A ambivalência do símbolo, seu significado ao mesmo tempo "concreto" e "transcendente" (de tal modo que os dois conceitos se confundem) é decididamente uma mensagem da poesia de Dora. Ela faz lembrar singularmente o pensamento medieval, a Kabbala, a alquimia, Raimundus Lullus, apontando assim para a poesia concreta. No centro de sua poesia há uma série denominada "Tapeçarias", que evoca realmente tapeçarias medievais (como as que podemos ver em Beaune ou Angers). Com sua estrutura logicamente perfeita, com os seus símbolos paradoxalmente secretos e transparentes, com a aparente ingenuidade e efetiva perfeição técnica, sobretudo com a respiração de sua beleza sutil, ela é uma introdução ao universo de Dora. Poetar significa para ela tecer símbolos salvíficos que nos ancoram novamente na verdadeira realidade. Por isso, poetar significa para ela o mesmo que orar ou rezar, e é talvez por isso que não é capaz de dar o passo para trás da poesia: esse passo a faria entrar no totalmente Outro, no significado do mundo. Ter vivenciado com ela este movimento para além do símbolo foi uma experiência insubstituível, difícil de avaliar.
Um perfil de Dora Ferreira da Silva In: Bodenlos: eine philosophische AutobiographieDusseldorf/Bensheim: Bollmann, 1992.Uma primeira versão da tradução feita por Dora Ferreira da Silva
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segunda-feira, 9 de julho de 2007
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Entrevista com o professor Iulo Brandão
Artur AraujoPublicada no dia 13 de abril de 1997 no jornal Diário do Povo
(Campinas / São Paulo / Brasil)
Diário - Professor, por que até hoje o Brasil não produziu até hoje um grande filósofo?
Iulo Brandão - O Brasil dispõe, desde o início do século, de gente de valor nesta área. Para se tornar entretanto um filósofo de alto nível, é preciso que o País tenha certas condições culturais que permitam o seu surgimento, condições estas que a Europa teve.
Diário - Que condições seriam estas?
Iulo - Uma produção cultural de qualidade sólida, consagrada e difundida junto à população. Agora, no Brasil, em 1934, criou-se, na USP, a primeira faculdade de filosofia na rua Maria Antônia, lá em São Paulo. Ela desenvolveu-se sob a égide dos grandes pensadores franceses, que vieram ao Brasil para dar um certo impulso à universidade. E valeu a pena, pois eles fortaleceram o pensamento filosófico no Brasil. Seus alunos disseminaram as idéias filosóficas no Brasil. Isso não quer dizer que eles eram imitadores. Foram homens que refletiram a partir da temática trazida por esses professores. Mas essa reflexão ia até um certo ponto. Não deu margem para que surgisse um homem da categoria de Kant, por exemplo. Mas gerou gente muito boa.
Diário - O senhor poderia citar algum nome de filósofo formado por esses professores que se destacou?
Iulo - Laerte Ramos de Carvalho, que se dedicou à filosofia da Educação, e Cruz Costa, que se tornou um porta-voz do positivismo.
Diário - Há um projeto, que já está há algum tempo em discussão junto a parlamentares, a filósofos da educação e pedagogos, de se reimplantar a filosofia mas escolas de segundo grau. O que o senhor acha desta iniciativa?
Iulo - Em princípio, é louvável a idéia. Resta entretanto saber se vamos colocar professores realmente competentes para lecionar. O risco que vejo nesta iniciativa bem-intencionada é que os professores, em vez de ensinar, façam proselitismo, ou seja, a defesa de um ou outro ponto de vista pura e simplesmente. Precisaríamos de gente muito boa para fazer isso. E a filosofia é um objeto sério de estudo. Outro risco são aqueles professores de fazem do ensino a simples exibição de erudição vazia, sem levar o estudante a uma tomada de consciência da temática filosófica, que é mais importante. Se nós tivermos gente qualificada, é a melhor coisa que nós podemos fazer, como havia no passado, no antigo curso clássico...
Diário - ...Que equivalia ao curso de segundo grau...
Iulo - Na época havia dois tipos de curso, o científico, que tinha um ano de filosofia, e o clássico, com dois anos de filosofia. Eu fiz o curso clássico ainda em São Carlos onde nasci, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Tive aulas com José Geraldo Pereira Lima, da USP, que era um grande professor. O clima que reinava na época era de grande efervescência cultural filosófica em São Carlos...
Diário - A que o senhor atribui o fim do curso de filosofia nas escolas de segundo grau?
Iulo - Com a invasão da tecnologia e das ciências exatas, a filosofia sofreu um pequeno abalo. Isso fez com que o curso clássico terminasse sendo extinto, substituído pelo curso científico.
Diário - Professor, o escritor peruano Vargas LLosa escreveu recentemente que cada vez mais é difícil encontrar jovens que se dedicam à área de ciências humanas com um bom nível cultural, com uma visão de mundo rica e criativa, o senhor concorda com isso?
Iulo - Ele tem razão, sem dúvida. As ciências humanas sofreram um certo recuo por parte do interesse do jovem. O que passou a se propagar e difundir foram as ciências exatas, que invadiram o mundo. O nível caiu, igualmente, por causa das poucas perspectivas do campo de trabalho para as áreas humanas e sociais. As ciências exatas oferecem um grande campo de trabalho na área tecnológica.
Diário - O mercado então ajudou a excluir a filosofia?
Iulo - Sim, ou pelo menos marginalizou. Um estudante de filosofia, se tiver de buscar um mercado de trabalho para sua atividade vai ter dificuldades imensas.
Diário - Quais as perspectivas profissionais de uma pessoa formada em filosofia?
Iulo - Não há outras opções. Trata-se de uma atividade especulativa. Ele pode derivar sua formação para a psicologia e outras áreas afins. Por outro lado, as universidades estão com um grande número de alunos de filosofia. A USP mesmo tem muitos. Esses alunos ou têm boas condições financeiras, e não precisam procurar mercado de trabalho ou então, no plano da docência, eles terminam assimilados pela própria universidade.
Diário - Professor, há um dito italiano que define a filosofia como "a ciência que, sem a qual ou com a qual, o mundo vive tal e qual", ou seja, ela é uma disciplina dispensável. O senhor concorda com a definição?
Iulo - É um dito superficial. O autor devia pensar que a filosofia deveria mudar o mundo somente pelo fato de existir. Mas, na verdade a filosofia mudou o mundo. Veja por exemplo Descartes...
Diário - Ele mudou as ciências exatas...
Iulo - Ele mudou a concepção do mundo, introduzindo o racionalismo, gerando modificações profundas.
Diário - Foi ele que introduziu a matemática como idioma das ciências exatas...Iulo - Há também Hegel, que fez a apologia do abstrato como verdade, abrindo caminho para ideologias totalitárias...
Diário - ... Principalmente ao idolatrar o processo histórico e o Estado, colocando-o acima dos indivíduos, influenciando Karl Marx ... Como o senhor vê uma iniciativa pedagógica de filosofia como o livro "O mundo de Sofia", de Jostein Gaader?
Iulo - O sucesso foi muito grande porque ele envolveu o pensamento filosófico em uma linguagem mais literária. Podemos citar outro livro recentemente publicado, “Convite à filosofia”, de Marilena Chaui, que não teve a mesma saída. Isto porque ela utiliza nesta obra uma terminologia mais técnica, sem envolver em conotações literária. É importante entretanto destacar que quem acabar de ler esse o livro não sai dele como dono da disciplina. É uma espécie de prefácio à Filosofia.
Diário - E o senhor acha positivo o lançamento deste tipo de obra?
Iulo - Como estímulo, sim. Mas corre o risco de banalizar uma temática que exige outra linguagem. É perigoso. Se um aluno tiver um bom professor de filosofia, o livro ajudará a introduzir a disciplina. Só que não pode falar no estímulo.
Diário - Professor, o senhor é um filósofo neotomista. Como um filósofo do século 13 pode ainda ter algo a dizer em filosofia às vésperas do século 21?
Iulo - É uma coisa meio difícil de responder, porque precisamos ter um certo cuidado com a definição dos termos. Em primeiro lugar, é preciso compreender que, no plano da história da filosofia, podem haver momentos em que determinados sistemas, como doutrina, sofram um abalo no plano histórico. As condições da Idade Média não as temos mais. Mesmo na Renascença, as condições não eram idênticas, mesmo nas condições mais humanistas. Ou seja, em função do ponto de vista histórico, há de fato rupturas. Há entretanto outro plano, que é o plano temático. O fato de ter havido uma ruptura histórica não implica que a temática tomista tenha se perdido. A temática é mais complexa. Ela vai além da história, porque ela não é às vezes esgotada, exaurida, na época em que foi criada.
Diário - De que maneira a temática tomista é atual?
Iulo - Ela tem a ver na medida em que ela faz uma crítica à temática do racionalismo, que vem de Descartes até hoje.
Diário - De que forma?
Iulo - O tomismo põe em xeque uma série de questões, que se problematizaram ao longo dos séculos. Então o tomismo coloca certos problemas, por exemplo, a unidade entre essência e existência, a unidade entre o uno e o múltiplo. Esta temáticas se enfraqueceu com o racionalismo, que permaneceu mais no uno do que no múltiplo, transformando a filosofia em algo abstrato e formal, que acabou se impondo ao múltiplo, em vez de unificar o múltiplo ou desprezar o múltiplo, criando uma espécie de tiraria.
