domingo, 22 de setembro de 2013

Em carta, Wächter afirma que nazistas entravam no Brasil sem passaporte

Comandante da SS explica a colega nazista como fugir para a América do Sul e diz que, para o Brasil, uma carteira de identidade era suficiente













Uma carta redigida à máquina, com data de 10 de maio de 1949, é um dos tesouros históricos do sótão do Castelo Hagenberg, na Áustria, sob a guarda de Horst Wächter. O documento de duas páginas, preservado com delicadeza, apresenta detalhes sobre a famosa “Linha dos Ratos”, rota de fuga nazista acobertada pelo bispo Alois Hudal, que levou ex-oficiais de Adolf Hitler à América do Sul.
A carta, segundo Horst, foi escrita por seu pai, Otto Wächter, comandante da SS e ex-governador da Cracóvia e Galícia. O documento está endereçado a um certo Ladurner, amigo do nazista que vivia em Bolzano, na Itália, mas nunca foi enviado. Wächter morreria um mês depois de redigi-la. Os principais assuntos da missiva são estadias em Roma e rotas de fuga para Brasil e Argentina.

Ouvidos por Opera Mundi, especialistas que estudam a fuga de nazistas para a América do Sul afirmam que vários indícios sugerem a veracidade da carta. Tanto Daniel Stahl, autor de "Nazi-Jagd: Südamerikas Diktaturen und die Ahndung von NS-Verbrechen" ("Caçada aos Nazistas: Ditaduras da América do Sul e Punição aos Criminosos do Nacional-socialismo" - Editora Wallstein, Alemanha), como Gerald Steinacher, que escreveu "Nazis auf der Flucht: Wie Kriegsverbrecher über Italien nach Übersee entkamen" ("Nazistas em Fuga: Como Criminosos de Guerra fugiram pela Itália para além-mar" - Editora Fischer Taschenbuch, Alemanha), avaliam que o documento traz informações importantes sobre a rota de fuga dos aliados de Adolf Hitler.
"A rede de pessoas que possibilitaram a fuga foi muito ampla e, com certeza, agora podemos dizer que Wächter está entre elas, o que era desconhecido até hoje", afirma Stahl.

Ainda que diga que não é possível ter 100% de certeza de que a carta é verídica, Steinacher apontou que esse gênero de correspondência, "com conselhos, escrita a partir da Itália para antigos companheiros e pessoas procurando emigrar para escapar da Justiça, é comum". "Isso não significa que Wächter fosse um grande organizador, mas que deu orientações a outros."

Os papéis foram recolhidos pela mulher do oficial, Charlotte Bleckmann, anos depois de sua morte na capital italiana. Otto Wächter, que se escondia sob o nome falso Alfredo Reinhardt, teria sucumbido a uma icterícia após nadar nos canais da cidade, mas não há registros do óbito além de notícias de jornais italianos e austríacos da época.

A edição de 9 de setembro de 1949 do jornal Weltpresse confirma a morte de Wächter e pergunta, em sua manchete, sobre o paradeiro de seu arquivo, que foi destruído. A carta, segundo Horst, foi uma das centenas de documentos guardados por sua mãe. Nenhum deles fala sobre o Holocausto nos territórios governados pelo comandante da SS.

A carta

Caro Ladurner!
Eis que volto agora da cidade completamente acabado. Durante o dia a temperatura chega a graus consideravelmente mais quentes. Mas as noites esfriam maravilhosamente. Eu agora entendo porque todos os homens aqui vestem camiseta regata por baixo da camisa. Resfria-se muito facilmente com a mudança de tempo, razão pela qual o guia Baedecker e a experiência de Deterling acham aqui muito pior que no Norte.

Leia aqui o restante da carta de Wächter

Documentos necessários
Otto Wächter mantinha laços próximos com o bispo Alois Hudal e orientou na carta seu colega, Ladurner, sobre os métodos para buscar refúgio na América do Sul. O comandante da SS conseguira angariar diversas informações sobre uso de passaportes da Cruz Vermelha para fugir, exigências de oficiais de fronteira de Brasil e Argentina e vistos.
“Segundo Hu. [possivelmente o bispo Alois Hudal], passaportes da Cruz Vermelha não serão mais expedidos após o fim de maio. Essa função será então transferida para um departamento do Vaticano. Ele acredita que o documento emitido pelo Vaticano poderá ter menos valor que os atuais (que por sua vez já possuem reconhecimento bastante limitado)”, escreve o comandante da SS.
É notório que a Cruz Vermelha, no episódio mais vexatório de sua história, entregou passaportes a oficiais nazistas, entre eles Adolf Eichmann, Josef Mengele e Klaus Barbie, que fugiram - pelo menos momentaneamente - para o anonimato. Segundo pesquisa conduzida por Gerald Steinacher, da Universidade Harvard, pelo menos 120 mil discípulos de Hitler se beneficiaram dos papéis. A organização se desculpou publicamente pelo ocorrido.

Já o Vaticano, que também teve sua parcela de cumplicidade com fugitivos nazistas, nunca comentou as acusações de emitir, através de uma comissão de refugiados, identidades falsas - são elas que, muito provavelmente, Wächter cita na carta com “reconhecimento bastante limitado”.

Leia mais
De campeão de remo ao Holocausto: o rastro de Wächter em fotos inéditas
Entrada no Brasil
Wächter esclarece a Ladurner que entrar na Argentina acarreta “conhecidas dificuldades” e afirma que “candidatos” foram até o Brasil “para mudar de profissão”. “Você deverá fazer o mesmo quando estiver do outro lado, para aumentar suas chances de sucesso”, escreve o comandante da SS, para então listar as exigências do consulado brasileiro.
Governo da Polônia
São elas: passaporte da Cruz Vermelha, desde que acompanhada de documento anterior à guerra, certidão de nascimento, certidão de casamento, carteira profissional e declaração de que não era comunista. Em seguida, o nazista acrescenta que “os brasileiros na verdade não reconhecem os passaportes da Cruz Vermelha, mas se contentariam com um passaporte austríaco ou I.Karte [carteira de identidade]”.

