULLALAUDRÃO, faz-me rir... quá, quá, quá...Talvez tenha razão, idiota somos nós o sul, sudeste e centro-oeste, que trabalhamos duro, das 7:00h às 18:00h, para sustentar os imbecis vagabundos do norte e nordeste, e os que aqui vivem.

É importante observar que esta forma de se referir aos eleitores do Norte e Nordeste, claramente um crime de racismo, foi exponencialmente crescente na medida em que se aproximava o segundo turno. Em 148 tópicos 673 expressões semelhantes foram organizadas pelo N*Vivo, a ponto de eleitores de Geraldo Alckmin que moravam nas regiões ofendidas exigirem respeito e ameaçarem denunciar o mesmo às autoridades, como fez Geraldo:
Pense duas vezes antes de falar no povo nordestino,lembre-se que a maioria deles aí no "sule" é que põe a locomotiva (se é que ainda há) pra movimentar, certo ?Se não fossem os nordestinos radicados nessa região, ela já teria desaparecido do mapa,ou o mapa do desenvolvimento brasileiro estaria agora de cabeça pra baixo, se é que vc me entende. Isso é crime, vou avisa a PF

Ou como o postado por Elias:
Não vou discutir com vc sobre a importância do empresariado paulista (sobretudo o paulistano) na economia nacional,mas vc há de convir q o homem mais humilde e que levantou prédios,abriu ruas e avenidas,derrubou preconceitos e tbm votou como os demais, teve e tem importância numa nação, né? Se não acha,pode perguntar a qualquer nova-iorquino e ele lhe dará a resposta (agora,ainda têm os simples bombeiros de lá para contribuírem com a fama da cidade).

O debate Sul/Sudeste x Norte/Nordeste parecia algumas vezes acontecer dentro da comunidade que apoiava o ex-governador de São Paulo. E na eleição de Lula, não faltou quem desejasse o separatismo (39 comentários)... A sugestão de um Brasil dividido parece simplista por demais, mas o debate acerca da questão serviu para revelar um lado extremamente preconceituoso presente na rede. Comunidades foram criadas para discutir o tema da integração nacional “pró-Lula” como uma resposta aos desejos explicitados pelos membros da comunidade “pró-Alckmin” mais radicais.
Outro debate marcante se deu por ocasião do episódio do dossiê[16], que gerou 467 tópicos na comunidade “pró-Alckmin” e 322 na comunidade “pró-Lula”. Nos textos postados sempre é sugerido que o presidente Lula estaria envolvido no escândalo, ou se não, é inapto demais para governar, porque permite tamanho absurdo sob seus olhos: Como enfatizou Aparecido: “Ou é ladrão, corruPTo, ou não sabe governar! Na dúvida vou de 45”. A comunidade que defendia o candidato lula exigia a divulgação do dossiê, e salientava que ele pertencia a um grande complô para evitar a reeleição do mesmo, construído pela revista Veja e pela Rede globo de Televisão. Matérias da revista Carta Capital eram copiadas na integra nos fóruns, e links para as mesmas eram postados na comunidade adversária, por membros que se infiltravam por meio de falsos perfis.
Posterior ao segundo turno, a comunidade “pró-Lula” e a comunidade “pró-Alckmin” reduziram seu número de membros. Destes, quase nenhum guardou o adesivo ou o número sobrescrito que identificava o eleitor e o relacionava a seu candidato. A primeira se destaca por discutir o programa atual de governo. A segunda em elaborar a proposta da candidatura do ex-governador para o ano de 2010. Não há quase comentários sobre todo o fenômeno racista que se observou na etapa anterior. Em que lugar ele teria sido guardado?

No caminho perguntas, foram respondidas?

