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sábado, 7 de janeiro de 2012

SEGUINDO O CONSELHO DO POETA: «REPETIR, REPETIR, ATÉ FICAR DIFERENTE»

Texto da Professora Suely Kofes. Impecável
.
http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aeq/n22/n22a09.pdf

quarta-feira, 5 de maio de 2010

(Não) Veja e Viveiros de Castro

Viveiros de Castro para Veja

Talvez os responsáveis pela matéria não conheçam a diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Que voltem aos bancos da escola.






Ao Editores da revista Veja:

Na matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” .

Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de “montado” ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante.

Grato pela atenção,

Eduardo Viveiros de Castro

Antropólogo – UFRJ



2. Resposta da Veja



Carta

“No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”

3 de maio de 2010

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro enviou a VEJA uma carta – divulgada amplamente na internet – sobre a reportagem “A farra antropológica oportunista”, publicada nesta edição da revista. Na carta, Viveiros de Castro diz: “(1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma”.

Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética.



3.



Aos Editores da revista Veja:

Em resposta à mensagem que enviei à revista Veja no dia 01/05, denunciando a imputação fraudulenta de declarações que me é feita na matéria “A farra da antropologia oportunista”, o site Veja.com traz ontem uma resposta com o título “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”. Ali, os responsáveis pela revista, ou pela resposta, ou, pelo jeito, por coisa nenhuma, reincidem na manipulação e na mentira; pior, confessam cinicamente que fabricaram a declaração a mim atribuída.

Em minha carta de protesto inicial, sublinhei dois pontos: “(1) que nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) que não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma”.

Veja contesta estes pontos com os seguintes argumentos:

(1) “Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética.”

Respondo: é falso. A Assessoria de Imprensa do Museu Nacional telefonou-me, talvez no início de março (não acredito mais em nada do que a Veja afirma), perguntando se receberia repórteres da mal-conceituada revista, a propósito de uma matéria que estariam preparando sobre a situação dos índios no Brasil. Respondi que não pretendia sofrer qualquer espécie de contato com esses profissionais, visto que tenho a revista em baixíssima estima e péssima consideração. Esclareci à Assessoria do Museu que eu tinha diversos textos publicados sobre o assunto, cuja consulta e citação é, portanto, livre, e que assim os repórteres, com o perdão da expressão, que se virassem. Não “recomendei a leitura” de nada em particular; e mesmo que o tivesse feito, não poderia ter “autorizado Veja” a usar o texto, simplesmente porque um autor não tem tal poder sobre trabalhos seus já publicados. Quanto à curiosa noção de que eu autorizei a revista, em particular, a “usar de maneira sintética” esse texto, observo que, além de isso “não condizer com a verdade”, certamente não é o caso que esse poder de síntese de que a Veja se acha imbuída inclua a atribuição de sentenças que não só se encontram no texto em questão, como são, ao contrário e justamente, contraditas cabalmente por ele. A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” . Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.

Veja contesta o segundo ponto com o argumento:

(2) “Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto (“Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante” e “pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante”).” Ato contínuo, a revista dá o texto na íntegra, repetindo que eu a autorizei a usar o texto “da forma que bem entendesse”.

(Veja o link para meu texto: http://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_institucional/No_Brasil_todo_mundo_%C3%A9_%C3%ADndio.pdf).

Pela ordem. Em primeiro lugar, essa resposta da revista fez desaparecer, como num passe de mágica, a frase propriamente afirmativa de minha suposta declaração, a saber, a segunda (Só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original”), visto que a primeira (Não basta dizer que é índio etc.) permanece uma mera obviedade, se não for completada por um raciocínio substantivo. Ora, o raciocínio substantivo exposto em meu texto está nas antípodas daquele que Veja falsamente me atribui. A afirmação de Veja de que eu a autorizara a “usar” o texto da forma que ela “bem entendesse” parece assim significar, para os responsáveis (ou não) pela revista, que ela poderia fabricar declarações absurdas e depois dizer que “sintetizavam” o texto. Esse arrogantemente “da forma que bem entendesse” não pode incluir um fazer-se de desentendido da parte da Veja.

