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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A ameaça nazista que surge dos escombros da crise grega


A ameaça nazista que surge dos escombros da crise grega

Aurora Dourada cresce na esteira da crise econômica e social
Por Caio Zinet e Gabriela Moncau
Caros Amigos

ComicioSyriza-tp“No choque, as pessoas perdem seus antigos pontos de orientação. Elas estão abertas a novas políticas, de direita ou de esquerda”. A frase do filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek em seu livro mais recente, “Vivendo no Fim dos Tempos” (Boitempo), se encaixa como uma luva na atual conjuntura da Europa em crise.
A Grécia, primeiro país a experimentar a austeridade imposta pela Troika (Banco Central Europeu, União Europeia e Fundo Monetário Internacional), vivencia ao extremo essa realidade. De um lado a Coligação de Esquerda Radical (Syriza) experimentou um crescimento vertiginoso no seu resultado eleitoral saltando de 4% em 2009 para 27% nas últimas eleições de junho de 2012, quando por apenas 2% não ganhou do direitista Nova Democracia que conseguiu eleger Antonis Samarás como primeiro-ministro.
Na outra ponta, o partido de ultra direita Aurora Dourada (AD) também teve um crescimento espantoso saltando de 0,3% em 2009 para 7% nas últimas eleições. Pela primeira vez o partido conseguiu entrar no parlamento, ocupando 19 cadeiras. Isso sem contar os nacionalistas de direita, Gregos Independentes, que tiveram 7,51% dos votos elegendo 20 deputados, e os também reacionários do LAOS que tiveram 1,57% dos votos.
O crescimento e a força de partidos de direita não é novidade na Europa. São comuns partidos ganharem expressão eleitoral se baseando em uma plataforma xenófoba que culpa os imigrantes pela falta de empregos, defendendo sua expulsão do país e o endurecimento de políticas anti-imigrantes.
Mais:
Na França, por exemplo, a Frente Nacional de Jean Marie Le Pen e sua filha, Marine Le Pen, obtém expressivos resultados eleitorais desde pelo menos 2002, quando teve 19% dos votos e por pouco não ganhou as eleições daquele ano. No último pleito, que ocorreu esse ano, Marine obteve quase 18% dos votos ficando em terceiro lugar logo atrás de Nicolas Sarkozy e François Hollande.
O que vemos na Grécia, no entanto, parece estar um patamar acima dessas experiências. Para além de palavras e discursos racistas e anti-imigrantes, os membros do Aurora Dourada tem tomado as ruas com práticas violentas. Dia sim, e o outro também, as manchetes dos jornais gregos estampam notícias sobre espancamentos cometidos por grupos de cerca de dez pessoas contra imigrantes (em especial paquistaneses e afegãos).
Na noite do dia da última eleição, em 17 de junho, por exemplo, um imigrante paquistanês foi espancado dentro de uma estação de trem de Atenas. Testemunhas disseram à polícia que 11 homens vestidos de preto, espécie de uniforme do partido, deram socos e pontapés no imigrante e em seguida o esfaquearam. A vítima foi encaminhada para o hospital, e embora tenha sido muito machucada, sobreviveu ao atentado.
Militantes de esquerda também têm sido alvo de ataques. Uma barraca do Partido Comunista Grego (KKE) foi atacada no dia 15 de junho, dois dias antes das eleições num bairro mais afastado do centro de Atenas. Na mesma noite, o mesmo aconteceu com um espaço da Syriza.
O Aurora Dourada nega ser o organizador dos ataques, mas várias lideranças do partido foram identificadas após agredirem pessoas na rua. Além disso, a maioria dos ataques segue um padrão. Um grande grupo, em torno de dez ou mais pessoas, todas vestidas de preto e em sua maioria homens carecas, no período da noite, cercam e espancam um imigrante.
Poucos foram agressores foram presos, e menos pessoas ainda foram condenadas pelos ataques. Uma das razões que explica isso é que se estima que o partido tenha 50% de apoio entre os policiais militares da Grécia.