A tentativa de problematizar o fenômeno eleitoral sob a ótica de Manuel Castells se revelou elucidativa e interessante. Em seu trabalho, a noopolitik refere-se às questões políticas engendradas ou suscitadas pela noosfera comunicacional que se estabelece na contemporaneidade. Para ele, a noopolitik não anula a realpolitik - "abordagem tradicional em termos de promoção do Estado na arena internacional, mediante negociação, força ou uso potencial da força" -, mas lhe pode ser contraposta. Na Era da Informação, afirma, a realpolitik se mantém, mas permanece circunscrita ao Estado, "numa era organizada em torno de redes, inclusive redes de Estados" (CASTELLS: 1996, 139). Nesta nova forma de pensar a política, emergem comunidades, como estas do Orkut, que ao debaterem, informarem, se contestarem, revelam da realidade nacional muito mais do que um período eleitoral abarcaria. Neste segundo volume de sua trilogia, “O poder da identidade”, o autor abarca idéias e análises de 25 anos de estudos a respeito dos movimentos sociais1 e dos diversos processos políticos de várias regiões do mundo, discutidas a luz da teoria da Era da
Informação. Castells examina as duas grandes tendências conflitantes que moldam a sociedade da informação: a globalização e a identidade. Pensando, pois, a sociedade em rede, no âmbito da revolução tecnológica e informacional e da nova economia,discute as características dela decorrentes: globalização da economia, flexibilidade e instabilidade do emprego, individualidade de mão-de-obra, a “realidade midiatizada”, o espaço de fluxos e o tempo intemporal. Neste trabalho a teoria de Castells se evidencia na realidade das comunidades: a força comunal personaliza a política e as próprias comunidades, que reagem umas a outras e se acreditam indivíduos: reelegem, apoiam, votam, pensam, denunciam, informam: o poder está na rede, não mais centralizado, mas disperso, no entrelaçado dos links, na possibilidade de comunicar, defender, expor, e inclusive e infelizmente desrespeitar o humano do outro. O racismo tão presente na “democracia racial” brasileira prolifera pela comunidades do Orkut, num convite claro a um posicionamento.
Acredito que o fenômeno do racismo revelado no presente trabalho deve incomodar profundamente aos cientistas sociais, não apenas como objeto de estudo, mas como dado que exige um posicionamento claro. Nos últimos cinco anos tenho pesquisado o ciberracismo, e é com um trecho de um trabalho apresentado em um Congresso virtual, acerca do tema, que termino o presente trabalho:
A idéia de que reconhecer o Outro como objeto de ódio, é para o agente deste habitus uma forma de garantir o reconhecimento, por parte da comunidade racista[17] de uma situação de pertencimento, que expressará, de alguma forma, uma situação de segurança e distintividade. [...] Inscritas nas ilhas etnografadas no oceano digital, estas práticas celebram rituais, enquanto rememoram seu mito, em cerimônias hipertextuais demarcadas pelos links que as interligam. Links de ódio. (DIAS, 2006, 14)

Neste momento, uma nova (velha) fronteira de pesquisa salta aos olhos: racismo e política. O discurso racista quer a sua solução para o problema político, e busca-se soluções políticas (inclusive de inclusão) para a questão racista. No entanto, para além de toda a complexidade que esta questão exige, que não cabe, infelizmente nos limites propostos a este trabalho, mas que levarei adiante em futuras pesquisas, há o ódio. O ciberódio, a intolerância feita site, feita fórum, feita postagem. Por quantos tópicos este ódio se perpetuará?



Referências Bibliográficas
CASTELLS, M . O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999
DIAS, ª Ciberracismo, entre o ódio e a militância. Anais da tercera edición del Congreso ONLINE del Observatorio para la CiberSociedad bajo el título Conocimiento Abierto, Sociedad Libre, Barcelona, 2003.
DWYER, T. Tecnologias de información y comunicación. ... Investigaciones Sociales ano VIII, no 12, Lima. 2004. pp 325-335.
EISENBERG, J. e Cepik, M. (orgs) 2002. Internet e Política: Teoria e Prática da Democracia Eletrônica. BeloHorizonte, Editora da UFMG.
NEWMAN., M. E. J. From the cover: the structure of scientific collaboration networks. Procedings of the National Academy of Sciences of USA (PNAS), V. 98
POSTER, M. Ciberdemocracy: The Internet and The Public Sphere In: David Porter (Ed), Internet Cultura. 1997