Reitero que a revista fabricou descaradamente a declaração “Só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original”. Se o leitor tiver o trabalho de ler na íntegra a entrevista reproduzida em Veja.com, verá que eu digo exatamente o contrário, a saber, que é impossível de um ponto de vista antropológico (ou qualquer outro) determinar condições necessárias para alguém (uma pessoa ou uma coletividade) “ser índio”. A frase falsa de Veja põe em minha boca precisamente uma condição necessária, e, ademais, absurda. Em meu texto sustento, ao contrário e positivamente, que é perfeitamente possível especificar diversas condições suficientes para se assumir uma identidade indígena. Talvez os responsáveis pela matéria não conheçam a diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Que voltem aos bancos da escola.

A afirmação “só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original” é, repito, grotesca. Nenhum antropólogo que se respeite a pronunciaria. Primeiro, porque ela enuncia uma condição impossível (o contrário de uma condição necessária, portanto!) no mundo humano atual; impossível, na verdade, desde que o mundo é mundo. Não existem “ambientes culturais originais”; as culturas estão constantemente em transformação interna e em comunicação externa, e os dois processos são, via de regra, intimamente correlacionados. Não existe instrumento científico capaz de detectar quando uma cultura deixa de ser “original”, nem quando um povo deixa de ser indígena. (E quando será que uma cultura começa a ser original? E quando é que um povo começa a ser indígena?). Ninguém vive no ambiente cultural onde nasceu. Em segundo lugar, o “ambiente cultural original” dos índios, admitindo-se que tal entidade exista, foi destruido meticulosamente durante cinco séculos, por epidemias, massacres, escravização, catequese e destruição ambiental. A seguirmos essa linha de raciocínio, não haveria mais índios no Brasil. Talvez seja isso que Veja queria dizer. Em terceiro lugar, a revista parte do pressuposto inteiramente injustificado de que “ser índio” é algo que remete ao passado; algo que só se pode ou continuar (a duras penas) a ser, ou deixar de ser. A idéia de que uma coletividade possa voltar a ser índia é propriamente impensável pelos autores da matéria e seus mentores intelectuais. Mas como eu lembro em minha entrevista original deturpada por Veja, os bárbaros europeus da Idade Média voltaram a ser romanos e gregos ali pelo século XIV — só que isso se chamou “Renascimento” e não “farra de antropólogos oportunistas”. Como diz Marshall Sahlins, o antropólogo de onde tirei a analogia, alguns povos têm toda a sorte do mundo.

E o Brasil, será que temos toda a sorte do mundo? Será que o Brasil algum dia vai se tornar mesmo um grande Estados Unidos, como quer a Veja ? Será que teremos de viver em um ambiente cultural que não é aquele onde nascemos e crescemos? (Eu cresci durante a ditadura; Deus me livre desse ambiente cultural). Será que vamos deixar de ser brasileiros? Aliás, qual era mesmo nosso ambiente cultural original?

Grato mais uma vez pela atenção

Eduardo Viveiros de Castro

antropólogo – UFRJ


acréscimo, o RA, já tinha mexido com ele antes, vejam em http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/antropologia-miolo-mole/

quarta-feira, 10 de março de 2010

Virtual Spaces and Consumer Anthropology March 10, 2010

Original, aqui.