Diário - Ou seja, a razão muitas vezes pode se transformar em uma espécie de tirania quando, por exemplo, estabelece certos objetivos que não levam em conta o ser humano. É aquilo que o filósofo Husserl definia como o “racionalismo das pirâmides”, que cria um objetivo desumano, no caso, construir pirâmides, colocando a razão em função desta meta e empregando todos os meios para executar a missão de forma mais racional possível, nem que seja através da adoção da escravidão e da própria deterioração econômica, social e moral desta sociedade...
Iulo - Sim. O que acontece nos dias de hoje: uma série de pensadores retomaram a temática de São Tomás de Aquino. Do ponto de vista temático, ele tem muito a dizer.
Diário - O racionalismo gerou uma espécie de encruzilhada para a civilização.
Iulo - Correto. Criou-se um abismo entre o uno e o múltiplo, entre a essência e a existência. Ora, quando crio um abismo, crio problemas que não podem ter mais solução. Ora, deixar problemas em aberto traz problemas enormes.
Diário - De que forma exatamente o tomismo questiona o racionalismo?
Iulo - São Tomas de Aquino colocou um tema que o racionalismo tinha praticamente marginalizado em nome dos seus pressupostos. O racionalismo diz o seguinte: só é verdade aquilo que está incrustado nas idéias. A idéia que é verdade. Há entretanto ou outro mundo, que é o mundo da contingência, que é o mundo real, o mundo da existência, somos eu e o senhor, as árvores, as pedras etc. Essas coisas que se movem, corrompem-se, modificam-se... esse mundo "escorregadio" que vivemos. Pois bem, o tomismo então se questiona: como tomar o mundo da existência em face das idéias: eu separo ou incluo. Então vem a tese do neotomismo. Vamos tomar uma árvore. Por exemplo, no chamado idealismo é a idéia que fica, e aí vou manipulando. Para isso, eu tenho de matar a árvore e só ficar com a idéia. Como unir a idéia com a coisa concreta? O tomismo vem e reúne o objeto sensorial com a idéia de árvore. De que for-ma? Na medida em que reconheço que na idéia de árvore já está a forma. Ela tem algo de formal nela, aí então uno aquilo que havia sido separado pelo racionalismo e por aquelas linhas que põem ênfase nas idéias só e que desprezam o homem empírico.
Diário - Ou seja, o tomismo retoma o ser humano e o mundo real como prioridade, submetendo o mundo das idéias a um segundo plano.
Iulo - Exatamente. Para evitar esse abismo entre as idéias e o homem empírico, diz o neotomismo, temos que retomar as coisas tais como elas são dadas na percepção. Penso que o neotomismo também conseguiu retomar sua atualidade graças aos pensadores existencialistas, como Sartre.
Diário - Acho que houve também condições históricas, como o "racionalismo" da criação das bombas atômica e de hidrogênio, o "racionalismo" da indústria que trabalha com a ciência genética, que manipula seres vivos e está tentando patentear seres vivos, o “racionalismo” da Alemanha nazista, o “racionalismo” neoliberal, que faz do controle dos gastos públicos uma prioridade acima de qualquer ação fraterna e social. São formas enlouquecidas de razão, que transformaram idéias em princípios inquestionáveis. É uma razão tão centrada em sua própria lógica que esquece o ser humano.
Iulo - Esquece, e se o "resto", que está fora desta razão começar a insistir, ele o destrói. A meu ver, o neotomismo é extremamente fecundo. Agora, eu posso tomar o neotomismo como filosofia só, sem me ater à parte teológica só, que está relacionada a um plano mais religioso. O neotomismo para mim é mais um estado de espírito que permite ao homem dissolver essas aporias todas que vieram com o idealismo.
Diário - O senhor é católico?
Iulo - Sou, por convicção filosófica.
Diário - E quanto à temática teológica de São Tomas de Aquino?
Iulo - Aqueles que querem ir mais longe em relação ao pensamento deste filósofo, devem estudar teologia. Ele foi um teólogo profundo que se apropriou da filosofia aristotélica, que é uma filosofia mais fecunda, que é a filosofia do senso comum, para a teologia.
Diário - E por que o senhor não se dedica à teologia?
Iulo - Trata-se de um assunto extremamente complexo que exige uma postura não só filosófica...
Diário - O tomismo então é uma forma de humanismo?
Iulo - O tomismo retoma o humano, no sentido que o homem vive no mundo e tem suas necessidades psicológicas e até metafísicas. Mas ele não para aí. Senão seria uma espécie de humanismo ateu ou até mesmo racionalista.
Diário - Então o neotomismo no século 20 é uma crítica ao individualismo e ao racionalismo de nosso tempo?
Iulo - Na Idade Média, as questões social, econômica e política eram muito restritas. Da Renascença para cá elas tiveram um crescimento enorme, colocando o homem e o econômico no centro da história. A miséria se alastrou. As dificuldades e diferenças de classe surgiram. Esses problemas, que não existiam na época de São Tomas de Aquino passaram a existir agora, e o desafio é como conciliar a metafísica com o problema do mundo prático, sem abrir mão de sua dimensão metafísica. Os neotomistas se interessaram pelo indivíduo sem abrir mão da metafísica, pois sem a metafísica coloca o homem um pouco acima dele, até para ele não se limitar a si próprio, não se asfixiar, em busca de valores absolutos. Disso, o neotomismo não abre mão.
Diário - Então, o neotomismo coloca o homem em função de valores?
Iulo - O neotomismo, que é um estado de espírito, procura voltar para o prático, mas diz o homem não pode viver para o prático, que é de certa forma o Estado, que é a encarnação do absoluto. É preciso inverter o raciocínio. O Estado é que vive para o homem. O Estado, com seus dispositivos legais, deve viver para o homem. Isto significa que o homem vai além do Estado. E vai além do Estado em direção a que? A certos valores, que o neotomismo diria absolutos, como Deus e a moral fraterna.
quarta-feira, 27 de junho de 2007
Um presente! Revue L'Homme. Revue française d'anthropologie, n° 182

Racisme, antiracisme et sociétés
veja mais aqui
Wiktor Stoczkowski - Racisme, antiracisme et cosmologie lévi-straussienne. Un essai d'anthropologie réflexive.
Pierre Savy - Transmission, identité, corruption. Réflexions sur trois cas d'hypodescendance.
Emmanuel Parent - Derrière le voile. L'impossible résolution musicale des antagonismes raciaux aux Etats-Unis.
Patrick Williams - Les Alsaciens-Lorrains romanichels pendant la première guerre mondiale. Un cas d'école ? Varia
Guillaume Rozenberg - Le saint qui ne voulait pas mourir. Hommage à Robert Hertz.
Mathieu Hilgers - La dynamique de la croyance. Enjeux contemporains d'une ancienne cérémonie moaga.
Stéphane Rennesson - Violence et immunité. La boxe thaïlandaise promue en art d'autodéfense national.En question
Eric Jolly - Rêveries exotiques sur le Dogon
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Eric Jolly - Rêveries exotiques sur le Dogon
terça-feira, 26 de junho de 2007
Dois Parlamentos

- Nestes cemitérios gerais
os mortos não mostram surpresa
- A morte para eles
Foi coisa rotineira.
- Nenhum tem o ar de ter morrido
em instantâneo ou guilhotina.
- Porém de um sono lento
que adorme, não fulmina.
- Em nenhum deles há as posturas
desses que morrem sob protesto.
- É sempre a mesma pose
sem nenhum grito, gesto.
- Entre eles gestos de eloqüência
não se vêem nunca, quando a morte.
- Todos morrem em prosa,
como foram, ou dormem
um poema de João Cabral de Melo Neto
quarta-feira, 20 de junho de 2007
Poema contra o racismo
Mãos DadasNão serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
segunda-feira, 18 de junho de 2007
De Borges
O labirintoEste é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Roland Barthes

Uma vez atingido o extremo da linguagem, lá, onde ela nada pode senão
repetir sua última palavra, como um disco riscado, embriago-me com sua
afirmação: a tautologia não seria aquele estádio inaudito, no qual se
reencontram, misturados todos os valores, o fim glorioso da operação lógica, o
obsceno da tolice e a explosão do sim nietzschiano?
sábado, 19 de maio de 2007
Conrad
Recorde-se que o Malinowski era leitor de Conrad. O Coração das Trevas é um relado tão denso quanto belo. A obra completa você encontra aqui. “‘The horror! The horror!’
“I blew the candle out and left the cabin. The pilgrims were dining in the mess–room, and I took my place opposite the manager, who lifted his eyes to give me a questioning glance, which I successfully ignored. He leaned back, serene, with that peculiar smile of his sealing the unexpressed depths of his meanness. A continuous shower of small flies streamed upon the lamp, upon the cloth, upon our hands and faces. Suddenly the manager’s boy put his insolent black head in the doorway, and said in a tone of scathing contempt:
“‘Mistah Kurtz—he dead.’
“I blew the candle out and left the cabin. The pilgrims were dining in the mess–room, and I took my place opposite the manager, who lifted his eyes to give me a questioning glance, which I successfully ignored. He leaned back, serene, with that peculiar smile of his sealing the unexpressed depths of his meanness. A continuous shower of small flies streamed upon the lamp, upon the cloth, upon our hands and faces. Suddenly the manager’s boy put his insolent black head in the doorway, and said in a tone of scathing contempt:
“‘Mistah Kurtz—he dead.’
quinta-feira, 17 de maio de 2007
de Gramsci...