[Foto de Otto Wächter durante seu período na Polônia]
“Além disso, é possível falar de maneira bem aberta com eles, sem que as autoridades austríacas tomem conhecimento”, afirma Otto Wächter, dando mostras de uma receptividade maior por parte dos brasileiros.
Estadia e alimentação
“Quanto a uma eventual permanência aqui [sob o zelo da Igreja Católica em Roma], seria possível lhe arranjar almoço e jantar de graça no refeitório papal, em princípio por uma semana (renovável)”, recomenda Wächter ao amigo Ladurner. “É meio primitivo, assim como a companhia, mas é o que há”, completa.
O comandante da SS tinha na manga todos os custos necessários para permanecer às escondidas com ajuda do bispo Alois Hudal e sobre o eventual financiamento de uma organização que poderia ajudá-los a fugir, que só aceitava protestantes. Ao final da carta, Wächter reafirma que a oferta principal é para ir para o Brasil.
“Se você tem interesse nas coisas daqui discutidas e ainda consegue encarar todos os obstáculos e cumprir todos os requisitos, aí sim as suas despesas e o seu tempo estarão mais que justificados. No caso de você não querer ir ao Brasil, e essa oferta vale só para lá, você poderá economizar seu dinheiro e deixar a manivela girando aqui comigo”, escreveu ele.

domingo, 1 de setembro de 2013

The Emergence of Multispecies Ethnography (Cultural Anthropology)


Abstract

June 14, 2010
A Special Issue of Cultural Anthropology
Edited by Eben Kirksey and Stefan Helmreich
In the November 2010 issue of Cultural Anthropology, Eben Kirksey and Stefan Helmreich explore how creatures previously appearing on the margins of anthropology — as part of the landscape, as food for humans, as symbols — have been pressed into the foreground in recent ethnographies.  Multispecies ethnographers are studying the host of organisms whose lives and deaths are linked to human social worlds. A project allied with Eduardo Kohn’s “anthropology of life”—“an anthropology that is not just confined to the human but is concerned with the effects of our entanglements with other kinds of living selves” (2007:4)—multispecies ethnography centers on how a multitude of organisms’ livelihoods shape and are shaped by political, economic, and cultural forces.
“Becomings”—new kinds of relations emerging from nonhierarchical alliances, symbiotic attachments, and the mingling of creative agents (cf. Deleuze and Guattari 1987:241–242)—abound in this chronicle of the emergence of multispecies ethnography, and in the essays in this collection.“The idea of becoming transforms types into events, objects into actions,” writes contributor Celia Lowe.
The work of Donna Haraway also provides one key starting point for the “species turn” in anthropology: “If we appreciate the foolishness of human exceptionalism,” she writes in When Species Meet, “then we know that becoming is always becoming with—in a contact zone where the outcome, where who is in the world, is at stake” (2008:244).
Anna Tsing’s scholarship also provides a charter for multispecies ethnographers.  In an forthcoming essay, “Unruly Edges: Mushrooms as Companion Species”, she suggests that “human nature is an interspecies relationship” (Tsing n.d.; see Haraway 2008:19).  Displacing studies of animal behavior used by social conservatives and sociobiologists to naturalize autocratic and militaristic ideologies, Tsing began studying mushrooms to imagine a human nature that shifted historically along with varied webs of interspecies dependence. Searching familiar places in the parklands of northern California for mushrooms—looking for the orange folds of chanterelles or the warm muffins of king boletes—she discovered a world of mutually flourishing companions. Aspiring to mimic the “mycorrhizal sociality” of mushrooms, Tsing formed the Matsutake Worlds Research Group—an ethnographic research team centered on matsutake, an aromatic gourmet mushroom in the genus Tricholoma, a “species cluster.” Following the matsutake mushroom through commodity chains in Europe, North America, and East Asia, this group has experimented with new modes of collaborative ethnographic research while studying scale-making and multispecies relations.
Multispecies ethnography has emerged with the activity of a swarm, a network with no center to dictate order, populated by “a multitude of different creative agents” (Hardt and Negri 2005:92). The Multispecies Salon — a series of panels, round tables, and events in art galleries held at the annual meetings of the American Anthropological Association (in 2006 and 2008) — was one place, among many others, where this swarm alighted. In November the Multispecies Salon will travel to New Orleans.  Here, at the 2010 AAA meetings, a lively group of interlocutors—wild artists and para-ethnographers—will come together to discuss the multispecies zeitgeist that is sweeping the social sciences and the humanities.

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Eben Kirksey, ”Untitled.” April 6, 2010.

The “Twins,” a chimerical pair of grubs with wings, graces the cover of the November 2010 issue of Cultural Anthropology. This ceramic piece was created by Marnia Johnston, who joined Eben Kirksey in curating the Multispecies Salon.  Only adult insects have wings. Their juvenile forms, larvae, do not. “Humans are acquiring adult characteristics, such as breasts, at an early age,” Johnston told us. “Endocrine disrupting chemicals, like Bovine Growth Hormone,” she continued, “are working on the bodies of humans and multiple other species. I want people to think about how our chemical dependencies change us and the world we live in.”

Questions for Classroom Discussion

1. What were the Science Wars?  What distinguishes emerging conversations about nature and culture in anthropology from this earlier historical moment?
2. What does anthropos mean?  As the facts of life are being remade by the biosciences, what is anthropos becoming?
3. In the Anthropocene, a new epoch in Earth’s history, are there elements of nature that exist outside of culture?