Surely, if we are going to study humans in their natural habitats; how they interact with one another, how they interact with brands, how they purchase, consume, etc., it stands to reason that all “natural habitats” are fair game.
This means we need to remind ourselves of all the spaces where humans interact with…well…anything. The physical world is one. The virtual world is a whole other spinning ball-o-wax. And the fun part is…it’s one we are still growing into, which means we (as researchers as well as humans and consumers) have the power to shape it.
So, as Consumer Anthropologists, where do we begin? Consumers are still figuring it all out. We having been trying on the “internets”: email, bulletin boards, websites, social networking sites, “tweets”, virtual gaming worlds, etc. for almost a couple of decades now. Mobile communication technology has also evolved steadily from paging technology, to mobile conversation, SMS / Texting, on-the-go-photo and video, GPS and now Apps-a-plenty….and it will keep moving.
Soon all of it may / will merge: anyone read Spook Country by William Gibson?
Our job is to figure out, while the world keeps spinning, how to evolve and maintain the data balance to allow for the advantages and risks of using the online and mobile world as an anthropological study universe. So many opportunities to use for our proprietary research as well as the projects we tackle for our clients:
analysis of cultural phenomenon happening in purely virtual spaces (e.g. facebook / orkut / kuku, youtube, etc.)
  • analysis of user-generated content in specific cultural context areas or with regard to Brand dialogue (social networking sites, blogs, etc)
  • crowd sourcing data from custom recruited “panels” using online spaces and mobile technology
  • development of mobile ethnography “apps” as proprietary data collection tools
  • etc.
  • etc.
  • etc.

 I am deeply interested in hearing from my peers and other “future game changers” out there who are dealing with or anticipating consumer anthropology application with regard to virtual spaces and mobile communication. What have you been using? What do you think are our opportunities and limits? How will “web 2.0″, etc. change the game? Lets hear it.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Postagem tipo... fala sério

Vamos combinar?

Etnografia, a nova pesquisa de mercado

Entrou no bar. Sem pressa, observou o ambiente e tudo lhe pareceu normal. A jovem rapidamente identificou um grupo de homens que tomavam cerveja. Aproximou-se do balcão, pediu um refrigerante e escolheu um lugar que lhe permitia observá-los de maneira direta e livre de interferências. Estamos falando do início de filme ou de um romance? Nenhum dos dois: a cena se refere a uma estratégia de pesquisa de mercado.

Essa tarefa foi atribuída há alguns anos pela agência de publicidade Ogilvy & Mather a Emma Gilding, etnógrafa-chefe da empresa, com o objetivo de captar para o cliente (a fabricante de cerveja Miller) detalhes que revelassem o comportamento dos consumidores (o que de fato fazem e não o que dizem fazer) em seu hábitat natural. A proposta de análise havia sido apresentada pela revista Fast Company para ilustrar uma tendência crescente das agências de publicidade de contratar antropólogos e etnógrafos a partir da necessidade identificada na década de 1990 de encontrar maneiras novas e melhores de travar um “contato real” com os clientes.

Tradicionalmente dedicada ao estudo das sociedades humanas, a antropologia social costumava se concentrar na observação de grupos exóticos (desde habitantes de alguma ilha perdida na Polinésia até tribos amazônicas ameaçadas de extinção), mas nos últimos tempos essa ciência voltou-se para o mundo dos negócios.

O processo se deu em parte por causa do número cada vez menor de “culturas nativas exóticas”, em parte pela crescente complexidade do mundo globalizado, no qual a tecnologia derruba fronteiras e cria uma nova universalidade –e, nesse contexto, as diferenças culturais adquirem importância inédita.Os publicitários não foram os primeiros a procurar o auxílio das ciências sociais. Na década de 1930, executivos de empresas de diversos setores recorreram a elas para estudar mecanismos de aumento da produtividade de seus funcionários.

Mas na década de 1960 o foco de estudo passou a ser o mercado. Simon Roberts, antropólogo bastante conhecido internacionalmente, é um exemplo da mudança de foco desses cientistas sociais. Quando Roberts decidiu estudar os costumes de Varanasi, cidade sagrada da Índia, em vez de fazer como a geração anterior de antropólogos e priorizar os rituais fúnebres hindus, preferiu deter-se sobre o impacto da televisão por satélite sobre os hábitos e a visão de mundo dos moradores do local. Depois de concluir o trabalho de campo, o estudioso voltou para completar seu doutorado na University of Edimburgh, Escócia, e descobriu que havia interesse por esse tipo de trabalho –a rede de televisão britânica BBC, por exemplo, encomendou um estudo e não demorou para chegarem outros pedidos.