“Eu já estive em manifestações no Brasil, na av. Paulista, por exemplo, contra o aumento da tarifa do ônibus. Vi muito repressão policial. Mas quando vem uma ordem de cima dizendo para eles pararem, eles param. Aqui não tem essa. Eles atuam por iniciativa própria, porque gostam de combater as pessoas, estão convencidos ideologicamente contra a esquerda, contra os pobres, contra os imigrantes”, afirmou Kriton Iliópulos, tradutor, membro do coletivo Alana e da revista que leva o mesmo nome e que morou no Brasil durante cinco anos.
Partido neo-nazista?
O Aurora Dourada foi fundado em 1993 e se intitula um "movimento popular nacionalista". Michaloliakos descreve a Aurora Dourada como um movimento oposto ao Iluminismo e à Revolução Industrial . O partido também se diz opositor do Marxismo e do Liberalismo. O partido nega ser nazista, no entanto várias evidências apontam para tal filiação ideológica.
A começar pelo próprio símbolo do partido, inspirado na suástica utilizada por Hitler na Alemanha Nazista. Em segundo lugar, o grupo também faz uso de gestos similares aos do nazismo. Michaloliakos fez a famosa saudação com braço estendido ao entrar na câmara pela primeira vez após ser eleito vereador de Atenas em 2010.
O partido tinha pouca expressão social até o estouro da crise da dívida na Grécia e o subsequente pedido de resgate a Troika (FMI, União Europeia, Banco Central Europeu) acompanhado das medidas de austeridade que fizeram despencar a qualidade de vida do povo grego.
O desemprego que em 2007 era de 8% saltou para 22,6% no primeiro trimestre desse ano. Entre os jovens, o índice é de 52,7%. A realidade é ainda mais forte do que os dados oficiais que não contabilizam nas estatísticas aqueles que desistiram de procurar emprego, ou que trabalham, mas não recebem. O salário mínimo foi cortado em 22%, funcionários públicos foram demitidos e tiveram seus salários cortados em 40%.
Nesse cenário, o partido encontrou um ambiente propício para crescer. Adotando um discurso anti-austeridade, e de que é necessário retomar o orgulho de ser grego, o partido foi aos poucos ampliando sua base de apoio em meio a um tecido social destruído por conta da crise e das medidas de austeridade.
“Vamos livrar o país do mau cheiro”. É esse o slogan do Aurora Dourada em anúncio televisivo, em referência aos que entram ilegalmente no país. Baseados no discurso nacionalista, os partidários do AD voltam seus pontapés e palavras de ódio contra o alvo mais frágil da sociedade grega: os imigrantes. A principal proposta política do partido para o problema da imigração é a colocação de minas terrestres nas fronteiras do país.
A Grécia se tornou uma grande porta de entrada para a Europa para imigrantes africanos, e especialmente asiáticos. Estimativas apontam que entre 500 mil e um milhão de imigrantes vivam na Grécia. O número é altíssimo, tendo em vista que cerca de 12 milhões de pessoas moram na Grécia.
“A imigração é um problema para toda a Europa, mas principalmente para os países do sul, como Itália, Espanha e Grécia. Todas as ondas de imigrantes vindas da África ou da Ásia passam pela Grécia para chegar ao resto da Europa. Muitos ficam presos aqui”, afirmou Thomas Tsalabadis, poeta e colunista de alguns jornais na Grécia.
A combinação de crise econômica com alto índice de imigração permitiu que o discurso nacionalista do AD, fundamentado na ideia de que os imigrantes roubam os empregos dos gregos, encontrou solo fértil para florescer. Nesse cenário, a violência do partido não foi acidental. O ritmo de agressões inclusive cresceu entre as eleições de maio e junho.
O jornalista Yorgos Mitralias escreveu um artigo em que defende a tese de que a violência foi um elemento importante para explicar o crescimento do AD nessas eleições, pois isso permitiu que se diferenciasse de outros partidos de ultra direita, como o LAOS e Gregos Independentes.
“A Aurora Dourada é muito diferente do seu precursor, ou seja, o partido de extrema-direita LAOS, que era "sistêmico" quanto às suas opções políticas e interclassista na composição da sua base eleitoral”, afirmou.