About the Authors

Eben Kirksey is a cultural anthropologist at the CUNY Graduate Center who studies the political dimensions of imagination as well as the interplay of natural and cultural history.  As a graduate student at the University of Oxford, and UC Santa Cruz, he published four articles in peer-reviewed journals and two chapters in edited books on these themes.  His doctoral dissertation and first book, “Freedom in Entangled Worlds”, is about an indigenous political movement in West Papua, the half of New Guinea under Indonesian control (forthcoming 2011).  As a National Science Foundation Postdoctoral Fellow (2008-2010), he conducted an ethnography of place at multiple biological research stations in Latin America.  Following the movement of people and organisms—across national borders and through a fragmented landscape—he studied oblique powers at play in global assemblages.
Stefan Helmreich has worked as a Postdoctoral Associate in Science and Technology Studies at Cornell University, an External Faculty Fellow at the Center for the Critical Analysis of Contemporary Culture at Rutgers University, and as Assistant Professor of Science and Society at New York University. The National Science Foundation and the Wenner-Gren Foundation have funded his research. Helmreich’s research examines the works and lives of contemporary biologists puzzling through the conceptual boundaries of “life” as a category of analysis. He has written extensively on Artificial Life, most notably in Silicon Second Nature: Culturing Artificial Life in a Digital World (University of California Press, 1998), which in 2001 won the Diana Forsythe Book Prize from the American Anthropological Association. His latest book, Alien Ocean: Anthropological Voyages in Microbial Seas (University of California Press, 2009), is a study of marine biologists working in realms usually out of sight and reach: the microscopic world, the deep sea, and oceans outside national sovereignty.
The Multispecies Salon 3: SWARM
Get Involved: CFP

Editors’ Footnotes

Cultural Anthropology has published a number of essay that map new directions in anthropology, including George Marcus’s “The End(s) of Ethnography: Social/Cultural Anthropology’s Signature Form of Producing Knowledge in Transition” (2008); Michael M. J. Fischer’s “Four Genealogies for a Recombinant Anthropology of Science and Technology” (2007); Daniel Segal’s “Editor’s Note: On Anthropology and/in/of Science”(2001); and Gary Lee Downey, Joseph Dumit, and Sarah Williams’s “Cyborg Anthropology” (1995).
Cultural Anthropology has also published essays on art and/as cultural analysis. See Kenneth George’s “Ethics, Iconoclasm, and Qur’anic Art in Indonesia” (2009), and Liam Buckley’s “Objects of Love and Decay: Colonial Photographs in a Postcolonial Archive” (2005).

terça-feira, 2 de julho de 2013

Entrevista dada ao - JORNAL CORREIO BRAZILIENSE 27/01/2013

Júri popular para grupo que atacou judeus no Sul
Renata Mariz 

 Tamanho do Texto
Julgamento de quatro dos 14 jovens acusados de agredir três homens em Porto Alegre, em 2005, estimulados por preconceito e ódio, segundo a Justiça, foi marcado para maio deste ano. Especialistas acreditam em pena severa

Sobreviventes das câmaras de gás, do trabalho forçado, da tortura, do frio, da fome e de experiências médicas bizarras mostraram ao mundo o terror perpetrado pelo regime de Hitler contra camadas da população consideradas por ele inferiores. A chegada das forças soviéticas que libertaram os prisioneiros de Auschwitz, maior campo de concentração e extermínio de judeus, completa 68 anos hoje, quando se comemora o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. No mundo inteiro, a data é lembrada para que o horror não volte a acontecer. Homenagens aos mortos servem de repúdio aos ideais degradantes defendidos pelo governo alemão da época. Quase sete décadas depois, entretanto, a ideologia baseada em pureza étnica permanece viva. E no Brasil. O país elogiado pela miscigenação e pacifismo tem pelo menos 50 células neonazistas bem estruturadas e levará ao banco dos réus um grupo de 14 pessoas que tentaram matar três judeus em Porto Alegre.

O julgamento, considerado por especialistas como inédito no país, foi marcado para 9 de maio pela Justiça do Rio Grande do Sul. "Muitos anos depois do Tribunal de Nuremberg, um grupo de pessoas com motivação nazista será julgado pelo tribunal do júri", afirma o delegado Paulo César Jardim, responsável pelo caso e especialista em crimes de intolerância. Apenas quatro dos 14 acusados começarão a ser julgados. O restante aguarda decisão do recurso protocolado contra a sentença que determinou o júri popular.

 Segundo o Ministério Público, em maio de 2005, os réus estavam em um bar na Cidade Baixa, bairro boêmio da capital gaúcha, quando um dos processados saiu e retornou dizendo: "Tem judeu na área". O grupo saiu e agrediu três rapazes que usavam quipá (chapéu característico) e conversavam na calçada. Um deles caiu, ficou com a cabeça entre o meio-fio e o pneu de um carro, enquanto era esfaqueado e espancado. Os demais foram atingidos, mas conseguiram se desvencilhar. Os agressores responderão por tentativa de homicídio, formação de quadrilha e racismo.

Para a assistente de acusação no caso, Helena Druck Sant"Anna, a perspectiva é de que os acusados recebam uma pena dura. "Eles serão julgados por membros da sociedade, e a sociedade repele esse tipo de sentimento de ódio e intolerância", afirma a advogada. A sentença que determinou o tribunal de júri, de acordo com ela, demonstrou rigor também por parte do Judiciário. O documento qualificou o crime como motivo torpe afirmando ter sido "cometido única exclusivamente por discriminação racial às vítimas identificadas como sendo judeus".

A afirmação categórica vem das provas coletadas ao longo das investigações. "Encontramos material de conteúdo nazista na casa deles, como filmes, propagandas, suásticas, livros. Eles trajam coturnos pretos com meias, raspam a cabeça", conta o delegado Jardim. O Correio tentou contato com os defensores públicos que representam Luzia Santos Pinto, Thiago Araújo da Silva e Fábio Roberto Sturm, mas não obteve retorno. Marcelo Bertoluci, advogado do quarto acusado, Laureno Vieira Toscani, também não quis comentar. Em manifestações públicas, os jovens se autotitulavam nacionalistas, mas não neonazistas.

Características

Pesquisadora do tema há 11 anos, a doutoranda em antropologia Adriana Dias conceitua os neonazistas como grupos que tentam reconstruir a história da Segunda Guerra Mundial, resgatando líderes e símbolos que construíram o nacional-socialismo na Alemanha. "É um discurso do século 19 marcado por temas como raças e subraças, diferenciações do corpo humano, línguas superiores e inferiores. Parece que o tempo não passou para eles. É um discurso fundado sobretudo em ódio", diz a antropóloga. De acordo com o mapeamento feito por Adriana, há, no Brasil, pelo menos 50 células "duras", especialmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo. "Quando digo duras estou falando de células com sites, líderes, produção e publicação de material, contribuição dos integrantes e até plano de governo. Alguns grupos fazem inclusive treinamento paramilitar e têm conexões estrangeiras."