Nos EUA, a Xerox foi uma das primeiras empresas a utilizar a etnografia
aplicada. Em 1979, contratou a antropóloga Lucy Suchman para trabalhar no
centro de pesquisa instalado em Palo Alto e a incumbiu de fazer um trabalho
de campo: Suchman deveria visitar as empresas que haviam instalado
fotocopiadoras da marca e realizar um filme com uma síntese da “experiência”
dos profissionais na hora de utilizar o equipamento. Depois de assistir à
luta dos operadores com as copiadoras para tirar uma cópia, os engenheiros
da Xerox começaram a desenvolver o produto de maneira diferente. A pesquisa
feita pela antropóloga resultou nas atuais máquinas copiadoras (de todas as
marcas), que hoje ostentam um grande botão verde bastante visível, mas que
no passado ninguém conseguia encontrar.

Seguindo o exemplo da Xerox, na década de 1980 as agências de design industrial começaram a incluir em seus quadros de funcionários antropólogos e sociólogos.Antropologia do consumo – Com esse novo sentido, a etnografia, método de pesquisa da antropologia cultural originalmente centrado na descrição e no estudo das sociedades humanas a partir do ponto de vista do “nativo” de cada cultura, passa a ser usada para observar os consumidores-alvo no contexto de consumo ou de uso –ou seja, em casa, no local de trabalho, no momento de lazer, na hora das compras, ou de passeio.

Nesse contexto, o objetivo é identificar os comportamentos e as necessidades que as pessoas nem sempre revelam nas entrevistas ou nos focus groups, mas que empregam na prática.Modalidade da antropologia aplicada, a pesquisa etnográfica se consagrou como uma ferramenta de avaliação que, embora conviva com os mecanismos convencionais, certamente apresenta vantagens e resulta em equipes de trabalho interdisciplinares especializadas em empresas das mais variadas naturezas.

Desde organizações líderes como a Microsoft e a Intel até General Electric, Whirlpool, a rede hoteleira Marriott, o site europeu da Fox Sports e a bem-sucedida eBay, preocupada em desenvolver novos serviços, todas incorporaram a antropologia em seu modo de ver os negócios
.“Hoje, a etnografia tem apelo em todo o mundo corporativo”,
admite Tracey Lovejoy, etnógrafa da equipe da Microsoft. Ela acrescenta:
“Em 2001, quando eu estava terminando meu mestrado em antropologia, ninguém
sabia qual a utilidade do estudo fora do mundo acadêmico”.
Opinião semelhante tem a etnógrafa pioneira do Almaden Research Center da IBM, Jeannette Blomberg:
“Estou nesta área há 25 anos, mas só agora sinto que não somos mais tão
‘marginais’ como éramos”.
Apesar disso, muitos ainda associam esses estudiosos a cientistas excêntricos que passam meses no meio do mato, das montanhas ou do deserto.No mundo dos negócios, a antropologia aplicada e a etnografia não se somam como mais uma técnica na hora de fazer pesquisas de mercado. Isso porque existe uma diferença básica: o objeto do estudo não é isolado durante o tempo em que dura a observação, como ocorre nos focus groups, nem é “induzido” por um questionário no qual, não raro, as respostas estão embutidas nas perguntas. O estudo ocorre no contexto cultural e social no qual as pessoas circulam naturalmente. As perguntas não são feitas por interesse científico ou preocupação acadêmica, e não há busca de validação, mas sim de inspiração.

Os estudiosos combinam métodos, recursos e teorias da antropologia para conseguir delinear uma visão bem mais profunda das tendências culturais, das atitudes e do estilo de vida que exercem influências sobre as decisões do consumidor.