“A Aurora Dourada fez uma opção muito consciente de aumentar o nível de violência - ataque diário a imigrantes em atos públicos de violência, agressão por parte do número dois do partido contra duas deputadas de esquerda ao vivo em um programa de TV, agressões contra militantes de esquerda – (...) A violência da Aurora Dourada contra os imigrantes e os militantes de esquerda, não diminui, mas aumenta a sua influência e a sua capacidade de atração, por um lado, de determinados extratos sociais de deserdados e, por outro, da burguesia e do patronato grego”, completou.
Quem apoia o Aurora Dourada?
O Aurora Dourada tem apoio entre os desempregados, onde o índice de voto foi de 12,2%. Cerca de 20% dos votos dos empresários gregos também foram para o partido. A parcela de votantes do partido é maior entre os moradores de grandes cidades entre 24 e 45 anos. Trabalhadores precarizados também votaram em peso no partido neo-nazista.
Não é mera coincidência notar que os principais apoios ao Syriza tem o mesmo perfil social, com exceção dos empresários, por razões óbvias. O apoiador médio da Syriza também é jovem, precarizado ou desempregado, e morador das grandes cidades gregas. Isso evidencia a polarização dos setores que foram mais afetados pela crise. Não à toa a previsão dos caminhos que o país traçará nos próximos anos é ainda bastante nebulosa.
“Os neo-nazis gregos não estão só se instalando de forma duradoura no coração da paisagem política grega, como constituem, com a Syriza, a segunda força organizada e em plena expansão, disputando o espaço onde se vai decidir o futuro do país: nos grandes centros urbanos e entre a população mais ativa e mais dinâmica”, escreveu Yorgos.
Outro elemento importante para explicar o crescimento eleitoral do AD é a descrença da maioria do povo grego na política tradicional, e nos principais partidos políticos que dominaram a cena grega durante os últimos 30 anos, PASOK e Nova Democracia. Parte significativa da sociedade grega, em especial a mais atingida pelos cortes, associa os membros desses dois partidos a uma imagem de corrupção e ineficiência. Além disso, há um sentimento de que os partidos passaram a tomar decisões a despeito daquilo que a maioria da população acreditava ser o melhor.
Durante a campanha, o Aurora Dourada conseguiu passar imagem de que é um partido duro, não corruptível e capaz de tomar decisões de maneira ágil e firme, ao contrário do PASOK e Nova Democracia, que são corruptos e foram os responsáveis pela atual situação do país. Conseguiu, portanto, captar parte do sentimento contra o Estado e contra os dois partidos que até então dominavam a política grega.
A sociedade grega parece cada vez mais dividida pelos dois extremos da política com pessoas dispostas a ir às últimas conseqüências para a sua causa. Dessa forma, o desenlace da situação grega está longe de ser definido. O nazismo cresce e polariza cada vez mais a política grega. Essa ameaça não pode ser ignorada nem subestimada.
“O que falta à esquerda grega, para que ela possa compreender, enfrentar e combater eficazmente a peste negra (ascensão do Aurora Dourada) que começa a levantar a cabeça, é a memória e a compreensão do que aconteceu na Alemanha - mas também na Itália – nos anos vinte e trinta. Sem a experiência e as lições dessa época, a esquerda grega está condenada ao improviso e a não enfrentar o rosto dos neo-nazis que dão já mostras de se moverem cuidadosamente, seguindo escrupulosamente as orientações do manual do nacional-socialismo”, salientou Yorgos, para quem a situação atual grega mostra cada vez maiores semelhanças com a Alemanha na fase final da República de Weimar, com a ascensão de Hitler ao poder: “Parece incrível, mas infelizmente é verdade. Por isso, enquanto não se compreender o fenômeno Aurora Dourada, como sendo um produto da sua época (da crise econômica, social e política terminal), este ‘fenômeno’ continuará o seu desenvolvimento rápido e fulgurante sem problemas. Então, cuidado: estamos apenas no começo desta história que promete um futuro com pesadelos, se a esquerda grega continuar a ver na Aurora Dourada um simples ‘anacronismo’ passageiro, condenado a desaparecer quando as pessoas perceberem sua natureza retrógrada e perigosa”, escreveu Yorgos.