Se considerados grupos menos estruturados, o número chega a cerca de 300 no Brasil, de acordo com Thiago Tavares, presidente do Safernet - entidade sem fins lucrativos de combate aos crimes na internet. O anonimato faz da web um local muito apreciado pelas células neonazistas para incitarem o ódio contra determinados grupos sociais. Nos últimos sete anos, mais de 21 mil páginas com esse conteúdo foram denunciadas à Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos. "Houve um aumento muito grande nos dois últimos anos. A dificuldade é que os grupos brasileiros hospedam seus sites em outros países, exatamente para não serem retirados do ar", destaca Thiago. Há aberrações de vários tipos nas páginas mantidas pelos neonazistas: de ódio a negros e homossexuais a apoio para estupro corretivo de lésbicas. Alguns ensinam a montar bombas e fazer atentados. "Tem células sem a menor estrutura, formadas por adolescentes. Mas não tenho dúvida de que um ataque de grandes proporções é iminente no Brasil", afirma Thiago.

Adriana também não subestima a capacidade dos grupos. "Não é para as pessoas andarem apavoradas na rua com medo de neonazistas. Mas a intolerância manifestada contra homossexuais, deficientes, nordestino, muçulmanos, entre outros grupos, é real e representa, sim, riscos." Quando Adriana começou a pesquisar o tema, havia oito mil sites com ideologia neonazista no Brasil, hoje chegam a 30 mil. Segundo ela, havia no mundo, no início dos anos 2000, cerca de 2 mil pessoas cadastradas em fóruns. Agora são 300 mil. Aqui, afirma Adriana, pelo menos 140 mil consomem com frequência literatura neonazista. O mapeamento é feito com programas que medem downloads e outros parâmetros de navegação na internet. Nos Estados Unidos, o número de leitores chega a 600 mil.

Ignorância

Embora considere os grupos neonazistas pouco organizados no Brasil, Antonio Jorge Ramalho, doutor em sociologia e professor de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB), acredita na necessidade de precaução. "Temos de ficar atentos, o risco existe, apesar de muito do que se propaga ser ações isoladas de grupos esparsos", destaca. Segundo ele, o fenômeno do neonazismo na sociedade brasileira está ligado à perda de valores, problemas na segurança pública e uma certa ignorância. "São ideias baseadas em preconceitos e discriminação. E a certeza de impunidade leva muitos grupos a colocarem em prática suas ideias. Até porque ignorância e preconceito sempre caminharam juntos a violência", diz. O professor considera absurdo que teorias da supremacia ariana ganhem espaço no Brasil. "Não faz o menor sentido. Se houver meia dúzia de famílias sem mistura aqui é muito. Não há porque se falar em raça em qualquer lugar do mundo, mesmo porque raça só existe uma, a humana."

"Não há porque se falar em raça em qualquer lugar do mundo, mesmo porque raça só existe uma, a humana", Antonio Jorge Ramalho, doutor em sociologia

Homenagem a diplomatas

Na quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff participará da cerimônia do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. O evento homenageará Aracy Guimarães Rosa, funcionária do consulado em Hamburgo nas décadas de 1930 e 1940, e Luis Martins de Souza Dantas, embaixador brasileiro na França no período. Aracy e Dantas salvaram centenas de judeus ao conceder vistos para o Brasil, contrariando ordens do governo Getulio Vargas. A cerimônia foi organizada pela Confederação Israelita do Brasil e a Associação Cultural Israelita de Brasília.

Legislação

A Lei 7.716/1989 prevê pena de dois a cinco anos para os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. O artigo 20 trata especificamente do nazismo, ao prever prisão de até cinco anos, além de multa, para quem fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Em 2010, um dispositivo determinou a interdição de mensagens ou páginas na internet com conteúdo nazista.

Memória
Chacina na UnB

Em março do ano passado, Marcelo Valle Silveira Mello e Emerson Eduardo Rodrigues foram presos pela Polícia Federal, em Curitiba, por tramarem a morte de estudantes da Universidade de Brasília (UnB). Mensagens trocadas pelos dois e interceptadas pela PF mostraram um plano minucioso para promover um massacre a estudantes do curso de ciências sociais da UnB. No hotel onde Marcelo, morador de Brasília e analista de sistemas, estava hospedado, na capital paranaense, os policiais apreenderam o mapa de uma casa no Lago Sul onde são realizadas festas universitárias.

Foram confiscados mais de R$ 500 mil da conta do analista de sistemas. O dinheiro viria de doações de simpatizantes da "causa" defendida por Marcelo e, segundo a polícia, serviria para financiar a chacina. A dupla presa em Curitiba administrava um site que prega o ódio a negros, nordestinos, judeus e mulheres. Em 2009, Marcelo foi a primeira pessoa condenada pelo crime de racismo no Brasil. Quatro anos antes, ele publicou mensagens ofensivas criticando o sistema de cotas da UnB. Também divulgou imagens de mulheres mortas e crianças violentadas. A primeira condenação, pela Justiça do DF, foi de um ano e oito meses de prisão. A pena, entretanto, acabou convertida em serviços à comunidade. Na Polícia Civil do DF constavam oito ocorrências em nome de Marcelo, uma delas por agressão à própria mãe. Emerson também respondia por agressão contra a mulher e suspeita de homicídios no Paraná.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Libertando Auschwitz