Mas, na realidade, também a ciência é uma superestrutura, uma ideologia. É possível dizer, contudo, que no estudo das superestruturas a ciência ocupa um lugar privilegiado, pelo fato de qua a sua reação sobre a estrutura tem um carater particular, de maior extensão e continuidade de desenvolvimento, notadamente após o século XVIII, a partir de quando a ciência seja uma superestrutura, é o que é demonstrado também pelo fato de que ela tenha tido períodos inteiros de eclipse, obscurecida que foi por uma outra ideologia dominante, a religião, que afirmava ter absorvido a própria ciência; assim a ciência jamais se apresenta como nua noção objetiva; ela aparece sempre revestida por uma ideologia e, concretamente, a ciência é a união do fato objetivo com uma hipótese, ou um sistema de hipóteses, que superam o mero fato objetivo. É verdade, sem dúvida, que é relativamente fácil, neste caso distinguir a noção objetiva do sistema de hipóteses, através de um processo de abstrações que está inserido na própria metodologia científica, de maneira que é possível apropriar-se de uma recusar a outra. Esta é a razão pela qual um grupo social pode apropriar-se da ciência de um outro grupo sem aceitar a sua ideologia (a ideologia da evolução vulgar, por exemplo); pelo que não são válidas as observações de Missiroli (e de Sorel) a este respeito."
Gramsci, concepção dialética da história, cdh, 1991:71, rio, edit civilização brasileira.
Gramsci, concepção dialética da história, cdh, 1991:71, rio, edit civilização brasileira.
Citações acerca do racismo

União Europeia considera que deve combater as discriminações em razão do sexo, raça, origem étnica, religião e crença, deficiência, idade ou orientação sexual.
UMA VISTA DE OLHOS POR CERTAS DEFINIÇÕES E CONCEITOS
"O racismo começa quando a diferença, real ou imaginária, é usada para justificar uma agressão. Uma agressão que assenta na incapacidade para compreender o outro, para aceitar as diferenças e para se empenhar no diálogo".
Mário Soares, antigo presidente de Portugal
"O racismo consiste em crer que certas pessoas são superiores a outras devido a pertencer a uma raça específica. Os racistas definem uma raça como sendo um grupo de pessoas que têm a mesma ascendência. Diferenciam as raças com base em características físicas como a cor de pele e o aspecto do cabelo. Investigações recentes provam que a (raça) é um conceito inventado. A noção de (raça) não possui qualquer fundamento biológica. A palavra (racismo) é igualmente usada para descrever um comportamento abusivo ou agressivo para com os membros de uma (raça inferior). O racismo reveste-se de várias formas nos diversos países, consoante a sua história, cultura e outros factores sociais. Uma forma relativamente recente de racismo, por vezes denominada (diferenciação étnica ou cultural), defende que todas as raças e culturas são iguais, mas não se deviam misturar, de maneira a conservar a sua originalidade. Não existe nenhuma prova científica da existência de raças diferentes. A biologia só identificou uma raça: a raça humana.
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«A Europa é uma sociedade multicultural e multinacional que se enriquece com esta variedade. No entanto, a constante presença do racismo na nossa sociedade não pode ser ignorada. O racismo toca toda a gente. Degrada as nossas comunidades e gera insegurança e medo.»
Pádraig Flynn, Comissário Europeu
«A criatividade só pode ter origem na diferença.»
Yehudi Menuhin, violinista e defensor dos direitos do Homem
«O racismo começa quando a diferença, real ou imaginária, é usada para justificar uma agressão. Uma agressão que assenta na incapacidade para compreender o outro, para aceitar as diferenças e para se empenhar no diálogo.»
Mário Soares, antigo Presidente de Portugal
«Preconceito: opinião desfavorável relativamente a uma pessoa ou um grupo formada sem conhecimento, razão ou causa.Poder: capacidade para fazer mover as coisas, as possuir e as controlar.Diferença entre racismo e preconceito: o preconceito pode significar o desprezo por alguém antes mesmo de saber o que quer que seja sobre ele, mas sem ter, necessariamente, o poder de influenciar a sua vida negativamente. Quanto ao racismo, está relacionado com o funcionamento de toda uma sociedade e inclui o poder de pôr os preconceitos racistas em acção. A maioria tem poder sobre a minoria e pode, intencionalmente ou não, praticar actos racistas. Assim, o racismo implica ter o poder para discriminar e prejudicar as pessoassob pretexto de serem diferentes."
Conselho da Juventude Britânico
«O racismo consiste em crer que certas pessoas são superiores a outras devido a pertencerem a uma raça específica. Os racistas definem uma raça como sendo um grupo de pessoas que têm a mesma ascendência. Diferenciam as raças com base em características físicas como a cor da pele e o aspecto do cabelo. Investigações recentes provam que a "raça" é um conceito inventado. A noção de '"raça" não possui qualquer fundamento biológico. A palavra racismo é igualmente usada para descrever um comportamento abusivo ou agressivo para com os membros de uma "raça" inferior. O racismo reveste-se de várias formas nos diversos países, consoante a sua história, cultura e outros factores sociais. Uma forma relativamente recente de racismo, por vezes denominada "diferenciação étnica ou cultural", defende que todas as raças e culturas são iguais, mas não se deviam misturar, de maneira a conservar a sua originalidade. Não existe nenhuma prova científica da existência de raças diferentes. A biologia só identificou uma raça: a raça humana.
A intolerância é uma falta de respeito pelas práticas e convicções do outro. Aparece quando alguém recusa deixar outras pessoas agirem de maneira diferente e terem opiniões diferentes. A intolerância pode conduzir ao tratamento injusto de certas pessoas em razão das suas convicções religiosas, sexualidade ou mesmo da sua maneira de vestir ou de pentear. A intolerância não aceita a diferença. Está na base do racismo, do anti-semitismo, da xenofobia e da discriminação em geral. Frequentemente, a intolerância pode conduzir à violência.
A igualdade é a característica do que é igual. O que significa que nenhuma pessoa é mais importante que outra, quaisquer que sejam os seus pais e a sua condição social. Naturalmente, as pessoas não têm os mesmos interesses e as mesmas capacidades, nem estilos de vida idênticos. Consequentemente, a igualdade entre as pessoas significa que todos têm os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. No domínio da educação e do trabalho, devem dispor de oportunidades iguais, apenas dependentes dos seus esforços. A igualdadede só se tornará uma realidade quando todos tiverem, em termos idênticos, acesso ao alojamento, àsegurança social, aos direitos cívicos e à cidadania.
O interculturalismo consiste em pensar que nós no enriquecemos através do conhecimento de outras culturas e dos contactos que temos com elas e que desenvolvemos a nossa personalidade ao encontrá-las. As pessoas diferentes deveriam poder viver juntas apesar de terem culturas diferentes. O interculturalismo é a aceitação e o respeito pelas diferenças. Crer no interculturalismo é crer que se pode aprender e enriquecer através do encontro com outras culturas.»
UNIDOS para uma acção intercultural
«Existe um certo número de etapas que conduzem à discriminação activa, à violência e mesmo à purificação étnica e ao genocídio.CATEGORIZAÇÃO: fazer generalidades e dividir as nossas experiências em categorias de modo a facilitar a nossa maneira de gerir o mundo à nossa volta. Dividem-se e rotulam-se as pessoas e os grupos.
ESTEREOTIPAR: quando se rotulam as pessoas, é tentador fazer-se uso de estereótipos. Os estereótipos são juízos de valor com base em informação insuficiente. Há estereótipos positivos e negativos, mas acreditar num estereótipo negativo e exacerbá-lo pode tornar-se perigoso e pode conduzir ao...
PRECONCEITO: composto por ideias criadas num leque de emoções e, de factos insuficientes. Um preconceito é frequentemente constituído sem qualquer fundamento e, no entanto, é aceite sem ser posto em causa. Há por vezes contrastes entre nós e eles. Os preconceitos podem levar a comportamentos hostis em presença do grupo em questão. As reacções seguintes derivam do preconceito:
EVITAR: evitar o grupo, não lhe falar, não o querer encontrar.
ABUSO VERBAL: falar negativamente do grupo e ao grupo.
DISCRIMINAÇÃO: enquanto o preconceito é uma atitude, a discriminação é um comportamento que despreza o grupo, o trata mal, o recompensa menos que os outros, o boicota, e até mesmo o exclui.
ABUSO VIOLENTO: gozando, importunando, ameaçando, assediando ou prejudicando o património do grupo.
ELIMINAÇÃO: isolando, banindo, matando, linchando, procedendo ao genocídio ou à purificação étnica.»
CSV Media (UK)A caminho da igualdade,manual para grupos de jovensque trabalham em iniciativas antidiscriminatóriasnos meios de comunicação social
«A imigração é um fenómeno constante ao longo da história da Humanidade, que cria e enriquece as culturas, em vez de as ameaçar.»
Russel/ King, Universidade de Sussex, 1991
«Nós encontramo-nos hoje numa importante encruzilhada, face àquilo que talvez seja a mais dura batalha alguma vez travada. As crenças fundamentalistas de todo o tipo invadiram o mundo...O racismo é uma invenção humana, relativamente moderna e que, julgo eu, não é inevitável.»