[1] CASTELLS, M. O Poder da Identidade. São Paulo, Paz e Terra, 1999 (Obra original de 1996), pp. 374.
[2] As relações entre Internet e política são pensadas por diversos autores, como o cientista político José Eisenberg, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um estudioso das questões que envolvem o uso da rede mundial de computadores no fortalecimento da democracia nas sociedades, em especial a brasileira
[3] Doravante denominarei as comunidades como “pró-Lula”, e “pró- Alckmin”, para dar conta, inclusive, do intenso processo de mudança de nomes que observei nas mesmas.
[4] O site pessoal do engenheiro turco Orkut está disponível em http://www.stanford.edu/~orkut/self.html e seu perfil no Orkut é http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=325082930226142255. Há outros perfis falsos (denominados de fakes, no Orkut) que afirmam pertencer a ele.
[5] Os dados estatísticos utilizados são de
[6] Milgram concebeu este dado por meio de uma experiência realizada com 160 pessoas , moradores de Boston e Omaha (Nebraska), nos EUA. Cada um dos participantes recebeu de Milgram as instruções para que a mesma chegasse a uma pessoa-alvo, nativa de Sharon, Massachussets, mas que morava e trabalhava em Boston. Não era permitido enviar a correspondência diretamente à pessoa-alvo, mas apenas por meio de amigos e conhecidos que facilitassem o contato com ela. O nome de cada participante era inscrito na correspondência de modo a viabilizar o monitoramento do caminho percorrido até o seu destino final. Este método ficou conhecido como small-world. Ao término da experiência, Milgram calculou o número médio de seis intermediários entre os participantes. Conhecida como "Seis Graus de Separação", o experimento de Milgram demonstrou como operacionalizam-se as redes sociais.Os “seis graus de separação” representariam 10 elevado a 6º potência, resultando em um milhão de contatos, exponenciando o poder das redes sociais.
[7] Cf. NEWMAN., M. E. J. From the cover: the structure of scientific collaboration networks. Procedings of the National Academy of Sciences of USA (PNAS), V. 98, P. 404-409, JAN 2001; 98: 404 – 409. Disponível em: http://www.pnas.org/cgi/reprint/98/2/404. Acesso em: <01/01/2006> e também WATTS, D. J. Small Worlds: the dynamics of networks between order and randonmness. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1999.
[8] Os dados se referem a 24 de janeiro de 200.
[9] Selecionada, no ato de criação da mesma, entre as disponibilizadas pelo Orkut.
[10] Perfil disponível em http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=12039168275152215969
[11] Perfil disponível em http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=907224195596735433
[12] Durante a campanha do segundo turno a comunidade variou entre pública e privada.
[13] Prevendoum colapso da esfera pública, e de sua conceituação, o que levaria a uma crise de democracia política, Jürgen Habermas publicou The Structural Transformation of the Public Sphere (A Transformação Estrutural da Esfera Pública) em 1962. É neste livro que se baseia a argumentação de Pôster para discutir este “colapso”, que modificou profundamente, nas últimas década a forma de fazer política. Infelizmente, presa ao limite do presente texto, não aprofundarei esta questão no momento.
[14] Para concorrer pelo PSDB à presidência da República, Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho superou a disputa interna com José Serra, que foi candidato no pleito presidencial de 2002. Com o apoio da cúpula tucana, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Alckmin foi oficializado pelo partido em 14 de março.
[15] Matéria disponível em http://www.terra.com.br/istoedinheiro/473/economia/brasil_dividido.htm
[16] Segundo informou a Folha de São Paulo: “A 15 dias das eleições, a Polícia Federal apreendeu vídeo, DVD e fotos que mostram o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, na entrega de ambulâncias da máfia dos sanguessugas. O material contra Serra seria entregue pelo empresário Luiz Antônio Vedoin, chefe dos sanguessugas e sócio da Planam, a Gedimar Pereira Passos, advogado e ex-policial federal, e Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT do Mato Grosso. Gedimar e Valdebran foram presos, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão. Eles estavam no hotel Ibis, e aguardavam por um emissário do empresário, que levaria o dossiê contra o tucano. O PT nega que o dinheiro seja do partido. O emissário seria o tio do empresário, Paulo Roberto Dalcol Trevisan. A pedido de Vedoin, o tio entregaria em São Paulo o documento a Valdebran e Gedimar. Os quatro envolvidos foram presos pela Polícia Federal. Em depoimento à PF, Gedimar disse que foi "contratado pela Executiva Nacional do PT" para negociar com a família Vedoin a compra de um dossiê contra os tucanos, e que do pacote fazia parte entrevista acusando Serra de envolvimento na máfia. Ele disse ainda que seu contato no PT era alguém de nome "Froud ou Freud". Após a denúncia, o assessor pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Freud Godoy, pediu afastamento do cargo. Ele nega as acusações. Após o episódio, outros nomes ligados ao PT começaram a ser relacionados ao dossiê. Esse é o caso do ex-coordenador da campanha à reeleição de Lula, Ricardo Berzoini, presidente do PT. Seu ex-secretário no Ministério do Trabalho Oswaldo Bargas (coordenador de programa de governo da campanha) e Jorge Lorenzetti --analista de mídia e risco do PT e churrasqueiro do presidente-- procuraram a revista "Época" para oferecer o dossiê.” Disponível na Internet em www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u83573.shtml -
[17] Conforme saliente em minha pesquisa e no artigo já citado, trata-se de um crime, assim caracterizado pela legislação brasileira. Alguns sites advogam o direito à liberdade de expressão e afirmam não se considerarem racistas, expressarem apenas opiniões. Outros sugerem maneiras de como manter o material distante das autoridades competentes. Por esta característica, muitos sites, principalmente os disponibilizados em provedores gratuitos são retirados do ar, para em seguida reaparecerem, múltiplos em três ou quatro servidores novos, inclusive em domínios estrangeiros. Um dos sites pesquisados afirma exatamente isto: para cada site retirado do ar, assume-se o compromisso de disponibilizar, pelo menos, três novos. Isso evidencia uma rede.