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Grécia - Notícias do Nazismo no berço da civilização...


Grécia: polícia delega parte de suas funções a neonazistas

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Em novo desdobramento da crise, autoridades conservadoras estimulam perseguição aos imigrantes, para desviar atenção de suas políticas desastrosas
O partido grego Aurora Dourada não limita mais sua ação política às sessões parlamentares e agora vai às ruas colocar em prática programas de “limpeza” de imigrantes ilegais e vendedores ambulantes irregulares. De acordo com uma apuração do jornal britânico The Guardian, há cada vez mais evidências de que até mesmo a polícia do país está delegando funções de fiscalização para pessoas ligadas ao grupo neonazista.
Muitas vítimas de crimes também recorrem ao Aurora Dourada em busca de “justiça” para os delitos. Um funcionário público disse ao Guardian sobre a sua surpresa ao ser encaminhado a membros do partido por agentes policiais para solucionar um incidente envolvendo sua mãe e imigrantes albanianos.
“Eles [os policiais] disseram imediatamente que se aquela era uma questão envolvendo imigrantes, então que fosse levada ao Aurora Dourada”, disse o homem de 38 anos que preferiu não se identificar, temendo colocar em risco seu trabalho ou mesmo a segurança de sua família. Ele ressalta que, em Atenas, a crise financeira do país produziu um contexto de insegurança delicado e lamenta que “se a polícia ou um mecanismo oficial torna-se incapaz de prover segurança, a justiça seja obrigada a ocorrer de formas radicais”.
Outros gregos que passaram por experiências silmilares disseram à reportagem que essa foi justamente a razão que lançou os ultra-direitistas para dentro do parlamento. Uma mulher comentou que foi com a promessa de eliminar o que chama de “lixo imigrante”, que o Aurora Dourada se aproveitou do “sentimento de impotência” dos mais carentes. Para a entrevistada, “isso dá aos ‘mais fracos’ o sentimento de que eles irão sobreviver e de que estão seguros”.
Nas últimas semanas, aumentou o número de crimes motivados por ódio racial. Imigrantes revelaram ao Guardian o temor de andar pelas ruas a noite. A maioria receia agressões de motociclistas vestidos de preto que atacaram ao longo vendedores ambulantes de origem africana e asiática nos últimos dias. No entanto, para Yiannis Lagos, um dos 18 parlamentares eleitos pelo Aurora Dourada, “muitas pessoas nas vizinhanças mais pobres nos veem como libertadores”. Ele classifica seu partido como um “movimento popular nacionalista” construído para ocupar o espaço de um estado que, a seu ver, “não faz nada”.
Integrantes do Aurora Dourada distribuem frequentemente comida e roupas para as parcelas mais necessitadas da população. O preço do gesto de caridade é a filiação ao partido. “Uma amiga minha estava sendo agredida pelo marido e, ao procurar a polícia, acabou encaminhada ao Aurora Dourada. Não passou muito tempo e, em troca, ela começou a doar roupas e alimentos para a instituição”, disse uma professora grega que também pediu o anonimato. “Minha amiga é uma liberal e certamente não é racista. Ela está enojada pelo que tem sido obrigada a fazer”, acrescenta.
Ao que pesquisas de opinião indicam, a estratégia da ultra-direita parece estar funcionando. Uma pesquisa na última semana revelou que o número de indivíduos com opiniões positivas sobre o programa de governo do Aurora Dourada dobrou na comparação com o início do ano. Em maio, 12% da população aprovava o Aurora Dourada. Hoje esse número atingiu a marca dos 22%. O mesmo crescimento pode ser verificado na popularidade de Nikos Michaloliakos, o líder do partido. O número dos que aprovam sua atuação parlamentar cresceu oito pontos percentuais, mais que qualquer outra referência política do país.