Professora Patricia Wil/iams,conferencista, 1997
Comissão Europeia"RACISTA, EU?!"Luxemburgo: Serviço das Publicações Oficiais das Comunidades Europeias1998 - 31 p. 21 x 29,7 cmISBN 92-828-4023-9
sábado, 5 de maio de 2007
Red alert in cyberspace!
Um texto de Paul Virilio
One of the major problems now facing political as well as military strategists is the phenomenon of immediacy, of instantaneity. For `real time' now takes precedence over real space, now dominates the planet. The primacy of real time, of immediacy, over space is an accomplished fact, and it is an inaugural one. A recent advert for cell phones expressed it well enough:`The earth has never been so small.' This development has the gravest consequences for our relation to the world, and for our vision of it.
There are three barriers: sound, heat and light. We have already crossed the first two - the sound barrier with supersonic and hypersonic aircraft, the heat barrier with rockets which can lift a man out of the earth's atmosphere and land him on the moon. We do not cross the third barrier, the light barrier; we collide with it. And it is this barrier of time that history now faces. The fact of having reached the light barrier, the speed of light, is a historic event, one which disorients history and also disorients the relation of human beings to the world. If that point is not stressed, then people are being disinformed, they are being lied to. For it has enormous importance. It poses a threat to geopolitics and geostrategy. It also poses a very clear threat to democracy, because democracy was tied to cities, to places.
Having attained this absolute speed, we face the prospect in the twenty-first century of the invention of a perspective based on real time, replacing the spatial perspective, the perspective based on real space, discovered by Italian artists of the quattrocento. Perhaps we forget how much the cities, politics, wars and economies of the medieval world were transformed by the invention of perspective.
Cyberspace is a new form of perspective. It is not simply the visual and auditory perspective that we know. It is a new perspective without a single precedent or reference: a tactile perspective. Seeing at a distance, hearing at a distance - such was the basis of visual and acoustic perspective. But touching at a distance, feeling at a distance, this shifts perspective into a field where it had never before applied: contact, electronic contact, tele-contact.
The development of information superhighways confronts us with a new phenomenon: disorientation. A fundamental disorientation which completes and perfects the social and financial deregulation whose baleful consequences we already know.
Perceived reality is being split into the real and the virtual, and we are getting a kind of stereo-reality, in which existence loses its reference points. To be is to be in situ, here and now, hic et nunc. But cyberspace and instantaneous, globalized information are throwing all that into total confusion. What is now underway is a disturbance of the perception of the real: a trauma. And we need to concentrate on this. Because no technology has ever been developed that has not had to struggle against its own specific negativity. The specific negativity of information superhighways is precisely this disorientation of alterity, of our relation to the other and to the world. It is quite clear that this disorientation, this `de-situation', will bring about a profound disturbance with consequences for society and, in turn, for democracy.
One of the major problems now facing political as well as military strategists is the phenomenon of immediacy, of instantaneity. For `real time' now takes precedence over real space, now dominates the planet. The primacy of real time, of immediacy, over space is an accomplished fact, and it is an inaugural one. A recent advert for cell phones expressed it well enough:`The earth has never been so small.' This development has the gravest consequences for our relation to the world, and for our vision of it.
There are three barriers: sound, heat and light. We have already crossed the first two - the sound barrier with supersonic and hypersonic aircraft, the heat barrier with rockets which can lift a man out of the earth's atmosphere and land him on the moon. We do not cross the third barrier, the light barrier; we collide with it. And it is this barrier of time that history now faces. The fact of having reached the light barrier, the speed of light, is a historic event, one which disorients history and also disorients the relation of human beings to the world. If that point is not stressed, then people are being disinformed, they are being lied to. For it has enormous importance. It poses a threat to geopolitics and geostrategy. It also poses a very clear threat to democracy, because democracy was tied to cities, to places.
Having attained this absolute speed, we face the prospect in the twenty-first century of the invention of a perspective based on real time, replacing the spatial perspective, the perspective based on real space, discovered by Italian artists of the quattrocento. Perhaps we forget how much the cities, politics, wars and economies of the medieval world were transformed by the invention of perspective.
Cyberspace is a new form of perspective. It is not simply the visual and auditory perspective that we know. It is a new perspective without a single precedent or reference: a tactile perspective. Seeing at a distance, hearing at a distance - such was the basis of visual and acoustic perspective. But touching at a distance, feeling at a distance, this shifts perspective into a field where it had never before applied: contact, electronic contact, tele-contact.
The development of information superhighways confronts us with a new phenomenon: disorientation. A fundamental disorientation which completes and perfects the social and financial deregulation whose baleful consequences we already know.
Perceived reality is being split into the real and the virtual, and we are getting a kind of stereo-reality, in which existence loses its reference points. To be is to be in situ, here and now, hic et nunc. But cyberspace and instantaneous, globalized information are throwing all that into total confusion. What is now underway is a disturbance of the perception of the real: a trauma. And we need to concentrate on this. Because no technology has ever been developed that has not had to struggle against its own specific negativity. The specific negativity of information superhighways is precisely this disorientation of alterity, of our relation to the other and to the world. It is quite clear that this disorientation, this `de-situation', will bring about a profound disturbance with consequences for society and, in turn, for democracy.
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quarta-feira, 2 de maio de 2007
De Bertolt Brecht:
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence." Paulo, merci.
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Claude Lévi-Strauss
A história não está ligada ao homem, nem a qualquer objecto em particular. Consiste inteiramente no seu método; a experiência comprova que ele é indispensável para inventariar a integralidade dos elementos de uma estrutura qualquer, humana ou não humana. Longe portanto de a pesquisa da inteligibilidade resultar na história como o seu ponto de chegada, é a história que serve de ponto de partida para toda a busca de inteligibilidade. Assim como se diz de certas carreiras, a história leva a tudo, mas contanto que se saia dela.
Claude Lévi-Strauss, in 'O Pensamento Selvagem'
Claude Lévi-Strauss, in 'O Pensamento Selvagem'
quinta-feira, 19 de abril de 2007
Paul Virilio: fontes
Entrevista, aqui. Mais uma. No Brasil, no Estadão. Outra, no Le Monde.
Textos:
Esperar lo inesperado
Paul Virilio
“El siglo XVII fue el siglo de las matemáticas, el xviii el de la física y el xix el de la biología. Nuestro siglo XX es el siglo del Miedo. Se me dirá que el miedo no es una ciencia. Sin embargo, la ciencia tiene una utilidad, aun cuando sus avances teóricos más recientes la hayan llevado a la propia negación y sus perfeccionamientos técnicos amenacen con destruir la Tierra entera. Si el miedo mismo no puede ser considerado como una ciencia, no hay duda de que sea entonces una técnica”, escribía Albert Camus en 1948. Por mi parte añadiría que desde entonces el miedo ha devenido, si no un Arte, un arte contemporáneo de la destrucción mutua asegurada, en todo caso sí una cultura dominante.
En efecto, desde los siglos XVIII y XIX, la historia ha conocido una escalada de los extremos en la cual Clausewitz se hizo el analista de la guerra. Este crescendo, que llegaría al equilibrio del terror entre el Este y el Oeste a lo largo del siglo xx, no se le ha dado su justo valor con relación a la paz, a esta paz de disuasión que hoy sostiene la cultura mediático-masiva en su totalidad.
De hecho, de un arte otrora sustancial caracterizado por la arquitectura, la música, la escultura y la pintura, la época postmoderna progresivamente ha derivado en un arte puramente accidental que la crisis de la arquitectura del mundo contemporáneo prácticamente ha hecho coincidir con la crisis de la música sinfónica. Estas derivaciones han acompañado el surgimiento prodigioso no sólo de la foto-cinematografía y de la radiofonía, sino sobre todo de la televisión (audiovisual), la cual finalmente ha subvertido todas las formas de la representación artística, gracias a esta repentina presentación en la que el tiempo real la sobrepone definitivamente al espacio real de las obras mayores, tanto de la literatura como de las artes plásticas.
Si, según Hegel, “la filosofía es una época puesta en ideas”, hay que decirlo: la idea fija del siglo XX ha sido la de la aceleración de la realidad y no sólo la de la historia, denunciada por Daniel Halévy en 1947.
Velocidad y política ayer, con el futurismo, el fascismo y el turbo-capitalismo del mercado único; de ahora en adelante, velocidad y cultura de masas. Si “el tiempo es oro”, la velocidad-luz de la ubicuidad mediática se ha convertido en el poder de atemorizar a las hordas subyugadas.
Al inicio mismo del siglo XXI la principal cuestión política no es la de la guerra fría y su debacle olvidada, sino la de la emergencia de este pánico frío donde el terrorismo, en todas sus formas, no es sino sólo uno de sus síntomas.
Igual que el terror incontrolable, el pánico es irracional, y su carácter tan a menudo colectivo revela claramente su propensión a devenir, tarde o temprano, un hecho social total.
Por su repetición (a menudo programada), los trastornos pánicos de una población se vinculan a los fenómenos de la expectación, a la ansiedad de una depresión frecuentemente embozada en los hábitos de la vida cotidiana. Lo que denomino “frío pánico” se relaciona con este horizonte de expectación de una angustia colectiva, en el cual uno se afana en esperar lo inesperado en un estado de neurosis que demerita toda vitalidad intersubjetiva y que desemboca fatalmente en un estado de disuasión civil, la joya lamentable de la disuasión militar entre las naciones.