Do que estamos falando? – Ao mesmo tempo em que é uma metodologia e uma nova perspectiva, a etnografia envolve técnicas diversas, que, por sua vez, incluem formas distintas de observação, modalidades variadas de entrevistas e um processo de “documentação” das marcas, traços ou rastros deixados pelas pessoas ao percorrer sua rotina diária. A metodologia utiliza a observação direta (sem perguntas nem intervenção de nenhum tipo na atividade diária das pessoas observadas) e entrevistas “contextuais”, ou seja, no âmbito no qual se desenvolve a pessoa observada. Outro recurso é a “observação participativa”, um processo específico que equivale a algo mais do que simplesmente “olhar”.

Trata-se de uma observação com os cinco sentidos e com o uso de categorias, idéias e, obviamente, alguns métodos de trabalho.Requer um projeto de pesquisa muito consistente, além de preparação e conhecimento técnico do observador. Nesse “trabalho de campo”, qualitativo por definição, a observação participante consiste em perceber o que acontece não apenas com os sentidos, mas utilizando também categorias, idéias e, obviamente, alguns métodos de trabalho. Para que haja eficiência, é preciso contar com preparação e uma criação consistente do projeto de pesquisa, sem falar na formação específica e no conhecimento técnico por parte do observador.

Uma recomendação feita aos recém-chegados por quem há tempos emprega esse enfoque para estudar os mercados é certificar-se de que a pessoa incumbida de fazer a pesquisa etnográfica realmente conta em sua equipe com profissionais com graduação em antropologia –sobretudo nos dias atuais, em que essa ciência entrou na moda. Não é possível “observar” sem contar com um estudo crítico da teoria, sem uma definição dos problemas a partir do ponto de vista da disciplina antropológica.Um profissional de marketing típico, por exemplo, se aproximaria da pessoa observada para confirmar suas premissas com uma abordagem direta e específica, capaz de permitir as respostas que ele procura –ou seja, aquilo que deseja ouvir.

O antropólogo, por sua vez, começa observando cada um dos muitos padrões da vida diária do participante, nos detalhes, e apenas então tenta decifrar uma maneira de ajustá-los aos produtos ou serviços em avaliação. Nesse contexto, observar implica estar em condições de ir e vir, em um trajeto entre a cultura do observador e a cultura do observado, mas sem distorcer, perder ou alterar a informação pelo caminho. Por isso se fala em observação “participativa”: porque exige certo grau de reciprocidade, de respeito, de reconhecimento mútuo entre observador e observado.

Anne Kirah, antropóloga responsável pelo trabalho de pesquisa de campo e de laboratório da Microsoft em todo o mundo, destaca que essa interação natural estimula a inovação e enriquece a perspectiva dos responsáveis pela criação ou reorganização de um produto ou serviço. Ao estudar uma família inglesa de classe média dos arredores de Kent, por exemplo, Kirah descobriu que, contra todos os prognósticos e diferentemente dos estereótipos, a avó era um dos adultos mais envolvidos com informática naquela casa.
(ah, fala sério, mesmo!!! na Microsoft???? justo na Microsoft???)

Esse tipo de processo consome bem mais tempo do que o preenchimento de um questionário ou a organização de uma discussão com a mediação de um especialista. Por isso, outra recomendação dada pelos mais experientes é reservar a esse tipo de pesquisa o tempo realmente necessário. É preciso olhar com reservas para a empresa de pesquisa de mercado que prometer utilizar a etnografia e apresentar um relatório em dez dias; um estudo dessa natureza requererá algumas semanas para soltar apenas uma “primeira avaliação”. E será preciso haver uma boa equipe multidisciplinar conduzindo o estudo e representatividade dos grupos observados.Fonte: HSM Management

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Deu no Jornal da UNICAMP

Antropóloga promove análise etnográfica
das práticas e das representações de ativistas racistas