Adriana Dias
                A humanidade relembra hoje 68 anos da liberação de Auschwitz, o maior campo de concentração estabelecido pelos regime nazista. Na verdade, o complexo que recebeu o nome de Auschwitz-Birkenau, incluiu centros de concentração, de trabalho forçado e extermínio, localizados a 37 km a oeste de Cracóvia, perto da fronteira pré-guerra entre a Polônia e a Alemanha. Escolhi com cuidado a palavra relembra, porque eu não ousaria escrever celebra ou comemora: mesmo a liberação de Auschwitz, implica na existência de Auschwitz, e, portanto, torna esta data (i)comemorável e (i)celebrável.
                Ao entrar no campo, naquele 27 de janeiro de 1945, os soldados soviéticos encontraram menos prisioneiros do que se esperava: os oficiais nacional-socialistas, precavidamente, obrigaram a imensa maioria dos prisioneiros, a marchar rumo ao oeste da Alemanha nas denominadas "marchas da morte", a fim de eliminá-los, coerentemente com seu sadismo e perversidade, no caminho. Os milhares de prisioneiros esqueléticos, no entanto, eram a prova do extermínio em massa efetuado em Auschwitz. Centenas de milhares de ternos masculinos, cerca de 800.000 vestidos, e mais de 7.000 quilos de cabelo, não foram destruídos pelos militares, em sua fuga apressada. Eram provas reais do inconcebível, imagem farta do irrepresentável.
                Naquele campo em que as cores esqueceram os homens, as cinzas caem do céu e o cheiro da morte pairava no ar, os trens estavam parados, finalmente. Não havia mais nos trens os gritos, os desesperados, os condenados. Os trens que não paravam de chegar, de toda Europa ocupada pelo estado nazi que se tornou burocraticamente uma indústria de genocídio, agora estavam parados. Mas, os homens que vieram naqueles trens e que ainda estavam naquele campo, fracos demais para caminhar até morrer, eram os rostos quase mortos que os soviéticos viam: os sobreviventes, judeus, ciganos, pessoas com deficiência, refugiados, presos políticos, gays, lésbicas, testemunhas de Jeová, uma massa humana, que partilhou por anos a fome, os apitos de madrugada, o cheiro de carne queimada, o abandono dos pássaros, o silêncio da morte e o medo da vida.
                O crematório havia parado. Os trens haviam parado. Mas, a morte estava em cada canto de Auschwitz. A humanidade relembra hoje 68 anos da liberação de Auschwitz, para que Auschwitz jamais se repita. Para que jamais o crematório volte a funcionar. Para que jamais os trens carreguem os condenados para o crematório. Para que jamais se deporte os prisioneiros condenados para os trens. Para que jamais se façam as listas dos que devem ser deportados. Para que jamais se pense em deportar para a morte os que não consideramos cidadãos. Para que jamais seja possível legalizar um não cidadão como não humano. Para que jamais seja possível pensar, no seio da humanidade em classificar humanos e sub-humanos.
                A humanidade relembra hoje 68 anos da liberação de Auschwitz. Que a lembrança de Auschwitz nos liberte de toda intolerância e nos devolva a humanidade em plenitude. Que, um dia, Auschwitz seja a memória do que como humanidade, todos, escolhemos jamais ser.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012


Comento: Não é a primeira vez: já foram julgados os condenados pela morte de Edson Neris. Mas, o delegado Jardim adora colocar seus feitos como primeiros. Além disso,  afirmar que o racismo está na gênese do gaúcho é tão racista quanto o próprio racismo... Cadê o botão de sanidade?

O Terra deu:RS: pela 1ª vez, suspeitos de nazismo serão julgados no País
Direto de Porto Alegre
No primeiro semestre de 2013, quatro suspeitos de integrar um grupo neonazista serão julgados na capital gaúcha por tentativa de homicídio, formação de quadrilha e racismo, um fato inédito no Brasil, segundo a Polícia Civil do Rio Grande do Sul. O delegado Paulo César Jardim, que coordena uma equipe de investigação contra grupos extremistas no Sul do País há dez anos, compara o fato - guardadas as devidas proporções - ao histórico tribunal de Nuremberg, que condenou os principais dirigentes do nazismo após a 2ª Guerra Mundial.
"Teremos a experiência, através do júri popular, de julgar o envolvimento de nazistas pela primeira vez. Há mais de 60 anos, um fato semelhante aconteceu em Nuremberg, mas é claro que respeitamos as proporcionalidades. Na América do Sul, esse tipo de fato, com tentativa de homicídio e formação de quadrilha, é inédito", disse ele. Ainda sem data definida, o júri vai decidir o futuro de Luzia Santos Pintos, Fábio Roberto Sturm, Laureano Vieira Toscani e Thiago da Silva.
Eles se envolveram, segundo denúncia do Ministério Público (MP) aceita pela Justiça, em uma agressão a judeus em maio de 2005 no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Com facas e canivetes, os quatro, junto com outros 10 suspeitos, teriam agredido Rodrigo Fontella Matheus, Edson Nieves Santanna Júnior e Alan Floyd Gipsztejn.
O MP sustentou que os réus integravam um grupo que pregava o preconceito contra judeus, negros, homossexuais e punks. Além das agressões, eles veiculavam ideias discriminatórias pela internet, divulgavam letras de músicas, fotografias e imagens com mensagens de conteúdo antissemita e nazista e pregavam a supremacia da raça ariana. Dos 14 denunciados, dez recorreram e aguardam decisão do recurso por parte da juíza Elaine Maria Canto da Fonseca.
Paulo César Jardim não acredita, mesmo com uma eventual condenação, no fim da propagação do nazismo no Estado: "É um posicionamento ideológico, por isso não acredito no seu término. (...) Os inúmeros inquéritos remetidos à Justiça estão se fazendo necessários para o julgamento dos indiciados, para nós é importante."
Advogado critica "perseguição policial"
Defensor do réu Laureano Vieira Toscani, o advogado Guilherme Rodrigues Abrão sustenta que seu cliente não é neonazista e garante que ele não estava presente na agressão contra os judeus, em 2005. Ele criticou a "perseguição" feita pela Polícia Civil.
"A polícia teve uma visão muito apressada, por conta de um reconhecimento precário, que resultou na prisão deles. Eles não participaram do fato. Embora possua material (de cunho nazista) e tenha lido sobre essas questões, o Laureano não é uma pessoa com qualquer tipo de preconceito", argumentou Abrão.
"Seus pais são professores universitários, residiram na Europa e uma irmã já se relacionou com um negro. Não há motivos para o Laureano participar de qualquer movimento ideológico que cultive o ódio e o preconceito. Muito se dá por uma certa perseguição e estigma", completou.
Rebatendo o defensor, Jardim ironizou: "Quase 90% das pessoas que estão no Presídio Central são 'inocentes' e foram 'injustamente condenadas'". Os demais réus não contrataram advogados e terão defensores públicos no tribunal. O Terra entrou em contato com a Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, mas até a publicação desta reportagem não obteve retorno.
Histórico de violência
Em agosto de 2011, uma briga envolvendo punks, skinheads e ao menos um neonazista em um bar da capital gaúcha ligou o sinal de alerta da polícia para a atuação de grupos que pregam o ódio e a discriminação no Sul do País, inspirados pela ideologia de Adolf Hitler. Responsável pelo indiciamento de 35 neonazistas no Estado na última década, Jardim afirmou que está "na gênese" do gaúcho a guarida para movimentos desse tipo.
Já em 2010, um grupo de defesa dos direitos dos travestis no Rio Grande do Sul recebeu ameaças por telefone de um suposto neonazista, que disse preparar uma ação na 14ª Parada Livre. Em edição anterior do evento, cartazes que pregavam a morte de homossexuais foram afixados no bairro Bom Fim, onde ocorre a passeata. Em novembro do mesmo ano, policiais civis apreenderam material de apologia ao nazismo em uma residência no centro de Porto Alegre.
Foram recolhidos fotografias, CDs, camisetas, distintivos, facas, uma soqueira e um laptop, mas ninguém foi preso. Em 2009, apreensões semelhantes ocorreram em Cachoeirinha, Viamão e Porto Alegre. Também em 2009, o casal Bernardo Dayrell e Renata Ferreira foi assassinado após uma festa neonazista no Paraná. O crime foi cometido na BR-116, em Quatro Barras, região metropolitana de Curitiba, e teve motivações de disputa entre o grupo neonazista liderado por Dayrell e Ricardo Barollo, apontado pela polícia como o mandante do duplo homicídio.
Além dele, Jairo Maciel Fischer, Rodrigo Motta, Gustavo Wendler, Rosana Almeida e João Guilherme Correa foram acusados de participar no crime. No dia do assassinato do casal, vários membros do grupo neonazista foram a uma festa em comemoração ao aniversário de Adolf Hitler em uma chácara de Quatro Barras. Conforme a lei 7.716, de 1989, "fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo" prevê pena de até três anos de reclusão.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Nazistas não só cumpriam ordens, mas tinham orgulho, diz pesquisa