“Obedecer a ojos cerrados es el comienzo del pánico”, constataba ya en 1953 Maurice Merleau-Ponty. “En este mundo donde el desmentido y las pasiones morosas tienen rango de certidumbre, uno lo que menos procura es mirar”.
Ilustrciones de Sergio BordónEnunciado por el fenomenólogo de la percepción, este atestado cobraba valor de advertencia en un periodo de la historia que se comprometía no con un minuto, ¡sino con un siglo de falta de atención!
Con la “teleobjetividad”, nuestros ojos no sólo quedan cerrados por la pantalla catódica, sino sobre todo porque ya no intentamos mirar, ver alrededor, ni siquiera frente a nosotros, sino únicamente allende el horizonte de las apariencias objetivas, y es esta fatal falta de atención lo que provoca la espera de lo inesperado; paradójica espera compuesta a la vez de la avaricia y de la ansiedad que el filósofo de lo visible llamaba pánico.
Pero este término compuesto trae consigo otra categoría de la época del discurso inaugural de Merleau-Ponty: la disuasión. Si el siglo XX es el siglo del miedo, lo es igualmente de la disuasión atómica que, en el transcurso de los años 1950-1960, instala esta técnica del “equilibrio del terror” y hace decir a Albert Camus: “El largo diálogo de los hombres se acaba de detener. Un hombre que no puede ser persuadido es un hombre que tiene miedo.”
Al abundar en esta evidencia, el futuro premio Nobel agrega: “Es así que al lado de gente que ha dejado de hablar, se instaló y se instala aún, una inmensa conspiración de silencio, aceptada por aquellos que tiemblan y provocada por esos otros interesados en suscitarla: no se debe hablar de la purga de los artistas en Rusia porque de ello se beneficiaría la reacción. Ya decía yo que el miedo es una técnica.”
Es así que a la mitad de un siglo impío, la técnica del pánico desembocaba en el arte de la disuasión, no sólo estratégica sino también política y cultural, entre el Este y el Oeste de un mundo amenazado de extinción. Ese “mundo donde el desmentido y las pasiones morosas tienen rango de certidumbre”, ese que algunos bien pensantes, junto con Sartre, llamaron “de compromiso”. El mundo del arte contemporáneo que desde el “realismo socialista” a su tiempo iría a derivar en esta “cultura pop” y en el realismo de un mercado del arte que señorea el comienzo del tercer milenio.
A final de cuentas, todo comenzó cuando los pintores abandonaron el estudio del motivo y acudieron a sus talleres como en la época del clasicismo académico.
Después del impresionismo o, más exactamente, después de la primera guerra mundial, el arte moderno fue enmarcado en el pánico que azoraba a la Europa expresionista y que, después del dadaísmo, vio surgir el surrealismo. Podríamos extender esta rápida valoración del desastre a la filosofía europea: el descrédito de la fenomenología, la desaparición de Husserl y el éxito del existencialismo, este período articulador que surgió entre las dos guerras mundiales y encontró su consagración en los años de 1950 antes evocados con el fin del diálogo entre los hombres y sobre todo con el olvido: la pérdida de la empatía no sólo respecto al otro, sino respecto de un entorno humano desertificado por la aniquilación de esas incursiones aéreas que, de Guernica a Hiroshima, pasando por Coventry, Dresden o Nagasaki, desorientaron nuestra visión del mundo; que extraviaron la percepción a posteriori que vinculaba, desde hace dos mil años, el conjunto de la cultura occidental.
Pero, además de esta “aeropolítica” de una exterminación masiva de ciudades que pondrá fin a la geopolítica continental –desprendimiento de retina de una cultura que ya anticipa la desterritorialización económica de la globalización–, se debe señalar también la repentina multiplicación, desde el siglo xix con el progreso de la astronomía popular cara a Camille Flammarion, de los telescopios que habrían de prefigurar la modificación del punto de vista ocasionado por el surgimiento de la televisión doméstica, ella misma favorecida en el transcurso del siglo XX por el lanzamiento de los satélites de comunicación.
Ver sin ir a ver. Percibir sin verdaderamente estar… Todo ello subvertiría el conjunto de los diversos fenómenos de representación plástica o teatral, y hasta la democracia representativa, ella misma amenazada por los medios de comunicación que modelarían la democracia estandarizada de la opinión pública, esperando confluir con la democracia sincronizada de la emoción pública que arruinará el frágil equilibrio de sociedades, por decirlo así, emancipadas de la presencia real.
En un mundo de desmentido y de disuasión general, a partir de lo cual se busca más ver que ser visto en ese preciso instante, ante la aceleración de una realidad común que no sólo nos rebasa de manera tiránica, sino que sobrepasa literalmente toda evaluación objetiva y, por lo tanto, todo entendimiento, quien dice “Gran Óptica” transhorizontal dice también “Gran Pánico” transpolítico.
en un depósito de cadáveres, Maurizio Cattelan, quien se dice “artista por acaso”, declara: “He manipulado muertos y he percibido su distancia, su sordera impenetrable. Gran parte de lo que he hecho después proviene de esta distancia.”
Después de la cuestión de la ausencia de un plazo en el cual realizar la instantaneidad, volvemos a encontrar la cuestión de la distancia respecto a la ubicuidad, pero en una perspectiva inversa: lo que cuenta a partir de ahora ya no es el punto de fuga en el espacio real de una escena o de un paisaje, sino sólo la fuga ante la muerte y su punto de interrogación en una dimensión de tiempo real en el que la pantalla catódica usa y abusa de lo directo, “la muerte en directo” y su cortejo de desastres en repetición.
Así, tras la abstracción, el monocromatismo de un Yves Klein y el advenimiento de una pintura sin imagen, cuando ya nada nos puede alcanzar, nada nos puede tocar verdaderamente, uno ya no espera el hallazgo del genio, la sorpresa de la originalidad, sino únicamente el accidente, la catástrofe del fin. De allí la influencia secreta, desde el expresionismo (alemán) o el accionismo (vienés), del terrorismo, como si Jerónimo Bosch y Goya convalidasen los excesos del crimen.
Hagamos notar que a finales de 2004 se abría, en la Kunstwerke de Berlín, la severamente criticada muestra De la representación del terror: la exposición raf”, en la que el concepto era, sobre la base de las obras de tres generaciones de artistas: Joseph Beuys, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Martin Klippen Berger y Hans Peter Feldman, la denuncia del autoproclamado mito de la Rote Armee Fraktion (Facción del Ejército Rojo), en las que la danza macabra alineaba los nombres, los rostros y los cuerpos de los terroristas con los de sus víctimas… Extraño procedimiento que recuerda singularmente la puesta en repetición de las secuencias televisivas.
De hecho, el “dolorismo” del arte contemporáneo proviene de la profanación ya no del arte sacro de los orígenes, sino más bien del arte profano de la modernidad, ese momento (crítico) en el que la re-presentación cede a la ilusión lírica de una simple y pura presentación. Donde “el arte por el arte” desaparece ante este arte total de la teleobjetividad multimediática, sucesora de los artificios de un séptimo arte (cinematográfico) que pretendía contener las otras seis.
He aquí esta obscenidad de la ubicuidad en la que el academicismo “postmoderno” sobrepasa a todas las vanguardias, con excepción de la correspondiente a un terrorismo de masas, en la cual la serie televisada actualiza el hecho en lugar y a costa de los actos de la tragedia antigua.
Se impone aquí un paralelo entre el ateísmo de la postmodernidad, suerte de deidad laica, que se añade “reemplazando lo que destruye y que comienza por destruir aquello que reemplaza” y el ateísmo de la profanación del arte moderno en beneficio exclusivo de un culto del reemplazo, que posee todas las características del iluminismo –ya no el de la revolución enciclopedista de las Luces, sino el de una revelación multimediática que extermina toda reflexión representativa en favor de un reflejo pánico para un individuo en quien el relativismo (ético y estético) desaparece de repente ante ese virtualismo de sustitución del mundo actual de los hechos y de los sucesos revelados.
Si, hoy en día, el teólogo discute un “ateísmo que pretende suprimir hasta el problema que había hecho surgir a Dios en la conciencia”, el crítico de arte contemporáneo debate sobre un “antropoteísmo” que habría de suprimir, hasta el origen del arte moderno, su libre expresión ya no figurativa como ayer, sino geográfica y pictórica (de donde resulta la prohibición iconoclasta de los cuadros en numerosas galerías de arte).
A finales del siglo pasado, Karol Wojtyla declaraba: “El problema de la iglesia universal es encontrar cómo hacerse visible.” Al inicio del tercer milenio este problema es extensivo a toda representación.
“estamos doquiera que ustedes miran. Todo el tiempo y en todo el mundo.” Este eslogan publicitario de la agencia Corbis, fundada en 1989 por Bill Gates con el afán de monopolizar la imagen fotográfica, ilustra el gran pánico de las representaciones en la era de la dilatación escópica.
Si, para unos, el objetivo es ver todo pero también poseer todo, para los anónimos de la multitud la pretensión es solamente ser vistos.
Cuando uno se entera de que esta agencia reúne los archivos fotográficos de los museos más prestigiosos, se imagina la importancia reciente de su presentación en tiempo real y el discreto descrédito de las obras reales.