Pesquisa mapeia discurso

neonazista na rede

PAULO CÉSAR NASCIMENTO


O uso da rede mundial de computadores por neonazistas como espaço para disseminação do racismo e para defesa do ideário da raça ariana é o tema central de dissertação de mestrado apresentada na semana passada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Em Os Anacronautas do Teutonismo Virtual: uma etnografia do neonazismo na Internet, a antropóloga Adriana Abreu Magalhães Dias, orientada pela professora doutora Maria Suely Kofes, investiga e mapeia com profundidade o universo subversivo de sites, portais, comunidades, fóruns, chats, blogs e listas de discussão que abordam a temática racista e revisionista (que tenta invalidar a veracidade histórica do holocausto na Segunda Guerra Mundial e o número de judeus mortos por agentes nazistas).

Sites foram denunciados ao Ministério Público
A minuciosa análise etnográfica das práticas e representações discursivas expostas por ativistas no cyberespaço e a interpretação de elementos mitológicos evidentes no material fartamente disponível, permitiu à pesquisadora constatar que, nos sites analisados, o neonazismo articula mitos, narrativas e rituais em uma estratégia para preservar o teutonismo, ou a homogeneidade absoluta das raças germânicas, conforme a ideologia propagada por Adolf Hitler e seus simpatizantes.

“Os sites observados são profundamente demarcados por um léxico racista e pela ideologia neonazista, que retoma símbolos, mitos e propostas jurídicas, religiosas e políticas do nacional-socialismo”, atesta Adriana. “Os autores constroem e atualizam mitos, inscrevendo na palavra raça uma relação simbólica, polissêmica, enraizada numa ideologia saturada de anacronismo, contradições, ódio e insegurança, ideologia esta que os pretende heróis. Daí nasceu a minha ironia: são os anacronautas, ou seja, anacrônicos, que se mitificam heróis de um tempo imemorial e pretendem resgatar a sua Germânia, ainda que virtualmente”, argumenta.
Extermínio – Para ela, a associação do neonazismo ao revisionismo expressa o racismo em sua radicalidade máxima, orientada por uma luta política que deseja implantar um “racismo de Estado”, conforme denominou Michael Foucault (filósofo francês morto em 1984, aos 58 anos). Nessa forma extremada de pensar, defendida pelos movimentos neonazistas, o Estado deve reunir e proteger a “raça” de seus inimigos, até mesmo por meios de exterminação, se necessário.

Portanto, os sites adotam discursos a fim de compor a seguinte proposta: se a “raça branca” está ameaçada, é preciso reagir. Qual a medida a ser tomada? Um cartaz pinçado por Adriana no site brasileiro Valhalla 88 oferece a sua alternativa:

“No impresso, a incitação ao homicídio é vista como ‘natural’ e a interdição ao casamento racial toma a forma de uma nova guerrilha. A montagem do cartaz sugere que cada visitante reaja violentamente à possibilidade de mistura racial, condensando assim os ideais de ódio expresso pelo discurso racista”, explica Adriana.

Em outro grande portal racista, o norte-americano National Alliance, ao casamento inter-racial é atribuído o valor de “pior que assassinato”. No site, vasto material racista é oferecido, até livros infantis para colorir com a história dos povos arianos.

Esses temas são recorrentes em quase 13 mil sites na Internet e em cerca de duas centenas de comunidades do Orkut, e, se em alguns países são considerados criminosos e retirados do ar, logo são repostos por uma rede que os mantêm praticamente intactos. Segundo a pesquisadora, a grande maioria dessas URLs (endereços de sites na rede) são cópias de cerca de quinhentas principais.

Doutrinação – Ela descobriu ainda que na grande maioria dos sites o ativismo é sugerido e incitado como uma espécie de iniciação, por meio da oferta de adesivos e pôsteres para serem impressos e utilizados: basta que cada pessoa faça o download dos cartazes e panfletos disponíveis no site, imprima algumas cópias destes e os distribua ou cole em locais onde serão lidos pelo maior número de pessoas possível: caixas de correio, inseridos no interior de livros em bibliotecas, espalhados em mesas de lanchonetes, gôndolas de supermercados, livrarias, entre outros.