Adolf Eichmann, criminoso nazista morto em 1962, é um dos ex-oficiais que se orgulhavam do Holocausto. Foto: AFP

Fonte: Portal Terra

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI6324170-EI8142,00-Nazistas+nao+so+cumpriam+ordens+mas+tinham+orgulho+diz+pesquisa.html


Imagem: Adolf Eichmann, criminoso nazista morto em 1962, é um dos ex-oficiais que se orgulhavam do Holocausto
Foto: AFP















Um grupo de pesquisadores contestou os estudos que afirmam que nazistas que chefiavam campos de concentração estavam apenas "cumprindo ordens", e disse que os seguidores de Adolf tler realmente acreditavam e se orgulhavam do que estavam fazendo. Entre os anos 1960 e 1970, pesquisas sobre o comportamento humano se tornaram referência com a teoria de que essas pessoas praticaram atos de maldade porque naturalmente seguiram ordens de figuras de autoridade. Criminosos nazistas utilizaram a tese em própria defesa em vários julgamentos na corte de Nuremberg, na Alemanha.
Porém, psicólogos reexaminaram os experimentos originais e desafiaram os resultados de 50 anos atrás. O professor Stephen Reicher, da Universidade de Saint Andrews, na Escócia, e o professor Alex Haslam, da Universidade de Queensland, na Austrália, iniciaram os estudos há 10 anos. Eles descobriram que voluntários que trabalharam como guardas em campos de concentração só agiram com brutalidade quando se identificaram com seu papel e acreditavam que suas ações eram necessárias para manter o controle.
Em uma série de experimentos mais recentes, os pesquisadores descobriram que as pessoas só se curvam à autoridade quando elas acreditam que isso é necessário para atingir um objetivo maior. "Nossa pesquisa mostra que a tirania não resulta de uma conformidade cega às regras, é um ato criativo de seguimento que flui da identificação com autoridades que representam atos tanto cruéis como virtuosos", disse o professor Haslam.
Os dois professores afirmaram que "uma série de profundas análises históricas têm desafiado a ideia de que burocratas nazistas estivessem apenas seguindo ordens". "Essa pode ter sido a defesa que eles alegaram ao buscar minimizar a culpa, mas provas sugerem que funcionários como (Adolf) Eichmann (enforcado em 1962 por seu papel na organização do Holocausto) tinham um entendimento muito bom do que eles estavam fazendo e se orgulhavam da enérgica aplicação que tinham em seus trabalhos", disseram os pesquisadores.
Com informações do Daily Mail.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eu não vou ser cúmplice do genocídio dos Guaranis Caiovás



“Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui”

A declaração de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis Caiovás demonstra a incompetência do Estado brasileiro para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão

ELIANE BRUM
Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)
- Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais. 
O trecho pertence à carta de um grupo de 170 indígenas que vivem à beira de um rio no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, cercados por pistoleiros. As palavras foram ditadas em 8 de outubro ao conselho Aty Guasu (assembleia dos Guaranis Caiovás), após receberem a notícia de que a Justiça Federal decretou sua expulsão da terra. São 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças. Decidiram ficar. E morrer como ato de resistência – morrer com tudo o que são, na terra que lhes pertence.
Há cartas, como a de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500, que são documentos de fundação do Brasil: fundam uma nação, ainda sequer imaginada, a partir do olhar estrangeiro do colonizador sobre a terra e sobre os habitantes que nela vivem. E há cartas, como a dos Guaranis Caiovás, escritas mais de 500 anos depois, que são documentos de falência. Não só no sentido da incapacidade do Estado-nação constituído nos últimos séculos de cumprir a lei estabelecida na Constituição hoje em vigor, mas também dos princípios mais elementares que forjaram nosso ideal de humanidade na formação do que se convencionou chamar de “o povo brasileiro”. A partir da carta dos Guaranis Caiovás, tornamo-nos cúmplices de genocídio. Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é. 
Os Guaranis Caiovás avisam-nos por carta que, depois de tantas décadas de luta para viver, descobriram que agora só lhes resta morrer. Avisam a todos nós que morrerão como viveram: coletivamente, conjugados no plural. 
Nos trechos mais pungentes de sua carta de morte, os indígenas afirmam: 
- Queremos deixar evidente ao Governo e à Justiça Federal que, por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo. Não acreditamos mais na Justiça Brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo. Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy, onde já ocorreram 4 mortes, sendo que 2 morreram por meio de suicídio, 2 em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um ano. Estamos sem assistência nenhuma, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários de nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali está o cemitérios de todos os nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. (…) Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.
Como podemos alcançar o desespero de uma decisão de morte coletiva? Não podemos. Não sabemos o que é isso. Mas podemos conhecer quem morreu, morre e vai morrer por nossa ação – ou inação. E, assim, pelo menos aproximar nossos mundos, que até hoje têm na violência sua principal intersecção. 