Lo que no había confluido todavía con la reproducción industrial de las imágenes por Walter Benjamín, literalmente explota con la “Gran Óptica” de las cámaras en internet. La televigilancia deviene la vigilancia a distancia del arte mismo.
Ante esta aceleración de la realidad, el nuevo telescopio ya no observa la expansión del universo, el Big Bang y sus nebulosas distantes, sino el estallido terrenal de la esfera de las apariencias sensibles, de los datos a la vista en el instante de la mirada.
He aquí la revelación multimediática que sobrepasa la enciclopédica revolución de las Luces; he aquí este “iluminismo” de las telecomunicaciones que suprime el icono pictórico, pero también la importancia crucial de lo percibido de visu e in situ, para beneficio exclusivo de una cobertura en directo del campo perceptivo.
“En un universo digitalizado, ofrecemos soluciones visuales creativas. El objetivo es para nosotros dar a un mensaje el más fuerte impacto posible”, dice Steve Davis, director de la agencia Corbis.
Uno entiende mejor, entonces, la intención de la creación visual/audiovisual, de la puesta en repetición de las secuencias pánicas del terrorismo o de las catástrofes naturales o industriales, ese replay del que abusan sistemáticamente las cadenas de televisión, ese deporte de contacto que lucha contra la apatía de un telespectador que no espera sino lo inesperado para salir un poco de su letargo, de esa falta de atención que ha reemplazado en él la vigilia y sobre todo el interés práctico por todo lo que sucede en su entorno inmediato. ¿Cómo sorprenderse; cómo, en última instancia, escandalizarse de la agresividad de una violencia convertida en costumbre en todos los niveles de la sociedad, cuando la empatía misma, hermana gemela de la simpatía por el prójimo, ha desaparecido del horizonte al mismo tiempo que la fenomenología de la que era núcleo?
Demasiado impresionista sin duda. ¿Tal vez poco motivante para suscitar la acción? Desde entonces el “espectáculo vivo” reemplazó a la danza y al teatro.
En el origen, el término empatía poseía el sentido primigenio de tocar y remitir al contacto físico con los objetos sensibles. Con Edmund Husserl el término habría de designar el esfuerzo de percibir y asir la realidad que nos rodea en todos sus fenómenos, en todas las formas en las que ésta se manifiesta. De allí la importancia, a principios del siglo XX, de la obra clave de Worringer: Abstraktion und Einfühlung (Abstracción y empatía).
Uno entiende a qué punto hoy la teleobjetividad nos hace perder este contacto inmediato y este tacto que favorecía no sólo la civilidad de las costumbres, sino toda la “civilización”, en beneficio del impacto de un terror creciente; este terror que bien puede tanto enmudecer como enceguecer, y del cual uno de los sobrevivientes del bombardeo de Hamburgo en 1943 debió reconocer con amargura: “Fue entonces que fui iniciado en el conocimiento de que mirar es padecer y de inmediato fui incapaz de mirar y de ser mirado.”
¡He aquí, pues, este pánico a ojos cerrados señalado por Merleau-Ponty al inicio de la era de la Gran Disuasión!
Pero en este inicio del nuevo milenio, donde el desempeño de la comunicación instantánea suplanta la sustancia de la obra, de todas las obras –pictóricas, teatrales, musicales–, donde la analogía desaparece ante las proezas de la digitalización, el Gran Pánico es el de un arte contemporáneo del desastre de las representaciones, de las malformaciones de una percepción telescópica donde la imagen instrumental caza, una tras otra, nuestras últimas imágenes mentales.
*Fragmento del libro L’Art à perte de vue,París, Galilée, 2005.
Traducción de Andrés Ordóñez
Textos:
Esperar lo inesperado
Paul Virilio
“El siglo XVII fue el siglo de las matemáticas, el xviii el de la física y el xix el de la biología. Nuestro siglo XX es el siglo del Miedo. Se me dirá que el miedo no es una ciencia. Sin embargo, la ciencia tiene una utilidad, aun cuando sus avances teóricos más recientes la hayan llevado a la propia negación y sus perfeccionamientos técnicos amenacen con destruir la Tierra entera. Si el miedo mismo no puede ser considerado como una ciencia, no hay duda de que sea entonces una técnica”, escribía Albert Camus en 1948. Por mi parte añadiría que desde entonces el miedo ha devenido, si no un Arte, un arte contemporáneo de la destrucción mutua asegurada, en todo caso sí una cultura dominante.
En efecto, desde los siglos XVIII y XIX, la historia ha conocido una escalada de los extremos en la cual Clausewitz se hizo el analista de la guerra. Este crescendo, que llegaría al equilibrio del terror entre el Este y el Oeste a lo largo del siglo xx, no se le ha dado su justo valor con relación a la paz, a esta paz de disuasión que hoy sostiene la cultura mediático-masiva en su totalidad.
De hecho, de un arte otrora sustancial caracterizado por la arquitectura, la música, la escultura y la pintura, la época postmoderna progresivamente ha derivado en un arte puramente accidental que la crisis de la arquitectura del mundo contemporáneo prácticamente ha hecho coincidir con la crisis de la música sinfónica. Estas derivaciones han acompañado el surgimiento prodigioso no sólo de la foto-cinematografía y de la radiofonía, sino sobre todo de la televisión (audiovisual), la cual finalmente ha subvertido todas las formas de la representación artística, gracias a esta repentina presentación en la que el tiempo real la sobrepone definitivamente al espacio real de las obras mayores, tanto de la literatura como de las artes plásticas.
Si, según Hegel, “la filosofía es una época puesta en ideas”, hay que decirlo: la idea fija del siglo XX ha sido la de la aceleración de la realidad y no sólo la de la historia, denunciada por Daniel Halévy en 1947.
Velocidad y política ayer, con el futurismo, el fascismo y el turbo-capitalismo del mercado único; de ahora en adelante, velocidad y cultura de masas. Si “el tiempo es oro”, la velocidad-luz de la ubicuidad mediática se ha convertido en el poder de atemorizar a las hordas subyugadas.
Al inicio mismo del siglo XXI la principal cuestión política no es la de la guerra fría y su debacle olvidada, sino la de la emergencia de este pánico frío donde el terrorismo, en todas sus formas, no es sino sólo uno de sus síntomas.
Igual que el terror incontrolable, el pánico es irracional, y su carácter tan a menudo colectivo revela claramente su propensión a devenir, tarde o temprano, un hecho social total.
Por su repetición (a menudo programada), los trastornos pánicos de una población se vinculan a los fenómenos de la expectación, a la ansiedad de una depresión frecuentemente embozada en los hábitos de la vida cotidiana. Lo que denomino “frío pánico” se relaciona con este horizonte de expectación de una angustia colectiva, en el cual uno se afana en esperar lo inesperado en un estado de neurosis que demerita toda vitalidad intersubjetiva y que desemboca fatalmente en un estado de disuasión civil, la joya lamentable de la disuasión militar entre las naciones.
“Obedecer a ojos cerrados es el comienzo del pánico”, constataba ya en 1953 Maurice Merleau-Ponty. “En este mundo donde el desmentido y las pasiones morosas tienen rango de certidumbre, uno lo que menos procura es mirar”.
Ilustrciones de Sergio BordónEnunciado por el fenomenólogo de la percepción, este atestado cobraba valor de advertencia en un periodo de la historia que se comprometía no con un minuto, ¡sino con un siglo de falta de atención!
Con la “teleobjetividad”, nuestros ojos no sólo quedan cerrados por la pantalla catódica, sino sobre todo porque ya no intentamos mirar, ver alrededor, ni siquiera frente a nosotros, sino únicamente allende el horizonte de las apariencias objetivas, y es esta fatal falta de atención lo que provoca la espera de lo inesperado; paradójica espera compuesta a la vez de la avaricia y de la ansiedad que el filósofo de lo visible llamaba pánico.
Pero este término compuesto trae consigo otra categoría de la época del discurso inaugural de Merleau-Ponty: la disuasión. Si el siglo XX es el siglo del miedo, lo es igualmente de la disuasión atómica que, en el transcurso de los años 1950-1960, instala esta técnica del “equilibrio del terror” y hace decir a Albert Camus: “El largo diálogo de los hombres se acaba de detener. Un hombre que no puede ser persuadido es un hombre que tiene miedo.”
Al abundar en esta evidencia, el futuro premio Nobel agrega: “Es así que al lado de gente que ha dejado de hablar, se instaló y se instala aún, una inmensa conspiración de silencio, aceptada por aquellos que tiemblan y provocada por esos otros interesados en suscitarla: no se debe hablar de la purga de los artistas en Rusia porque de ello se beneficiaría la reacción. Ya decía yo que el miedo es una técnica.”
Es así que a la mitad de un siglo impío, la técnica del pánico desembocaba en el arte de la disuasión, no sólo estratégica sino también política y cultural, entre el Este y el Oeste de un mundo amenazado de extinción. Ese “mundo donde el desmentido y las pasiones morosas tienen rango de certidumbre”, ese que algunos bien pensantes, junto con Sartre, llamaron “de compromiso”. El mundo del arte contemporáneo que desde el “realismo socialista” a su tiempo iría a derivar en esta “cultura pop” y en el realismo de un mercado del arte que señorea el comienzo del tercer milenio.