Distúrbios marcam visita de Merkel a Atenas

Manifestantes gregos protestam com bandeiras nazistas no centro de Atenas contra a visita da chanceler alemã, Angela Merkel.
Manifestantes gregos protestam com bandeiras nazistas no centro de Atenas contra a visita da chanceler alemã, Angela Merkel.
REUTERS/Yannis Behrakis

RFI
Tropas de choque gregas entraram em confronto, nesta terça-feira, com manifestantes que protestam no centro de Atenas contra a visita da chanceler alemã, Angela Merkel. Um pequeno grupo de manifestantes mais exaltado atirou pedaços de mármore contra o cordão policial. As forças da ordem reagiram, lançando bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes.

Os enfrentamentos aconteceram em ruas próximas da praça Syntagma, sede do Parlamento grego, onde 30 mil pessoas fizeram uma manifestação pacífica contra a visita da líder alemã. Em clima de muita tensão, Angela Merkel faz hoje sua primeira visita a Atenas desde o início da crise das dívidas dos países da zona do euro. Porém, ela é recebida com hostilidade pela população, pois os gregos consideram Merkel a principal responsável pela dramática recessão que assola o país há cinco anos.
Em sua chegada a Atenas, a líder alemã foi recebida no aeroporto com cartazes contendo frases do tipo "Fora imperialistas" e "Não ao 4° Reich", em referência ao período nazista. Cerca de 6.500 policiais e membros da brigada de choque grega estão nas ruas de Atenas. O centro da cidade está fechado aos pedestres e um helicóptero sobrevoa a capital grega o dia todo.
O objetivo da visita da líder alemã é dar apoio ao governo do conservador Antonis Samaras. Merkel defende a permanência da Grécia na zona do euro e o plano de austeridade adotado pelo governo grego para fazer o déficit público recuar, condição imposta para Atenas receber a ajuda financeira promovida pelo trio de credores do país, formado pelo Banco Central Europeu, o FMI e a União Europeia.
Apesar de a polícia ter proibido manifestações públicas até 22h nos bairros do centro, zona que inclui a embaixada alemã, o Parlamento grego e os palácios do governo, milhares de gregos fazem uma manifestação pacífica perto da praça do Parlamento. O protesto foi convocado pelo partido da esquerda radical Syriza e sindicatos de trabalhadores. “O povo grego dará uma resposta pacífica e popular. Será uma mensagem da democracia”, declarou Alexis Tsipras, chefe do partido, que critica Angela Merkel pelo apoio dado ao governo de coalizão em vigor na Grécia.