“A distribuição da propaganda alcança o Povo Branco por duas maneiras: diretamente (através do próprio material) e indiretamente (pela resultante cobertura da mídia). Freqüentemente, mesmo uma pequena, mas bem direcionada, distribuição conduzida por um astuto ativista resulta em primeiras páginas de jornais e cobertura televisiva. Este ativismo construtivo é vitalmente importante, além, é claro, de ser muito divertido e altamente satisfatório!”, sinaliza um dos sites analisados.

Em outras comunidades e em inúmeros fóruns, temas que sensibilizam parcela significativa de internautas, principalmente mulheres, como aborto, estupro e pedofilia, funcionam como porta de entrada para a doutrinação racista. Posteriormente, à medida que navegam pelos sites que lançam mão desse ardil, deparam com indicações de links, literatura e arquivos para download em que a temática neonazista é apresentada.

“Movidas pelo ódio explícito, principalmente dirigido a judeus e a negros, ou pelo medo de que o futuro seja absolutamente ‘não-branco’, a rede racista se conecta a meio milhão de pessoas, que fazem da Internet um grande veículo de divulgação, comunicação, transmissão de arquivos, venda de produtos, enfim, uma grande estrutura para este movimento”, observa a antropóloga.

Campo minado – Adriana acabou pagando o preço pela coragem de pisar em terreno tão minado: foi bombardeada com ameaças em fóruns de discussões na internet durante a árdua coleta de dados para o seu trabalho. Indignada com a apologia criminosa das informações que encontrava nos sites, os denunciou ao Ministério Público. Por conta de ações judiciais, dela e de outros militantes, três sites brasileiros foram retirados do ar desde 2004: White Power SP, Loja ZyklonB e Valhalla88, este um dos sites mais acessados da América Latina, com 250 mil internautas.

“Foi um desafio intelectual e uma reafirmação de minha postura política: por um lado precisava explicá-los, por outro tinha de denunciar os crimes que cometiam”, pondera.
A elaboração da dissertação levou aproximadamente um ano e meio, mas há cerca de cinco anos ela desenvolve o exercício etnográfico em sites racistas, neonazistas e revisionistas, depois de se aproximar do tema pela primeira vez na pesquisa para a monografia da graduação.

Para compor o consistente estudo de 329 páginas, Adriana, além de mergulhar na internet, consultou vasta bibliografia acerca da Segunda Guerra Mundial e, em particular, a respeito do nacional-socialismo, entrevistou sobreviventes de campos de concentração, em São Paulo e em Curitiba, entrou em contato com o movimento negro e o movimento da memória do holocausto e conversou com procuradores, promotores e juízes que lidaram com o crime de racismo, inclusive o mediado por computadores, entre outras providências.

“Essa dissertação de mestrado, que bem se confunde com uma tese de doutorado, tem a importância política de permitir uma compreensão interna dos argumentos nazistas contemporâneos e não teme posicionar-se criticamente, e com exterioridade também, em relação ao seu objeto”, salienta a orientadora Suely Kofes. “É um exemplo a ser estimulado na Universidade entre pesquisa empírica, leitura e discussão teórica, e reflexão”.
A qualidade do trabalho permitiu a Adriana ser aprovada para o doutorado sem a necessidade de se submeter ao exame de seleção. Para a tese, ela se debruçará sobre o fenômeno do movimento neonazista e na sua relação com a construção da identidade germânica apresentada nos sites.


veja mais em http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/novembro2007/ju380pag03.html

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Jamais fomos modernos.

Jamais fomos modernos. Neste livro Bruno Latour, desenvolve uma primeira formulação do que chamou de uma “antropologia simétrica”. Acerca disto veja esta entrevista.

“a construção de um fato é um processo tão coletivo que uma pessoa sozinha só constrói sonhos, alegações e sentimentos, mas não fatos” (Latour, 2000: 70).