A final de cuentas, todo comenzó cuando los pintores abandonaron el estudio del motivo y acudieron a sus talleres como en la época del clasicismo académico.
Después del impresionismo o, más exactamente, después de la primera guerra mundial, el arte moderno fue enmarcado en el pánico que azoraba a la Europa expresionista y que, después del dadaísmo, vio surgir el surrealismo. Podríamos extender esta rápida valoración del desastre a la filosofía europea: el descrédito de la fenomenología, la desaparición de Husserl y el éxito del existencialismo, este período articulador que surgió entre las dos guerras mundiales y encontró su consagración en los años de 1950 antes evocados con el fin del diálogo entre los hombres y sobre todo con el olvido: la pérdida de la empatía no sólo respecto al otro, sino respecto de un entorno humano desertificado por la aniquilación de esas incursiones aéreas que, de Guernica a Hiroshima, pasando por Coventry, Dresden o Nagasaki, desorientaron nuestra visión del mundo; que extraviaron la percepción a posteriori que vinculaba, desde hace dos mil años, el conjunto de la cultura occidental.
Pero, además de esta “aeropolítica” de una exterminación masiva de ciudades que pondrá fin a la geopolítica continental –desprendimiento de retina de una cultura que ya anticipa la desterritorialización económica de la globalización–, se debe señalar también la repentina multiplicación, desde el siglo xix con el progreso de la astronomía popular cara a Camille Flammarion, de los telescopios que habrían de prefigurar la modificación del punto de vista ocasionado por el surgimiento de la televisión doméstica, ella misma favorecida en el transcurso del siglo XX por el lanzamiento de los satélites de comunicación.
Ver sin ir a ver. Percibir sin verdaderamente estar… Todo ello subvertiría el conjunto de los diversos fenómenos de representación plástica o teatral, y hasta la democracia representativa, ella misma amenazada por los medios de comunicación que modelarían la democracia estandarizada de la opinión pública, esperando confluir con la democracia sincronizada de la emoción pública que arruinará el frágil equilibrio de sociedades, por decirlo así, emancipadas de la presencia real.
En un mundo de desmentido y de disuasión general, a partir de lo cual se busca más ver que ser visto en ese preciso instante, ante la aceleración de una realidad común que no sólo nos rebasa de manera tiránica, sino que sobrepasa literalmente toda evaluación objetiva y, por lo tanto, todo entendimiento, quien dice “Gran Óptica” transhorizontal dice también “Gran Pánico” transpolítico.
en un depósito de cadáveres, Maurizio Cattelan, quien se dice “artista por acaso”, declara: “He manipulado muertos y he percibido su distancia, su sordera impenetrable. Gran parte de lo que he hecho después proviene de esta distancia.”
Después de la cuestión de la ausencia de un plazo en el cual realizar la instantaneidad, volvemos a encontrar la cuestión de la distancia respecto a la ubicuidad, pero en una perspectiva inversa: lo que cuenta a partir de ahora ya no es el punto de fuga en el espacio real de una escena o de un paisaje, sino sólo la fuga ante la muerte y su punto de interrogación en una dimensión de tiempo real en el que la pantalla catódica usa y abusa de lo directo, “la muerte en directo” y su cortejo de desastres en repetición.
Así, tras la abstracción, el monocromatismo de un Yves Klein y el advenimiento de una pintura sin imagen, cuando ya nada nos puede alcanzar, nada nos puede tocar verdaderamente, uno ya no espera el hallazgo del genio, la sorpresa de la originalidad, sino únicamente el accidente, la catástrofe del fin. De allí la influencia secreta, desde el expresionismo (alemán) o el accionismo (vienés), del terrorismo, como si Jerónimo Bosch y Goya convalidasen los excesos del crimen.
Hagamos notar que a finales de 2004 se abría, en la Kunstwerke de Berlín, la severamente criticada muestra De la representación del terror: la exposición raf”, en la que el concepto era, sobre la base de las obras de tres generaciones de artistas: Joseph Beuys, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Martin Klippen Berger y Hans Peter Feldman, la denuncia del autoproclamado mito de la Rote Armee Fraktion (Facción del Ejército Rojo), en las que la danza macabra alineaba los nombres, los rostros y los cuerpos de los terroristas con los de sus víctimas… Extraño procedimiento que recuerda singularmente la puesta en repetición de las secuencias televisivas.
De hecho, el “dolorismo” del arte contemporáneo proviene de la profanación ya no del arte sacro de los orígenes, sino más bien del arte profano de la modernidad, ese momento (crítico) en el que la re-presentación cede a la ilusión lírica de una simple y pura presentación. Donde “el arte por el arte” desaparece ante este arte total de la teleobjetividad multimediática, sucesora de los artificios de un séptimo arte (cinematográfico) que pretendía contener las otras seis.
He aquí esta obscenidad de la ubicuidad en la que el academicismo “postmoderno” sobrepasa a todas las vanguardias, con excepción de la correspondiente a un terrorismo de masas, en la cual la serie televisada actualiza el hecho en lugar y a costa de los actos de la tragedia antigua.
Se impone aquí un paralelo entre el ateísmo de la postmodernidad, suerte de deidad laica, que se añade “reemplazando lo que destruye y que comienza por destruir aquello que reemplaza” y el ateísmo de la profanación del arte moderno en beneficio exclusivo de un culto del reemplazo, que posee todas las características del iluminismo –ya no el de la revolución enciclopedista de las Luces, sino el de una revelación multimediática que extermina toda reflexión representativa en favor de un reflejo pánico para un individuo en quien el relativismo (ético y estético) desaparece de repente ante ese virtualismo de sustitución del mundo actual de los hechos y de los sucesos revelados.
Si, hoy en día, el teólogo discute un “ateísmo que pretende suprimir hasta el problema que había hecho surgir a Dios en la conciencia”, el crítico de arte contemporáneo debate sobre un “antropoteísmo” que habría de suprimir, hasta el origen del arte moderno, su libre expresión ya no figurativa como ayer, sino geográfica y pictórica (de donde resulta la prohibición iconoclasta de los cuadros en numerosas galerías de arte).
A finales del siglo pasado, Karol Wojtyla declaraba: “El problema de la iglesia universal es encontrar cómo hacerse visible.” Al inicio del tercer milenio este problema es extensivo a toda representación.
“estamos doquiera que ustedes miran. Todo el tiempo y en todo el mundo.” Este eslogan publicitario de la agencia Corbis, fundada en 1989 por Bill Gates con el afán de monopolizar la imagen fotográfica, ilustra el gran pánico de las representaciones en la era de la dilatación escópica.
Si, para unos, el objetivo es ver todo pero también poseer todo, para los anónimos de la multitud la pretensión es solamente ser vistos.
Cuando uno se entera de que esta agencia reúne los archivos fotográficos de los museos más prestigiosos, se imagina la importancia reciente de su presentación en tiempo real y el discreto descrédito de las obras reales.
Lo que no había confluido todavía con la reproducción industrial de las imágenes por Walter Benjamín, literalmente explota con la “Gran Óptica” de las cámaras en internet. La televigilancia deviene la vigilancia a distancia del arte mismo.
Ante esta aceleración de la realidad, el nuevo telescopio ya no observa la expansión del universo, el Big Bang y sus nebulosas distantes, sino el estallido terrenal de la esfera de las apariencias sensibles, de los datos a la vista en el instante de la mirada.
He aquí la revelación multimediática que sobrepasa la enciclopédica revolución de las Luces; he aquí este “iluminismo” de las telecomunicaciones que suprime el icono pictórico, pero también la importancia crucial de lo percibido de visu e in situ, para beneficio exclusivo de una cobertura en directo del campo perceptivo.
“En un universo digitalizado, ofrecemos soluciones visuales creativas. El objetivo es para nosotros dar a un mensaje el más fuerte impacto posible”, dice Steve Davis, director de la agencia Corbis.
Uno entiende mejor, entonces, la intención de la creación visual/audiovisual, de la puesta en repetición de las secuencias pánicas del terrorismo o de las catástrofes naturales o industriales, ese replay del que abusan sistemáticamente las cadenas de televisión, ese deporte de contacto que lucha contra la apatía de un telespectador que no espera sino lo inesperado para salir un poco de su letargo, de esa falta de atención que ha reemplazado en él la vigilia y sobre todo el interés práctico por todo lo que sucede en su entorno inmediato. ¿Cómo sorprenderse; cómo, en última instancia, escandalizarse de la agresividad de una violencia convertida en costumbre en todos los niveles de la sociedad, cuando la empatía misma, hermana gemela de la simpatía por el prójimo, ha desaparecido del horizonte al mismo tiempo que la fenomenología de la que era núcleo?
Demasiado impresionista sin duda. ¿Tal vez poco motivante para suscitar la acción? Desde entonces el “espectáculo vivo” reemplazó a la danza y al teatro.
En el origen, el término empatía poseía el sentido primigenio de tocar y remitir al contacto físico con los objetos sensibles. Con Edmund Husserl el término habría de designar el esfuerzo de percibir y asir la realidad que nos rodea en todos sus fenómenos, en todas las formas en las que ésta se manifiesta. De allí la importancia, a principios del siglo XX, de la obra clave de Worringer: Abstraktion und Einfühlung (Abstracción y empatía).