Polícia de Atenas 'torturou e humilhou' quem protestou contra partido neo-nazi


9 de Outubro, 2012por Diogo Pombo
A polícia metropolitana grega é acusada de ter espancado, torturado e humilhado os detidos de manifestações anti-fascismo ©AP
Cerca de 40 pessoas que se uniram em protestos contra o Aurora Dourada, partido neo-nazi que tem revigorado o seu ímpeto na Grécia, foram castigados pelas autoridades com métodos de tortura e humilhação. Os relatos dos detidos falam da violência sofrida por se terem manifestado contra o fascismo, e de como a imprensa helénica fecha os olhos ao que se passa no país.No último dia de Setembro, o centro de Atenas, capital do país, encheu-se uma vez mais em protesto contra a crescente austeridade que aperta o país, numa manifestação que foi a mais noticiada, mas apenas uma mais entre as várias que assolam o país todas as semanas.
No meio do protesto, convocado pela maior união sindical da Grécia, outros grupos apontavam as suas vozes para outros alvos: o fascismo e o neo-nazismo, hoje simbolizados pelo Aurora Dourada.
Ao final do dia, 15 pessoas que participaram nesse protesto estavam nas instalações da Direcção Geral da Polícia de Attica (GADA, na sigla inglesa), sinónimo da polícia metropolitana de Atenas. Lá terão sido espancados, queimados com isqueiros, humilhados e impedidos de dormir e beber água, num conjunto de queixas noticiadas esta terça-feira pelo The Guardian. Dias depois, outros 25 manifestantes foram detidos e sujeitos a um tratamento semelhante.
«Tínhamos tanta sede que até bebíamos água das retretes», revelou um dos detidos, citado mas não identificado pelo diário britânico, por temer represálias da polícia mas, sobretudo, de elementos do Amanhecer Dourado, com quem os detidos acusam o GADA de colaborar e a imprensa de não noticiar os abusos e violência que fazem por proliferar.
«Aqui, os jornalistas não falam destas coisas, ninguém presta atenção se não noticiarem isto no estrangeiro», apelou um outro. De facto, à hora da escrita desta notícia (16h10), nenhum dos principais jornais gregos, na sua edição online – Ekathimerini (versão inglesa), Ta Nea, Express e Ethnos – destacava qualquer texto sobre a violência noticiada pelo diário britânico.
Uma violência apontada ao GADA e aos seus agentes, e que foi descrita por um dos advogados dos detidos como «uma humilhação ao estilo de Abu Ghraib», a prisão que as tropas norte-americanas utilizavam, no Iraque, para interrogar e torturar prisioneiros iraquianos.
De entre o primeiro grupo de 15 detidos, as queixas revelam que os polícias lhes terão negado acesso a água e advogados durante 19 horas e, aos feridos, só foi concedido tratamento médico no dia seguinte à manifestação. Os detidos terão sido obrigados a despirem-se e a dobrarem-se em posições «humilhantes», sendo impedidos de adormecer pelos agentes, que lhe apontavam lasers e tochas para os olhos e lhes cuspiam em cima.
«Tudo o que podíamos fazer era olhar uns para os outros, pelo canto dos olhos, para nos dar coragem», conta um dos detidos, revelando que, quando um dos agentes, responsável pelos actos, recebeu um telefonema, atendeu-o dizendo: «Estou a trabalhar e a lixá-los, a lixá-los bem», usando uma tradução sem o vernáculo citado pelo The Guardian.
Uma das imagens divulgadas pelo diário mostra um grande hematoma nas pernas de um dos alegados detidos, e um outro com um braço e perna fracturadas.
A amanhecer do extremismo
O partido neo-nazi foi o sexto mais votado em Maio, nas últimas eleições legislativas do país, reunindo votos suficientes para hoje sentar 18 deputados no parlamento helénico.
Em algumas sondagens divulgadas na passada semana, o partido era o terceiro colocado nas intenções de voto, apenas atrás do par que sustenta a coligação no governo – os socialistas do PASOK e os conservadores da Nova Democracia (ND).
Fora das urnas e nas ruas do país, porém, membros conotados com o partido têm atacado várias pessoas em bairros de imigrantes de Atenas e distribuído comida e roupas a cidadãos mais desfavorecidos.
Na noite que passaram nas instalações do GADA, os manifestantes revelam ter recebido repetidas ameaças de que as suas moradas seriam divulgadas ao Aurora Dourada, contra quem, horas antes, tinham lançado as suas vozes de protesto.
Christos Manouras, um porta-voz do GADA, sublinhou que «não houve qualquer uso de força por parte dos agentes da polícia», assegurando ainda que as autoridades «analisam e examinam aprofundadamente qualquer relato que apontem para o uso de violência».
(artigo corrigido às 18h59.)
diogo.pombo@sol.pt