Era de gente que se tratava, mas o que se fez na época foi confiná-los como gado, num espaço de terra pequeno demais para que pudessem viver ao seu modo – ou, na palavra que é deles, Teko Porã (“o Bem Viver”). Com a chegada dos colonos, os indígenas passaram a ter três destinos: ou as reservas ou trabalhar nas fazendas como mão de obra semiescrava ou se aprofundar na mata. Quem se rebelou foi massacrado. Para os Guaranis Caiovás, a terra a qual pertencem é a terra onde estão sepultados seus antepassados. Para eles, a terra não é uma mercadoria – a terra é. 
Desde o ínicio do século XX, com mais afinco a partir do Estado Novo (1937-45) de Getúlio Vargas, iniciou-se a ocupação pelos brancos da terra dos Guaranis Caiovás. Os indígenas, que sempre viveram lá, começaram a ser confinados em reservas pelo governo federal, para liberar suas terras para os colonos que chegavam, no que se chamou de “A Grande Marcha para o Oeste”. A visão era a mesma que até hoje persiste no senso comum: “terra desocupada” ou “não há ninguém lá, só índio”.  
Na ditadura militar, nos anos 60 e 70, a colonização do Mato Grosso do Sul se intensificou. Um grande número de sulistas, gaúchos mais do que todos, migrou para o território para ocupar a terra dos índios. Outros despacharam peões e pistoleiros, administrando a matança de longe, bem acomodados em suas cidades de origem, onde viviam – e vivem até hoje – como “cidadãos de bem”, fingindo que não têm sangue nas mãos.  
Com a redemocratização do país, a Constituição de 1988 representou uma mudança de olhar e uma esperança de justiça. Os territórios indígenas deveriam ser demarcados pelo Estado no prazo de cinco anos. Como sabemos, não foi. O processo de identificação, declaração, demarcação e homologação das terras indígenas tem sido lento, sensível a pressões dos grandes proprietários de terras e da parcela retrógrada do agronegócio. E, mesmo naquelas terras que já estão homologadas, em muitas o governo federal não completou a desintrusão – a retirada daqueles que ocupam a terra, como posseiros e fazendeiros –, aprofundando os conflitos. 