Uno entiende a qué punto hoy la teleobjetividad nos hace perder este contacto inmediato y este tacto que favorecía no sólo la civilidad de las costumbres, sino toda la “civilización”, en beneficio del impacto de un terror creciente; este terror que bien puede tanto enmudecer como enceguecer, y del cual uno de los sobrevivientes del bombardeo de Hamburgo en 1943 debió reconocer con amargura: “Fue entonces que fui iniciado en el conocimiento de que mirar es padecer y de inmediato fui incapaz de mirar y de ser mirado.”
¡He aquí, pues, este pánico a ojos cerrados señalado por Merleau-Ponty al inicio de la era de la Gran Disuasión!
Pero en este inicio del nuevo milenio, donde el desempeño de la comunicación instantánea suplanta la sustancia de la obra, de todas las obras –pictóricas, teatrales, musicales–, donde la analogía desaparece ante las proezas de la digitalización, el Gran Pánico es el de un arte contemporáneo del desastre de las representaciones, de las malformaciones de una percepción telescópica donde la imagen instrumental caza, una tras otra, nuestras últimas imágenes mentales.
*Fragmento del libro L’Art à perte de vue,París, Galilée, 2005.
Traducción de Andrés Ordóñez
segunda-feira, 16 de abril de 2007
mais Deleuze...
“A tribo-raça só existe no nível de uma raça oprimida, e em nome de uma opressão que ela sofre: só existe raça inferior, minoritária, não existe raça dominante, uma raça não se define por sua pureza, mas, ao contrário, pela impureza que um sistema de dominação lhe confere. Bastardo e mestiço são os verdadeiros nomes da raça."
Deleuze e Guattari, Mille Plateaux, 1980, p. 470 - vol. 5, p. 50, da edição brasileira
Deleuze e Guattari, Mille Plateaux, 1980, p. 470 - vol. 5, p. 50, da edição brasileira
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Lendo Marshall Sahlins...
Entre tudo o que escreveu Marshall Sahlins, gosto muito disso daqui:
Retirado de
Waiting for Foucault, Still
Some Laws of Civilization
First law of civilization: All airports are under
construction.
Second law of civilization: I'm in the wrong line.
Third law of civilization: Snacks sealed in plastic
bags cannot be opened, even using your teeth.
Fourth law of civilization: The human gene whose
discovery is announced in the New York Times—
there's one every day, a gene du jour—is for some
bad trait, like schizophrenia, kleptomania, or pneumonia.
We have no good genes.
Fifth law of civilization: Failing corporate executives
and politicians always resign to spend more time
with their families.
Leia o texto inteiro de aqui.
Retirado de
Waiting for Foucault, Still
Some Laws of Civilization
First law of civilization: All airports are under
construction.
Second law of civilization: I'm in the wrong line.
Third law of civilization: Snacks sealed in plastic
bags cannot be opened, even using your teeth.
Fourth law of civilization: The human gene whose
discovery is announced in the New York Times—
there's one every day, a gene du jour—is for some
bad trait, like schizophrenia, kleptomania, or pneumonia.
We have no good genes.
Fifth law of civilization: Failing corporate executives
and politicians always resign to spend more time
with their families.
Leia o texto inteiro de aqui.
quinta-feira, 29 de março de 2007
de Susan Zickmund...

A Internet tem transformado a natureza de comunidade e de identidade dentro dos EUA. Junto com outros grupos, esta nova mídia vem afetando a forma das organizações subversivas. Os indivíduos que propagam ideologias nazistas tradicionalmente operavam isolados, com poucas ligações estruturais maiores. Mas com o advento do correio eletrônico e do acesso às páginas da internet, esses subversivos estão agora descobrindo meios de propagar suas mensagens além dos limites estreitos de suas ligações pré-estabelecidas.
A literatura subversiva é uma forma de articulação do discurso de uma comunidade, expressando sua consciência histórica e sua identificação cultural. Baseado neste conhecimento histórico e cultural, desenvolve-se uma Weltanschauung argumentativa, que vem promovendo uma retórica da antipatia e que dá suporte às facetas (aos símbolos) únicas do radicalismo americano. Os indivíduos que propagam estes discursos unificam-se em estruturas de uma mesma ideologia subversiva. Eles são 'interpelados', um fenômeno que Althusser define como o processo discursivo de chamar um coletivo de indivíduos a formar um grupo através de uma tela de projeção ideológica. Esta interpelação ideológica torna-se mais importante quando se examina a cultura subversiva no ciberespaço. Essas ciberculturas não têm o que Heidegger define como 'cotidianidade' da vida, que é requerida para criar das Man, ou as estruturas mais abrangentes da sociedade que, por vezes, moldam a percepção individual de estar no mundo.
Approaching the radical other: the discursive culture of cyberhate. In David Bell & Barbara Kennedy (orgs.): The cybercultures reader. Londres: Routledge, 2000, p. 237-256. Susan Zickmund era, na época de redação do artigo, professora-visitante do Depto. de Medicina Interna da Universidade de Iowa.
A literatura subversiva é uma forma de articulação do discurso de uma comunidade, expressando sua consciência histórica e sua identificação cultural. Baseado neste conhecimento histórico e cultural, desenvolve-se uma Weltanschauung argumentativa, que vem promovendo uma retórica da antipatia e que dá suporte às facetas (aos símbolos) únicas do radicalismo americano. Os indivíduos que propagam estes discursos unificam-se em estruturas de uma mesma ideologia subversiva. Eles são 'interpelados', um fenômeno que Althusser define como o processo discursivo de chamar um coletivo de indivíduos a formar um grupo através de uma tela de projeção ideológica. Esta interpelação ideológica torna-se mais importante quando se examina a cultura subversiva no ciberespaço. Essas ciberculturas não têm o que Heidegger define como 'cotidianidade' da vida, que é requerida para criar das Man, ou as estruturas mais abrangentes da sociedade que, por vezes, moldam a percepção individual de estar no mundo.
Approaching the radical other: the discursive culture of cyberhate. In David Bell & Barbara Kennedy (orgs.): The cybercultures reader. Londres: Routledge, 2000, p. 237-256. Susan Zickmund era, na época de redação do artigo, professora-visitante do Depto. de Medicina Interna da Universidade de Iowa.
quinta-feira, 22 de março de 2007
Evans-Pritchard
"Eu não tinha interesse por bruxaria quando fui para
a terra zande, mas os Azande tinham, de forma que tive de me deixar guiar por eles".
O primeiro capítulo de Social Anthropology and Other Essays. E. E. EvansPritchard. Free Press. New York. 1966, aqui.
Cf. Evans-Pritchard, E.E.: Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande, p.300.
segunda-feira, 12 de março de 2007
reflexões

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo".
(Bertolt Brecht)
domingo, 11 de março de 2007
Acerca do habitus em Bourdieu...
É pertinente observar que Tomás de Aquino, em seu Comentário ao Livro V da Ética a Nicómaco, de Aristóteles, traduz a idéia de héxis para o conceito de habitus em latim. Provavelmente construiu essa conceituação em fontes diversas, porque não lia grego. O texto de Aquino que introduz o conceito escolástico de habitus é:
Um excelente texto acerca do habitus é de Esclarecer o Habitus, de Loïc Wacquant, disponível aqui.
Respondeo dicendum quod, sicut supra dictum est, habitus non diversificantur nisi ex hoc quod variat speciem actus, omnes enim actus unius speciei ad eundem habitum pertinent. Cum autem species actus ex obiecto sumatur secundum formalem rationem ipsius, necesse est quod idem specie sit actus qui fertur in rationem obiecti, et qui fertur in obiectum sub tali ratione, sicut est eadem specie visio qua videtur lumen, et qua videtur color secundum luminis rationem...Uma tradução possível seria algo como: Respondo dizendo que, como foi dito acima, os hábitos não se diversificam a não ser que mude o tipo de ação, de fato, todas as ações da mesma espécie pertencem ao mesmo hábito. Sendo que a espécie da ação deriva do objeto segundo sua razão formal, é necessário que a ação seja da mesma espécie que se liga à razão do objeto, e que se ligue ao objeto sob tal razão, como é da mesma espécie a vista pela qual se vê a luz e pela qual se ver a cor dependendo da razão da luz. Estas .ações da mesma espécie. compõem a héxis descrita por Aristóteles como uma .disposição prática., permanente e costumeira, automática, e muito provavelmente desapercebida, pertencente a um plano ontogenético. Acerca da disposição argumentada por Aristóteles, cf. ARISTÓTELES Ética a Nicômaco. São Paulo, Edipro, 2002, p. 135. Bourdieu localiza no conceito de habitus o .primado da razão prática., .uma disposição incorporada, quase postural... o lado ativo do conhecimento prático que a tradição materialista, sobretudo com a teoria do reflexo tinha abandonado.. (BOURDIEU, P. Ibid, p. 61). Em A Dominação masculina, a construção do habitus é explicada por Bourdieu da seguinte forma: o .... produto de um trabalho social de nominação e de inculcação ao término do qual uma identidade social instituída por uma dessas ’linhas de demarcação mística’, conhecidas e reconhecidas por todos, que o mundo social desenha, inscreve-se em uma natureza biológica e se torna um habitus, lei social incorporada". Cf. BOURDIEU, P. A Dominação Masculina Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2003, p 64.
Um excelente texto acerca do habitus é de Esclarecer o Habitus, de Loïc Wacquant, disponível aqui.
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