Nestas últimas décadas testemunhamos o genocídio dos Guaranis Caiovás. Em geral, a situação dos indígenas brasileiros é vergonhosa. A dos 43 mil Guaranis Caiovás, o segundo grupo mais numeroso do país, é considerada a pior de todas. Confinados em reservas como a de Dourados, onde cerca de 14 mil, divididos em 43 grupos familiares, ocupam 3,5 mil hectares, eles encontram-se numa situação de colapso. Sem poder viver segundo a sua cultura, totalmente encurralados, imersos numa natureza degradada, corroídos pelo alcoolismo dos adultos e pela subnutrição das crianças, os índices de homicídio da reserva são maiores do que em zonas em estado de guerra.  
A situação em Dourados é tão aterradora que provocou a seguinte afirmação da vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat: “A reserva de Dourados é talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo”. Segundo um relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que analisou os dados de 2003 a 2010, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 para cada 100 mil habitantes – no Iraque, o índice é de 93 assassinatos para cada 100 mil. Comparado à média brasileira, o índice de homicídios da Reserva de Dourados é 495% maior.  
A cada seis dias, um jovem Guarani Caiová se suicida. Desde 1980, cerca de 1500 tiraram a própria vida. A maioria deles enforcou-se num pé de árvore. Entre as várias causas elencadas pelos pesquisadores está o fato de que, neste período da vida, os jovens precisam formar sua família e as perspectivas de futuro são ou trabalhar na cana de açúcar ou virar mendigos. O futuro, portanto, é um não ser aquilo que se é. Algo que, talvez para muitos deles, seja pior do que a morte. 
Um relatório do Ministério da Saúde mostrou, neste ano, o que chamou de “dados alarmantes, se destacando tanto no cenário nacional quanto internacional”. Desde 2000, foram 555 suicídios, 98% deles por enforcamento, 70% cometidos por homens, a maioria deles na faixa dos 15 aos 29 anos. No Brasil, o índice de suicídios em 2007 foi de 4,7 por 100 mil habitantes. Entre os indígenas, no mesmo ano, foi de 65,68 por 100 mil. Em 2008, o índice de suicídios entre os Guaranis Caiovás chegou a 87,97 por 100 mil, segundo dados oficiais. Os pesquisadores acreditam que os números devem ser ainda maiores, já que parte dos suicídios é escondida pelos grupos familiares por questões culturais. 
As lideranças Guaranis Caiovás não permaneceram impassíveis diante deste presente sem futuro. Começaram a se organizar para denunciar o genocídio do seu povo e reivindicar o cumprimento da Constituição. Até hoje, mais de 20 delas morreram assassinadas por ferirem os interesses privados de fazendeiros da região, a começar por Marçal de Souza, em 1983, cujo assassinato ganhou repercussão internacional. Ao mesmo tempo, grupos de Guaranis Caiovás abandonaram o confinamento das reservas e passaram a buscar suas tekohá, terras originais, na luta pela retomada do território e do direito à vida. Alguns grupos ocuparam fundos de fazendas, outros montaram 30 acampamentos à beira da estrada, numa situação de absoluta indignidade. Tanto nas reservas quanto fora delas, a desnutrição infantil é avassaladora. 
A trajetória dos Guaranis Caiovás que anunciaram sua morte coletiva ilustra bem o destino ao qual o Estado brasileiro os condenou. Homens, mulheres e crianças empreenderam um caminho em busca da terra tradicional, localizada às margens do Rio Hovy, no município de Iguatemi (MS). Acamparam em sua terra no dia 8 de agosto de 2011, nos fundos de fazendas. Em 23 de agosto foram atacados e cercados por pistoleiros, a mando dos fazendeiros. Em um ano, os pistoleiros já derrubaram dez vezes a ponte móvel feitas por eles para atravessar um rio com 30 metros de largura e três de fundura. Em um ano, dois indígenas foram torturados e mortos pelos pistoleiros, outros dois se suicidaram.  
Em tentativas anteriores de recuperação desta mesma terra, os Guaranis Caiovás já tinham sido espancados e ameaçados com armas de fogo. Alguns deles tiveram seus olhos vendados e foram jogados na beira da estrada. Em outra ocasião, mulheres, velhos e crianças tiveram seus braços e pernas fraturados. O que a Justiça Federal fez? Deferiu uma ordem de despejo. Em nota, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) afirmou que “está trabalhando para reverter a decisão”. 
Os Guaranis Caiovás estão sendo assassinados há muito tempo, de todas as formas disponíveis, as concretas e as simbólicas. “A impunidade é a maior agressão cometida contra eles”, afirma Flávio Machado, coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul. Nas últimas décadas, há pelo menos duas formas interligadas de violência no processo de recuperação da terra tradicional dos indígenas: uma privada, das milícias de pistoleiros organizadas pelos fazendeiros; outra do Estado, perpetrada pela Justiça Federal, na qual parte dos juízes, sem qualquer conhecimento da realidade vivida na região, toma decisões que não só compactuam com a violência , como a acirram.  
“Quando os pistoleiros não conseguem consumar os despejos e massacres truculentos dos indígenas, os fazendeiros contratam advogados para conseguir a ordem de despejo na Justiça”, afirma Egon Heck, indigenista e cientista político, num artigo publicado em relatório do CIMI. “No momento em que ocorre a ordem de despejo, os agentes policiais agem de modo similar ao dos pistoleiros, visto que utilizam armas pesadas, queimam as ocas, ameaçam e assustam as crianças, mulheres e idosos.”  
Ao fundo, o quadro maior: os sucessivos governos que se alternaram no poder após a Constituição de 1988 foram incompetentes para cumpri-la. Ao final de seus dois mandatos, Lula reconheceu que deixava o governo com essa dívida junto ao povo Guarani Caiová. Legava a tarefa à sua sucessora, Dilma Rousseff. Os indígenas escreveram, então, uma carta: “Presidente Dilma, a questão das nossas terras já era para ter sido resolvida há décadas. Mas todos os governos lavaram as mãos e foram deixando a situação se agravar. Por ultimo, o ex-presidente Lula prometeu, se comprometeu, mas não resolveu. Reconheceu que ficou com essa dívida para com nosso povo Guarani Caiová e passou a solução para suas mãos. E nós não podemos mais esperar. Não nos deixe sofrer e ficar chorando nossos mortos quase todos os dias. Não deixe que nossos filhos continuem enchendo as cadeias ou se suicidem por falta de esperança de futuro (…) Devolvam nossas condições de vida que são nossos tekohá, nossas terras tradicionais. Não estamos pedindo nada demais, apenas os nossos direitos que estão nas leis do Brasil e internacionais”. 
A declaração de morte dos Guaranis Caiovás ecoou nas redes sociais na semana passada. Gerou uma comoção. Não é a primeira vez que indígenas anunciam seu desespero e seu genocídio. Em geral, quase ninguém escuta, para além dos mesmos de sempre, e o que era morte anunciada vira morte consumada. Talvez a diferença desta carta é o fato de ela ecoar algo que é repetido nas mais variadas esferas da sociedade brasileira, em ambientes os mais diversos, considerado até um comentário espirituoso em certos espaços intelectualizados: a ideia de que a sociedade brasileira estaria melhor sem os índios. 
Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como “atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das 230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui. 
Toda a História do Brasil, a partir da “descoberta” e da colonização, é marcada pelo olhar de que o índio é um entrave no caminho do “progresso” ou do “desenvolvimento”. Entrave desde os primórdios – primeiro, porque teve a deselegância de estar aqui antes dos portugueses; em seguida, porque se rebelava ao ser escravizado pelos invasores europeus. A sociedade brasileira se constituiu com essa ideia e ainda que a própria sociedade tenha mudado em muitos aspectos, a concepção do índio como um entrave persiste. E persiste de forma impressionante, não só para uma parte significativa da população, mas para setores do Estado, tanto no governo atual quanto nas gestões passadas.  
 “Entraves” precisam ser removidos. E têm sido, de várias maneiras, como a História, a passada e a presente, nos mostra. Talvez essa seja uma das explicações possíveis para o impacto da carta de morte ter alcançado um universo maior de pessoas. Desta vez, são os índios que nos dizem algo que pode ser compreendido da seguinte forma: “É isso o que vocês querem? Nos matar a todos? Então nós decidimos: vamos morrer”. Ao devolver o desejo a quem o deseja, o impacto é grande.  
É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis Caiovás. Em um texto muito bonito, intitulado Ñe'ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas: 
“A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.” 
A fala, diz o antropólogo Spensy Pimentel, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo, é a parte mais sublime do ser humano para os Guaranis Caiovás. “A palavra é o cerne da resistência. Tem uma ação no mundo – é uma palavra que age. Faz as coisas acontecerem, faz o futuro. O limite entre o discurso e a profecia é tênue.”
Se a carta de Pero Vaz de Caminha marca o nascimento do Brasil pela palavra escrita, é interessante pensar o que marca a carta dos Guaranis Caiovás mais de 500 anos depois. Na carta-fundadora, é o invasor/colonizador/conquistador/estrangeiro quem estranha e olha para os índios, para sua cultura e para sua terra. Na dos Guaranis Caiovás, são os índios que olham para nós. O que nos dizem aqueles que nos veem? (Ou o que veem aqueles que nos dizem?)
A declaração de morte dos Guaranis Caiovás é “palavra que age”. Antes que o espasmo de nossa comoção de sofá migre para outra tragédia, talvez valha a pena uma última pergunta: para nós, o que é a palavra? 
Eliane Brum escreve às segundas-feiras.